domingo, 8 de abril de 2012

Poesia Pagã

Estou aprendendo a morrer e a nascer todo dia...

O que isso significa?!

É não partir de nada. É não partir de um passado. É não viver no passado. Mas unicamente no agora. Nasci. O que posso fazer? O que posso fazer hoje?! Comigo, com quem estiver comigo, seja ao redor, seja no coração...

Uma música - Pagan Poetry - Bjork

Imerso...


Os dedos foram escorregando, suados, os galhos, raízes, margens... as unhas deixaram de agarrar-se na areia, preta, argilosa, úmida... os braços exaustos cederam, desmancharam-se... As forças cessaram de resistir... E então... se soltou... caiu... flutuou... na correnteza gelada e firme, forte, veloz... Soltou-se... foi... desceu rumo ao mar... porque toda correnteza leva ao mar... toda veia leva ao coração... toda parte leva ao todo... E parou de se preocupar com o caminho... Simplesmente navegou... quase à deriva, mas com a clareza do caminho, a beleza do ondular, do caminhar, do seguir... Abraçado com a água se apaixonou pelo líquido, pelo fluxo, pelo vívido... apaixonou-se por tudo, por cada, em cada... respirou o ar molhado, sentiu a vida o levar... e foi...

Uma música - The Rip Tide - Beirut

Voilà


Conclusão! Compreendo agora! Não se trata de reprimir nada... lá estava eu me reprimindo de novo. O problema não é o nosso querer, é o nosso reprimir... Se quero sentir falta, ótimo! Qual o problema? Se quero tocar, sentir, lembrar? Ótimo! Por que me repreender? Se quero desejar, por que não!? Se quero sonhar, faz parte do momento esse contemplar, esse recordar pr'a frente, rever o ainda por viver... Evitar o sofrimento? Pr'a quê? De que adianta? O problema não é me apegar... é não compreender que é passageiro, é segurar... que é movimento, que é mudança, que é fluxo... Apego-me agora, desapego-me depois... livremente... para viver tudo.

Uma música - Vagalumes Cegos - Cícero

Nova Política


Tentando me acostumar... À ideia de não me apegar... À ideia de simplesmente estar... Eu a compreendo, acredito nela completamente, mas vivê-la requer uma segunda compreensão, dos batimentos cardíacos acelerados, do sabor na boca, das mãos arfantes, dos olhos cerrados, do espírito... porque fica aquela vontade, aquele hábito, aquele impulso de querer agarrar, de querer saber, saber minha, dela, minha...

Dá aquela ânsia, aquele desejo, aquela falta... O que significa a saudade e a lembrança quando não nos amarramos...? O que significa o pensamento quando somos asas e ventos? O que significam os sentidos quando somos mar?...

Aquela dúvida. Ter controle de si, não ir, saber estar, saber ser... apenas ser... apenas ser... Jamais esperar, brincar, divertir, sorrir, abraçar... Soltar. Soltar. Apertar. Soltar. Apertar. Soltar. Apertar. Soltar...

E o que é o amor?! Como fica o amor?! Há amor?! Ainda existe amor?! Ou o amor também se libertou?! Não mais algo individual, mas difuso em tudo, em todos os olhares, todas as folhas, todas as ondas, nos pés, nas mãos, na grama, no céu e no sol? Como é fazer parte de tudo!? Como é deixar-se levar pela correnteza?! Como é abandonar-se nos braços da vida?! Como é abandonar-se?!?! Como é?! Como é?!

Como é não ter medo?! Como é fechar os olhos, não saber, mas não temer?... Não saber, mas não temer? Sem certezas, sem garantias, sem amanhãs... só agoras, aquis, hojes, esse exato momento! Não sei se vai voltar amanhã, se irá me olhar, me beijar, se será ou não será... Não sei se vou querer, se irei chegar, não sei se ainda vai gostar, não sei se terá mudado de ideia, não sei se nada ou se tudo... Sem controle... Nunca temos controle... Como é viver isso verdadeiramente?! Sem a ilusão do controle, da certeza, do amanhã?! Sem ilusões?! Desiludido?! Como é viver?! Viver plenamente?! Viver o agora! Estar aqui, ser aqui! Não deixar para depois, não pensar no depois, não saber do depois...

