quinta-feira, 9 de outubro de 2014

desfaz


Observo a realidade que existe inexistindo
Surgindo a cada segundo repentinamente
Espalhando-se pelo vazio fonte de tudo
Como energia, frequência, cor e som
Através de dimensões que se interligam

Há de se concluir que a continuidade é uma ilusão
Deixamos de existir a cada instante
O passado é uma ficção biográfica
A personalidade é um condicionamento
A maior liberdade é ser livre de si mesmo/a

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Manifesto de libertação das bucetas aladas, dos caralhos de asa e dos cus voadores


Todo foder ao tesão!
Grito explosivo impossível de proibir
Contra toda opressora castração
E toda dominação broxante
Bucetas, caralhos e cus do mundo
Asas orgásticas avante


Livre leve lascivamente
Abertas pernas e as mentes
Ante o gozo ninguém pode resistir
Abaixo às calças! e venha compartir
Um tanto muito da sua pele inteira
Pois o corpo é todo genital

E sexo utópico é a cura para todo mal...

30 de julho

Desfazendo gêneros...


Homem e mulher, masculino e feminino... binarismos...
Maniqueismos?... Oposições?... Reducionismos?...

O que significam esses conceitos? O que é um homem? O que é uma mulher? O que é masculino e feminino?

Vivendo numa sociedade dominada pelo machismo, o que implica um determinado conceito de homem e masculinidade dominantes que implica, pela força da opressão, em um determinado conceito de mulher e feminino dominado, como podemos entender e/ou aceitar esses conceitos?

Recuso, reverto, inverto, perverto... 

O que é forte, rude, grosseirx, pesadx, rígidx, durx, frix, insensível, tolx, sérix, tosco, cai, desfaz... o que é fracx, macix, suave, leve, quente, sensível, sábix, festivx, riso, belx, vai, toma, lambe, alcança e dança... 

Rompo separações, quebro muros, destruo janelas, rasgo roupas, mordo peles, causo suor e gozo, pronto.

Grito - The End of You Too - Metronomy
Imagem - Ramon Cavalcante 

Contra)(dições...


Quem não tem? O que não tem? Não existem dualidades, mas contradições... Paradoxos, que integram impossivelmente... caminhos pelas pedras, quebras pelos redemoinhos, trevas pelos brilhos, cacos entre nossos casos...

Mar-raso-abissal [ céu-azul-tempestuoso [ faz sol faz chuva [ aqui agora [ dentro fora do meu cor-ação... 
O que bate dentro é a tinta que tece este som inquieto de palavras invisíveis coreografadas por serem irresistíveis...

Só me interessa o inevitável. Todo o resto, eu evito.
Só me resta o impossível. Todo o resto já sou.
Só me cabe a transgressão. Abandonei o controle e o limite...

Segura minha mão - pouse nela sua vida
Cause em mim você
umedeça escorra cresça
junto longe tudo gozo

Gemido - Reservoir - Metronomy

domingo, 14 de setembro de 2014

Ira


Contatos, relações, ausências, instantes, proximidades, abismos... Direções, movimentos, afastamento, ilusão, brincadeira, sugestão... 

Ela¹: Tão sorridente, olhos tão certeiros e redondos, presença tão alegre e cativante que inevitável é não chegar-lhe e entregar o que ela pedir. Mas, prudência ou pura impaciência, não se engane, tudo que ela te dá se desmancha no ar. Ela é o próprio furacão, cuja passagem é avassaladora, mas segue seu caminho sem que ninguém possa impedir (e assim deve ser), tropicalíssima. 

Ela²: Ri. Ri gostosamente, riso fácil, única ou principal ruptura do jeito calmo, comedido, suave dela. Olhos de floresta, cabelos de fios de água, conversa como a madrugada, em busca da luz de cada estrela vagando erma pelo infinito. Qual a medida do toque de sua pele? Qual a possibilidade primaveril de seu desejo? Desnecessário pensar. As flores nascem e se vão, de todo forma.

