quarta-feira, 31 de março de 2010

"Músicas tristes me fazem feliz"


O mar negro e pesado soluçava cadentemente contra as rochas do paredão literâneo por onde passava o tão famoso calçadão daquela capital caribenha; nas lamparinas coloniais brilhavam as envelhecidas lâmpadas elétricas, pintando o chão de amarelo escurecido pelo véu da noite; a espuma marinha efervecente inundava o ar com os estalos de sua angústia; um pescador solitário mantinha-se firme e ereto, empunhando sua plácida lança rumo aos escuros confins do mar; um ou outro velho cidadão voltava para casa n´uma antiga bicicleta na ciclovia desgastada pelo tempo; os bares salpicados na extensa orla emanavam as fragâncias e sonoridades típicas daquele tão especial região da Terra.

Caminhava pesado como um robusto contrabaixo, vestido em trajes escurecidos no tom de sua visceral madeira envernizada. Os pensamentos lhe tinham fugido para caçar sardinhas boêmias nas ondas caudalosas, pensamentos-albatrozes-fugidios... Com as mãos aventureiras a procurar tesouros nos bolsos, os olhos detetives a desvendar as pedras do calçamento, os sentidos escondidos no fundo da garganta, ele caminhava, voltando não sabia de onde em direção à lugar desconhecido. Seu coração sincronizava-se com seus passos, ora acelerados e impactantes, ora arrastados e sonolentos. Seus ombros doiam levemente, sem motivo bem definido, talvez fossem as tensões emergentes dos calos dos pés. Vagamente, começou a sair-lhe dos lábios uma canção antiga e melancólica, como uma balada de navegadores perdidos na inescrutável imensidão do mar. Os sopros leves e quase inaudíveis foram ganhando força e tornando-se possantes, regendo o ritmo de seu passar. Absorveu-se nesta canção repentinamente criada, espontaneamente exposta aos seus ouvidos diretamente de seu submundo... até que vários minutos depois, com os músculos faciais exauridos pelo esforço sonoro, fez pequena pausa. Que espanto! não foi ouvir distantes palmas de aclamação vindas logo atrás de si, por outra caminhante que, aparentemente, pôs-se a ouvi-lo. Olhou para trás para observar sua perseguidora e reconhecendo a alegre vendedora de flores da sua rua, tratou de passar para o outro lado da avenida, a fim de fugir de sua suposta admiradora. Era demasiado reservado e, pior, não suportava qualquer tipo de elogio ou apreciação. Porém, a garota o seguiu, apressou-se para alcançá-lo e logo banhou-lhe de palavras como se uma onda forte tivesse espirrado no calçadão, encharcando o tímido e seco caminhante.

- Ai, como é bonita a sua música, como são límpidas cada nota que assovias... ai, fico louca só de ouvir, dá-me uma vontade de pular, sabia? Apesar de carregar uma tristeza muito exagerada, eu acho. Você não deveria derramar essas lágrimas todas n´uma música tão bonita, viu? Trate de consertar.

Ele limitou-se a olhá-la, constrangido pelos incontáveis comenetários. As músiquetas que ora assoviava, improvisadamente, eram meras distrações, formas de apaziguar-lhe os ânimos aflitos pela constância e imutabilidade do seu cotidiano. Nessas longas caminhadas noturnas, fazia um pacto sombrio com o mar. Comprometia-se em despejar impiedosamente todos os pesos de chumbo do espírito no corpo marinho, e, em contra partida, prometia render eterna reverência à entidade mágica do oceano.

- Você não acha que deveria estar fazendo alguma outra coisa? - foi a resposta que ele conseguiu elaborar.
- Como assim? - questionou a menina, levantando a sobrancelha esquerda, sem entender o que ele quis dizer. - Eu estou fazendo o que me acontece fazer. Estava caminhando e comecei a ouvir a sua música. Gostei muito e por isso vim conversar contigo. Espero que não se incomode.
- Me incomoda sim, se importa? Preferiria continuar sozinho. - disse o moço, secamente.
- Não seja bobo! Eu sei que não é verdade. Dá para ver no fundo, lá no fundo dos seus olhos que só o que você precisa é uma companhia. Bobo! Fica fazendo uma de difícil. Eu te vejo todos os dias passar pela rua onde eu vendo flores, sabe? Me parece tão triste. Por que você é assim?
- Pergunte ao mar porque ele é insondável e assim que ele responder, eu também talvez lhe responda. - fechou a conversa. Mas a menina, inabalável, persistiu:
- Nada nisso. Não aceito. Acho que você só precisa de alguma coisa pequena, não sei, talvez uma flor? Tome! - disse, entregando-lhe uma flor do campo retirada d´um canteiro próximo - Ou então, companhia? Posso conversar contigo sempre que quiseres. Onde moras? Que músicas tens na tua casa para ouvir? Tem sorvete? Vamos tomar um pouco de sorvete? Te fará bem! - e ela falava, falava, dizendo mil coisas que pudessem alegrar o estranho. Porém o impenetrável muro que circundava o homem mostrava-se com poucos pontos fracos.
- Não precisa de nada disso. Eu estou bem. Apenas deixe-me em paz. - E afastou-se da menina, frustrando todos os inúmeros planos que ela já elaborava para mudar radicalmente a vida daquela alma em penumbra. Mas ele ficou a olhar para a flor que ela lhe deu. A guardou dentro de seu livro de cabeceira, aquele que todas as noites ele lia e relia. E toda noite passou a olhar para a pequena e ressequida flor, lembrando-se do olhar do anjo que lhe presenteara. A partir daquela data ele nunca mais a viu na rua onde morava. Será que alguma coisa aconteceu a ela? Alguma tragédia? Nunca saberia, mas passou a procurar por ela em todas os rostos que cruzavam com ele na rua. E ao assobiar, seu canto ganhou uma razão, encontrar, enlaçar a presença daquela menina. Todas as noites suas canções tinham esse motivo misterioso para tornarem-se alegres, fortes, indagadoras. E as flores ganharam um novo significado, um novo interesse, um novo olhar. Flores belas... lembranças...



(Arcade Fire - Crown of Love - uma música)

terça-feira, 30 de março de 2010

desfio...

Montanhas em degelo nos extremos desesperos
Sobe o sol da alvorada de cada nova palavra
Que brota com o orvalho frio na manhã clara
Enquanto a relva se entrelaça n´um casal de garças
D´um branco-gelo maior que o céu imenso
Transparecendo o brilho de suas asas...

O calor descobre a paisagem em cálido insenso
Aromas de terra e vida erguem-se ao vento
Cantos finos araucanos das esguias aves austrais
Espriguiçam o continente de poderosas cordilheiras
O sangue é a seiva das florestas de sem fim
O mar dança na praia sua celebração de paz
Em cada manhã o sol surge belo e pacífico
Não olvidando, porém, de seu vigor mítico
O ar salgado cristaliza os amores
N´uma eterna e cintilante multidão de flores
Estações de macieiras pintam o mundo de vermelho
Percorrem trens maciços pelos braços latinos
Conquistam a liberdade em honra ao sangue índio.

terça-feira, 23 de março de 2010

"Conhece-te a ti mesmo" e ninguém nunca poderá mandar em você!

