segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ramificado...


Agora
Sem mais
Antes, o quê?
Entre o isolamento
E um profundo encontro
Para onde mais?...

Movimenta-se por pura
Ansiedade...
Ou incontrolável
Impossibilidade
de permanecer
Segue, quando consegue
sair debaixo do cansaço
E queima o que tiver
para aquecer os laços
Ou ainda porque parado
Sente-se só...
Caminhando, é tudo que é

Incapaz de participar
Incapaz de não participar
Onde fica? Como se deixar?

E cria, desmedidamente, dolorosamente
Porque criar dói...
Dói, pois quer concreto
Quer tangível, quer muito
E quer junto e é difícil juntar

terça-feira, 3 de julho de 2012

Beijar-a-flor


Se viver não tem sentido,
Só me resta te sentir
Se viver é o vazio
Vou vadiar no teu sorrir
Se viver é um poço frio
Bora derreter logo esse pavio
Se viver é uma música sem fim
Minha agulha vai rasgar o teu vinil...

Redemoinho...



Música
Voz
Garganta...
Aqueles lábios no ouvido
Estalando o lóbulo,
arrepiando o sentido
Algo doce, algo amargo
Um descontrole suado
Essa melodia do afago
Do sussuro, do gemido
Os tons suaves e finos
Demorada canção
De noite adentro
Madrugada e novo sol
A delícia cantiga
De cangote e chamego
O ninar no seu pelo
No seu leito, no seu seio
As curvas melódicas
Da cintura vocal
As notas harmônicas
Dos compassos quadris
Essa música nossa
Essa canção una
Que vicia
Vicia...
E não faz mal...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pura contemplação... O espetáculo da vida e da morte...



Por que vivemos? Por que viver?

Por que nossos corpos nascem, consomem energia, crescem, se desenvolvem, sentem, refletem, transformam, criam, queimam, se consomem, se destroem, desfazem, desaparecem? Por quê? Para quê? Para quê esse ciclo sem fim e sem propósito?

Por que carregar esse corpo por instantes, dias, anos, vidas?... Para fazer coisas? Para sentir coisas? Conhecer coisas? Pra quê? E daí que sabemos algo... no final das contas, de que serviu? E daí que sentimos algo... de que serviu?... Pura contemplação, pura vivência... viver por viver... Viver só para continuar vivendo... viver para morrer... viver para ocupar o tempo até morrer...

Os animais vivem até morrer... Parte de seu tempo e energia eles gastam para conseguir o necessário para viver, sono, comida, abrigo, bebida. O resto do tempo e da energia eles gastam com qualquer coisa, brincadeira, violência, não fazer nada... Nascem e morrem assim, sem pensar nisso, só nascem e morrem, por gerações sem fim...

Nós fazemos o mesmo... Gastamos tempo e energia para nos mantermos vivos, conseguir comida, abrigo, calor. O resto do tempo, gastamos a toa. Sem propósito, só para ocupar esse tempo vazio. Vazio. Assim, inventamos brincadeiras, jogos, esportes, passa-tempos, mata-tempos, complicamos as coisas para nos tomarem mais tempo (pensem nos quebra-cabeças), enrolamos as coisas, para nos mantermos ocupados... só para ocupar o tempo que temos livre...

Mas existem dois problemas. Cada vez mais precisamos de menos tempo para nos manter vivos. A tecnologia, as invenções, a criatividade permitiriam que cada ser humano precisasse despender muito pouco de seu tempo para sobreviver e ainda assim teríamos incrível abundância. Assim, o que fazer com esse tempo?

Contudo, como vive-se de foram desigual, tudo que a humanidade criou para poupar tempo concentrou esse tempo nas mãos de alguns e esses precisam manter todos os demais ocupados, ocupados, ocupados, para que não percebam que eles poderiam ter todo o tempo livre para fazer o que quisessem. Desta forma, aqueles poucos preservam o tempo deles... (pra quê?)... E os outros muitos ficam muito ocupados para pensar no por que de estarem tão ocupados, de não poderem descansar, brincar, ficar sem fazer nada, fazer qualquer coisa que quisessem... Mas, que diferença... Afinal, vive-se só por viver...