Ele³: Tanto carinho por pura contradição. De sua falta dá o que não tem. Abunda o que desconhece, tão longínquo se tornou a memória dos cuidados que recebeu. Se antes, ser mal-acostumado, pedia, queria, catava gestos afetivos nos meridianos de sua pele, hoje é terra arrasada, de flores do campo filhas da ausência de cuidado, do descaso,  da liberdade pura do ser sem. Às vezes mente-pensa que dá como sugestão do que gostaria de receber. Mas, não receberá. Quem recebe dele se contenta, desfruta... e esquece... ou devolve qualquer coisa que, ante o acúmulo insensível, insignifica-se. Navega num barco chamado autonomia, em que, para onde se olha vê-se tão somente mar, sal e sol. Pele ressecada, cabelo encaracolado como os crustáceos que fazem de si mesmos casas ambulantes, couraças belas, delicadas, mas fronteiras.

Mira Ira - Karina Buhr

Imagem - Chico Ludermir

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Beduíno-montanhês



Processos de transformação, ciclos de vida e morte, caminhos diversos, de tempos, ritmos, temperaturas particulares. 

Num tempo longínquo passou muitas eras no calor agradável dos trópicos afetos. Foram lugares de muitas tempestades tropicais, sim, devastações, conflitos, escassez provocada, é certo, mas também de boas colheitas, aprendizados rachantes e poderosos, pazes e ninhos.

Mudou. Mudou-se.

Saiu do trópico (ou este saiu dele). 

Alguma coisa como as planícies patagônicas de gentes e sentimentos tomou-lhe de súbito. Lugares frios em todas as estações, inóspito, irrespirável, isolador. Desavisado, inesperado, o novo clima existencial, tão antitropical, o arrasou, despreparado que estava para as provações que se sucederam. Não sabia como se cuidar, se proteger, se alimentar, respirar, se aquecer naquele universo vazio, seco e frio, tão grande onde nada se via, tão quieto que nada se sentia.

Tão só que eremitou-se, tão nada que monasticou-se. E morreu.

Quando novamente acordou, preveniu-se: aprender a viver com o cinza gelo da montanha deserta. E intrinsecou-se, enregelando-se, enrigecendo, insensibilizando o que não tinha mesmo o que sentir.

Três ou quatro nesgas de sol, de temperatura pouco mais aprazível, rapidamente iludiu-o. E tão rapidamente desapareceram que, qualquer sol inútil quer agora desperceber... Inútil, prefere desesperançar-se de sol, tão mais premente e tangível é o nublado inquebrável dessa atmosfera austral. E segue pela paisagem sem mais nada a fazer, criando só, por distração, compartilhando agoras pelo absurdo apenas, jogando sementes por ironia e teimosia marota mastigada com tédio, deixando-se ser por indefinição... Desfazendo-se até inexistir... Inexistência pura como o infinito...

Soa - Erik Satie - Gymnopédie No.1

Ódio


Quando quero me desfazer do que me faz mal, do que me incomoda, daquilo para o qual não tenho mais paciência, seja um sentimento, uma lembrança, uma vontade ou expectativa, tenho dois caminhos. O primeiro é forçar-me a ignorar e esquecer tal elemento de agonia, provocar-lhe a inexistência. 

O segundo é odiar.

Há coisas ou emoções ou vontades ou o que quer que nos persiga, que de tal forma se entranhou em nossos porões e abismos, nossas retaguardas e indefesas, que o caminho suave do esquecimento e da ignorância não basta, não funciona. A cada nível de eliminação memorial, reaparece num lugar mais além, mais aquém, mais dentro, mais inferno.

Nesses casos, mais graves e sérios (e sério para mim é uma palavra terrível, tudo que é sério é péssimo), resta a segunda opção, mais diretiva, incisiva, imperativa. É preciso agir pela ação, não pela omissão. Atacar, ao invés de desaparecer. Destruir. Matar. Morrer.

Não deixa de ser um processo espontâneo e inevitável. Se o esquecimento não funciona, aquilo que incomodava, que agoniava, passa a irritar, impacientar de forma intensa, como uma alergia, como uma praga, um mosquito insuportável de proporções humanas que não nos deixa dormir e precisa morrer.

