domingo, 22 de abril de 2012

Acelerada... ligeira... intensa... 
Vida, ela, nós...

O que é intensidade? 
Quantidade? Potência? Excesso? Transbordamento? Imensidão?
Como pode a vida ser uma montanha russa, que a cada curva, dá uma cambalhota, cai repentinamente e antes que a cabeça páre de girar, sobe novamente, passando por dentro de uma cachoeira, no alto de um penhasco de ideias e sonhos, atravessando as lembranças do ontem e do amanhã em uma velocidade que estica e conecta a percepção e o entendimento... louco... meus sentimentos vibram de forma incontrolável... meus nervos pipocam, estalam, saem faíscas... meus músculos gemem de desejo, o sangue parece um parque aguático de tão rápido que se bombeia, percorre as veias-tobogã, oxigena meu corpo, alterando-me a consciência...

E ao final do passeio/momento, só o que se sente é "de novo! de novo! de novo!" (risos!), como uma criança que se apaixona pelo brincar, pelo sentir, pelo estar, pela outra criança, pela infância, pela liberdade de fazer o que quiser sem julgamentos, moralismos, apenas amor, carinho e cuidado...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

descobertas...

Desnuda, desmuda, despida...
Céu, azul, marinho...
Deitar-me na tua praia linda...
Encharcar-me no teu carinho...

(Imagem: Orlando Pedroso)

Aperto

Ai, menina... me sento na calçada e te quero.

Uma música -
A primeira vista - Dota e Chico César


(Imagem: Orlando Pedroso)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Não sou o que contam de mim...


Não é tão fácil partir. Não é tão insensível deixar. Não é tão indolor quanto parece. Não há nada que não doa. A fome dói, a cama dói, o ar dói. Apagar da superfície, como aquelas pegadas na areia que somem, rápidas, fugazes... é simples. Mas guardar tudo, aquilo tudo, tudo aquilo, tanto e muito, nos devidos lugares, organizados, compreendidos, desprendidos, é um trabalho um pouco mais demorado.

Nos caminhos do mundo, passando na janela, na noite lá fora, de estrelas torcidas, das luzes pequenas, amarelas e velhas, das cidades perdidas, ruidas e desertas... Percorro-me inteiro, indo e vindo, vou e volto, abro e fecho... respiro... refresco... deixo arejar... Há muita sensação para desacostumar...

Vivo... e esta chama viva azula, avermelha, chamusca, bruxuleia...

Lembrei-me aquela noite, em que percebi uma muralha que se erguia: perdê-la seria para mim, naquele momento, o nunca mais entregar, nunca mais me dar, nunca mais dizer-me, nunca mais deixa-me, nunca mais cair-me... senti essas pedras no meu peito... Senti essa corrente me arrastando... senti esse abismo me abraçando... e transbordei... derramei... me derramei... me afastei... No balanço chorei essa perda... sofri o futuro... deslizei a parede abaixo... e fui embora.

Não quis. Não quero. Essas paredes, esses tijolos, esse concreto. Fui embora. Daquele dia em diante compreendi melhor... "o fim é inevitável"... E não o procurei. Vivi cada momento, dei-me a cada momento... cuidei de cada momento... estive em cada momento... Mas, aprendi a deixar ir...

Naquela manhã insone... de filme que percorreu eras... de desconsolo, de perda...

No dia seguinte... na minha praia... no meu lugar... onde sou mais que em qualquer outro... Nos separamos. Ela correu. Eu corri. Ela parou. Eu não. Ela não veio. Deitou. Eu fui. Entrei na água. Fria. Delícia. Plena. Imensa. Ao voltar, querendo abraçar... procuro. Não acho. Procuro. Não acho. Procuro. Não acho. Procuro. Não acho! Sumiu! Sumiu! Sem nada, pra onde?! Será que o pior aconteceu?! Desespero! Não vejo, meus olhos estão salinos, pergundo, procuro, enlouqueço... quando atravesso a rua em busca de ajuda, a vejo. Lá. Querendo matar-me parando o coração. Foste embora. Foste embora. Novamente. Ódio. Dor. Raiva. Como deixas-me assim, louco, sem saber, pensando ter acontecido o pior, eu que sempre penso o pior... Escondeu-se na esquina, mentiu dizendo ver-me, mentira. Sumiu. Fugiu. Morri, morreu. E naquele instante, nunca mais irias voltar ali. Nunca mais iria te levar... marcou-me a ferro a dor e o desespero...

