sábado, 17 de outubro de 2015

13 Contos Nus (Parte 2)

VIII

O box do banheiro não era apertado, era na medida dos nossos corpos. Era moldado para manter nossos corpos tão próximos quanto possível, quanto querível, quanto terrível. A água logo evaporava de nossos corpos enquanto fazíamos nossos intervalos sensuais entre cada chuveirada. Substituída por suor e gozo, nossas peles ensaboadas se roçavam, esfregavam, bailavam, pressionadas contra a parede, nos pressionando um contra o outro, um a favor do outro, um em fervor do outro. À luz de velas, à luz de lâmpada surtada que apagava sozinha, eu dava banho em você, você dava banho em mim. Te cuidar, perfumar cada parte de teu corpo, te inundar, segurar tuas pernas tremendo enquanto te bulino, te fascino, te sinto. Ser cuidado, sentir meu sangue extrapolando meu sentir, ver correrem-se as horas nesses banhos sem fim. Te-me-nos banhar.

IX

Ver o sol nascer pela janela, enquanto nós, esgotados, encharcamos a cama de suor e êxtase. Acordar às 4h40 completamente duro sob a luz vermelha e te possuir por incontáveis eras. Deitar, exausto, esvaziado, no teu colo - melhor colo, em completa paz e harmonia com o universo e com teu corpo, e dormir como se nunca tivesse sido insone na vida. Nunca dormi tão bem na vida. Teu perfume me hipnotizava como éter e incenso. Tua pele me aconchegava até o último poro, o último nervo, o último sentido de prazer. Te fazer dormir usando os métodos mais baixos, desonestos, vis - como acarinhar entre suas sobrancelhas, massagear tuas orelhas, seduzir tuas forças a se abandonarem nos meus braços. Ou te extorquir todas as forças em incessantes exercícios orgásticos. Drenar até teu último orgasmo - levando teu corpo ao colapso do descanso. Nunca dormi tão bem - nunca acordei tão bem - nunca sonhei tão bem um sonho acordado.

X

A vida se abre para quem está aberto para a vida. E tudo vale a pena quando o senso de humor não é pequeno. E estamos dispostos a tirar de tudo ao menos um pouco de suco, seja da pedra, de uma peça de merda, ou seja lá o que a vida nos dá.

Atrasados, excitados, tentando transar cada segundo que resta antes de sair correndo, partimos para a Casa de Teatro. Chegamos atrasados, mas infelizmente nos deixam entrar. E sentados, diante do palco, esperamos algo acontecer, enquanto um punhado de gentes arrastam-se pelo palco produzindo ruídos inteligíveis. Após quarenta minutos de incompreensão, a espera de qualquer coisa que fosse (!), arredamos o pé! Afinal, a vida é muito curta pra ver a peça passar a toa.

Ao sair, muito melhor, um papo crítica-teatral com um querido trampeiro da casa, e após rirmos muito e pormos nosso primeiro pé na calçada da rua, ouvimos a ladainha de Angola nos chamar. E como não temos medo nem vergonha de sermos felizes, subimos as escadas, porque escada de bairro antigo cultural sempre dá em pico astral. E somos presenteados com ofertas de impressões bonitas sobre a vida e resistência de viver na capoeira dos antigos e dos atuais. E ali mesmo, entre papos negros, recebemos o próximo chamado – hoje é quinta do samba! – Num é que é mesmo? E para lá vamos e nos deparamos com aquela casa grande e velha cheia de quadros aberta para recém-chegados. E curtimos a surpresa de imagens fixas brilhantes abstratas naturezas cores artes e inspirações. E rodamos pelo samba charlando bens-me-quer-demais-eu-e-tu. E voltamos para casa e fomos mais amor-com-tesão.

XI

E nesse fluxo intenso de sentir e viver mais e deixar-se ir para onde a correnteza nos leva sem medo de ousar e de braços abertos para o vento e mariposas existenciais nos deparamos numa manhã de Lunes com uma parada parada na beira da rota do Sol. E nos demoramos por lá, porque o bonde custa a chegar. E aproveitamos para ler sobre bucetas e libertações enquanto não chega a carroça. E quando estamos prestes a desistir – levantados já em direção ao embora – o agora chega e dá um basta na espera: pois que aparece uma pessoa inusitada tatuada de navalhas e diabas que é sempre muito bem vinda no abraço e no papo. E nesse inusitado abrem-se tecidos aéreos para dias seguintes de novas experiências e contam-se histórias de trans-prostitutas circenses alemãs e outras artes de viver para as novas pós-modernidades.

E afinal chega a balsa terrestre túnel até a Terra da Tapioca Prometida e nela dão-se novos encuentros castellanos con una gente de mui lejo – umas personas buenas de una origene questionable.