O que eu chamo de ódio é um processo de destruição intensa. É uma energia de morte sobre algo indesejado. É, também, um método de cuidado, afinal. De cura. Odeio, para o próprio bem.

Cansa, esgota, demanda energias penosas, o ódio em si não faz o bem, mas o prepara. Que jeito?

Findo o ódio, findo o objeto ou direção do ódio, terra limpa e arrasada, mas agora disponível para florescer, revive-se.

E, de preferência, para além dos mecanismos e caminhos de cura e tratamento, intensificar os caminhos e mecanismos de prevenção, de autocuidado a priori, prévios, permanentes. Evitar tudo que causa ódio, já esquecer tudo que merecerá ser esquecido. 

Desintoxicar a (im)paciência...
Caminhar...

Música - The Storm - Patrick Watson 
Imagem - Joe Mangrum

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Simples?

Quem acha que sabe, acha que pode afirmar... e para isso, utiliza muitas palavras...
Quem acha que não sabe, prefere perguntar... e para isso, precisa de poucas palavras...

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Um

Uma cama, um parque, uma grama, uma tarde
Uma areia, uma calma, uma onda, um sorvete
Um cheiro, um chamego, uma leitura em voz alta, uns pezinhos
Um calor de corpo, um sono de amor, um banho apertado, umas velas iluminando o quarto
Umas canções compartidas, umas palavras no ouvido, umas mordidas safadas, um prazer impossível
Um cantinho de sabores, umas lembranças colecionadas, umas roupas, um repouso
Um presente sentido, uma viagem deitada, uma aventura de vida, um ser mais,
mais nada...

ciente...

Explicação 

O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.) 


Cecília Meireles

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Des-ti-lo




- Falta não é a palavra, eu chamaria de demanda. Existe no humano, ou ao menos em mim, uma demanda, diria imprescindível, por afetividade, relação profunda, carinho e cuidado...
- É uma boa forma de encarar... Nos livra dessa dependência de umx outrx que está além do alcance... Nos guardamos na nossa compreensão e na nossa própria autovivência...
- Na real, é uma questão de cansaço... sentir-se precisando do outro cansa. Só nós mesmos nos revigoramos. Só nosso estar próprio nos realimenta a paciência de existir. Cada instante em que deixamos de seguir-nos por um outro que não está aqui, é um instante de impaciência, de disparate, de despropósito.
- É como uma destilação de si mesmo. A cada instante, nos tornamos um ser mais concentrado de nós mesmos, acumulando-nos e depurando-nos, desfazendo-nos dos processos tóxicos, percorrendo serpentinas frias que evaporam tudo que for danoso.
- Justo.

Premonição


Sigo vagando pelo deserto
Fazendo minha própria sombra
E assoprando eu mesmo o vento
Sem tempo para perder
com ilusões esverdeadas
ou melhor,
sem paciência.

Agora próprio do deserto,
Intuição subterrânea de lençóis de água
Ando pés leves na areia livre
Abandonando os pesos na imensidão da vista.

Chá de esquecimento



Eu realmente me esqueço... Ou é isso que o inconsciente busca fazer...
 

(meu inconsciente e consciente fazem um trabalho colaborativo, na medida possível do diálogo obscuro entre eles)

É ter a sensação real de que parece que nunca aconteceu... É um sentir aquela memória, aquele passado tão distante no tempo que se torna ficção, ou melhor, se torna vácuo...

É uma forma de autocuidado, talvez, de autopreservação, de medida emergencial existencial para o bem-viver... Porque esse passado que nos impregna, que nos acomete quando não é chamado, que nos perturba, cheio de saudosismo, de pesar doído, de sensação de perda do que nunca tivemos, de crise de abstinência da presença que amamos e já não está mais aqui... tudo isso não é bem-viver... Então, por um período, afunda-se tudo isso, sem nem mesmo perceber, num breu de inexistência provocada.

Provoca-se, sim, a inexistência. Deixa de existir tudo o que foi, já que, afinal, não é mais.