Muitas quebras, muitas pedras, muitas eras...

Vivo... vivo mais. Liberto. Desperto. Aberto.

Uma música - Guaranteed - Eddi Vadder - Into the Wild

Réplica

Cariño,

Nada sei [,] contigo... e, contudo, sabemos tudo... debaixo da pele da alma existem todas as respostas... debaixo das unhas dos desejos temos todas as dúvidas... A verdade e a dúvida são uma mesma correnteza, fluindo, indo... límpida porque em movimento...

Então, o quê? Por quê? Se tudo, se nada, se mais e menos, se quente e frio, se mundo e vazio, se medo e destemor... verdade e mentira... Tudo que é, ao mesmo tempo não é...

Fico tonto... fico mudo... me perco. Comigo, contigo, penso, esqueço, desejo, desespero...

Seria eu inconstante? Já escrevi isso certa vez, há anos, muitos, n'uma época em que eu era ainda uma rocha, um quebra-mar... ondas e mais ondas, até virar-me praia... ou o contrário...

"Toda vez que penso me conhecer, percebo que não sei nada sobre mim"... Foi algo que pensei há algum pouco tempo atrás...

É isso... há um grande problema no saber... quando pensamos que sabemos, é esta a maior prova do inverso...

Não pense que sei de algo...
Faço perguntas justo por não saber...
Talvez...
..............Acho que só é possível
...................compartilhar... e fazermos nossas respostas, rascunhá-las, rasgá-las, trocá-las de tempos em tempos.

Se tenho uma inconstância, é nas certezas...

Não fuja... (?)
O que é fugir? (risos)
Sugiro fazer o que lhe convir, o que lhe der mais prazer ou o que for mais difícil...
Não, não sugiro nada.
Calo.

Apenas sinto...
..............(des)sinto
..............(Ab)sinto
..............(mentira)


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

F.P.

Uma música - do amor - Tulipa Ruiz

Aprendi

Ninguém é insubstituível
Não se pode depender de ninguém
Mas ninguém é igual
Logo, não se pode querer repetir...

É preciso ir, continuar

Voar. Se parar, pesa...

Aprender com a inevitável possibilidade do sim ou do não.

Não tomar nada como
......................................certo
Não acreditar em nada,
Apenas no todo...
em nenhuma parte...

Ilusão...
...........Alguém pode nos fazer mal?
...........Alguém, além de nós, pode nos fazer sofrer?

É o sofrimento algo de fora? Que nos aflinge?
É o sofrimento real?

O que é a paz, senão qualquer caminho
de seda ou de espinho
.............em que simplesmente
.............se está... simples.

Por que complicar?

Qual a diferença entre o criativo e o complicado?

E aquele entrelaçado, manta, rede, trama...
Inesplicavelmente complexo e belo...?

E aquela folha e suas mil veias? E aquela teia que a aranha tece todo dia e ao final, desfaz?

Por quê?

Diversão?

.........................Só importa a diversão?

Aprender a
brincar
a rir
a sorrir
se entregar
a cair, chorar e achar graça?

Rir de si, sempre
Do ridículo de si, do falso, do fraco, do pouco de si?
E dessa forma ser nada e ser tudo?

Destruir-se e quebrar na maré?

Ser apenas luz? Onda?
Partícula de carinho
de cuidado, de amor?

Não pensar no que se é...
Apenas sentir tudo, a dor, o aperto, o fruto
Molhar a boca com o gozo dela?
Derreter no chão em pura ausência?

Esquecer o eu e o tu... superar...

Desaparecer as nuvens e flutuar? Atravessar paredes?

A matéria some diante de mim, e como sou o nada,
nem sumir pode, apenas fluir...