E o outro problema é que pensamos. E formulamos perguntas. E podemos perguntar – pra que isso tudo? Pra que viver para morrer? Viver por viver? Viver no vazio? Viver para comer, transar, rir, odiar, sofrer, amar, deixar, perder, ganhar, fazer, construir, destruir, matar, cultivar, cuidar, machucar, nascer... Viver para fazer qualquer coisa... tanto faz... não existem melhores ou piores... todas são apenas formas de ocupar tempo... Por quê?...

Pura contemplação, pura ação, puro vazio... Anjos... Pura existência... Escravos... da vida... que nos quer para ela... que nos quer por querer... por nada, nenhuma razão especial... somente quer, nos quer fazer viver... viver, viver...

terça-feira, 5 de junho de 2012

Pernas cruzadas, a meditar...


Crise de abstinência...
Desejo...
Mordo o lábio, lembrança
Quero-a aqui,
Agora,
Apertada, apertados,
Desmedidos, devorados,
Rasgados, roupas pra todo lado,
Suados, arfantes,
Sentidos delirantes
Carinho, caralho
Entrando, gemendo
Sugando, descendo
Coxas, pelos, cheiros
Cama úmida e desarrumada...
Céu, sensação de mais
De tudo, de nada
Uma pausa e agora...
Tudo 
de novo!

Beso


Haveria algo que diga mais, sem precisar dizer nada?
Por que desperdiçar saliva em palavras...?
Antes, melhor, calar-se, atracar-se, sufocar-se em bocas
Despejar-se em lábios, destroçar-se em dentes
Amarrar-se em línguas, transbordar-se em mel
Inícios, carícias, primeiros caminhos
De delícias e malícias...

(Arte: Rogério Fernandes)

sexta-feira, 1 de junho de 2012



Silêncio... 
Que separa
Que une
Que nada...
Nadar... sob um céu multicolor
O limite entre céu, noite e mar
Pe-le-ar-sa-l-per-to-es-tar
Encontrando-te-me-nós-tu-do
Dizer o sentir, sentir sem dizer,
Quase partidos, um medo desnudo
Mas, não deixar...
Se deixar...
Marear... ir, voltar, encharcar
Areia que evapora fria
Espuma que brinca sumida
Ondinha refletindo o alto
Ventinho que de frio esquenta
Olhar que aperta o corpo
No sem fim assim

Ah, brincando
Olhar brilhando
Musiquinha de adivinha
Pezinhos molhados
Dançando aplausos
Luzinha bela beiramar
Lugares secretos de amar
Desabrochar...

Enamorado pela primeira vez
Toda vez
Que encontro, que olho, que ouço, 
Que chego, que beijo, que aconchego

Sabe, do nada faço-me orvalho
Refresco-me na nuvem
Caio na curva
Derramo-me na tua
Abro-me pra sua
Alma de açúcar
E limão

Uma Cena - Paris, eu te Amo 

Uma música - Time Flies - Lykke Li

(Arte - Rogério Fernandes)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Tira

"Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho"

...

Não ficar só na vontade...
Morder cada mordida e não deixar nem o caroço
Morder cada ferida e sentir o gosto
Morder cada sentida e adentrar no poço
 Morder cada ida, cada osso
Cada fim, cada adeus, cada esforço
Morder o perder, o querer
O outro