Chego a afirmar que a ânsia de questionar a si e a tudo seja a maior das virtudes. Porque, mesmo que uma pessoa tenha qualquer defeito que seja, se ela passar a questionar esse defeito, suas origens, razões e consequências, este e qualquer outro defeito pode ser vencido ou transformado em uma virtude - e o conceito de defeito e virtude também é algo a ser excessivamente questionado, reciclado e renovado, para entendermos a cada dia nossos caminhos, nosso destino/objetivo. Cada um de nós contém um universo de possibilidades de emoções, idéias, sensibilidades, ideais e atitudes, universo a princípio obscuro, porém permeado de incontáveis pontos de luz, que norteiam ou sinalizam para nossas profundezas... Porém, 'questionemos' se a sociedade hegemônica em que vivemos estimula os indivíduos a se conhecerem, indagarem-se sobre suas posturas e formas de pensar, analisando profundamente cada comportamento, o que os cerca, os pensamentos divergentes e logo perceberemos que não, ao contrário, vive-se em uma sociedade (e cada vez mais uma porção maior do mundo é abocanhada por esta dita "sociedade" ou podemos usar o antigo termo "neocolonialismo") que impõe uma perda de memória coletiva pela fugacidade e colossal quantidade de informações - ninguém consegue lembrar o que viu na semana passada, pois um imenso volume de 'novidades' já tomou a atenção e espaço na mente; que massifica as pessoas, padronizando-as através de uma mídia massiva e alienante, uma cultura industrializada, enlatada, onde todos buscam consumir os mesmos padrões de roupas da moda, best-sellers, filmes hollywoodianos, últimos lançamentos de eletrodomésticos, fast-foods e automóveis, todos iguais em qualquer parte do mundo que já tenha sido invadido pela colonização cultural hegemônica; condicionamento social para o consumismo, impondo uma visão do 'eu' totalmente condicionada ao consumo - "compro, logo, existo", enfim, pondo tantos letreiros luminosos, vitrines, publicidades e novidades no exterior do sujeito que ele não tem tempo nem interesse de olhar para si mesmo. Tem-se assim, um indivíduo que desconhece o fato de que ele é um ser único, peculiar, singular e repleto de potencialidades criativas e culturais iniqualáveis. Sentindo-se supostamente vazio, cada um segue o caminho indicado, preencher-se de símbolos padrão que possam determinar quem ele é (tem), através de marcas, status, distinções sociais, pronomes de tratamentos pomposos, luxos, desejos de superioridade, tudo n´uma vã tentativa de sentir-se, autoafirmar algo que ele mesmo desconhece, a si mesmo, e desta forma, acaba utilizando a fórmula pré-paga da cultura americanizada ou eurocêntrica - resumindo, ocidentalizada. Tal sujeito, ignorante do que pensa, acha ou acredita, é, deste modo, facilmente manipulado, sendo possível fazer dele o que se quiser, mandá-lo votar, pagar impostos, sustentar uma sociedade que pouco se importa com ele, não fornecendo nenhum de seus direitos fundamentais, quando muito, pondo-os a venda. Sua educação, saúde, cultura, transporte e segurança são todos objetos de compra e venda, questões essas que são suas por direito. Esse indivíduo alheio e diminuto é ensinado sobre seu inelutável isolamento, a televisão explica-o perfeitamente o quão distante ele está de um mundo imaginário e fantasioso criado na telinha, expondo-o à sua pequenez, ou então a educação programatória em geral esclaresse sua inata dúvida a respeito do que ele é e qual seu papel na sociedade - seu papel é obedecer, assim como o de outros é mandar. Cada um pertencente à classe dominada é ensinado desde a mais imaculada idade seu imbatível destino de obedecer, seja a quem for, cada dono e senhor ao seu tempo, primeiro os pais, depois o professor, então o chefe e o Estado. Não tendo outros referenciais sociais nem podendo compô-los ele mesmo, submete-se sem perceber e explica enfaticamente a qualquer um que pergunte essa 'lógica' lei social que lhe foi passada. "Eu obedeço, há os que mandam, e assim é o mundo, inclusive o animal"... E parece que ninguém disse a ele que, diferente dos animais, ele pensa e, muito mais diferente ainda de seus primos selvagens, ele tem consciência de si e pode refletir a seu respeito. No dia em que a mulher e o homem despertarem para si mesmos e formularem todas as suas questões, buscando as mais diversas fontes de conhecimento e análise, questionando sobre os "porquês", os "comos" e os "quens", ninguém poderá dizê-lo o que fazer, pois ele perguntará "Por quê?", quererá discutir a validade dos objetivos e ações/ordens que querem impor e se recusará a obedecer se descordar delas, pois nenhum homem é uma máquina a quem se possa mandar e desmandar arbitrariamente.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Quero viver de brisa e beijo - ser imaterial

Uma vez sua mãe lhe disse, lamentando:
- Acho que não soube te ensinar a dar valor às coisas.
Ele respondeu:
- Acho então que eu tive uma boa educação, pois prefiro dar valor às pessoas.
Ela dizia isso porque ele muitas vezes demonstrava um considerável descaso com suas posses, não sentindo grandes aflições diante do natural (ou provocado) desgaste da matéria nem empregando excessivos esforços para preservar a plena aparência, a forma externa socialmente aceita como "bom-estado". Se a mochila estava se desfazendo em fiapos, rasgando-se, abrindo buracos, tanto mais ele gostava dela! É sinal de que passaram por muitas coisas boas (Qual o motivo da surpresa?!); se havia uma manchinha ou outra na camiseta, era sinal de que ninguém tinha camiseta igual! (Não olhe com esta cara de espanto!) Livro velho, com cheiro de décadas, todo rabiscado, grifado, anotado, era o que havia de mais precioso e interessante! E pessoas tristes e filosóficas, angustiadas, indignadas, revoltadas, exaltadas, essas sim o atraiam... "Suspeito que não devemos precisar de muito mais que isso [frutos silvestres e liberdade]"... um dia queria se ver regido por este mantra de simplicidade e pureza... A verdade não usa roupas elegantes e rebuscadas, é simples e profunda... as aparências são superfícies ocas e insípidas... Acontece que ele era (ou buscava ser!) senhor de Si! sI! SI! S-I-M-E-S-M-O. Era, então, senhor sobre as coisas... e não servo delas... seu serviço devia se dar em nome da vida e dos vivos... ou das mais sublimes representações da vida, a arte (e obras de arte, sejam livros, telas, músicas, peças), a beleza... o que transbordasse vida... Vida. E a questão toda não é a atenção em si dada às coisas, mas a constante e crescente atenção que elas demandam! Antigamente (muito antigamente) se comprava um sapato e pronto! Só se precisava pensar em sapatos novamente quando se tivesse um filho e fosse preciso um outro sapato... Ah, e as roupas, eram poucas e suficientes... Os móveis serviam à gerações (ao invés de cada pessoa servir à gerações de móveis!)... até os primeiros equipamentos eletroeletrônicos era feitos, como tudo o mais, para durar! As pessoas compravam as coisas porque elas eram duráveis e resistentes... e não porque tinham mil e uma utilidades inúteis ou desenho moderno rapidamente obsoleto... Hoje não, hoje não temos nenhuma sabedoria e a evolução da humanidade é cada vez mais burra... Tanto de nosso tempo precisa ser dedicado à coisas que, ao invés de nos ajudarem, atrapalham... O computador dá uma puta dor de cabeça, pois sempre temos a sensação de que o nosso é lento e ultrapassado em comparação com o da loja; o celular nos dá uma maldita sensação de antiquados, quando não constantemente trocado pelo "modelo mais tosco, digo, novo), o sapato nos faz passar vergonha quando a sola descola depois de só um ano ou o salto quebra com seis meses de uso raro e... e a camiseta já foi comprada se desfiando e nem percebemos. Se trocou a quantidade pela qualidade... tenho mil pares de sapato, para poder usar bem pouquinho cada um (ou mesmo nunca), já que eles são tão imprestáveis que um uso constante os destruiria... Quero mil bolsas e jóias novas porque as jóis deixam meu rosto bonito e não o meu rosto que deixa as jóias bonitas. - e isso estou falando tentando pensar tanto como homem quanto como mulher. Por isso que prefiro as obras de arte. Ninguém diz - Amor, acho que esse quadro de Picasso já está velho, vamos trocar por uma versão sem fio? Ou então pensar que assim que você tirar sua escultura finamente entalhada em madeira envelhecida da Concessionária, digo, Galeria, ela já vai estar desvalorizada e você não conseguirá revendê-la nem pela metade do preço; ou pior, dizer - Pel´amor-de-Deus, o que este original de Machado de Assis está fazendo na minha estante? Eu quero uma edição com a capa da mini-série Capitu - Claro que não, né?! A Arte é imortal, pois eleva os seres humanos ao nível de semi-deuses, na medida em que buscam o melhor e o pior de si mesmos para uma contemplação crítica e transcendental... Ela não se torna obsoleta, ela não se troca, evolui, descobre outras e outras expressões, mas nunca perde seu valor... E assim também são as pessoas, de valor inestimável e inalienável, ninguém pode tirar ou roubar o valor de alguém... Por isso prefiro valorizar as pessoas! E que as coisas que aprendam a não me incomodarem.