Uma música - Ensaio sobre Ela - Cícero

sábado, 14 de abril de 2012

Ser e estar com o mundo...

Em todo lugar há...
a possibilidade de viver... a imprevisibilidade do você... a indescritibilidade do estar... a imperiosidade do ser... a ingenuiade genuina do não-pensar... a leveza que vai longe do soltar... a despretenciosidade do não-se-preocupar... a inculpabilidade do morrer... a descredibilidade do crer... a infalibilidade do deixar... a indestrutibilidade do querer... a infantilidade do não querer... a juvenilidade do tocar... a melhoridade do sofrer... o melhor momento para se entregar... a versatilidade do não-resistir... a fluibilidade do desabrochar... a umidade do nascer... a sofregidão do chorar... a flutuabilidade do saborear... a imprescindibilidade do libertar...


Uma música - Preta - Cordel do Foto Encantado

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cariño de no dormir...

Só preciso do que quero...
Só quero o que preciso...

Entender o que sentimos... por que nos sentimos assim? Por que essa angústia ou ânsia ou desejo que foje ao agrado? Essa vontade maior que a possibilidade, que de tanta chega a escapar? Por momentos o desconhecido de nós mesmos obscurece os sentidos e os pensamentos... Sentia-me apertado por mim mesmo, como se o tempo insuficiente faltasse o ar... Como se algo me faltasse, como se eu não bastasse... Um furor erosivo, como o vai e vem das ondas ante as rochas...

Agora a tempestade passa... Ficam os ventos fortes, que enchem os tecidos e levam adiante... O caminho permanece firme rumo aos braços do desconhecido e adorado... Entendo-me cada vez mais. Percebo-me. Olho para mim e observo... E ao mesmo tempo vivo... tento não evitar nada, sentir tudo, ver o que acontece... chegar a um ponto de beleza e êxtase... Sinto falta da explosão... quero uma explosão... de tudo que tenho em mim, tudo que quero, tudo que anseio... quero deitar-me exausto novamente... Sinto falta dessa exaustão, do ar quente e gostoso após o fogo, aquela neblina que sobe dos corpos comburidos... Tenho medo... um medo que delicia... o não-saber, o estar nas mãos do agora, que pode me deixar cair a qualquer momento... a possibilidade da dor causa um certo prazer... ou melhor, torna mais sôfrego o prazer alcançado... A presença torna-se não obrigatória... ter a opção e ao mesmo tempo não ter a opção é às vezes azedo, algo que arrepia o pensamento, que deixa-me em dúvida sobre o sentir... entrego-me ou contenho-me? Deixo-me ou levo-me? O desapego me intriga. Não sei o que pensar... sinto que meu pretenso ideal ainda é para mim uma icógnita... não compreendo... finjo, tento, mas sou o primeiro a trair-me nesse ideal... O que sentem aqueles olhos grandes e fugidios? O que sente aquele corpo? Aquela pele? Aquele sangue?... É claro que é impossível saber, mas essa incerteza me causa certa estranheza... como um cego andando a esmo... cujas mãos buscam aquelas de seu sonho e podem simplesmente não encontrar. E quando encontra, logo se vão, não duram, tão rápidas... passa tão rápido nosso tempo... queria-o tão mais demorado... queria sem ter que pensar no fim, na hora de deixar, de ir, de separar... E a cada instante aprendo algo em algum canto escondido de mim/de ti... Alguma ruela cuja lâmpada ainda está por se iluminar...

Aventura. Ah, ventura... venha e me seja...

Uma música - Aire - Mochachito Bombo Infierno

domingo, 8 de abril de 2012

Saiba que...


Advertência...

Eu não sou a prova de dor. Eu não sou anestésico. Eu não "só" faço sentir bem... Eu faço sentir muito bem, causo muito prazer, alegria, sorrisos, êxtases, ápices, desatinos... Mas também doou... angustio... desagrado... aflinjo... agonio... agonizo... desespero... inquieto... enlouqueço... esfrio... Aqueço, aperto, amo, me apaixono, penetro, desperto, explodo, intenso, extenso, alento, aconchego... e solto, caio, morro, saio, corro, raio, mordo, raivo...