(é assim que funciona o diálogo obscuro do consciente com o inconsciente: por diversas vezes os vícios mentais, espirituais, emocionais, nos afligem. Sentimos a tristeza pela alegria não renovada, pelo aconchego que se tornou distância, pelo amor que virou ausência. E repetidamente nos dizemos: pare com isso, esqueça, não importa, passou! Pense em outra coisa! Cansei! Ai, que saco! Pare! Até que, de repente, para. Some)

E, uma vez, estranhamente, ao rever a pessoa... nada vem. Desconhecida? Estranha? Aleatória? Não importa. Nem isso importa. Tudo perde por completo a importância, no que se refere a esta pessoa. Ela perde todo o peso em nós, vai-se em nós, assim como se foi, de fato.

É, como disse, um processo emergencial, imediato. Enquanto não estamos bem, enquanto estamos frágeis, enquanto cuidamos do que somos só conosco. Quando estamos bem de novo, renovados de amor, revividos de sentir, requeridos por outrxs, ou quando já faz tanto tempo que realmente nem nos reconhecemos naquela relação que se foi, o efeito do inexistir passa e podemos tranquilamente, sem dor nem pudor, relembrar, renarrar para nós tudo que foi, de bom, de alegre, de terno. Recriar e reviver a experiência única e significativa que esta pessoa nos representou. 


Que nem Kalu - Versos que compomos na Estrada

Imagem: Iris Scott

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Cuido eu...


Que cada umx faça exatamente o que quiser, como quiser, da maneira que achar melhor
E como isto me afeta, se para o bem ou para o mal, cuido eu...
Assumo a responsabilidade pelos meus sentimentos, meus sofrimentos, meus contentamentos...
Não posso atribuir esta responsabilidade a umx outrx... 

Afinal, como pode x outrx ter total compreensão do que me causa?
Só eu posso ter ou buscar essa compreensão...

O que fizer mal, que se corte a raiz do mal...
Seja afastando, seja ressignificando, seja me transformando ou transformando meu redor.
O que fizer bem, que se cultive o bem...
Sou inteiramente dado ao cuidado, ao carinho e ao afeto.

Tal não significa que não seja fundamental a busca da compreensão dx outrx
Saber o que elx está sentindo, vivendo, querendo, é parte do meu estar em relação...
E x outrx poderia buscar essa compreensão comigo a sua maneira...
Mas não está ao meu alcance garantir a realização deste gesto e sua compreensão para comigo,
Logo, não posso contar com isso...

Conto, assim, com a potencial e mais provável incompreensão, com um fazer exatamente como quiser, da maneira que achar melhor...
Ainda que esta maneira possa e venha a me fazer mal...
E então, caberá a mim prevenir ou remediar...
Autofazer-me e autogerir-me de forma a não me permitir sofrer pelos fazeres dx outrx
E autocuidar-me quando, inevitavelmente, isto se suceder.

Fox in the snow - Belle and Sebastian

Melan...chovia...


A chuva apenas turva o olhar ao longe.
Não distinguimos o que está a nossa frente.
Nem o que está a nossa volta.
Tropeçamos.
Às vezes caímos, e uma dor nos acerta.
A chuva apenas esfria temporariamente.
A roupa molhada causa um desconforto, 
quando o que queríamos era estar quentes
e aconchegados.
A chuva lava, mas também suja. 
Dá um certo ar de descaso aos quintais
e ao espírito. 
A chuva estimula a tristeza, 
ou a simples perda do movimento.
Nos provoca uma ânsia de esconder-se
e de lugares escuros.
Mas a chuva, assim como veio, se vai...
Alimenta as raízes que ignoramos,
fortalecendo os subterrâneos,
E abre-se novamente o céu
e o horizonte de infinita vista.