terça-feira, 16 de março de 2010

Pequeno Prazer


Pr´um lado, p´ro outro, dedos suaves segurando o guidon que zigue-zagueia, as sandálias surradas e velhas agarrando-se firme e calmamente aos pedais, girando como uma roda gigante para dedos dos pés. A bicicleta azul meio suja de terra na coroa, meio sem óleo na corrente, meio vivida em demasia, aproveitava aquele momento cálido de manhã de domingo de sol ameno e dança. Porque o garoto e a bicicleta, sozinhos, dançavam com os movimentos e formas no asfalto, o ritmo havaiano de vai-e-vem que tocava nos ouvidos e que aquele objeto-vivo de alumínio ouvia também de maneira sobrecomum... As rodas saltavam, brincavam... as cores do céu se inverteram em laranjas esverdeados violeta, as paredes das casas se derretiam em gelatina de framboesa, tudo que na rua passava virava flor alada, pássaro ou fada... Percorria o ar como quem atravessa o mar frio e cristalino de um arquipélago mágico... e as rodas da bicicleta faziam sonidos de viola e o vento tinha voz feminina e as esquinas tinham olhos esguios e castanhos... um transe luminoso... uma neblina de sensação... uma desforma líquida de sabores infantis... e aromas úmidos e toques alegres... mas outra bicicleta pedalava com ele... ao seu lado deslizava a menina de cabelos castanhos brilhantes de boca e bochechas vermelhas de verão... Sua pele tão branquinha parecia de arroz e o brilho de seus olhos eram untados de oliva... ela sorria no balanço da música como se fosse seu rosto o principal instrumento musical... abria os braços no ar, rodopiando-os como beija-flores, alcançava as pontas das árvores, agarrando em cada dedo mil frutas diferentes... deixou-se derramar pela pele as cores furtivas das ameixas e jabuticabas, pintando suas unhas de vinho e deixando seu vestido tinto e doce, uma sangria de tecido e corpo... os dois apaixonados começaram a descer a ladeira da praia n´uma velocidade de luz, confundindo-se nos seus raios de cores arrastadas no tempo transdimencional... as lascas do céu começaram a se desfazer e as ondas do mar racharam-se de tão apaixonados que eram os dois rumo à beira da praia no fundo do oceano... as rodas começaram a tocar e melodiar a espuma marinha, as bicicletas fundiram-se com o cobre e o alumínio da maré e os corpos se alcançaram n´um abraço extático, transmutando o mar n´um vermelho metálico...
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(Unattainable - Little Joy - uma música)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Bons Ares