E afinal nosso rio deságua no mar de nosso destino e nos encaminhamos pro nosso palco de grama alheia e lá nos deliciamos com a boia mais gourmet que uma vasilha de sorvete reutilizada já conheceu. Bailar na água do mar num vai-e-vem-entra-e-sai-gostoso-que-ninguém-tá-vendo-tão-só-pensando-maldade é bom demais e brincamos e contemplamos o pôr-do-sol e nos queremos tanto e peregrinamos para a Última Tapioca do Deserto, aquela partilhada pelo Buda na última Ceia dos Três Tigres Trevosudos.

Alcançada a iluminação pela ingestão súbita daquela divindade de macaxeira feita em forno a lenha artesanal, retornamos ao lar para novos encontros e sabedorias ancestrais. E dias depois ascendemos aos céus erguidos por nossos potentes braços tecidos aéreos além e ao infinito.

XII

Era madrugada molhada e vibrante do dia cinco para seis de setembro. Seis de Setembro, para as boas entendedoras, é o melhor dia do ano. Foi o Dia da Deusa e mais, é o Dia da Divina Brincadeira. E nesse dia resolvemos, por acaso, celebrar toda a divindade que existe em nós com abundâncias de orgasmos, exaustões de desejos, explosões de tesão, absurdos de gozos, exageros de fluídos gotejados entre as pernas, vastidões de prazeres e bem-quereres. Após um vasto correr da Lua pela noite, após um vasto correr do meu corpo pelo teu, após um vasto derramar-me em ti e tu me sugar tudo que há em mim, afasto-me de ti, levanto-me e pego uma bandana preta cheia de caveiras e ossos cruzados. E suavemente aproximo-me dela, deitada e suada e ofegante, vendando-lhe os olhos. E então inicio um ritual que imaginei nunca teria a oportunidade de celebrar.

Delicadamente passo as cordas vermelhas em suas coxas, prendendo-as às suas panturrilhas, amarro suas mãos sobre seu corpo, e assim, irresistível, latejante, posso brincar de surpreender-lhe. Cuidadosamente retiro meu brinquedo novo de seu invólucro, umedeço-o e aproximo-o da parte mais sensível e excitada dela. O suspense no ar já estava asfixiante, quando quebro esta fina película de tensão fazendo meu brinquedinho branco vibrar intensamente, lançando-a num território desconhecido de prazeres e loucuras. E então delicio-me com os gemidos ininterruptos da Deusa, com seu corpo vibrando junto comigo, seu quadril dançando-tremendo, suas pernas apertadas contra os fios vermelhos desesperando-se de orgasmos. E assim ficamos por um tempo incontável, até desfazer-nos de tudo novamente, deitados muito apertados diante do sol que nascia.

13

Os melhores dias da Vida. Naquela quase meia década cronológica, mais de século vivenciado, naqueles milhares de quilômetros e minutos percorridos intensamente, naquela terceira casa duma jornada ainda muito longa de encontrar-se a si e fazer-se no espaço que habita, naquele dar demasiado e incessante de uma vida de aprendizados sobre como dar sem doer-se, sem medir-se, sem impedir-se – alcançou ali, naqueles 13 dias a plenitude mais plena que jamais poderia imaginar. Planando pela imensidão das nuvens, sentia-se voando pelo universo elevado pelos am´orgasmos mais do que diários, mais do que horários, mais do que instantâneos – aqueles dias com ela, aquela partilha da vida em tudo, inteira, íntegra, íntima, impetuosa, transportaram-no para outro mundo, outra referência do que é ser e estar, querer e ir, sentir e tocar, cuidar e conhecer.

É difícil entender agora tudo que veio antes e tudo o que virá depois. Verdadeiramente um ponto de ruptura em sua história. Ela veio e inundou-o de luz e treva e cor e amor. Ela renovou todas as células, suores, fluidos, sonhos, possibilidades, impossibilidades, imprevisíveis e divindades que existiam nele. Ele nasceu de novo, de novo. E assim, consagrado Sacerdote da Deusa, dedica sua Vida a partir desse ritual de 13 dias-vidas ao cuidado da Deusa Mãe manifestada em todas as mulheres, em toda a Natureza, em toda a Vida.

Ao som de Lost My Lenore - Tristania - que ela dançou

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

La Peliroja de Fuego (parte 1)




Dizem que se observares atentamente a chama, em especial de um fogo aceso em ritual, emanado por energias intensas de magia, tu poderás vislumbrar ao menos as sombras das salamandras, seres místicos que habitam a zona mais vermelha e calorosa do fogo. Dizem que se pores tua mão nas pontas azuis da chama, poderás sentir o beijo da salamandra, que não queima a pele, mas incendeia o espírito.
 