Uma música - Aqui - Cordel do Fogo Encantado

Poesia Pagã

Estou aprendendo a morrer e a nascer todo dia...

O que isso significa?!

É não partir de nada. É não partir de um passado. É não viver no passado. Mas unicamente no agora. Nasci. O que posso fazer? O que posso fazer hoje?! Comigo, com quem estiver comigo, seja ao redor, seja no coração...

Uma música - Pagan Poetry - Bjork

Imerso...


Os dedos foram escorregando, suados, os galhos, raízes, margens... as unhas deixaram de agarrar-se na areia, preta, argilosa, úmida... os braços exaustos cederam, desmancharam-se... As forças cessaram de resistir... E então... se soltou... caiu... flutuou... na correnteza gelada e firme, forte, veloz... Soltou-se... foi... desceu rumo ao mar... porque toda correnteza leva ao mar... toda veia leva ao coração... toda parte leva ao todo... E parou de se preocupar com o caminho... Simplesmente navegou... quase à deriva, mas com a clareza do caminho, a beleza do ondular, do caminhar, do seguir... Abraçado com a água se apaixonou pelo líquido, pelo fluxo, pelo vívido... apaixonou-se por tudo, por cada, em cada... respirou o ar molhado, sentiu a vida o levar... e foi...

Uma música - The Rip Tide - Beirut

Voilà


Conclusão! Compreendo agora! Não se trata de reprimir nada... lá estava eu me reprimindo de novo. O problema não é o nosso querer, é o nosso reprimir... Se quero sentir falta, ótimo! Qual o problema? Se quero tocar, sentir, lembrar? Ótimo! Por que me repreender? Se quero desejar, por que não!? Se quero sonhar, faz parte do momento esse contemplar, esse recordar pr'a frente, rever o ainda por viver... Evitar o sofrimento? Pr'a quê? De que adianta? O problema não é me apegar... é não compreender que é passageiro, é segurar... que é movimento, que é mudança, que é fluxo... Apego-me agora, desapego-me depois... livremente... para viver tudo.

Uma música - Vagalumes Cegos - Cícero

Nova Política


Tentando me acostumar... À ideia de não me apegar... À ideia de simplesmente estar... Eu a compreendo, acredito nela completamente, mas vivê-la requer uma segunda compreensão, dos batimentos cardíacos acelerados, do sabor na boca, das mãos arfantes, dos olhos cerrados, do espírito... porque fica aquela vontade, aquele hábito, aquele impulso de querer agarrar, de querer saber, saber minha, dela, minha...

Dá aquela ânsia, aquele desejo, aquela falta... O que significa a saudade e a lembrança quando não nos amarramos...? O que significa o pensamento quando somos asas e ventos? O que significam os sentidos quando somos mar?...

Aquela dúvida. Ter controle de si, não ir, saber estar, saber ser... apenas ser... apenas ser... Jamais esperar, brincar, divertir, sorrir, abraçar... Soltar. Soltar. Apertar. Soltar. Apertar. Soltar. Apertar. Soltar...

E o que é o amor?! Como fica o amor?! Há amor?! Ainda existe amor?! Ou o amor também se libertou?! Não mais algo individual, mas difuso em tudo, em todos os olhares, todas as folhas, todas as ondas, nos pés, nas mãos, na grama, no céu e no sol? Como é fazer parte de tudo!? Como é deixar-se levar pela correnteza?! Como é abandonar-se nos braços da vida?! Como é abandonar-se?!?! Como é?! Como é?!

Como é não ter medo?! Como é fechar os olhos, não saber, mas não temer?... Não saber, mas não temer? Sem certezas, sem garantias, sem amanhãs... só agoras, aquis, hojes, esse exato momento! Não sei se vai voltar amanhã, se irá me olhar, me beijar, se será ou não será... Não sei se vou querer, se irei chegar, não sei se ainda vai gostar, não sei se terá mudado de ideia, não sei se nada ou se tudo... Sem controle... Nunca temos controle... Como é viver isso verdadeiramente?! Sem a ilusão do controle, da certeza, do amanhã?! Sem ilusões?! Desiludido?! Como é viver?! Viver plenamente?! Viver o agora! Estar aqui, ser aqui! Não deixar para depois, não pensar no depois, não saber do depois...