Pela manhã, dormia até às nove, dez horas. Raras vezes tinha um surto de fazendeiro, despertando com o nascer do sol, e, pior ainda, fazia-se de louco e levantava-se da cama quentinha, desfazia-se da coberta macia, desvencilhava-se do prazer provocado pelo ventilador, dirigia-se, decidido, até o armário, trocava-se, punha as sandálias, camiseta e shorte e ia à praia ver o espetáculo junto com os pássaros, também loucos. Seu principal companheiro naquela casa era um pássaro mudo. Jamais cantara uma só nota desde que fora aprisionado na espaçosa gaiola redonda, mais parecida com uma catedral em miniatura, faltando apenas os vitrais. Tudo o que o moço possuia era temperamental, inclusive seu pássaro, que, imitando a índole revoltosa do suposto dono, fez greve de silêncio, decidido em reaver sua liberdade. Sentia que a ave o entendia, conhecia suas fraquezas e o caminho para fazê-lo soltá-la. E veja que ele a capturara há apenas três dias, preocupara-se em fabricar aquele palácio de alumínio e em colocá-lo pendurado na janela com vista para o rio e o outro lado da cidade, com seus prédios altos e resquícios de mangue na margem, mas mesmo assim já se sentia o pior dos carrascos, dada a reação do pássaro ante a reclusão. O prendera por um impulso, instinto de caçador, talvez, ou até por inveja. Vira aquele animal nobre e altivo calmamente repousando no telhado, onde ele também estava, apreciando a paisagem do fim de tarde. Os olhos do rapaz se afinalaram como os de um gato e, armando-se de uma rede de pegar borboletas, aproveitou-se do instante em que o pássaro coçava os olhos com a asa esquerda, irritado por um cisco, para prendê-lo. Atordoado e ainda cego de um olho, não pôde resistir com grande perícia o ser alado, deixando-se levar, esperando para avaliar a situação quando tudo se acalmasse. Vendo-se aprisionado no recando de luxúria, ao qual era totalmente avesso, ele que era um andarilho das nuvens, decidiu tomar a ação mais drástica de todas, selar seu canto dentro de si e oprimir o opressor com o silêncio mortal. Conhecia bem as ambições humanas e sabia que aquele humano queria roubar-lhe o canto, obrigando-o a gastar sua voz majestosa para mero entretenimento daquele homem, mas não daria a ele este prazer. Na alvorada do terceiro dia, angustiado, o rapaz soltou a ave e contentou-se por ornamentar sua casa com aquela obra de arte que era a gaiola. A ave, satisfeita com a liberdade devolvida, porém comovida com o olhar melancólico e solitário do rapaz, arrancou cuidadosamente uma pena amarelo ouro da cauda e pôs no centro da gaiola, para preencher o vazio que ficara. Os olhos do moço ficaram vívidos e brilharam diante de tamanha nobreza. Estendeu a mão para a ave e comprimentou-a, apertando-lhe delicadamente as penas longas da ponta da asa direita, depois, viu partir a única companhia que tivera em três dias. Não importava. As manhãs costumavam ser empregadas para a leitura de livros, em média uma dezena por semana. Uma tarde na semana era dedicada à visitar sebos em busca novidades que suprissem sua enorme necessidade literária. Nos outros dias, caminhava pela rua, visitando cada dia um bairro diferente, uma rua desconhecia, um restaurante recém-aberto, alguma atração cultural, qualquer coisa. Além de desfrutar da alegria por ver e viver coisas novas, aproveitava também para coletar particularidades sociais, historietas humanas que via acontecer, detalhes do cotidiano da cidade que presenciava. Tal material era-lhe imprescindível, pois sustentava sua vida escrevendo contos e novelas para diversos jornais da cidade e de outros lugares. Seu outro nome, o artístico, era até razoavelmente conhecido nos meios editoriais e jornalísticos. Há treze anos começara sua carreira de escritor e jornalista literário e naquela altura, não passava mais fome como nos primeiros anos (foram tempos difícieis, mas, obviamente, também os mais férteis de inspiração). Mas durante o dia, gozava de um anonimato somente quebrado para as pessoas mais próximas que sabiam que ele era a carne e o osso por trás do autor. Preferia assim, porque se tivesse algum reconhecimento na rua, todo seu trabalho de pesquisa se tornaria impossível. Vivia em um apartamento de dois cômodos, um grande e amplo, e um banheiro que não chegava a dar claustrofobia, apesar de modesto. No recinto maior, os ambientes se dividiam através da organização dos móveis, exceto a cozinha, cuja pia não podia ser movida tão facilmente quanto as cinco estantes de livros, a mesa de jantar ou a cama de casal. Vivia uma vida agradável, que ele desejava viver. Porém, tinha um problema - alguém, ou alguéns. Sempre que se relacionava, a medida que convivia, que se aproximava e intimidades se instauravam, se conheciam, aquela profusão de farta felicidade inundava sua vida, tomando seus pensamentos, suas horas, seus caminhos e desejos, objetivos e sonhos, fazendo-o entregar cada gota de si mesmo, como uma divindade à quem a alma prontamente reverencia e abandona todo o resto para dedicar-se ao sacerdócio. Ele era assim, incontido, descontrolado, indisciplinado nessa arte ou doutrina ou ideologia ou narcótico, o amor. E a primeira consequência (talvez um efeito colateral) eram o acúmulo de contas não pagas, porque tão logo ele fazia voto de apaixonado, sua inspiração e concentração esvaiam-se e não podia escrever mais nada para ninguém. Nem à sua divindade lhe surgia algo, posto que o sublime era tanto que não poderia macular a perfeição com vis palavras. Na fartura de alegria, vinha a esterelidade da alma. Às vezes se forçava a escrever algo ou então, raramente, apareciam um soneto ou punhado de versos brancos, mas sempre lhes pareciam tolos e feios. Também a disposição física se alterava. Dependendo do amor, podia explodir ou exaurir-se. Antes ele era um homem de muitos compromissos, tarefas, obrigações, que demandavam porção considerável de suas energias. Assim, se o cotidiano fosse deveras emotivo, surgiam forças de onde não haviam e seu corpo era levado até o limite, mas se a rotina fosse alegre, porém tranquila, o corpo aproveitava o conforto para descansar nos braços, sonhar de olhos fechados. Ou estava no limite, ou estava sonolento, e, para ele nenhuma dos dois estados parecia muito saudável. Então surgia-lhe uma angústia, um torpor, uma sensação de incompatibilidade, de afastamento, um desejo de fuga ou de ver-se livre. E assim era, desfazia-se da fonte de sua felicidade e voltava a si, reencontrando-se. Era-lhe realmente problemático. Então não poderia conciliar a si mesmo e a felicidade? Dizia-se alérgico, sensível, irritava-lhe a pele do espírito, dava-lhe manchas na vista, coçava-lhe a alma, inchava sua vontade de ir embora... ou algo assim. Só sabia que, após alguns meses estava se despedindo. Mas naquele momento estava de 'retiro'. Afastara-se dos compromissos todos, convivia o mínimo possível, apenas com aquelas raras pessoas que lhe davam um prazer especial e desinteressado, espontâneo, simples e profundo ao mesmo tempo. Procurando alguma paz que superasse o cotidiano, a monotonia, a solidão. Buscava também a cura para suas doenças interiores, suas sensibilidades mortificantes, fugitivas, fracas... O que ele não entendia era que, até então, a paixão lhe arrancava tando por sentir-se sozinho ainda que acompanhado... Não sabia que a chama do seu amor era unilateral... que tantas vezes submergira em romances cujas correntezas não o acompanhavam, ao contrário, forçavam-no a nadar com uma força e por um período temporal que cedo ou tarde não teria mais... faltava cumplicidade, faltava partilha, faltava desejo mútuo por ideiais complementares ou companheiros... Não sabia que a paixão para sustentar-se, demandava tanta harmonia, esta que até então nunca tinha encontrado... a tentativa de equilíbro só de si não era suficiente para um relacionamento... era preciso equalizar o eu com o outro n´uma sintonia fina, suave, delicada... e talvez assim pudesse concretizar os sonhos de veludo e se ver curado da enfermidade que o acometia à cada amor. Mas, como disse, estava de retiro... tentando não pensar a respeito, pôr-se em marcha de olhos fechados seguindo apenas suas inclinações pessoais rumo aos magnetismos que o atraíssem. Eventualmente fazia viagens com amigos e amigas... travava novos e inesperados conhecimentos... debruçava-se diante de surpresas das quais gostava de extrair um conto ou poema... Queria ter uma inspiração espiritual maior e mais forte, não tão frágil às seus estados emocionais... e queria encontrar uma forma mais... apaixonadamente pura de ver o futuro e o presente... A casa era suficientemente grande... a cama exageradamente espaçosa... sua alma desmedidamente aconchegante e o destino colocaria este pequeno escritor solitário na lugar ideal para seu verdadeiro florescimento...

texto iniciado dia 29 de outubro de 2009
finalizado hoje.
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(With Stranger - Little Joy - uma música).........................................................................