Uma música - Leãozinho - Beirut

Ru-ela

 
Brincando de filme de suspense. Exorcisando, abrindo covas, dissolvendo fantasmas, limpando porões, arrancando teias, tudo. Quero este quarto claro, leve, iluminado. Quero este corpo solto, sem dor, disposto, elétrico, magnético, hiperestésico! Quero cortar todos os nervos velhos, sujos, frágeis... exponho minha fragilidade para que quebre... quero que tudo quebre, quero voltar à terra, fazer-me areia... fazer-me grão... até a menor parte... erodir-me, corroer-me, rasgar-me, despedaçar-me, até não sobrar nada... O que sobra? Assusto! Grito! Do pior de mim não tenho medo... enfrento-me... Desfazer tudo que fizeram de mim... tudo que se fez nessa vida, que não fui eu, fui eu, mas sem mim, apenas, eu nesse redemoinho de gentes que vivi sem entender, sem entender-me... montoeiras de poeira - estranho a mim mesmo... confundindo-me, escondendo-me, encarcerando-me em cantos inalcançáveis... quero desestranhar-me... um processo doloroso, um processo amedontrador... mas a única forma de destermer-se, é viver cada medo o mais intenso possível, vivê-lo, sofrê-lo, encará-lo, desafiá-lo, xingá-lo, convidá-lo, abraçá-lo, fuder com ele! Ah, morrer, para viver... Só quando perder todos os medos, posso respirar o ser... Só quando perder tudo... perder, perder, perder... e quando não sobrar mais nada?! Serei tudo! E o que é ser tudo? Todo jeito, todo tipo, todo impulso, todo gênero, todo fazer, todo querer, todo não querer, todo não-tudo, tudo e não-todo...

Uma música - Mobscene - Marilyn Manson

Outra - Medo - Pitty



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Chá e cogumelos


- Desfaço-me... eu era alguém... toda vida penso que sei quem sou... e erro...
- Pois eu sei exatamente quem sou e tudo que quero mostrar
- Sempre me fechei... aprendi que não adiantava me mostrar aos outros, pois não é possível compreender... sempre termina pior... além do mais, tinha a forte sensação de que não fazia sentido perguntar aos outros o que eu deveria fazer... só quem poderia decidir tal sou eu...
- Expor-se aos outros é um desgaste... frustrações e traumas desnecessários... guardar-se, esconder-se, deixar-se no mistério, na bruma... isso sim dá o sabor... Fingir-se, inventar eus quaisquer, ser muito mais do que si mesmo... ir depois do que se imagina... Ser qualquer coisa, menos essa fragilidade de si...
- Não sei... sinto-me distante do que não conheço... quero conhecer, quero ouvir, quero sentir... como sentir sem conhecer? Sinto-me distante... como aproximar-se? 
- Ah, deixe o corpo mostrar esses caminhos... conheça as sensações, o prazer, o êxtase, o gozo! O resto... não significa nada mesmo...
- É?... O mistério... ele existe... ele é real... independente de querermos ou não... há mistério sempre, sempre há algo a desvendar...   E agora... surge novo mistério! Tudo que eu era perdeu-se... não sei mais... as seguranças que tinha, as certezas, desfizeram-se... quero saber o que é a inexistência de segurança sem insegurança... o nada... Ser nada... não é algo que eu esteja provocando... apenas estou me desmanchando... quebrando cada partezinha sem conseguir recompor... e me tornando nada... 
- E o que será você, afinal? O que significará estar com você, nada?
- Então! O silêncio? A presença? O olhar que desabre? O que é não ter nada a dizer? Ou não querer dizer nada? Qualquer coisa que se diz parece tão desnecessário... o que se diz não é o que realmente dissemos... o que queremos expressar... O corpo falaria melhor?
- Ah, sim, o corpo! Abandonar-se no corpo! Um templo, um altar! Sacrifique-o ao suor!
- Mas, preciso sentir... um outro querer também... minha dúvida é se também quer, ou se sou eu quem quer... não quero impor, não quero invadir... Lembrei-me (maldição) da minha primeira sensação de invasão... como sentir-me convidado?! Parece que apenas esperas eu fazer o que eu quero... ou quando fazes, fazes pensando no que eu estou querendo... o que quer?...
- Dúvidas eternas! O que o outro está sentindo?! Como podemos saber? Não adianta, chapa... você só faz se torturar! Só há uma coisa a fazer... ir em frente... fechar os olhos... e levar-se pelas mãos... pela boca... escute o que a boca diz sem dizer... 
- Doença!... quer saber? Não quero mais saber de nada... vou afogar-me no que for... na pele, no cabelo, no vazio, na voz, no olhar que não sei para onde olha... não saber é preciso... não ser é preciso... não nada é preciso! Prever é cegar-se... pensar é matar-se... sentir é viver-se... Sentir o que for para sentir, e não o que se quer sentir... não se pode querer o que não é, só o que é... se é, é... não querer! Não querer!
- Se a onda te esbofeteia, curta o sangue... se o sal te arde os olhos, curta a dor... se o corpo te deixa quieto, curta o contato ameno, sereno, pequeno... 
- Mas não seria isso uma forma de passividade?... Apenas deixar-se? Sem ir?
- Velho, pára de teorizar, vai... se a lagoa tá parada, o vento não reclama, tá!
- Contato... perto... colado... é real... vem... chega... 
- Tá vendo? Já está entrando em transe... é melhor transe-ar... Vai lá, pega ela... aperta bastante... derrete... ferve e toma bebericando...