Imagino. A vejo, a quero. Te quiero...

Uma música - Açúcar ou adoçante - Cícero

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Morena

O que você acha de mim? E quem sou eu? Se definir, mata! Se achar que sabe, perdeu... Se segurar, sofreu... Se amar, é seu... mas não sou eu.

O que eu quero? Maré... O que eu faço? Quebrar... O que eu amo? Molhar... O que eu desejo? Brincar...

Quando? Na pele... Onde? Assovio... Por quê? Arrepio... Como? Desvario...

Então, vai chegar? Na roda, entrar... vamos jogar, mandinga e gingar...

Uma música - Morena - Marcelo Camelo

É...


A felicidade não está, ela é.
Não depende, ela quer...
Não vai, não vem...
Pra você e pra ninguém

Não espere... não olhe para trás...
Que a memória esteja à frente,
Como mistura no caminho do agora
Chore, sorria, despenque
O que o corpo estiver afim
E a alma estiver sem fim...

Olhe, sinta, cheire...
O sabor não está em mim, está em tudo
O sabor é muito mais que um corpo
É muito mais que uma parte
É nada mais que a arte
De saborear...

Ande, ande, ande!
Se parar, cai!
Se cair, dói!
Se doer, foi
O maior aprender
Antes ou depois...

Nasce, morre, acaba, começa...
Quem quer parar a roda, se atropela
Apagar o fogo, se queima
Descansar a vida, morre
Descascar ferida, geme
Desandar na vida, corre
Desfrutar comida, morde
Saciar a partida, chega
Se integrar ao fluxo, solta...

Uma música - Alone in Kyoto - Air

Cheio...

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Liromar


Morri.


Nasci.

No mar me criei, no mar floresci, no mar andei, no mar senti.
Não estou separado,
não é meu pé e a onda...
Não são coisas diferentes a areia e meus dedos...
Não existe fronteira entre água, sal e sangue...
Tudo é...

Quem sou eu? Como me chamo? Mar...
Onde estou? De onde vim? Mar...
Para onde vou? O que é? Mar...
O que existe, o que não? Mar...

O Eu morri. Não há mais Eu. Existo. Existe. O todo, o tudo.
Sou, apenas... mais nada... E se nada, de ninguém...
Não sou meu, não sou nada...
Logo, nunca uma posse
Não me posso dar, não há escolha...
Simplesmente dou, para ser
Um infinito grão de areia
No sem fim de perder a vista
Simples parte, simples todo
Junto e indissociado


IV

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?*

*verso-base: Tu que te esqueceste de ti?

Cânticos
Cecília Meireles


Uma música - Famous Last Words - My Chemical Romance

quarta-feira, 21 de março de 2012

Um anti-herói

"Ele é doido"...
Afirma o escravo sobre o ex-escravo

Nascidos em um mundo de escravos, onde ser escravo é a coisa mais normal do mundo, afinal, "todo mundo que eu conheço é escravo", "meu pai foi escravo e o pai dele também" e todo mundo sonha com uma boa carreira de escravo profissional; optar por não ser escravo, e principalmente, "desistir" daquela boa e segura escravidão pública, estável, garantida, livre da concorrência e das instabilidades dos escravos privados, é realmente uma "loucura", nas palavras de qualquer um que ouve a história.

Ser livre ou buscar a liberdade em uma sociedade de escravos e escravidão pode até não ser crime (às vezes é), mas é contra a moral, os bons costumes, o normal...