Imagino. A vejo, a quero. Te quiero...

Uma música - Açúcar ou adoçante - Cícero

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Morena

O que você acha de mim? E quem sou eu? Se definir, mata! Se achar que sabe, perdeu... Se segurar, sofreu... Se amar, é seu... mas não sou eu.

O que eu quero? Maré... O que eu faço? Quebrar... O que eu amo? Molhar... O que eu desejo? Brincar...

Quando? Na pele... Onde? Assovio... Por quê? Arrepio... Como? Desvario...

Então, vai chegar? Na roda, entrar... vamos jogar, mandinga e gingar...

Uma música - Morena - Marcelo Camelo

É...


A felicidade não está, ela é.
Não depende, ela quer...
Não vai, não vem...
Pra você e pra ninguém

Não espere... não olhe para trás...
Que a memória esteja à frente,
Como mistura no caminho do agora
Chore, sorria, despenque
O que o corpo estiver afim
E a alma estiver sem fim...

Olhe, sinta, cheire...
O sabor não está em mim, está em tudo
O sabor é muito mais que um corpo
É muito mais que uma parte
É nada mais que a arte
De saborear...

Ande, ande, ande!
Se parar, cai!
Se cair, dói!
Se doer, foi
O maior aprender
Antes ou depois...

Nasce, morre, acaba, começa...
Quem quer parar a roda, se atropela
Apagar o fogo, se queima
Descansar a vida, morre
Descascar ferida, geme
Desandar na vida, corre
Desfrutar comida, morde
Saciar a partida, chega
Se integrar ao fluxo, solta...

Uma música - Alone in Kyoto - Air

Cheio...

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Liromar


Morri.


Nasci.

No mar me criei, no mar floresci, no mar andei, no mar senti.
Não estou separado,
não é meu pé e a onda...
Não são coisas diferentes a areia e meus dedos...
Não existe fronteira entre água, sal e sangue...
Tudo é...

Quem sou eu? Como me chamo? Mar...
Onde estou? De onde vim? Mar...
Para onde vou? O que é? Mar...
O que existe, o que não? Mar...

O Eu morri. Não há mais Eu. Existo. Existe. O todo, o tudo.
Sou, apenas... mais nada... E se nada, de ninguém...
Não sou meu, não sou nada...
Logo, nunca uma posse
Não me posso dar, não há escolha...
Simplesmente dou, para ser
Um infinito grão de areia
No sem fim de perder a vista
Simples parte, simples todo
Junto e indissociado


IV

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?*

*verso-base: Tu que te esqueceste de ti?

Cânticos
Cecília Meireles


Uma música - Famous Last Words - My Chemical Romance

quarta-feira, 21 de março de 2012

Um anti-herói

"Ele é doido"...
Afirma o escravo sobre o ex-escravo

Nascidos em um mundo de escravos, onde ser escravo é a coisa mais normal do mundo, afinal, "todo mundo que eu conheço é escravo", "meu pai foi escravo e o pai dele também" e todo mundo sonha com uma boa carreira de escravo profissional; optar por não ser escravo, e principalmente, "desistir" daquela boa e segura escravidão pública, estável, garantida, livre da concorrência e das instabilidades dos escravos privados, é realmente uma "loucura", nas palavras de qualquer um que ouve a história.

Ser livre ou buscar a liberdade em uma sociedade de escravos e escravidão pode até não ser crime (às vezes é), mas é contra a moral, os bons costumes, o normal...

Tirinha de André Dahmer
http://www.malvados.com.br/

quinta-feira, 15 de março de 2012

As terríveis angústias da burguesia... (0)

Sinto como se hoje fosse meu primeiro dia de vida...
Putz, quantas vezes é possível nascer em apenas uma vida?
2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012...
8 vezes, até agora! Talvez mais!
Sendo assim, acho que eu completo aniversário toda semana!
Que merda! Deve ser por isso que me sinto tão velho...
E ao mesmo tempo tão novo...
Completando ano toda semana
Morrendo e nascendo a cada estação...
Estações maiores,
Estações menores...
Trens indo e voltando...
Por que não tem trens para ir a todos os lugares nesta cidade?
Lembro daquela blusa vermelho vivo decotado naquele trem do sul...
Daquele olhar dentro de mim, bem dentro de mim...
Sul...
É preciso migrar...
Mas agora a perspectiva é ficar mais um pouco...
Algo como testar a fortaleça de nossas convicções
Construir uma fundação mais firme
Só para ver se será possível destruí-la
E partir.