Dizem que certas mulheres, que naturalmente ou por meio de encantos avermelham seus cabelos, atraem estes seres para dentro de seus corposespíritos, transformando-se em fogueiras-humanas que incendeiam tudo que as toca. Eu conheci uma dessas salamandras com linhas e gestos e vozes e olhares humanos.



Ela tinha nos pés e nos quadris um rebolado misterioso, oriundo de suas raízes fumegantes nos desertos do Egito. Em seu ventre e em sua vagina existia como um caldeirão de carne e brasas incandescentes e líquidos borbulhantes. Sua pele alva escondia a sua lava sanguínea – mas bastava tocá-la mais intensamente para despertar-lhe a vermelhidão mais sincera da pele. Mas seus cabelos não escondiam seu incêndio ondulante, que balançava lançando fagulhas pelo vento, eventualmente tocando outros cabelos ou peles e causando inevitáveis devastações de ardências e sofreguidões.



Chegou às terras da ilha-continente da Tartaruga por meio dos navegantes mouros, que após conquistarem a ibéria lançaram-se ao mar em busca de novos povos com quem intercambiar as artes negras e obscuras do autoconhecimento e da autoexplosão. E desta origem guardou seu nome castelhano, La Peliroja de Fuego. Eu a conheci, ou melhor, ela me conheceu durante uma peregrinação a ilhas recém-nascidas de erupções vulcânicas. Os oceanos, poucos sabem, guardam imensas bocas de fogo que cospem novas filhas constantemente. Há poucos milhares de anos nasceu a ilha Cacira, palavra que significa maribondo na língua tupi, assim nomeada pelas tribos oceânicas que ali passaram e partiram em razão da escarpada montanha que se projeta no centro da ilha como um ferrão e da praia de peculiar formato arredondado, lembrando a sedutora bunda do inseto temido.



Na ilha habitava também uma variedade muito distinta de maribondo, que a semelhança das abelhas, produzia um néctar adocicado e avermelhado denomiado pelos índios de yapira, cujas propriedades gustativas e estimulantes dos sentidos e dos desejos foi muito apreciada pelos índios que por ali passaram. Antigas histórias dos povos nômades dos oceanos contam que na ilha Cacira se realizavam rituais profanos, em oferta aos espíritos vermelhos da Terra, temidos por suas perigosas manifestações vulcânicas. Conta-se de índios que tiveram seus corpos cozinhados por imprudentemente entrarem nas águas marinhas demasiado próximos dessas salamandras do mar.



Denominados Carirardos, estes rituais pediam clemência à impiedosa volúpia da grande embarcação Terra. E não raro as sacerdotisas e sacerdotes que os realizavam sucumbiam à morte pela exaustão sexual, tamanha fervorosidade eram dedicados às práticas orgíacas.



Cheguei naquela ilha na minha companheira de destemores Calé, termo árabe que significa cigana, minha estimada embarcação. Feita da madeira negra que nasce apenas nas florestas vulcânicas da patagônia, ela é pequena, veloz e amiga das tempestades. Vi minha vida ser salva por este ser-embarcação mais vezes do que posso me lembrar. Levei-a a praia e pequena como ela é, consegui trazê-la por meio de um sistema de troncos e cordas para de baixo dos coqueiros próximos. E então a Calé se transformou num acampamento árabe típico, com suas imensas velas se transformando em tendas e os tapetes que acolchoam seu interior se convertendo em camas macias sob a areia. Acesa a fogueira e posto para queimar incensos para agradecer a chegada àquela ilha, pus-me a explorar as redondezas.



Ouvi falar pela primeira vez sobre a Cacira num porto clandestino, só conhecido pelos nômades do mar, numa bacia escondida duma ilha do índico – mares perigosos habitados pelos temidos piratas somalis. Contaram-me sobre o pico da ferroada, no alto do qual existem certas rochas que parecem cristais de fogo, cujo brilho, quando a luz do sol ultrapassa seu interior, se assemelha à própria estrela-mãe. E advertiram-me: chegar ao pico é uma tarefa tão árdua e confusa que se converteu em uma enigmática e desejada peregrinação para os monges e druidas navegantes que ainda vagam pela Terra.



Eu, como aprendiz de bruxa-cigana-zen-lunática (sincretismo muito particular das minhas vidas passadas), zarpei imediatamente para a localidade obcecada. Em poucas horas de exploração das praias da ilha, percebi que não estava sozinho, ainda que a ilha não fosse permanentemente habitada por nenhuma tribo, pois se acordou há muito tempo que ela deveria ser guardada como lugar sagrado. Descobri sinais de fogueiras, de comida e até mesmo de fluídos sexuais nas areias sob os coqueiros. Mas pelas marcas parecia ser apenas uma pessoa. Quem seria? Como teria chegado ali?