Uma música - Crimewave - Crystal Castles

des-ser

Do que se pode ter medo?
Se não existe segurança, como existir a insegurança?

Segurar-se pra quê?
Privar-se pra quê?
Poupar-se pra quê?

Se só existe o viver em mudança
Dê vazão aos interiores
Vague...
Seja a folha boaiando de volta ao mar ou à terra...

Se teu impulso é criar, querer, cuidar
Faça...
Não se preocupe com os resultados
Cabe à vida as realizações
Nós somos atores na infinita realização
Atores no improviso,
Sem texto nem rubrica
Cuja direção está dentro
de tudo

Existem todas as direções
Sem certo ou errado
Toda escolha tem seus prazeres e aprendizados
Não se preocupe em escolher
Não se pode não-escolher
Se deixe escolher...
Se deixe...

(Escrevemos não o que somos, mas o que queremos ser)

20/05/12

Aiai



Não tem pra onde...
Vai com o vento...
Da perda nasce o tempo
Perdendo, nascemos...
A cada folha caída, descobrimos o firmamento
Olhar ao inverso é recriação do-ido
Essas migalhas de pão comido
De pássaros fugidos
De rios fluídos
De pesos despossuídos

A estação passou
Desabrocha a flor
Cheire, grogue...
Revire os-ói 
Tudo que é bom foi
Tudo que é melhor é
Assim, nós-dois
Sem depois
Vamolá
Cá-té tarde
Chega, vem
Dança que nem
Danada zen
Que ri sem
Motivo qualquer

Aiai, querida
Cócegas na memória
Cura da ferida
Transe na fornalha
Desta alma-carne viva
Dana no meu peito
Pulsação bendita
Sabe Jess que jeito
Ser tanto e sem medida
Porém, contudo
Equilíbrio - bebo
Guloso
Ditoso
Den-gozo

Uma música - You - Gold Panda

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ao céu



Aiai, você... mulher´nina... teu nariz me sorri... teu sorriso me pinta de luz... teus olhos me encharcam de desejo e fantasia... sabe, fico doido só de sentir-pensar... O capim-santo-com-acerola-e-limão refresca o toque da pele... uma natureza terna nasce dos lençóis... naturalmente, estamos a sós... a luz apagada... o trem desenfreado, pois o maquinista foi dançar... os trilhos foram retirados da praia suada ... há apenas a líquido caminho do cheiro e do poro... A voz, a nuca, os dedos mordidos, a gravidade invertida, os recantos, os contos, os contatos... os imediatos espasmos... Entonteia-me... como um balão tão alto que falta ar nas pernas... nas forças... no passo... incendeia-me... como o ar quente que sobe... flutua... desnorteia-me, como ser guiado pelo vento, sem controle, sem direção, como a nuvem úmica, límpida, translúcida... Acompanha-me, acompanho-te... como aves que superam o atrito do vento juntas, unidas, conectadas... me puxas, te puxo... pra perto, pra junto... aperto... atento...