Ontem encontrei com um velho amigo
Que nunca chegou a ser um amigo...
Ele está de saída... está aprendendo a levantar circos, a arrumar o mastro ou seja lá como se chama, de forma adequada, para que ninguém morra, em especial ele...
Ser itinerante, nômade, todo mês em uma cidade diferente...
Será difícil viver assim? Será impossível?...
Será que terei a oportunidade de conversar mais demoradamente com ele?...
Ele também faz cara de quem me conhece,
Mas não conhece...

Depois da religião do sagrado domingo de milk-shake,
É preciso aderir à religião da torta de chocolate-com-menta...
E um bom copo de água gelada, para tirar o gosto enjoado...

Hoje passei o dia fazendo o que há de melhor...
Reunir todos os frutos de esforço, entrevistas, conversas, pesquisas, fotos
Gravações, textos, memórias, intuições...
E deixá-los loucamente se organizarem de forma anárquica no papel eletrônico
E de algum modo organizar de modo ainda mais anárquico, ou seja,
Suave, agradável, criativo, sarcástico ou sei lá o quê...
(todos os adjetivos que damos às coisas, são aqueles que justamente sabemos estarem errados)
Ou não...

Enfim! Um dia estranho, extático, emocionante e... estranho.
É como se eu estivesse aprendendo a andar novamente...
Como é passar uma quarta-feira de chuva em casa fazendo aquilo que você realmente gostaria de fazer?
Passei 21 anos sem saber. Apenas sonhando, inventando, divagando, raivosamente me culpando por não estar fazendo...
Logo, me soa terrivelmente estranho de fato estar vivendo isso...
O dia de amanhã não é mais previsível... apesar da agenda estar cheia...
O dia de amanhã não é mais o mesmo, não é "como era antigamente"...
O dia de amanhã tem sempre cara nova, uma possibilidade verdadeira
Ao invés daqueles mesmos problemas sempre diversos, interessantes, mas desgraçados...
Ainda estou me acostumando...
Preciso me acostumar a não estar acostumado...
Me habituar a estar com as pessoas plenamente, conhecê-las,
Ao invés de simplesmente fazer "meu trabalho", enquanto tenho relances de cada pessoa...
A existência quase plena de um recém-liberto em um mundo de escravos...
...
"E que seja eterno enquanto dure"...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Medo


Ah, o medo...
O medo é tudo.
É o fundamento, é a fundação,
É o que há de mais resistente
E o que sustenta o que há de pior...
O medo, a caverna mais profunda
Das paredes mais sólidas
Mais espessas, mais escuras...
Do mundo é a essência...
A mais profunda fragância
Do mundo como ele é...
Respira-se medo para refrescar
Bebe-se medo para alegrar
Deita-se com medo para não sonhar
Vive-se no medo para assim ficar...

É preciso fazer algo mais
Para que o mundo permaneça como está?!
É preciso fazer algo mais
Para que quem está em cima, fique lá
E quem está em baixo, deixe estar?

Sim, o medo... por trás de cada ideia
Cada pensamento, por trás do sabor
E do desejo, de cada gesto e cada beijo
Há medo, medo, medo...

De perder, de esquecer, de soltar, de viver
De mudar, de escutar, de falar, de morrer...
De amar, encontrar, transformar, de ser...

O hoje e o amanhã é só uma questão de coragem
E de (des)medo...

Uma música - Shattered - The Cranberries

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Depoimento sobre a Intolerância (1)...