Take Care - Beach House

domingo, 27 de julho de 2014

Acorda



Acorda ao meio dia ao lado dela. Acordam juntos, como que sincronizados. Deitados de lado, um de frente pro outro, a perna dela sobre a cintura dele, a dele entre as pernas dela, ele começa a admirá-la, enquanto ela ainda está de olhos fechados, preguiçosamente belos. A beleza dela é um espanto. Um espanto que expande-se a cada dia. Que toma conta do corpo dele como um céu que aos poucos vai-se nublando, aquelas nuvens de tempestade enormes avançando por toda a vastidão de azul, até trovoar por dentro, de emoção, de encanto, de estupefação. Ou o inverso, como se o azul fosse uma grande energia que afugenta toda o cinza, todo o frio, e aos poucos reanimasse o mundo com raios de sol dourados e a profundeza infinita do horizonte agora limpo de nuvens. Os lábios dele revelam um sorriso secreto, de quem se lembra que meses antes nem mesmo a achava bonita... Ou achava, mas, não uma beleza que o impactasse como agora o fazia. Como pode? Como uma mesma pessoa pode se transformar de forma tão intensa diante dos olhos que olham para fora e para dentro? Mais uma vez confirma-se, aí, como o que ele entende por beleza, mais do que a imagem cuja luz percebem seus olhos, é a relação que se estabelece entre o sentir, o ser, o estar, a energia que se enlaça entre os dois. Não que ela não fosse tão bonita quanto é agora, diante dele. Mas, provavelmente, ele não percebesse, não se desse conta, não estivesse tão atento quanto está agora, absorvidamente atento para quem ela é, o que ela sente, o que ela provoca e balança nele. Enquanto ela está de olhos fechados, como que degustando ser observada por ele, ou observando-o de forma mais sutil e subterrânea, ele a contempla, cada traço de seu rosto, de sua boca, de seu nariz, suas sobrancelhas, os detalhes de sua pele, seus cabelos castanhos ora escuros, ora claros, conforme a luz, conforme a maneira como se derramam em seu rosto. Sua mão agora pousa sobre o rosto dela, acariciando-a. Faz-lhe carinho na bochecha, no queixo, no pescoço, na orelha, nos cabelos, e assim continua, por um longo tempo. Uma vida sem carinho não merece ser vivida, pensa ele. O carinho é para ele como uma função biológica, uma necessidade. Quando está com alguém que lhe cativa, que lhe é importante, parece-lhe simplesmente absurdo não estar em contato com a pele querida, não aproveitar os momentos todos que existem para cultivar as gostosas sensações e prazeres que cada parte da pele, do corpo podem sentir, prazeres suaves, calmos, delicados, ou excitantes, despertantes, provocantes. Se aproxima um pouco mais dela, colando seu corpo ao dela. Sua mão envolve a cintura dela, apertando-a contra seu corpo. Acaricia-lhe as costas, sentindo a gostosa linha da espinha, e aquelas covinhas na base da lombar que tanto o excita. E assim que ela abre os olhos, como que atirando-lhe uma flecha de calor com aquele olhar castanho, ele a beija. E os olhos tornam-se a fechar-se, e eles conversam longamente neste silêncio apenas perturbado pelo som dos lábios que às vezes estalam. ´Bom dia, bonita. ´Bom dia, amor. ´Tão tão bom acordar do seu lado. E te ver assim, de cabelos esvoaçantes e descabelados, linda de morrer. Dá vontade de ficar pra sempre muito nesta cama, nesta luz doida que atravessa a janela, nesse tempo que parece que nunca mais passará, sempre nesta manhã ou tarde ou noite que nem sei mais qual é... (ela sorri com jeito bobo) ´Eu tive um sonho essa noite. Sonhava que estávamos num avião, daqueles a hélice, com uma cabine externa, sabe, em que nossas cabeças ficam do lado de fora, com aqueles óculos de aviador, olhando o céu inteiro. Você estava abraçada em mim, e nós brincávamos de entrar e sair das nuvens, de dar voltas malucas, ficar de cabeça pra baixo, e ir aonde quer que a gente quisesse ir. Aí a gente pousava perto de uma praia e transava em baixo da asa, na areia, sobre uma colcha bem macia. Dizendo isso, ele fez ela ficar sobre ele, e voltaram a se beijar. Cada beijo aumentava as vontades, que acordavam felizes. E suavemente seus corpos se encontram. E despertam. E brincam e animam e desfrutam, lentamente, em um ritmo próximo da manhã.. Gozam, suam, exaurem-se novamente, deitam-se, segurando-se as mãos, respiração acelerada, sob o vento refrescante do ventilador ao lado, descansando os corpos, celebrando um pouco mais o estar junto, fazendo o dia um pouco mais amor.