Eu podia sentir uma energia poderosa naquela presença misteriosa. E isto se mostrou para mim como um sinal intenso do destino. Em dois dias circundei a ilha inteira e retornei à minha tenda-navio. Realizado este perímetro exploratório, podia iniciar a mais delicada entrada ao interior denso e exuberante da ilha.


domingo, 20 de setembro de 2015

Contos Caracoles



I
O estalo, o desenraizamento, o retiro, o pouso

Quarta-feira, 54, trepidando pela rua da lagoa, rua do sofá amarelo, rua da pousada dos pássaros. Estala, subitamente, em mim, uma iluminação. E novamente minha vida toma novo rumo. Naquela noite inusitada repentinamente percebi que precisava sair de onde estava e me estabelecer n´outra parte. Mudar. Mudança, palavra da Vida. Mudança, tatuagem do peito. Mudança, coreografia do agora.

Naquela noite vi, como naquelas visões de quem tem a Visão, premonição, adivinhação, ou simples e pura, mas da pura mesmo, imaginação, uma outra vida, em outro lugar – e o lugar eu já sabia qual era. Mas não podia imaginar que seria tão bom quanto está sendo – mas isso é outra história.

Foram duas semanas resolvendo perrengues antes de jogar a bomba – vou embora! Uma das melhores bombas!

Foi uma semana louca encaixotando tudo, os livros, as memórias, as frustrações, os sonhos, as vitórias e os fracassos.

Joguei tudo no ninho que estava recém-nascendo e, como gaivota criada, parti para longe (aff!), para milhares de quilômetros e milhares de experiências, vivências e paixões que iriam me transformar ainda mais para o que eu estava para viver aqui. Eu tento não ser nômade, mas o nomadismo não sai de mim.

E quase um mês depois volto, encontro, como se pela primeira vez, essas paredes, esse chão de pedras, essa varanda ainda cinza, esse espaço tanto que anseia por se preencher de mim.


II
A desforra dos Livros

Confesso, sou um acumulador de livros. Aquele tipo de pessoa que compra livros quando está triste, para ficar feliz, compra livros quando está feliz, pra comemorar, compra livros quando está tudo normal, pra dar uma animada, sair da mesmice, enfim, que tem uma relação até certo ponto doentia e compulsiva com livros, mas não tanto quanto gostaria [haha]. Aquele tipo de pessoa que conta os livros na estante e se compraz de um número possivelmente “digno” e que demonstra alguma coisa sobre o meu “caráter”. Vaidade livresca, egocentrismo de papel, provavelmente. Estou trabalhando nisso.

Ano passado eu conheci um cara que me inspirou profundamente. Ele é livreiro na cidade dos bons ares. E me contou uma obscenidade que me deixou inquieto. Ele lia um livro por semana. Mentira, eu pensei. Humanamente impossível. E não é que neste ano absurdo isso me sucedeu?! Pasme.
 

Acontece que para mim mudança quer dizer, mais do que tudo, caixas e mais caixas de livros, para desfazer a(s) estante(s) e para refazer a(s) estante(s). Cada vez que fiz isso na vida foram histórias, companhias, alegrias e muito trabalho também, porque, afinal, haja livro – parece até que procriam. E, melhor do que tudo, a atitude madura de quem reconhece quais livros já não me representam e que, consequentemente, podem e devem buscar seus novos caminhos e leitores. Uma caixa inteira de livros inqueridos e dois dias mágicos rodando sebos em busca dos novos tesouros perdidos. Foram cerca de vinte e poucos livros que se transmutaram em oito deusas de papel. Eu as amo, todas. E me fazem muito feliz.

III
Primeiras

Nenhuma casa pode ser chamada de casa sem você haver transado ela pela primeira vez. Porque é a primeira foda que dá o tom (ou não) da acústica local, vocal e visceral. Tudo ainda encaixotado, sem lençóis para cobrir a cama, no chão da sala mesmo, sobre almofadas e colchas presenteadas, ao ritmo das imprevisibilidades dos corpos, malditos, queridos.

Nenhuma casa pode ser chamada de casa sem você haver comido ela pela primeira vez. Feito a primeira feira de frutas e legumes, feito as primeiras feitiçarias gustativas. A primeira lasanha de berinjela cujo encantamento a impedia de terminar e cujo recipiente-assadeira era tão lindo que enfeitava a geladeira.

Nenhuma casa pode ser chamada de casa sem você haver plantado ela pela primeira vez. Organizado enfim o verde no olhar, nos dedos, na varanda. Não basta apenas molhar a terra, é preciso situá-la no espaço externo e interno, colocá-la no plano imaterial do sentimento e transformá-la em sua própria existência.

Nenhuma casa pode ser chamada de casa sem você haver dormido ela pela primeira vez. Deitando seus olhos nos sonhos e no sonho que se realiza(m), no novo quarto que agora aconchega seu ser, sua forma de ver e viver o mundo e sua própria vida.