Degrau


Seria uma característica sua ou todos intrinsecamente tinham o mesmo propósito? Seria natural que sim, seria até mesmo o ideal (e lá vem ele sendo mais uma vez ele mesmo)... E não interessa o fim, chegar lá... não há final, sempre há para onde ir... Com o esmero de um escultor, ele vasculhava suas imperfeições, erros, manchas, sombras, para corrigi-las em formas harmoniosas e coerentes com sua totalidade e inspiração. Pensava agir conforme seu mais apurado pensamento, exceto quando se via demasiado sufocado e faltava com os deveres do mundo de mãos amarradas. Odiava ser exigido do que sabia a impossibilidade da eficácia e muitas vezes se via impossibilitado de negar tais exigências. Era muitas vezes incapaz de não pôr-se a serviço, mesmo quando sabia que tal sujeição significaria uma ação um tanto imprecisa e aquém do esperado. Mas a cada dia aprendia que para pôr-se coerente era preciso reconhecer com vigor as limitações materiais e espirituais e dispor-se apenas ao possível... Deixe o impossível para situações mais urgentes... não o desgaste com o cotidiano. E assim pensava fazer seu caminho, tendo por única exigência a sua própria por uma construção reflexiva do Eu. Havia aprendido sabiamente a desfazer-se das próprias expectativas. Estava aprendendo agora a desfazer as expectativas alheias sobre si. Assim, sua coerência não seria abalada pelas amarras do dia a dia, pela falta de tempo e disposição, pela superocupação de seus esforços. Que ninguém ousasse pensar que ele estava livre para dedicar-se unicamente à causa deste ou daquele solicitante. Questiona se podem vir militar nas causas dele apenas para receber as negativas tranquilizadoras... Façamos cada um segundo suas motivações... ele busca motivar... e procura motivação nos demais... e encontrar e descobrir bons ou maus exemplos, melhores ou piores caminhos... Quer ter significado em sua existência, propósito e paixão. Apaixonadamente pôr-se em suas crenças e convicções, transpassando-as ferozmente com lentes sensíveis de autocrítica dialética... pesando os prós e os contras na incessante busca do equilíbro (ou da perfeição)...

quarta-feira, 10 de março de 2010

êxtase

Havia noites em que o sono lhe fugia alvoroçado pois a multidão de pensamentos fazia de sua mente uma tempestade transbordando diques e invadindo as praias de sua tranquilidade. Dias, tardes, madrugadas, momentos vários, comuns, corriqueiros ou raros. E então lembrava-se da técnica oriental da meditação para refrear tais ânimos incontidos, afim de estabelecer ao menos um tênue equilíbrio. Basicamente, meditar para ele consiste em afastar os pensamentos e manter a mente clara ou vazia ou livre. Desta forma, descobriu para si duas formas de meditação, uma do corpo e outra do espírito. A primeira acontece relaxando o corpo e deixando o espírito livre para expressar seu interior e absorver e refletir sobre o exterior, de maneira serena e livre de pensamentos... uma reflexão sensorial, pura e voltada para dentro, uma forma de repouso do mundo exterior... Os olhos se fecham e buscam dentro de si os sons e as vibrações próprias para assim poderem entrar em consonância com o universo. Após um longo momento de esvaziamento da mente, o espírito se vê livre do corpo e entra em estado de sono profundo, sonhando, divagando. A segunda se dá através do relaxamento do espírito para libertar o corpo. Abandonar, esquecer ou simplesmente por todos os pensamentos em combustão, voltados para um propósito mais elevado de união entre dois espíritos através da ponte material dos corpos, emoções e sensações. É preciso transformar o tato n´uma forma de linguagem celeste que fala mil línguas desconhecidas ou simplesmente silenciadas... é preciso soltar todas as línguas... falá-las, externando os ímpetos de cada um n´uma comunhão de êxtase... já a visão se torna qualquer janela por onde a brisa quente das entranhas, da garganta, do ventre entra e preenche, envolve, cresce e alimenta a energia do corpo, como a chama que demanda oxigênio para explodir... a audição é mais profunda, algo como a luz que clareia, captando o alimento prazeroso e delicioso que transborda em sons e canções, um formigar da alma desejando transpassar os limites ou então manter-se no céu, alada, tão próxima do calor maior do sol quanto as asas podem levar... o paladar... possivelmente é o maior combustível que há, gritando e mordendo fortemente cada pensamento, para transfigurá-los em mais lenha e carvão e força para o calor interior e mútuo, glorificando um incêndio cerimonial, um holocausto interior de renovação pelo fogo, pelo desejo e pelo gozo ... e o olfato... é o supremo desatador de amarras, libertando o corpo de calor para deixar-se levitar, fluir, usufruir de si e do outro, n´um espetáculo de balonismo carnal e desesperado, onde os dois corpos em chamas agarram-se, alçando vôo nas termais de suas vontades imperiosas por estarem um no outro... sequioso e insaciáveis... sim... cinco sentidos e um sexto mais, a intuição mestra que rege cada gesto, cada fagulha, cada creptar de poros, células, partículas comburentes, como uma orquestra vermelha e luminosa, uma fornalha que transmuta os elementos vivos em divinos, um guia fundamental na tempestade magnética da suprema emoção e sensação... a união do todo e de tudo, uma explosão do universo para criar a si mesmo, recriar-se, inventar-se... Esta talvez seja a maior meditação... liberto para ser.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Tao



Quando perdem a noção de respeito
As pessoas se voltam para a religião
Quando elas já não acreditam em si mesmas
Elas começam a depender da autoridade.

Lao-Tsé, Tao Te King


Ele busca o conhecimento de si mesmo. De que forma? Questionando-se. Sobre tudo e em todos os aspectos. Avalia as mínimas e máximas possibilidades. Tenta não fugir dos medos e trevas interiores, elucida suas dúvidas através da reflexão lógica e interpreta os acontecimentos segundo um encadeamento racional de fatos, mas sempre levando em consideração a psicologia das emoções envolvidas. No entanto, também ouve com atenção sua intuição e emoção, sabendo ser esta uma fonte de sabedoria inerente e essencial. De tal modo intenta se conhecer e, consequentemente, passa a ter uma maior compreensão sobre si mesmo, que pode também valorizar sua capacidade de realização e pensamento, não temendo nem sentindo-se inferior à ninguém. Porém, esclarecido do próprio valor e ciente da beleza da vida e do potencial humano, igualmente reconhece o valor de seus semelhantes expressa nas diferenças e peculiaridades de cada um. A esse sentimento de valorização de tudo e de todos ele chama de 'respeito'. E sabendo perceber e valorizar a beleza e riqueza tanto da natureza quanto da humanidade, como também de si mesmo, faz dessa conexão que percebe entre seu 'eu' e o 'tudo'/'todo' sua maior espiritualidade. Permite-se, assim, transcender os limites materiais, deixando sua alma mais liberta para experiências extracorporais ou extrasensoriais. Igualmente, sente no contato com o outro e na aproximação de sua alma com outra uma experiência de riqueza inestimável e, humildemente, lembrando-se de todos os caminhos que percorreu para adquirir a sempre incompleta e passível de evolução consciência de si, procura auxiliar os que o rodeiam a também questionarem-se e conhecerem-se, descobrindo os tesouros interiores, os quais, sendo tão e unicamente pessoais, são inalienáveis. Certamente que, sendo ele tão imperfeito quanto seus iguais, possui dificuldades em ajudar ou simplesmente acompanhar os que o cercam n´uma jornada através da consciência e do autoconhecimento. Mas a primeira lição ou idéia que tenta transmitir é que a única autoridade verdadeira é a de sua consciência sobre suas ações e seu desenvolvimento espiritual, que não há nenhuma autoridade exterior verdadeira e que as forças que tentam se vestir do vel dea'autoridade' são de fato 'ilusões' e/ou formas de opressão e violência. Por quê? Porque se autoconhecendo, percebemos que superior às idiossincrasias, os seres humanos e todos os seres vivos possuem uma igualdade de valor que coloca-os lado a lado, não sendo a abelha menos importante que o cão nem uma formiga menos importante que o ser humano, pois todos os seres compartilham a imperfeição e a jornada pela evolução espiritual somente possível através do aprendizado fruto da própria reflexão e da experiência com os demais, sejam homens/mulheres ou quaisquer outros seres vivos. Cada um de nós possui ensinamos inestimáveis e também necessita de todos os ensinamentos que os outros possam dar, desde que sejam lições de sinceridade, verdade e sabedoria, não dependendo isto de qualquer distinção social imaginária como as existentes nos sociedades humanas que perduram até hoje. Para que qualquer 'autoridade' externa (toda ela sendo falsa) possa de fato influir sobre a vida, as decisões e o pensamento de outrem, é necessário que este não tenha consciência de si, para então, sentir-se vazio o suficiente para permitir que uma decisão que não foi sua encaminhe suas ações. E somente quando os seres humanos, desconhecendo-se a si mesmos, seu valor e, consequentemente o valor de todos, o que pode ser denominado puramente de respeito, é que eles precisam se apegar à doutrinas e sistemas de valores (religiões) que os obrigam a tomar atitudes que não passam de mecanizações do espírito, aprisionando-o em preceitos fabricados e estáticos, enquanto a verdadeira sabedoria é dinâmica, crescente, criativa e autoconsciente.
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(Frosti - Björk - uma música)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sibéria


