terça-feira, 7 de julho de 2009

penumbra


Ontem e hoje eu morri...
Quem é agora neste corpo vazio?

Quem sente esta saudade inesgotável?

Quem chora as tormentas cinzentas e úmidas?

Quem sente a tristeza maior que tudo?

Quem resta aqui nestas mãos que escrevem?

Quem?

Preto e Branco


METADE
(...)
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
(...)
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
(...)
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
(...)
Oswaldo Montenegro

Minhas palavras não dizem nada...


Perdoe por este tempo de chuva fechada
Perdoe por esta neblina que cega a minha alma
Perdoe pela tristeza que não abandonou meu esqueleto
Perdoe pelas águas que de ti verteram
Perdoe pelo frio que em ti cresceu
Perdoe pela solidão que contigo compartilhei
Perdoe pelo presente onde não posso estar
Perdoe pelo futuro próximo onde não sei onde estarei
Perdoe pelo futuro médio onde estarei te procurando novamente
Perdoe pelo futuro (não sei) e espero que me vejas novamente...
Perdoe, perdoe, perdoe...

Perdão.
Se me perdoares, eu ainda estarei vivo...
Se não, não haverá mais nada...

São instantes de que não preciso
Mas que ainda assim se imponhem a mim mesmo
Estes momentos atrozes e desesperados
Esses dessabores que mancham a alegria
Esses cacos de partidas espalhados pela vida
A espera dos reencontros (morram as despedidas)
...

anoiteceu...

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

Não, nada estará perfeito...

é manhã, mas ainda é noite...


Languidez

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...


Flobela Espanca

triste...

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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Amiga-amore

Amore,
Antes de tudo
E depois
Sempre
Amore
Foi, é e será
Minha irmã-maior-amiga
Que é parte de mim
De meu jeito de falar
De olhar e de ser
E só existe você no mundo
Que esteve comigo
todo esse tempo
E nunca estará longe...

"Eu sei e você sabe, pois a vida quis assim,
Que nada nesse mundo levará você de mim"

Vapor


Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Vinícius de Morais

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Não concordo inteiramente com o terceiro e quarto verso da primeira estrofre... o resto...
...

Uma lágrima?


Queria o teu cheiro que eu já não sinto mais
E o sabor que de minha boca se apagou

A carícia que o marasmo dispersou

O amor que tanto tempo fermentou...


Queria o carinho que a angústia azedou

Todos os instantes que a lembrança selou
Mais um pouco da tua vida da qual tudo me afastou

E saber pra onde vamos e o que eu sou...


Queria, queria sim.. é o que eu sinto, o que preciso...

Ainda que não seja a única em meu sorriso

Pois a vida se parte em grãos e em granizo

E se resume em um olhar um tanto impreciso...


E eu escrevo simplesmente por não saber outra coisa
Ser assim restrito em meus próprios sentimentos
Por mais que eu queira evitar todas as discórdias

Não consigo impedir a chuva no firmamento...


Mas me perdoe por todo o aperto

Que eu sei que em teu peito te oprime e machuca

(e eu tanto sinto...)
Me perdoe, me perdoe, me perdoe, me perdoe...
O que mais pode ser dito?

Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo...

O que mais?

Não sei, não sei, não sei...

E ainda?
Estou... sou... o que mais...?
Perdido, louco, insano
E por fim?

Fim.



(Não é exatamente essa a cor desse poema... mas, deixemos assim...)

Nuvens e noite...


FRAGMENTOS

1

Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2

Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama

3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

4

Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo

5

Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.


Maiakóviski

Não é a lua lá em cima...

Se cada dia cai

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)


Fios...


E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce

Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

(Sutilmente - Skank)

Pôr-do-sol

Eu atribuo ao meu passado muitas das formas minhas de decidir o que não sei explicar...
Não sei como e quais foram minhas vidas
Mas carrego muito delas comigo...
Ainda que esteja vivendo mil coisas pela primeira vez
Minhas intuições vão me levando...
E eu as chamo de vento...

Uma corda bamba por sobre um tabuleiro de xadrez... (pontiagudo)

Não sei para onde vou... queria o teu abraço...
(e ninguém sabe de quem eu estou falando...)

Um carrossel esquecido no crepúsculo...


"Eu sou, você é, e amar é tudo o que importa"...

Ser e estar...

é...

Não é?

(o silêncio faz parte de tudo...)

E eu não sei mais de nada...

A última palavra...

Amor...?


Sim, sim
O ar está permeado de angústia
Os corpos tremem de frio e solidão
Não existem respostas para todas as perguntas
Mas estamos juntos aqui e na escuridão

Não, não
É impossível controlar os sentimentos
Encontrarei um dia este milagroso botão
Para cancelar todos as inquietudes dos momentos
E impedir a dolorosa confusão?