IV
Am´Orgasmo

Essa Casa já é palco dos melhores dias da minha vida. Nela já habitam as maiores belezas e os encontros mais bonitos. Nela os sentimentos e os sentidos são apenas uma só palavra e vivência: am´orgasmo.

V
Aberto Debute e Celebração

A magia é a realização da vontade – e esta casa também. Sendo assim, tudo aqui está cercado de magia. A magia está cercada de mim, ou o inverso, ou tudo e mais. A casa inteira é um templo, um altar, um santuário. A casa é protegida por símbolos e quereres invencíveis e se transforma e cresce e brilha como flores espontâneas no jardim.

Para marcar e impulsionar tamanha potência e potencialidade, fez-se necessário um ritual igualmente potente e potencializante. Um ritual para agradecer à Deusa, à Vida, ao Movimento, tudo que é, foi e será. Um momento para agradecer a todas que estão comigo por todo amor que temos, me têm e lhes tenho. Uma dia e noite para celebrar a existência que escolhemos existir. Um instante, afinal, para deixar claro que na vida existiu um antes e um depois desta casa.


A música do dia - Mutilation is the most sincere form of flattery - Marilyn Manson

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

13 Contos Nus (Parte 1)

I

A Deusa não anuncia sua chegada, não envia recados ou mensagens, não perturba a limpidez das águas, mantendo-as ansiosas e contidas em suas ânsias líquidas, ondulantes, potencialmente tempestuosas.

Naquela madrugalvorada do dia de Marte o Sacerdote aguardava a estrela decadente que poderia revelar ou não a vinda Dela. Porque naquele dia estava para se iniciar o que poderia ser a mais intensa vivência mística que aquele dedicado e lunático monge profano jamais havia vivido.

Primeiro peregrinou ao longínquo campo de pouso dos seres longínquos. Sem saber quem encontraria, se encontraria. Chegou antes do tempo, demasiado ligeiro foi seu voo até lá. E esperou, perambolando d´um lado pr´outro, angustiado, sem saber se ali estaria sua luz ou sua treva.

E depois de eternidades elviríticas, já desesperado, desesperançado, aceitando os fatos duros da vida de que a Deusa não viria, eis que, para o tremor de suas pernas, para o disparar de seu peito, para o frio em sua nuca, para o calor em suas mãos... Ela surge, vem em sua direção, envolta em névoas, sombras, mariposas...

Ajoelhado na grama úmida da manhã, ele demora para assimilar a surpresa, a louca alegria de vê-la ali, diante dele. Pasmo, terno, quase explodindo, ele se levanta e ela o abraça. E o mundo acaba que assim seja e assim será.

II

Ao chegarem à Torre Sagrada do Caracol, local que receberia a Deusa em sua estada sobre a Terra, elas, Deusa e Sacerdote, logo uniram-se no primeiro ritual profano de satisfação dos prazeres do universo, ofertando pele-terra, suspiros-ar, suor-água e orgasmos-fogo para a consagração primeira.  Pois que o universo, este imenso orgão negro em expansão, em explosão, em cadências astrológicas e erógenas, precisa nutrir suas galáxias com gozos.

O primeiro encontro do rio com o oceano, da rocha derretida em erupção com a atmosfera, da vida nascida com o mundo nascente, da pele divina com a pele ao dente, esse primeiro encontro delas duas selou o mistério que percorreriam aqueles 13 dias. Um mistério de conexão-una, um mistério de emoção-pura, um mistério de tesão-loucura, um mistério de ardência-afeto, um mistério de intensos mistérios.

Um grito, vários, rastros vermelhos pelos corpos, umidades inundantes de interiores e exteriores, ritos e gestos sagrados - arrasados pela entrega aos desígnios maiores e melhores - derramaram-se no leito desta pequena morte - que abriu as portas para outra vida naqueles dias.

III

Alimento. Tudo que é vivo um dia é alimentado, outro dia é alimento. Tudo que é vivo é alimento. A vida alimenta a vida. E pra manterem-se vivos, Deusa e Sacerdote puseram-se a caminho do alimento, iniciando novo ritual - o preparo sagrado, impregnado de amor infinito e afeto místico, do alimento. Comida-prazer, comida-paz, comida-forças, comida-magia. E todos os dias ao preparo do alimento se dedicava a divina arte de amar por meio da culinária e da degustação da beleza em forma de alimento. Nus, certamente, pois que nus viemos, nus existimos e nus alimentamos.
Nus alimentamor.