Como se estivesse predestinado e ao mesmo tempo tivesse sido condenado, estava ele trabalhando naquela função burocrática. Havia dias que passavam despercebidos, tranquilos, ligeiros, porém outros lhe agoniavam a alma como se o passar das horas fossem arranhadas n´um quadro negro por um gato. Uma inquietação muito mais espiritual que física e que certamente passava despercebida aos olhos de todos. Mas era fato, tinha dentro de si a certeza de que ser uma engrenagem burocrática de um sistema, seja ele qual for, não era de sua índole e tinha esperanças dentro de si de que, no âmago de cada um, nas profundezas mais desconhecidas, não era a verdadeira índole de ninguém. Imaginava, então, que os séculos e as gerações haviam domesticado certos indivíduos a tal ponto que hoje eles acreditavam piamente que viveram para aquelas funções toscas e mecânicas, como se alguém pudesse realmente ser destinado pela divina Providência a ser uma máquina. Mas ele não acreditava nisso. Sabia, intimamente, intuitivamente, que o seu ideal, missão, objetivo ou simplesmente sua inclinação pessoal era direcionada aos trabalhos criativos, coletivos ou individuais (cada um importante em certos momentos - nem tão somente coletivo ou individual), intelectuais ou manuais, mas que envolvessem o pensamento e a sensibilidade, nada parecido com todos aqueles procedimentos preestabelecidos e vazios que precisava memorizar e 'assimilar' para 'ir bem' naquele trabalho que 'suportava', mas verdadeiramente odiava. Mas o que fazer se se sabia 'preso' àquela função odiosa? Afinal, reconhecia que o destino havia, de certo modo, dado-lhe uma oportunidade ímpar em ter essa sólida posição para impulsionar tantos sonhos, como o de sair daquela cidade tosca e limitada na qual não conseguia ele visualizar qualquer futuro, ao menos não a médio prazo (quem sabe se n´um futuro distante não poderia voltar para tentar plantar alguma semente de mudança nessas terras pelas quais ele não nutria nenhum apreço especial? Bem, não acreditava muito nisso). Pois bem, no final das contas, por mais que quase todos os dias desejasse do fundo da agonia sair daquela posição quase que estéril, certamente que sabia não poder fazê-lo, que precisava seguir pacientemente tal caminho. Afinal, era sua porta certa para o mundo. Então, como viver? Bem, havia formas de escapar por alguns instantes ou horas do ambiente massificador e alienante da burocracia, que era pela via da criação! Sim, como tanto queria, criar! Quantas horas não passava ele a escrever e escrever, refletir acerca de questões que lhe tomava os pensamentos, exprimir sensações e sentimentos, expor sua individualidade e sua coletividade. Também era um tempo hábil para planejar e tratar de ações e responsabilidades coletivas que ele desenvolvia fora daquele mundo preestabelecido do trabalho. Sim, sim, sim... precisava criar! E precisava também voltar ao antigo hábito de tentar influenciar os que o rodeavam, plantando questionamentos, interagindo, participando, ao invés de se fechar na roda gigante do tempo até o final do expediente. Sim, sim... abrir as janelas nas paredes brancas (e assépticas) e prendê-las de modo a permanecerem sempre abertas e assim, quem sabe, poderia não sofrer tanto com a escuridão que vez por outra caia-lhe sobre os ombros e idéias.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Expl´ódio

Ele não tem o dinheiro da selva de pedra. Como viver se tudo é tão estéril? Há fábricas de bonecos que trocam sangue por moedas. Vivendo do próprio sangue, a maioria se prostitui em currais e matadouros. O pensamento é proibido por lei publicada no jornal oficial do coração - ou seja, cada um cuida de autoproibir-se pensar. Tudo graças ao templo escolar da tolice. Se ainda assim nascem "ervas daninhas" (pensamentos), são tantos psico-tóxicos que são todos deformados, putrefatos, aleijados. A palavra de ordem é aceite. Compra-se aceitação, paga-se para esvaziar-se por inteiro nesta Igreja do (des)saber. Mas ele não tem esse dinheiro, ele tem suas veias intactas, sua cabeça cheia de pensamentos proibidos e vive, então, quebrando pedras. Quebrando as pedras de qualquer estrutura que encontre e tirando dessa tentativa de destruição o que houver de sobrevivência. Sofre cotidianamente todas as violências - Cada animal bípede que passa lhe ofende e amassa. Os monstros de fumaça lhe arrancam o ar como dragas arrasando áreas pulmonares. Seu sangue se derrama, mas ninguém lhe paga, pois isso nenhuma riqueza (carnívora) gera... Então, sua última e fatal decisão, preparar-se com todo o ódio que colhe dos jardins e cata nas latas de lixo, para tornar-se uma bomba de ácido 'misérico' de hidrogênio - a mais poderosa bomba já criada. Ele não está sozinho, sabe que como ele, há trocentos milhões de ignorados, apartados, marginalizados, seguindo o mesmo caminho, tornrem-se formas multidestrutivas. Quando chegar a hora, eles vão explodir, vão explodir tudo, arrancar das placas as cifras, rasgar das vitrines as etiquetas, despedaçar as fachadas e as muretas, incendiar os bancos-calabouços de inocências, para libertar todos da "liberdade" da mentira que todos bebem dia-a-dia como se fosse água. Por enquanto ele apenas se prepara. Arranque logo seu ódio do jardim antes que ele pegue. Recicle, transforme em algo mais humano e assim talvez evite o apocalipse tão esperado.
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(Muse - Plug in Baby - uma música)