Síndrome de Nazcalina

Sem chão, sem raiz, sem referência, sem ponto de partida ou de parada, sem dó, sem ré, sem mi, sinto uma angústia partida, rachada, fumegante, como um chá bem quente transbordando nos dedos, na garganta, nos nervos... Parar! Só quero parar! Rápido, tão rápido! O tempo se desmancha ante meu olhar, meu sentir. Sinto uma implosão chegando, como uma grande erupção dentro do sangue... Perdido, desorientado, indo para todos os lados e lado nenhum... o que quero é demais, é tanto, me inunda, me derruba, me encharca... Soterrado por mim mesmo, tento respirar, encontrar ar, amar... a-mar... a espuma do (a)mar me desembaraça, me enlaça, me enleva, me desespera... mas, na manhã seguinte, a ânsia pelo caminho me faz correr... e correndo, tropeço nos próprios cadaços... mas como, se estou descalço?... E a cada queda, desanimo, mas com o vento no rosto reanimo! E subo e desço, como uma colina... quero e desquero, como a maré... a lua me ilumina um caminho qualquer... mas o escuro às vezes toma a vista, me perco... desoriento... desgarro... de novo e de novo... rodo... uma ciranda só no aberto do tempo... do espaço desperto... deserto fértil... o isolamento unido, repleto...

Nada sei... mas me custa aprender esse desaber...

Uma música - A Candle´s Fire - Beirut

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Desprendendo a vida...

Desmecanizando os mecanismos analíticos das sensações pós/neo-traumati(bi)zânticas...
São recursos intra-psíquicos anti-dolores comprovadamente válidos, mas eventualmente chatos, pois demasiado investigativos...
Prever o espírito meteoro-lógico das angústias cadentes, de modo a antecipar os erros e curá-los antes de existirem parece, sim, uma estratégia enxadrística conveniente, que, no entanto, pode ser dispensável nos tempos de ares livres, de modo a libertar os ventos frios até as regiões mais aquecidas do continente orgânico...
Demasiadas conjecturas contra-preocupantes, hipóteses micro-situacionais, desenvolvimento de cenários e movimentos altamente articulados por elaboradas definições psicanalíticas resulta em um plano de enlouquecimento precoce das eletrizantes sensações dérmicas e cerebrais, endorfínicas e energéticas, desestabilizando as possibilidades tranquilas de um passeio leve pela vida breve... 

Logo, hei de resetar o sistema operativo de observação multi-associativa relacional de lembranças e futuros, de modo a viver unicamente aqui, sem esperar nada, sem querer nada, apenas eu e tudo, nós e o mundo, o aqui e o agora, sem existir amanhãs nem ontens que elevem demasiadamente os níveis de desejo e percepção no tempo presente, como forma desregulada de evitar arrependimentos...

Sim, a totalidade se almeja, a ampla sensação se beija, a maior emoção emerge, a líquida razão prossegue, os ideias se quebram, pois só o nada é maleável o suficiente para cada instante que se cria.

A plenitudade não é a pura satisfação... é o libertar-se da insatisfação... respirar o ar, sentir a tez, ver o olhar, fazer o caminho caminhando... 

Uma música - Cena - Mallu Magalhães

terça-feira, 1 de maio de 2012

Whatever Works! (o que quer que funcione!)

Só me arrependo do que não faço...
E, felizmente, faz anos que não me arrependo de algo que deixei de fazer...
(consegui, sempre, compreender os porquês dos feitos...)