A intolerância oprime o ar e o respirar...
Intolerância é não reconhecer as possibilidade de existência do outro...
Intolerância é não conseguir olhar para si, verdadeiramente... olhar superficialmente
E querer extender esse conceito superficial e vazio (falso) de si aos outros, ou, pelo menos
Àqueles a quem se acha no "direito" (do mais forte), no poder, na autoridade, de fazê-lo...

Quanto mais poder se tem, maior é a intolerância, pois a diversidade (de pensamentos, de mundos, de possibilidades) é antagônica à ambição autoritária de extender à humanidade, ao universo (ou à parcela de humanidade e universo que o cerca)
Sua própria visão de mundo e de existência...
Especialmente porque é desta visão de mundo intolerante que o intolerante precisa...
É esta visão de mundo que sustenta seu poder, sua autoridade...
Pois fora disso, seu poder e autoridade simplesmente não existem... não são nada...

E quem tem uma visão superficial de si e reconhece/identifica sua identidade e estrutura psíquica nessa visão intolerante, se despedaçaria sem ela... Sem ela, o que seria? O que restaria?
Se tornaria nada ele mesmo, ao menos segundo sua própria concepção destruída de mundo...

Sem esta visão de mundo, como poderia ser ele intolerante? O que vem primeiro, a intolerância ou a visão de mundo intolerante?...

Ou a lógica maniqueísta nunca fez sentindo e na verdade o que veio primeiro foram os dois... simultaneamente?! Ou pior, nenhum dois dois, mas terceiros e quartos e quintos escondidos sob o véu do maniqueísmo e da própria intolerância... (pois a intolerância não é nata, não é intrínseca a nenhum ser, ela é fruto de uma imersão em um mundo e visão de mundo intolerante...)

Nessa concepção maniqueísta o primeiro é o "culpado" e o último o "inocente", alguém é responsabilizado e alguém é eximido... Mas ambos são culpados e inocentes... Culpados porque perpetuam e inocentes porque não sabem disso...

Ou se sabem, não acreditam, ou se acreditam, ignoram, ou se não ignoram, se enganam, ou se não se enganam, mentem... e assim sucessivamente, infinitos são os mecanismos da mentira...

A intolerância é isto, simplesmente... um ímpeto de destruir, calar, oprimir, aprisionar, conformar ou reduzir à obediência tudo aquilo que é diferente de si, ou seja, não é igualmente intolerante...

Ou que compete em intolerância... pois a intolerância precisa ser a mais intolerante em seu universo, em seu mundo particular... não aceita intolerâncias diferentes... só podem existir suas próprias intolerâncias... ou as intolerâncias semelhantes...


Uma música sobre tolerância ou intolerância...
Maps - Yeah Yeah Yeahs

Cada detalhe...


Fotografias:

Olhos fechados, cabelos esvoaçantes, pernas dobradas, voltadas para trás, pequenos e delicados pés à luz da janela, a coluna delicadamente curvada em lua, deitada de bruços, braços e ombros macios ante o meu tocar, as mãos agarradas ao lençol, nuca faiscando pelos e nervos ante beijos, lábios enriçados pelo contato das peles... blusinha levemente caída no ombro, tecido suave e fininho, recobrindo o perfumado corpo nevado...

Cada centímetro desses olhares são imortais imagens na minha memória... que lentes nenhuma, senão a retina, poderiam flagrar... Nenhuma outra forma de recordar senão na lembrança, nenhuma outra descrição possível senão a amplitudade dos mínimos detalhes... Imagens preto e branco, luz e escuridão, vento de ventilador e brisa, borboletas de retalhos e apanhador de sonhos, almofadas vermelhas e tapete mágico, estante azul e espelhos deleitosos, fonte de águas respingantes, sapinho de resina escondido nos arbustinhos de plástico, chão gelado e água gelada, ao alcance da mão e das bocas sedentas, olhos que vêem além do ver, pele que sente mais do que si mesma, palavras de amor mais que amor mais que palavras...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Morte Absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira

Para quem não considera a Vida uma bola de ferro e não tem a vaidade da eternidade...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Esqueletos...


Um assassino cruel. Sem piedade, sem parcimônia. Não poupa nenhuma vítima, quer todas cinzas, todas passadas...