Mulher e Menina

Enquanto as duas meninas se afastavam na máquina coletiva, ele as obervava com a maior ternura do mundo, as duas flores no seu jardim cardíaco, as duas gerações em seu destino iluminado, as duas forças transformadoras de seu conhecimento e aprendizado, as duas pérolas preciosas que possuia, afora sua própria família. Queria poli-las com a brisa morna da experiência e da companhia, as areias brilhantes da autonomia e a cera purificadora do afeto e do carinho, essas duas jóias que alumiam o dia. Sente essa ligação perene e revitalizadora entre si mesmo e as duas e percebe que a cada dia ambos os laços se fortalecem e engrandessem. Significa muito um abraço apertado e sincero de criança. Significa muito um olhar acolhedor e amoroso. Significa muito a harmonia de espíritos jamais encontrada com outra pessoa. Significa tanto, tanto, tanto... E valoriza tanto que quer ser uma parte integrante e atuante dessas duas vidas que unem-se à sua cada vez mais. Sente saudades e quer estar perto. Muito em breve encontrará seus sorrisos prediletos que enriquecem seu tesouro de felicidade. 'Mui rica' é esta vida... 'mui bela e hermosa'...

mi corazón...

Decidiu ser

A menina queria mais do que existia. - Tudo não é o bastante, quero o que não existe, algo tão novo que não foi criado (ou copiado)! - Menos, ela não aceitava; para os seus padrões, era o mínimo. Profundamente insatisfeita com a mesmice do mundo (que com os séculos parece nada ter realmente aprendido), fez-se necessário ir além do muro das lamentações televisivas. Quebrou as vitrines manchadas em sua mente, pois para ela era apenas uma montanha de incoerentes inconsequentes poluentes! Tratou de desligar a programação shoppingizada que lhe parecia uma corrente, desacorrentou-se e aos que estavam ao seu redor com uma força criadora chamada amor. Desmentiu todos os anúncios, sabia-lhes mentirosos! Xingou de 'mãe dos tolos' a Propaganda e sentiu-se ofendida com a Publicidade. - Eu sei mais do que vocês, não tentem me dizer o que fazer! - Se irritava e rasgava o panfleto da loja. Assim, tão farta desse mundo imundo, cheio de bobagens falsificadas e compradas, decidiu fazer para si o próprio mundo dos próprios brinquedos (gotas de alegria), idéias (tudo que existiria) e segredos (o mistério da beleza da vida). Queria para si um verdadeiro lar, grande, região, continente, planeta, não essa papelada burocrática nacionalista e conformista... Seria a inventora de seu lar, a mãe de si mesma, a sua própria direção e por isso, decidiu chamar-se Lara. E assim, com o barro mágico (ou massinha de modelar) com o qual Deus criou tudo, começou ela também a recriar o mundo, do fundo até o alto do céu, pondo nesta massa muitas sementes de maturidade, conhecimento próprio e fraternidade... deu uma forma livre e singular para cada ser e assim se sentiu verdadeiramente ela, parte do mundo de seu coração.

Erva-doce

Disposto a pular nos teus braços do penhasco de qualquer incerteza de futuro
As certezas da emoção são tão maiores, que parece-me impossível o não-ser
Há somente o 'ser' em nós, que temos essa tão inesgotável harmonia
Vou contigo, venha comigo... 'para o que der e vier'
Descobrir-me em ti, descobrir-te em mim... traga-me o doce
sem precisar de açúcar... faz-me plenamente feliz
com um simples jeito de meiguice... em tudo há fartura
de maravilhosas emoções e aventura
nosso abraço sabor anis
é a maior porção do amor
cor verde, nossa cor...

Permite-me sonhar?


Deste-me idéias nas quais passei a noite imaginando, divagando sobre como pode ser, como será. Funda-se uma idéia na minha cabeça e prontamente passo a acreditar. Para mim torna-se certo que acontecerá, basta querer. Será então uma pequena mini-casa só de dois. Será assim, alta, com vista enorme do céu. Não imagino ainda a forma externa, talvez o profissional adequado poderá pensar nisso, mas dentro decoro com formas imaginárias cada um dos quantos cantos tiver. A entrada será para frente ou ao lado... uma bela porta de madeira clara, com um amuleto somente nosso pendurado. Poderá haver um tapete reciclado com boas-vindas para os convidados. O espaçoso cômodo terá um pé direito de praticamente dois andares, pois conterá um adorável mezanino do meio para o fim da área. Lá no alto, para onde uma esguia e pequena escada levará, ficará o colchão inflável enorme forrado com um edredon fartamente macio. É possível que o tal colchão fique sobre uma plataforma de concreto cuja finalidade será guardar livros, sapatos, a videoteca, o que for. Ao fundo, de alguma forma improvisada, estará o armário cuja missão é ser grande o suficiente para conter duas vidas de roupas, isso sem ocupar muito espaço. Em toda a extensão das paredes do mezanino haverão estantes, superlotadas de livros e mais livros, sobre tudo que se puder imaginar. Livros estes que preencherão tantas horas abraçadas da noite, deitados n´uma rede lendo o carinho da pele e da página. À mão estará o frigobar, abarrotado dos dois elementos essenciais da humanidade, água (bem gelada) e chocolate (amargo - de Ouro Preto - sonho). Eventualmente haverá também maçãs e uma jarra de suco de tangerina com mamão sem açúcar, incrivelmente doce e refrescante. Sobre este móvel branco coberto de um paninho de renda, um jarro de margaridas e flores do campo, um caderninho e alguns lápis. Os muitos anéis, brincos, colares e acessórios serão aí colocados quando preciso... ou esquecidos (não esquecendo do óculos indestrutível mas com vida própria). O lustre será algum tipo de origami? Espero que algum dos amigos talentosos se digne a dar este presente... Creio já não haver mais espaço em cima. Agora embaixo... bem, no canto de lá, e abaixo do mezanino, do lado voltado para a outra casa (da qual se quer ter autonomia), ficará o banheiro. Uma tubulação levará a água para o lado de fora, para ser reaproveitada no jardim de belas flores e balancinho, sebes e plantas trepadeiras. O banheiro precisará ser mínimo, 'portátil'. Em frente ao banheiro poderá existir uma mini-cozinha, uma pia, fogão de duas bocas, mini-geladeira, duas panelas e seis pratos, além dos talheres e uma frigideira. Haverá de caber um micro-ondas também! Uma cortininha isolará a cozinha-banheiro da sala de estar... uma cortina linda, seja de tecido, seja do que for. Colorida, é certo. A sala de estar precisa ter uma coisa, uma área grande de parede branca, porque nesta aconchegante casa não haverá televisão, mas um projetor e um dvd, como um cinema fabuloso. No chão muitas almofadas e talvez um sofá-cama para visitas. Alguns ganchos para redes, vários andares de redes, até o teto (medo)... Mais estantes e mais livros! Um som maravilhoso! Ah, sim, a casa terá uma acústica que fará a música percorrer cada cantinho facilmente. E as paredes, de que cor? Exceto pela parte branca do cinema, não sei... vermelho escuro contrastando com branco? Um marrom-clarinho calmo e agradável? Verde grama, azul turquesa, laranja vivo, lilás? Não se sabe, será uma decisão difícil... Tudo será difícil de decidir... espero que meu amor tenha mais decisão do que eu... E, bem, muito artesanato por toda parte! A decoração será assim, caseira, artesã, bela e simples! E o toque final? Uma energia de felicidade farta e luminosa!