IV

Na pele Dela há sementes. No corpo Dela há nascentes. Em Seus ombros se põe o sol. Em seu corpo nu se nutre a natureza, Deusa da fertilidade verde da vida perfumada das ervas e flores e espontâneas e árvores e hortas. Com seu cálice azul ela despeja na terra seu líquido mágico, que penetra pela respiração e poros do solo e chegam às veias-raízes e sobem ao alto das folhas e transcendem em aromas e sabores. Com seus olhos negros ela canta danças populares do Amar´anhão que embalam as hortelãs e ervas doces e manjericões e alecrins e todas as demais irmãs do jardim. Com seu hálito de flauta ela brilha a clorofila e aviva a pele suave das plantas-duentes, esses seres suaves e ternos, que transformam luz em vida.

V

A noite chega com sua sombra pálida de lua minguante. Ele acende as velas-guias que abrirão portas e janelas sutis dos pensamentos, dos afetos e dos quereres naquela noite de belezas partilhadas. Deitados no chão de pedra, sobre almofadas macias, ao som de canções que lhes fazem bem, eles contam suas histórias, seus devaneios, suas intuições, o que lhes dá na boca, o que lhes quer mais. Sob a luz bruxuleante das chamas negras, roxas, rosadas, perfumadas, eles derretem o chocolate mágico transmutando-o por meio da alquimia em um fruto negro para incendiar os amores dos dias seguintes.

VI

Os coelhos são seres afamados de pervertidos, de tarados, de ensandecidos fornicadores, endiabrados fudedores, de insaciáveis seres de prazeres sem fim. Pois sim, a Deusa demanda, em sua infinita luxuriante alegria, uma oferta infinita de orgasmos, de prazer, de gozos, de delícias, de doçuras corporais e danças de amor. Sim, Deusa e Sacerdote se fazem coelha e coelho em sacrifício vibrante, dedicando-se e esgotando-se em inundar céus e terras de am´orgasmo. Que respinga estrelas cintilantes e gotejantes no céu quando o prazer é maior que a noite.

VII

A praia das 7 areias é um lugar sagradíssimo nas histórias de vida do Sacerdote. O Mar é o Deus que copula dia e noite com a Deusa Praia. E nas coxas, panturrilhas, quadris, bumbum, costas, braços da Deusa praia o Mar deixa suas marcas, faz dessa pele mais macia, esculpida, delicada, rija, inchada, molhada, movediça, manguente, entrechocada. Eles caminham pela praia em peregrinação de conhecimento e contemplação e alegriação do belo e sublime que é o Mar na Praia, a Praia no Mar.

A Praia veste em seu pescoço um colar de rochas onde o Mar se deita, se joga, se quebra, se derrama, se explode, se atira. Eles sobem as pedras, para brincar de equilibristas bêbados tentando não pisar nas bolas negras e pontudas. E diante do espetáculo das ondas brancas-espumas-nervosas do Mar que não se cansa nunca de beijar a nuca da Praia, eles decidem se sentar e sentir no rosto-corpo toda loucura-vontade marinha de amar o litoral. Onda vai, Onda vem, explode, quer mais, brinca, finge que será poderosa, vem de mansinho - até que, sem que eles notem - BOO! E são levados risos molhados surpresos susto de tanta água que molhou tudo e os deixou mais pra lá. Excitados por tamanho orgasmo de ondas, levantam-se e seguem em busca das cachoeiras perdidas de cílios de olhos de água salina. E após aventuras, medos e caminhos tortuosos de águas, musgos e piscinas perigosas, eles chegam, descem pelas escadas-pedras e afinal recolhem-se na caverna mágica multicolorida, rindo, abraçando-se, aquecendo-se, beijando-se mil beijos de estrelas do mar. E BOO! O beijo de ondas do mar de repente despeja-se do céu, do teto, da caverna, envolvendo-os em mágicas paredes de água-espuma-arco-íris. E lá eles vislumbram a emoção do fundo do mar.

Léguas submarinas depois, famintos pelas explorações e belezuras, degustam a tapioca dançada com peixinhos, quitute típico, identitário daquela Terra.

E caminham, peregrinam, nadam, andam, cantam, dançam, amam, celebram, praiam e oceanam. E ali deixam a lembrança mais bonita do estar mais bonito entre Praia e Mar.

Evidence - Marilyn Manson - para sentir forte

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Curi'amorosidade


Eu quero te deixar curiosa,
Atiçar tua imaginação
Eriçar teus pelos
Excitar teu coração
Endoidar teu sangue
Alucinar tua respiração
Aquecer teus sonhos
Fermentar o teu tesão

Eu quero te curiar inteira
teus cabelos cacheados, 
teus pés bailarinos, 
tuas mãos ofegantes, 
teus seios mordidos, 
Teu sexo delirante,
Teus desejos e sonhos escondidos...

Eu quero te deixar curiosa
Por mim, por nós, pelo mundo
Para que tu descubra o infinito
Que és, que somos, que tudo...

Honey or tar - Cocorosie - uma canção de querer

sábado, 15 de agosto de 2015

Leva lava...