Tenho uma confiança calma nas decisões tomadas...
Não carrego culpas nem tormentos...
Não por um ego, como se não falhasse ou errasse, mas simplesmente porque aconteceram...
A vida foi do jeito que era para ser...
E eu, sofrendo e regozijando, vivi...
Errando, acertei, acertando, errei,
E sou o resultado inacabado dessa constante decisão
Que se toma a todo instante...

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Deixa ser como será...



És qualquer mágica
brincadeira de mãos
Ar que sobe
Turbilhão de emoção
Terra no corpo
Nascer e sorrir
A insônia linda
O não-querer dormir

És mais que pele
Raízes e frutos
És o morder da polpa
E o escorrer da boca

O suor de açúcar
O prazer de verão
A alegria da abelha
Tequila com limão
O vibrar doidamente
Arritmia, explosão

És viciante, delícia
A pura sensação
A perda de consciência
N'outra dimensão
O universo
em toda direção
a beleza de tudo
o coração...


Ganache


Um encontro de rios e mar...
Uma semente flutuando no oceano...
De infinitos lados, afetos sem fim...
O soltar, soltar, soltar...
Nas mãos dadas, doidas, sin dudas...
Ah, menos palavras, mais caramelos
O belo e o sublime daquele russo demorado
Indescritivelmente longos raios de luz
Refletidos no fundo dos olhos de lua negra cheia
Tudo que é, foi, será... o espaço-tempo desmanchado
Em ganache de micro-súplicas
Ânsias, unhas, prazeres desmedidos
O devagarinho conhecer do ínfimo
Linhas, tons de azul, matizes sutis
dando voltas e mais voltas no meu nariz
...
Saio do chão, não há chão...
É mais do que a gravidade pode suportar
A explicação embaralhou-se por entre as palavras
A mente eclipsou, deslumbrou o mundo
E o melhor, é que não assisto
Insisto, misto, mergulho
mergulho tão fundo no teu segundo
no teu centímetro, no teu mundo
como morrer, 
"morrer é como mergulhar n'um lago profundo n'um dia quente... Há o choque da mudança brusca e fria, a dor, por um segundo; e depois a aceitação é o nadar na realidade"... 

Pergunta-me se morreria... Respondo que não há mais diferença
Não posso morrer, nem que quisesse, pois a vida fundiu-se
em tudo que há... vivo e morto são palavras vazias... As palavras morreram,
Só restou o (a)mar...

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

Cecília Meireles

_____________________________________

Desta vez o frio na pele não doeu
porque o espírito ardia de afeto

Desta vez a dança foi de dois,
entrelaçados em uma sincronia leve e alegre,
ao invés daquele torpor que me acomete
de isolameneto, aquela introspecção fugidia
de olhos fechados que se bastam

As dúvidas angustiosas se curaram ali mesmo,
pelo cuidado da entrega...
Resolveu e conseguiu não se ator-doer
mas antes, abandonar-se na brincadeira dela...

A surpreendente cena
por um momeneto tornou-o platéia quase ausente,
mas em seguida, convidado, aceitou...
aceitou tão fortemente que cerrou os dentes
os dedos e a pulsação...

O toque chegou cada vez mais na pele,
os dedos sentiram mais, o calor subiu
estava lá, de fato... nem menos, mais...

A dança, a música, como uma substância
pulou do lugar dos julgamentos e pensamentos vãos...
levando-o/nos onde o que importa é sentir

Após suar todas as fraquezas
tóxicas, foram rumo ao amanhecer do aqui

N'uma madrugada se desconbriram mais do que 
jamais esperavam... 
Dizer coisas difíceis é libertador...
Guardar em si certas trevas não é nada bom
O partilhar ilumina a noite e as nuvens de baunilha
adocicam as horas úmidas do espírito

Um dia imendado n'outro
incontáveis momentos - êxtase... 

Noções


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

Cecília Meireles 

Uma música - Mistério do Planeta - Novos Baianos