Foi o que sonhei de noite.

Ah, esqueci de descrever as janelas... serão de madeira... haverá uma em arco no alto! Talvez, se possível, gostaria de colocar um teto verde e uma varanda para o céu de alguma forma, mas ainda não sei... Janelas amplas! Luz! Céu estrelado! Claraboia? Abóbada? Luz... Pensei também em algum sistema que canalizasse a água da chuva para uma fonte que caisse pela lateral da casa... por pedrinhas bonitas na parede... Belíssimo! Junto à parede do lado de fora, preciso dizer, muitas plantas, flores e temperos, viu?!

bem-vindo!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

5 dias de verão


Há muito tempo não vinha ao céu noturno fazer chover as letras de minha insônia. E hoje nem mesmo sinto qualquer empecilho ao sono... apenas uma recente falta de costume em recolher-me cedo e deitar na cama solitária e fria. Habituei-me a afogar o sono nos prantos do desejo, deixando-o levemente deslizar pelas frestas da rede ou arestas da cama, refugiando-se, assim, longamente, em qualquer lugar esquecido até o passar da madrugada, à espera da luz matutina e da ordem imperiosa da exaustão. E ante tal autoridade, tentava, ainda, levantar o braço da vontade em demonstração de indisciplina e audácia, tremulamente apertando-me à carne e ao suor da minha vida. Sim, velozes e extasiantes dias desregulados de noções e dimensão temporal, percorri os primeiros olhos da manhã na ânsia de uma revolução dos meus limites, via a maturidade das primeiras horas do dia impingindo-me um sólido cláustro de sonolência e sonho e finalmente as altas estações da tarde encontrarem-me para qualquer tarefa que exigisse da mente mais de um metro do chão, física e mentalmente falando. O aspecto mais marcante desse poema experienciado foi a pura e inesgotável vontade de estar o mais perto possível, esmiuçando todo e qualquer detalhe que estivesse à mãos, olhos, ouvidos e tatos... também o palador viu-se convidado à aventura de sentidos que jamais se poderá esquecer, apesar do nascido ímpeto de superar cada vez mais as glórias e recordações, com maiores exaltações e sensibilidades... vejo que todo o tempo foi curto e incapaz de colher a vasta turbulência de espíritos e desígnios e realmente só será possível alcançar o ápice n´uma qualquer manifestação do nirvana, a iluminação, a combustão total de tudo que houver em ambos os seres...
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Quero para mim (e ouso julgar possuir) a verdadeira loucura dos apaixonados tão bravamente exercida que cada dia é a mais venturosa descoberta...
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...Quero para mim mais dias de ti....

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A(mo)r


Percebo que a maior confiança é se deixar levar de olhos fechados e mãos dadas contigo... Não olhar para lugar nenhum, sentir as fibras conectando-se entre nossos dedos, o calor que percorre a carne vívida louco para aquecer a pele unida, deleitando-se na cálida emoção do encontro. O equilíbro entre a carne e o espírito... duas correntes entrelaçadas no nosso caminho... os caminhos das mãos não nos enganam, as dualidades se completam e o desejo maior é não se separarem jamais... O ar que habita o espaço entre nós se autodenomina saudade. A energia que salta do meu corpo para o teu e vice-versa gosta de ser chamado magnetismo... Os meus olhos com os seus ritualizam o sonho e a sede que eu sinto (e tu também sentes) só se saceia com explosões milhares e diminutas em cada poro das nossas peles roçando em faíscas... Ar e Terra aquecidos até a perfeição do cristal... a transparência límpida das almas unas... que encantam os olhos alheios com uma verdade indecifrável para qualquer um além de nós mesmos... A última verdade da vida... e a primeira antes de tudo...

ler a grama

Quando fico quieto a te olhar, com olhos de lago n´uma tarde sem brisa, com expressão de encanto mudo do mármore renascentista, com os sentidos sequiosos absorvendo todos os estímulos, admirado com todos os traços, os mínimos movimentos, expressões, manifestações de graça e doçura, formas e matizes do olhar, jeitos e charmes labiais de primavera, pureza e delicadeza da tez e do respirar... fico ali, derramado como folhas de outono, enquanto se arrumas para sair, para vir comigo, para estar assim, tão linda... absorto, bebendo desmedidamente o sentimento que me causas... sou um lago engrandecido pela água doce e terna do rio, rodeado e permeado do perfume do teu corpo, teus profundos segredos, tua sublime vivacidade... toda a natureza declarada nos nossos corações.

Às vezes estranhas minha expressão... minha forma de me perder em ti...
me deito no chão, apoiando meu rosto no teu ombro e te abraço a felicidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Me-nina´r


Explosão de energia, vamos brincar?
Ressaca de insônia, quase a desabar.
Voltar a dormir me dá tanto sono
Quero apenas te olhar de vermelho
Nas ondulações suaves do teu colo
Diante de girafas e peixes nas nuvens
Sem relógios para nos afastar
praia e mar
dentes de fruta

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

equil´ébrio


Reflexivo...

O desejo de unicidade turva a clareza de nossa visão/percepção de que somos tanto um reflexo, um produto, uma construção de outros além de nós mesmos... isso porque nos fazemos a partir de referenciais... O que resultaria de um ser criado no Nada? Nem substrato, combustível, matéria-prima, húmus social, não surgiria nada, permanecendo o potencial de humanidade preso na semente do ser, sem expandir-se.

O ponto onde os seres divergem é que alguns simplesmente vão passando de reflexos para reflexos, a medida que se deparam com novos referenciais, adequam-se, adaptam-se, e vão seguindo as marés, indo e vindo para onde se levarem, enquanto outros passam a fazer resistências e seleções quanto os novos reflexos e referenciais que tomarão... com um maior controle sobre seus caminhos... (a partir de um certo ponto de autoconsciência adquirida, certamente)...

Estamos cercados de referenciais...
Por todos os lados...
Muitos são meras variações de um referencial maior e hegemônico... outros divergem levemente e outros mais drásticamente... Mas como discernir? Principalmente quando se está na fase da vida de frágeis conceitos, de inocência perante a realidade, de abertura fácil para ao que se está exposto, a infância. As crianças por todos os lados se vêem rodeadas de referenciais fabricados e muitíssimo bem preparados para seduzi-las... ou seja... são massa de modelar tão maleável... pobres crianças, fadadas ao transvio, a menos que acasos, astros ou destinos as coloquem em caminhos que as ponha no controle...

Quais os referenciais que nos seduzem? O que queremos ser? Por que queremos ser o quê e qualquer coisa? O que te seduz? É preciso entender o que realmente se quer fazer de si... (e aqui)

Há algum propósito? Precisa ter propósito? Objetivos? Ou o fim em si mesmo basta? Queimar-se ou consumir-se? Deixar-se ou encontrar-se? Igualmente válidos?

Encontro meus referenciais...

mas eu
sou do contra.