A luz do fogo, 
o brilho das nuvens cobertas de lua
a vida flutua
como numa ilha a vagar a esmo
mais despedidas 
da maré que se vai
da espuma que fica
navio ao mar
bravio amar
que quebra nas pedras
dos arrecifes 
do peito aberto 
das veias sedentas
por emoções 
alegres, doídas ou comestíveis
partir o pão 
derreter na minha boca
o teu coração
cair na rua
encontrar impossíveis
de desilusão
abrir os dentes
agarrar a tua alma
que em mim destila
vagar no vento
que espalha desejo
pela pele nua...

Ao som de Koop Island Blues - Koop

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Kama Leela




Elas eram um grupo de mulheres que há séculos vagavam pelas montanhas, desertos, bosques e campos férteis do Médio e Extremo Oriente, chegando aos limites da Turquia, às margens do Egito, e aos sagrados rios da Índia. Observe que esse triângulo não é por acaso, mas confere um grande poder a essa região e, consequentemente, elas não se sentiam muito tentadas a sair dele, apesar de em ocasiões especiais peregrinarem para as distâncias da Sibéria, Mongólia e Somália, lugares também especiais, de incomuns concentrações energéticas e humanas.
 

Perseguidas, clandestinas na maioria das sociedades de sua época, talvez por algumas razões dignas, outras nem tanto, elas eram conhecidas como rebeladoras de escravas, agitadoras de forças desconhecidas, indomadoras de selvagerias. Mas elas preferiam se identificar por Leelas, que na língua antiga dos hindus expressa aquelas que brincam como deusas as brincadeiras das deusas.



Não se reproduziam. Não. Em sua vida andarilha, suas práticas rituais, suas perspectivas existenciais não cabia a reprodução tradicional. Mas ainda assim havia crianças, adolescentes e jovens entre elas. Acontece que eventualmente acampadas próximas a um aglomerado de gentes em alguma terra perdida, elas convidavam, convocavam ou mesmo invocavam pessoas mais jovens, digamos, a se juntarem a elas. Algumas não entendiam bem o que estava acontecendo, mas outras pode-se até dizer que estavam sendo resgatadas por elas – libertadas e fugidas de seus mundos de impedimentos, morais religiosas, patriarcais e violências consequentes.



E assim as recém-chegadas eram iniciadas nos rituais das Leelas. Pode-se dizer que eram uma mistura de tantras, ciganidades, misticismos do deserto e de filosofias árabes muito antigas, inspirações chinesas e mitos da longínqua ilha da Tartaruga,  que alguns acreditam existir para além dos mares da África, a oeste. Mas as más-línguas dizem apenas que as Leelas, ou Poeiras Malditas, como foram apelidadas em algumas terras na região do Afeganistão, praticavam cultos orgíacos, deploráveis manifestações de prazeres mundanos, de adoração às forças impetuosas e luxuriantes da natureza e das trevas. Elas produziam o que costumavam chamar de POEmas, em referência ao termo poeiras malditas, que no final das contas, elas gostaram e aceitaram como presente dos povos tementes.



Os POEmas eram feitiços cujos princípios mágicos eram justamente as poeiras do deserto, as tempestades de areia, esses insignificantes grãos de pedra que em quantidades inimagináveis podiam destruir e soterrar tudo que vissem pela frente. Elas usavam substâncias especiais para derreter e colorir a areia, tornando-a um material translúcido e rígido que elas chamaram de Verdro, pois se podia ver através deles. E do verdro produziam esculturas, joias, utensílios mágicos, como recipientes para poções e jarros de bebidas alucinógenas a base de certos tipos raros lagartos secos. Cada POEma trazia a fórmula para um tipo, cor e poder especial de verdro. A arte de produzi-los era muito valorizada entre elas. Eram textos mágicos muito belos, sensuais, intensos, e devastadores. Se mal produzido e conduzido, poderia arruinar todo um ritual e muito trabalho. Por isso as Leelas dedicavam-se com muito afinco a sua arte.



Em seus rituais, chamados kama leelas, que significa a busca pelo prazer divino, todas elas, nuas e ornamentadas por um líquido mágica negro e brilhante, que refletia estranhas cores diante da luz de um fogo poético e intenso de fogueira ritualística, dançavam em transe ao redor da chama, mortalmente próximas das fagulhas que podiam, a qualquer momento, incendiá-las, tão inflamáveis eram suas vestes líquidas. Mas habilidosas em seus movimentos, isso nunca aconteceu ou aconteceria, pois a arte de controlar o fogo, bebê-lo e fazê-lo voar em formas de pássaros também era um de seus feitios. E essas danças, a medida que circundavam o fogo, de certa forma sim, incendiavam, porque dos corpos saiam fagulhas, dos encontros e toques dos corpos chispavam-se os ares de ardores, de êxtases, de desejos liberados no ápice da plenitude.