Matou os primeiros 24 demoradamente, com prazer, pois tudo era novo, eram só possibilidades, descobertas! 1440 dilacerou com gana, gula, emoção, rapidamente, com uma metralhadora! 86.400 já deu mais trabalho... Mas ainda jovem, perseguia-os, não escapava um. Depois de matar 2.592.000 vinte e uma vezes, pelo Diabo, está exausto. Quer férias! Gastou tudo que tinha, cada munição, cada dente, cada fôlego. Mas não! Não pode! Algo não o deixa, que será? Que merda! É preciso parar! Milhões, milhões! É uma calamidade! Não a morte, mas o cansaço! O tédio, a arrastar, a demora... Mas não, é preciso mais! 31 milhões e 104 mil vítimas indiferentes... em um período que parece longo, mas que a cada geração torna-se menor... É uma chacina enorme, é verdade, quanto trabalho! Sinte-se explorado por esses malditos que têm que matar...

E até hoje, desesperadamente sem aguentar mais tarefa tão insípida, tão sem graça, tão desagradavelmente insossa, pois os sentidos já não reagem a essa desmedida, é forçado a admitir que matou, sem paz, sem trégua, 653 milhões e 184 mil...

segundos...

canalhas...

desnudos...

e contando...

Milhões de segundos, minutos e horas... anos e décadas... mortos, no inferno! E intermináveis! Tempocidas, todos nós, pois tudo que fazemos é matar O TEMPO.

Distração


Sou um tipo insatisfeito? Melancólico? Triste?... A vida parece pálida e flácida?... Um tipo bêbado desde nascença? Que ri e conta piada como quem tá na lombra? Um tipo alucinógeno? Uma criança de 7 anos no corpo de jovem com espírito de 57 e um pé na cova?

Bem, descobri outro dia (eu e todo mundo) uma boa explicação para as coisas. Somos hoje uma sociedade fliperama, ou, como dizia Debord, Espetacular. Um mundo de pessoas superocupadas. Assassinamos o tempo para aprisionar a liberdade, contudo nos achamos cheios de escolhas e no melhor dos mundos livres. Isso porque o Sistema que reina hoje, o aprimoramento de doze milênios de dominação e poder, é supereficaz em nos manter ocupados, com os olhos ofuscados de luzes, os ouvidos surdos de plins plins e músicas pop, os sentidos perturbados com tantas e tantas sensações cópias e múltiplas, a mente ultraexalrida de spams, a invenção do século: lixo mental, masturbação mental, a indústria do entretenimento espetacular... programas de auditório e hollywood, celebridades e feriados, video-games e video-vidas, compras, compras e compras! Competir! Estudar! Concursar! Corrida pela sobrevivência, cavalos em busca do ponto de chegada! Ultrapotente-antidepressivos! Incessante rotina de trabalhos e compromissos! Filas, multidões, engarrafamentos! Megas, Gigas e Teras de informação inútil! Superinformação para nos entupir e afogar, enquanto as máquinas nos mantém artificialmente vivos, pois, em "condições normais", morreriamos com tanta tolice, superficialidade e banalidades enlatadas que somos obrigados a engolir.

Sim, é isso. A sociedade hoje é uma supermáquina de produzir drogas para nos matar e nos manter vivos ao mesmo tempo. Zumbis que perambulam pelos corredores dos shoppings aos sábados e voltam sossegados ao trabalho às segundas... vive-se para trabalhar e morrer! Que sina! Que explicação para o sofrimento e a miséria! Trabalhar e morrer! Máquinas-humanos, zumbis-TVs, Cartões-de-crédito-biológicos!

Supervaloriza-se a vida! Encobrem-na d'uma áura sagrada, põem-na em uma declaração de direitos, como uma bola de chumbo e corrente amarrada ao pé, um direito que teremos que carregar toda a existência, durante todos os momentos de tédio, ódio e frustração... Por quê?! Para que não nos matemos!... Diante de toda a insânia, estúpida existência, caótica e cruenta jornada (de trabalho) da vida... ainda querem que nos prolonguemos, sejamos longivos... 60, 70, 80 anos de trabalhos forçados...