Tirinha de André Dahmer
http://www.malvados.com.br/

quinta-feira, 15 de março de 2012

As terríveis angústias da burguesia... (0)

Sinto como se hoje fosse meu primeiro dia de vida...
Putz, quantas vezes é possível nascer em apenas uma vida?
2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012...
8 vezes, até agora! Talvez mais!
Sendo assim, acho que eu completo aniversário toda semana!
Que merda! Deve ser por isso que me sinto tão velho...
E ao mesmo tempo tão novo...
Completando ano toda semana
Morrendo e nascendo a cada estação...
Estações maiores,
Estações menores...
Trens indo e voltando...
Por que não tem trens para ir a todos os lugares nesta cidade?
Lembro daquela blusa vermelho vivo decotado naquele trem do sul...
Daquele olhar dentro de mim, bem dentro de mim...
Sul...
É preciso migrar...
Mas agora a perspectiva é ficar mais um pouco...
Algo como testar a fortaleça de nossas convicções
Construir uma fundação mais firme
Só para ver se será possível destruí-la
E partir.

Ontem encontrei com um velho amigo
Que nunca chegou a ser um amigo...
Ele está de saída... está aprendendo a levantar circos, a arrumar o mastro ou seja lá como se chama, de forma adequada, para que ninguém morra, em especial ele...
Ser itinerante, nômade, todo mês em uma cidade diferente...
Será difícil viver assim? Será impossível?...
Será que terei a oportunidade de conversar mais demoradamente com ele?...
Ele também faz cara de quem me conhece,
Mas não conhece...

Depois da religião do sagrado domingo de milk-shake,
É preciso aderir à religião da torta de chocolate-com-menta...
E um bom copo de água gelada, para tirar o gosto enjoado...

Hoje passei o dia fazendo o que há de melhor...
Reunir todos os frutos de esforço, entrevistas, conversas, pesquisas, fotos
Gravações, textos, memórias, intuições...
E deixá-los loucamente se organizarem de forma anárquica no papel eletrônico
E de algum modo organizar de modo ainda mais anárquico, ou seja,
Suave, agradável, criativo, sarcástico ou sei lá o quê...
(todos os adjetivos que damos às coisas, são aqueles que justamente sabemos estarem errados)
Ou não...

Enfim! Um dia estranho, extático, emocionante e... estranho.
É como se eu estivesse aprendendo a andar novamente...
Como é passar uma quarta-feira de chuva em casa fazendo aquilo que você realmente gostaria de fazer?
Passei 21 anos sem saber. Apenas sonhando, inventando, divagando, raivosamente me culpando por não estar fazendo...
Logo, me soa terrivelmente estranho de fato estar vivendo isso...
O dia de amanhã não é mais previsível... apesar da agenda estar cheia...
O dia de amanhã não é mais o mesmo, não é "como era antigamente"...
O dia de amanhã tem sempre cara nova, uma possibilidade verdadeira
Ao invés daqueles mesmos problemas sempre diversos, interessantes, mas desgraçados...
Ainda estou me acostumando...
Preciso me acostumar a não estar acostumado...
Me habituar a estar com as pessoas plenamente, conhecê-las,
Ao invés de simplesmente fazer "meu trabalho", enquanto tenho relances de cada pessoa...
A existência quase plena de um recém-liberto em um mundo de escravos...
...
"E que seja eterno enquanto dure"...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Medo


Ah, o medo...
O medo é tudo.
É o fundamento, é a fundação,
É o que há de mais resistente
E o que sustenta o que há de pior...
O medo, a caverna mais profunda
Das paredes mais sólidas
Mais espessas, mais escuras...
Do mundo é a essência...
A mais profunda fragância
Do mundo como ele é...
Respira-se medo para refrescar
Bebe-se medo para alegrar
Deita-se com medo para não sonhar
Vive-se no medo para assim ficar...

É preciso fazer algo mais
Para que o mundo permaneça como está?!
É preciso fazer algo mais
Para que quem está em cima, fique lá
E quem está em baixo, deixe estar?

Sim, o medo... por trás de cada ideia
Cada pensamento, por trás do sabor
E do desejo, de cada gesto e cada beijo
Há medo, medo, medo...

De perder, de esquecer, de soltar, de viver
De mudar, de escutar, de falar, de morrer...
De amar, encontrar, transformar, de ser...

O hoje e o amanhã é só uma questão de coragem
E de (des)medo...

Uma música - Shattered - The Cranberries