Pequenas Margaridas - Nana

quarta-feira, 23 de julho de 2014

precipício...

 
Chegar perto é uma ousadia. Ousar encostar, um impropério para todos os seres sérios, sóbrios... pobres. Sentir pele por pele, pelo por pelo, tato por tato, que desacato. Insensato. Nisso desato. Neste ato, sinto tanto que abro, deixo, quero, retribuo, incentivo, motivo, viro riso, floresço, cresço...

A beleza-atração, a lindeza-gravidade, a estética-humana, muito mais que um véu de imagem, se faz nos gestos da relação, das coragens, das viagens para dentro um do outro, nas conversas dos silêncios profundos que ecoam onde nos é mais sensível...

O mistério único que se partilha no código secreto do laço criado no próprio mistério que avançou os limites do previsto fecunda tão fundo que depois é difícil arrancar, não dá, essa nebulosa de afetos cheios de nós... 

O inusitado é o mais precipítico caminho em que dois podem se encontrar... um encontro no inusitado é mais fatal que um nascer-do-sol, que uma estrela-cadente, que um beijo vindo do escuro. O inusitado tem a cor da tarde imprecisa, e é mais sôfrego que a flor recém-nascida...

Karen O - Arcade Fire - Trilha sonora de Her

rasgar - ir além do previsível...


Dicionário (Im)próprio de Palavras Mudadas:

Rarefeito - sensação muito singular, significativa e insubstituível...

Exasperante - uma proximidade tão grande, tão forte, que explode...

Desexistir - morrer para nascer...

Amar - imenso gigantesco corpo feminino de infinito marinho salgado curador forte incansável de tantas cores quanto existem entre o azul, o verde, o negro-lua e o branco-espuma...

Inusitado - caminho precipítico donde se cai pra dentro um do outro... 

Cair - sair do lugar em que estávamos agora, mover-se, mudar-se...

Compartir - deixar ir, ir embora, junto...

rarefeitos...


Porque cada pessoa é única e insubstituível
é que nasce, talvez até inevitavelmente, algum apego...
Um apego de querer mais, de querer perto
aquele bem-estar, alegria e sensação reconfortante 
que só nos teus braços posso encontrar;
em nenhum outro lugar...

Porque cada pessoa é única e insubstituível
é que não estar perto de quem amamos,
por mais que sintamos e saibamos que em tudo há amor,
nos faz sentir tanta falta... porque não nos basta o amor que há em tudo...
se queremos este amor único e insubstituível que cultivamos, 
cuidamos e cuida (ou cuidou) de nós...

Porque cada pessoa é única e insubstituível
é que há tanto amor em tudo, distintos, significativos, não-aleatórios,
cada amor que é próprio, é querido por infinitas razões de desrazão, 
por infinitos não sei porquê,
e que nos faz, ou me faz, querer amar ainda mais
e te fazer tanto mais bem
quanto eu te sinto única e insubstituível...

Photograph - Arcade Fire - Trilha sonora do filme Her

terça-feira, 22 de julho de 2014

Toque


Existem muitos receios ao toque...
Por que a pele também tem muros?
Por que deitar no colo demanda protocolos?
Ou segurar na mão de alguém desconforta?
Um mundo de separados
Em que a violência impregnou a intenção dos gestos
e nos tornou inseguros e cautelosos
ante o movimento de proximidade dx outrx

Em busca de um estado de coisas,
Ou no caminho de promovê-lo,
em que a pele seja um caminho silvestre
de flores de tantos perfumes
e trilhas para percorrermos
com empatia a sensação dx outrx
promovendo prazeres suaves e/ou intensos
a cada encontro de dedos
em comunicação sincera e respeito
sabendo quando e onde fazê-lo

Caminhando em forma de abundância
de carinho cachoeirando dos limites
de nosso corpo que demanda outro corpo
de nosso ser que se materializa no toque

Música - Aurora - Björk

Imagem de Rogério Fernandes