Se as revoluções não mudaram este mundo, se as guerras não o destruíram, nem ao menos pode-se destruir a si, pois é pecado, é crime, é inaceitável! Moral! Princípios! Códigos! Regras! Cercados de todos os lados, material e simbólico, ideológico e subconsciente, somos bestas na roda de moer do sistema de geração de riqueza! Riqueza de poucos! Que a cada milênio aumenta e se concentra cada vez mais! Cada vez mais!!!

E o resultado é: A Loucura! A Violência! O Caos!

Uma sociedade profundamente doente, segregada, psicopata! Torturadamente rica, luxuriantemente miserável.
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Quando vês, realmente muito poucas coisas importam... de todas as distrações, entretenimentos, passa-mata-tempos. Tudo parece sem sabor porque a maior parte realmente não tem sabor... e o que tem? Onde está? O que tem sentido? Tão pouco... é preciso tão pouco para viver. A vida constitui-se, no fim, de tão poucos e essenciais sentimentos, ações, valores, símbolos, partes... Simples. Simples. Por que não ser simples? Uma sociedade prepotentemente dita "complexa"... para o bem de quem?

O que realmente nos distingue enquanto seres humanos é a criatividade e não a razão. A razão, o racional, prova-se todos os dias, é o dom da máquina, multiplicar, ampliar, velozmente fazer... mecânico, elétrico, morto, máquina. Nós, seres humanos, nos justificamos pela capacidade e possibilidade de criar - algo bom, algo novo, a vida e o mundo... Não criar monstruosos amontoados de concreto, mas sim o simples, o ínfimo, o pequeno, momento, expressão, forma de humanidade...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Desfeito

E se o mundo acabasse?... Teria novamente aquela praia para caminhar?... único no mundo, uma alma de azul...O fim sempre parece eminente... já passou por nós tantas vezes... já acabou tantas vezes... Penso sempre que acabará novamente. Terei forças para ser? O que fazer no escuro? Por que persistir?... Minhas questões existenciais se extinguiram... hoje resta apenas um único beco sem saída. Muros altos demais para escalar... penso: e se olhar para trás? O que há?... sombras e sons esquecidos?... Mundos dissolvidos? Lembranças?... É preciso encontrar algo para ocupar o tempo diante deste muro... Uma colher para raspar-lhe um túnel... Fazer uma saída... Pixar uma canção... contar os tijolos que separam o ontem do amanhã... Enfim... não sei.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Doce e suculento


Um romance...
um amor de sorriso fácil...
um mergulhar na gargalhada
por prestar atenção
no barulho que faz
uma mordida de maçã

Uma cura para todo mal
Um chocolate mais gostoso que o normal
Meio amargo, com avelã e beijo
Um soninho cheio de edredon e bocejo
O estar mais surreal
O compartir sagrado
A vastidão da praia
de pele branquinha
e constelações carnais...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pra quê?

É incrível como é fácil empurrar a vida pra frente... viver sem pensar nela, sem querê-la, sem fazê-la... simplesmente deixá-la flutuando no tempo, até que murche e morra. Talvez esse seja o derradeiro suicídio, o mais profundo crime contra a humanidade... e quando digo isso, não me refiro ao aglomerado de carcaças humanas que lotam o mundo, mas a essência do que deveria ser esta criatura um tanto afoita e potente, diferente dos outros bichos...

Podemos fazer tanto, mas fazemos tão pouco. É incrível como ficamos prostrados diante de uma existência interamente indiferente, tanto faz como tanto fez, que não faz falta, que se sumisse, era até melhor. Como vivemos a vida inteira seguindo um impulso vil de sobrevivência... a pura sobrevivência é um crime, diante do potencial que é viver.

Lembro daqueles dois meninos molhados, sentados na amurada de pedra diante da maré cheia e volumosa, indo e vindo, chocando-se contra o paredão, explodindo em mil gotas e espumas, cuspindo sal deliciosamente refrescante naqueles dois moleques livres e soltos... Vai e vem - plash!! E sorrisos e olhos fechados e medo e alegria. E vai e vem - plash!!! Sensações fervilhando nas pontas dos nervos, na ponta do espírito... desgarrados do mundo, sem que alguém puxe-os para "um lugar seguro"... valendo a pena o segundo vivido e o ar respirado...