Eu e você
Estamos juntos já há tanto tempo
E não dá para falar de mim sem o seu nome
Minhas lembranças estão entrelaçadas com as suas
E sem você eu irei não sei pra onde

O que mais queres de mim
Além de estar ao seu lado
Queres que eu tranque o que em mim for renegado
Ou encarcere os instantes meus distantes...?
O que queres de mim
Um sabor de alegria na sua boca
Uma emoção que aperta forte o peito
Ou um caminho sem pedras e sem chuva?...

Estou aqui
E é isso que importa...
(Ou não?)
Não sei...
A sua será a última
Palavra.

sábado, 4 de julho de 2009

Delirando...

Akara ...Beirut

“E daí, se estou perdido... ainda há o horizonte para onde ir...” disse enquanto vagava por entre as tendas altas, vermelhas, roxas, negras, lenços brancos amarrados em cordões pendendo sobre sua cabeça, corvos dependurados nos tetos, olhando as festas e as folias. As gaitas soavam por detrás daqueles panos fantasmagóricos, moradas de povos nômades. Talvez aquelas pessoas não se cansassem. Talvez elas fossem mágicas e não dormissem e os cantos e as músicas lhes fossem o repouso merecido, o descanso invertido. Mas ele cambaleava e não se sentia tão disposto. Afastava-se dos acordes de acordeão, de flauta, de tambor. Estava quase enfeitiçado. Ah, adorava aquelas músicas. Nascera para respirá-las. Afastava-se não da música em si, mas das pessoas que ali estavam. Decididamente não sabia festejar. O acampamento em círculo era infinito para ele... caminhava ao redor, buscando o fim. Só não queria parar. Ficar parado naquele momento era uma angústia. Os metais soavam seus choros ciganos das terras por que passaram e ele viajava no sonho de um quase sonambulismo. Estaria bêbado? Talvez. Mas, bêbado de quê?... Excesso de emoções, ele diria. Cuspindo sangue imaginário, rasgando as vestes, ardendo, ele cai de joelhos, arranhado. Encosta-se em um banco de madeira tosca entre algumas almofadas macias e cheias. Naquele instante os candelabros de óleo de baleia (será mesmo?) fraquejam, o ar se enche de sombras, uma brisa voa por entre o corredor de tendas e inesperadamente um cortejo passa por ele, pessoas cantando, dançando, pulando, tocando aqueles magníficos instrumentos que produziam muito mais do que música. Uma mão furtiva o agarra pela gola rasgada e o faz levantar. Arrasta-o na dança, ele se deixa levar. Estava cansado demais para resistir e acordado demais para não ir. Era preciso, ser levado a força para fora dos seus sentidos, deixar que as razões e raciocínios ficassem adormecidos enquanto a noite se prolongava infinitamente. Os incensos no ar, os aromas, os perfumes, os sabores de infância e malícia, as misturas impossíveis, as escandalosas tolices, as inimagináveis formas que surgiram... Ele se deixou levar. Não estava sozinho? Estava? Quem eram? Quem o conhecia? Não reconhecia nenhum rosto. Afinal, estavam todos mascarados como em um baile em Veneza. Aquelas máscaras italianas misturadas com fantasmas. Um vulto de arlequim surgiu no centro da roda onde ele fora lançado e começou a dançar com ele, hipnotizando-o. Era ruiva a disfarçada, sob vestes masculinas, ela se aproveitava. Agora era morena, agora seus cabelos mudavam, transfiguravam. As mechas que fugiam da fantasia entregavam a forma feminina que as roupas escondiam. Houve um estalo e ele meio que despertou em um silêncio distante. A música se afastara. Estava só ele e ela. Hipnotizado. Marionete. Sem forças para resistir. Também, não tinha nada a perder. A trupe itinerante de ciganos e artistas, ou artistas ciganos, festejava há semanas um bom presságio que a lua havia declarado e desde que o vinho e o fumo começou a correr solto, ele fizera jejum. Estava fraco. Também não dormia, aceso, como a última chama da última fogueira ou da última lamparina. Houve tempo apenas para que fechasse os olhos, sentisse mãos tocando-lhe o rosto, uma sensação de prazer profundo nos lábios e o desmaio. Escuridão. Nem sonho nem luz. Parece que se passaram semanas e ele, quando acordou, mais morto do que vivo, ficou de cama, teve bastante atenção das meninas que faziam truques de mágica e também da trapezista, que simpatizava com ele. Mas ele nunca soube quem era a arlequina.
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The Akara - Beirut

Por que diabos?!


?


?


?
Nunca vou me cansar...
De perguntar
Por quê?
Até que desista...
disso...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Nuvens em um céu noturno

Os limites se perderam na areia...
E a maresia levou embora a saudade...
As dores foram lavadas pelo chuviscar
A música ficou ao encargo do mar...

As horas nem as vi passar
E meus pés sentiram os caminhos
Ali ninguém estava sozinho
Ali só se queria estar...

Do amor...

Vermelho e preto
Amor e noite
Os dias estão perdidos...
Restam-nos as noites e os risos
E as lembranças de nosso passado
Dias inteiros abraçados...
E os sonhos enamorados
Belezas e momentos
Intensos.