É preciso dizer que o líquido que as ornava era também uma bebida, degustada vastamente durante a cerimônia. Chamada de Amrita, trata-se de um fluido sagrado produzido pela agitação do oceano por deusas ancestrais a partir de certas ervas especiais. O oceano, na prática mortal, eram as vaginas e sucos de algumas sacerdotisas escolhidas dentre as Leelas. E a agitação nada mais era do que a masturbação utilizando-se essas ervas, que, ao cerem maceradas, tornavam-se óleos essenciais introduzidos e estimuladas nos oceanos por instrumentos mágicos, delicadamente entalhados em madeiras de árvores perfumadas e raras existentes apenas em certas montanhas do Tibet e da Índia. Havia um ritual próprio para produção do Amrita, durante as festividades da lua violeta. Durante a kama leela a ingestão do Amrita pelas mulheres intensificava os apetites e ânimos sexuais, fazendo de cada corpo um vulcão e o encontro entre eles verdadeiros choques tectônicos. Elas tocavam-se, agarravam-se, esfregavam-se, beijavam-se, mordiam-se e pressionavam-se na busca sagrada pela morte ritual, a acumulação de orgasmos em cada uma e em todas, produzindo uma imensa onda de prazer, luz e gozos.



Após as danças, destruídas pela entrega extrema de seus corpos às brincadeiras, todas deitavam-se, umas por sobras as outras, ao redor da fogueira, formando uma mandala humana. E um longo movimento lunar se passava enquanto elas sentiam-se carinhosamente, acariciando-se, pés, tornozelos, panturrilhas, coxas, virilhas, oceanos, barrigas, seios, braços, mãos, pescoços, orelhas, bocas, línguas, narizes, sobrancelhas, cabelos... dedicavam-se a uma descoberta minuciosa de todas as sensações que seus corpos poderiam sentir e provocar, suavemente, languidamente, mas aos poucos reacendendo-as... Produziam um tênue coral de sons, gemidos, cantos, ais. Na proximidade do nascer do sol, no ápice da madrugada, elas aos poucos começavam a sentar-se, umas nos colos das outras, e lambiam-se. Todo Amrita precisava ser bebido, devia unir-se às suas correntes sanguíneas, urgia transmutar-se em suor, saliva e gozo. Bebiam, beijavam-se, penetravam-se com seus dedos e línguas, bebendo oceanos de sucos vaginais e bebida sagrada. E a mandala lentamente movia-se, umas serpenteando pelas outras, roçando, apertando, sugando. Na primeira luz da aurora todas estavam inteiramente encharcadas, o chão era uma poça de sofreguidão, seus corpos eram incapazes de mover um músculo, todas, de olhos fechados, ouviam a tênue canção do amanhecer, aquele som mítico que só os seres iluminados podiam ouvir. Seus corpos, limpos-úmidos, brilhavam como cristais diante desses primeiros e puros raios de luz. Alçado o sol um pequeno percurso, as meninas mais jovens dentre elas, demasiada imaturas para participar da cerimônia e incubidas de garantir certas tarefas no ritual, armavam uma tenda sobre as mulheres, protegendo-as do poderoso sol que em breve arderia as areias do deserto. E lá elas permaneciam por todo o dia, assimilando toda a experiência, a sabedoria e a transcendência vivenciada na kama leela. Ao cair da noite e sob as primeiras luzes da lua, elas ceavam uma refeição especial, capaz de retomar-lhes o fogo e o ânimo das ações cotidianas. 

Arte adaptada de Kim Joon

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Poder da Vontade


"Onde há uma vontade, há um caminho", declama o provérbio. A vontade é o poder da realização. Ela concretiza, ela cria, ela transforma. A magia é um transbordamento da vontade. Podemos atribuir poderes a qualquer coisa, basta concentrarmos nossa energia focada na intenção/significado que quisermos atribuir. 

Quanto mais tempo e energia concentramos, mais poderosa será a magia. Por isso certos objetivos antigos tem tanto poder, pois passaram anos, séculos, acumulando poderes atribuídos por pessoas de poderosas vontades.

Os símbolos são uma poderosa linguagem, porque canalizam determinados significados e poder ao longo do tempo. Saber utilizar os símbolos existentes nos permite guiar e nos beneficiar esses poderes. Saber criar novos símbolos é uma arte a mais. 

Empoderar tudo a nossa volta torna o universo mais intenso e místico. Cria uma poderosa conexão com diversas energias e vontades em suspensão e ebulição. Desfrutar dessas energias favoráveis é uma oportunidade de embelezar e enriquecer a vida, como também nos proteger das energias negativas, que nos enfraquecem...

Magia... Respire-a.