Penso que deveriam haver apenas duas opções: ou viver plenamente, tão furiosamente quanto o sol, explodindo seu potencial em ininterrupta luminosidade criativa e criadora ou... igualmente explodir em revolta, contra qualquer tentativa de impedir ou enclausurar o corpo e o espírito humanos, fogos incontroláveis...

Quando nos tornamos animais domésticos? Digo, animais de fazenda... que vivem para o trabalho simplesmente pelo prato que come, por um feno mais saboroso, por um estábulo mais confortável, por um sonho de ser o cavalo vencedor da corrida? Os animais domésticos são as celebridades, criaturas meramente decorativas, que existem para a distração e dispersão dos demais... e que vivem às custas dos demais... soberanos e escravos mutuamente...

Uma música - Tempo Perdido - Legião Urbana

Outra música - I can't spleep in silence - Skins

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Navegar


"Existirmos, a que será que se destina?"... Eis uma pergunta crucial e cruciante. Qual o fim que essa pergunta leva? Você é capaz de chegar lá?... Vez por outra pergunto à alguém "qual o sentido da vida?" e parece uma piada. É uma piada? Qual a sua resposta? Você já se fez essa pergunta? E se não, como viver dia após dia? E se sim, como viver dia após dia?... É difícil encontrar uma resposta consistente... em geral, pego-os na surpresa. Talvez se o IBGE incluisse esse item no censo, quem sabe que resultados não teríamos. Certamente a boa e velha resposta cristã da família, do emprego, dos filhos, sirvam para solucionar nossos problemas diante de uma pergunta inesperada e despropositada. Quanta insolência! Perguntar de uma mulher a idade, quero dizer, perguntar à uma pessoa o sentido.

Eduardo Galeano ante a pergunta: Para que servem as utopias? A resposta: "Servem para caminhar". Como um horizonte, que a cada passo que se aproxima, se distancia, como uma delícia amarrada em uma vara e presa às costas, que quanto mais buscamos, sempre se afasta, e assim seguimos puxando a carroça, a vida, feita em esperanças, no por-vir, no potencial amanhã, justifica-se a si mesma. E assim, fugimos a perguntas mais difíceis. Fernando Pessoa disse "Navegar é preciso, viver não é preciso". Paradoxal em aparência, substancial, na inconsciência. Não tendo razão para viver, vagamos. Seja pelas terras ou pelos canais, pela rua ou pela vitrine, pela aventura ou pela moda, vagamos... Sem razão, sem rumo, sem propósito. Encontramos algo para o qual nos inclinamos e nos deixamos cair ladeira abaixo e chamamos realização... Qual o propósito?
Veja bem... viver não é preciso, pois nem sequer faz sentido. Veja bem, tomamos uma bebida cheia de químicos, enquanto comemos conservantes vitaminados, olhando para um tubo brilhante, conectados por cabos luminosos, máquinas, máquinas, máquinas... que servem para? Nada. Serve, em grande medida, para elevar-nos, para dar-nos a sensação de superioridade e tal sensação, assim, justifica a vida... É isso? Vive-se para viver uns sobre os outros? Mais bonito, mais rico, mais inteligente do que o outro? Ou então, trabalha-se arduamente para obter conforto... hm. Faz sentido, o desconforto justificado pelo conforto, horas a mais de trabalho, horas livres dedicadas, estresse e saúde esgotadas, muitos trabalhando para poucos, por um sofá, uma poltrona de couro, um queijo de cento e cinquenta dinheiros o quilo, um vestido de três mil dinheiros, uma tv de quator mil dinheiros e um carro de trezentos mil dinheiros? Hm, uma boa razão para viver. Ou então vive-se para expressar. Expressar a razão de viver, ou a desrazão de viver, ou a psicodelia alcólica, lisérgica, fumegante... ou qualquer elemento... simplesmente, justificando... n'um círculo, um cão mordendo a cauda... A vida... Assim, sem sentido, seguindo... "Viver não é preciso"... navegar à deriva...

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