terça-feira, 27 de agosto de 2013

Jogo Poético II - Corpo


Lembrete: O jogo é assim: escolhe-se um tema simples, cotidiano, qualquer, e escreve-se de forma espontânea-criativa-louca sobre ele, deixando fluir as imagens-palavras-insanidades que transpassarem os dedos-sentidos... além de um jogo, é também uma técnica psico-analítica-pós-interior de desvendar submundos...

Tema: Corpo

Abre o chuveiro, deixa a água correr, molhar os dedos, os pés, os cabelos, os ombros, os seios, os joelhos, deixa ela caminhar, gota ante gota, pelos anseios, espelhos, medos... deixa as mãos dele cuidarem de ti, massagearem os sentidos com aromas de flores, de frutas, de sonhos contidos n´um pedaço colorido de espuma em êxtase... Deixa o corpo ser corpo, estar corpo, querer corpo, viver corpo, festejar corpo, purificar e inundar... envolver-se nas pernas braços carícias quadris roçando assim como o riacho no cascalho, faiscando, elétrico, cristalino estado de desejo... e paz fria na nuca da água derramada do céu... e ali, doidamente, sexo com cheirinho de banho...

O chão de madeira descobre a dança dos pés intuitivos, das mãos vibrantes que comandam orquestralmente movimentos musicados sem música... Contemporânea expressão atemporal da razão do corpo em existir - mover-se realizando-se em seu estado de puro corpo... Ao dançar os olhos se fecham, deixa-se guiar pelo desequilíbrio da loucura abandonada de mente - agora sente e só e basta... 

Pula e cai... e rola e grama e terra e cheiro de verde e areia e cheiro de lagoa e água e delícia e cheiro de riso e brincadeira roda puxa agarra molha e cheiro de gozo de vida de essência de instante destilado no alambique suado exausto do corpo... exausto vibra suas últimas forças largadas na lâmina d´água flutua olha o céu navegando nas nuvens azuis roxas e laranjas que escondem-se atrás dos olhos de algodão... lambe os lábios de água doce de corpo d´água e sacia sede de ser mais... 

E voa no balanço da árvore dos poros da casca e da seiva... e ganha os ventos da copa alta de mangueira escalada na infância de hoje... engole a vida com boca redemoinho de gestos sutis de sorriso suave que chama pro beijo na cama de folhas sem roupas sem outras preocupações senão expor o sentimento da carne que arde na alma sem calma e abre caminhos sem pedras macios e carinhos que descobrem o que ninguém nunca viu pressentiu que está pr´a nascer o que é que vai além do ser - corpo sublime mostra sua forma de ser...

Uma música - No name #2 - Elliott Smith

Outra - Lithium - Nirvana

Outros temas: Foto, Arte, Roupa, Sono, Faxina, Música, Água, Praia, Viagem, Livro, Sentidos, Solidão, Criação, Escrita, Sonho, Morte, etc...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Bom para ir...


Rua após rua, as rodas ganham o espaço, o tempo, a distância entre a alma e a calma... Pedalar pode ser uma forma de acabar... lidar com a sensação pelo caminho percorrido... enquanto ouve canções, procura o melhor trajeto, mais verde e sombreado, para chegar ao parque, ao destino, ao início... Naquele dia foi ao encontro de uma tarde de conversas com quem gosta de conversar... a única menina de cabelo claro com quem gosta de conversar... (até agora) e que tem uma energia resistente e fugaz que anima... Qual a natureza da cor dos cabelos e como a ondulação dos fios participa das aproximações e das partilhas? O que importa é que, sentados diante do lago, enquanto patos ensaiam voos e o sol se deita em ritmo lento, estabeleceu-se no diálogo um momento de limpidez, de translucidez, de vivacidade... na volta, só, consigo, repercorreu as mesmas ruas de uma cidade distante de casa, achando museus e fotos e filmes pelo caminho e um friozinho de casaco azul listrado e calçadas alegrias...

Good to go - Elliot Smith - uma música

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Queime depois de ler


Manifesto de fundação da Pró-associação dos (A)tingidos pela Pós-modernidade

A pós-modernidade não é uma teoria, não é uma novidade, não é uma abstração. A pós-modernidade é apenas um resultado ou o ápice do sistema capitalista em sua forma globalizada, especulativa, financeirizada, onde tudo é imagem e mercadoria, onde tudo é desagregação falsamente agregada, fragmentação ilusoriamente conectada, corpos partidos, espíritos rachados, emoções trincadas, sonhos plastificados... Os seres humanos são máquinas-animais nesse sistema de consumo, de consumo de vidas... nos esgotamos correndo n´uma roda de ambições, vontades comerciais, esperanças moldadas, para manter em funcionamento esse corpo de relações sociais de dominação e exploração, frustração e compensação, violência e entretenimento.

Correndo, com pressa, endividados, dispersos, sozinhos, isolados, em multidão... sujeitos dóceis ou tornados inofensivos, seres incapazes de perceber-se coletivamente, de integrar-se, de harmonizar-se com uma construção coletiva, uma relação social coletiva que busque sua libertação, ao invés de sua escravidão. Esse é o resultado de cerca de 10 mil anos de sociedade de classes, de dominadores e dominados, de senhores e escravos, hoje em seu grau mais avançado, complexo, destruidor e sanguinário. Torrentes de sangue de nossas veias são bombeadas por cartões de crédito e bancos de empréstimos consignados. Quanto tempo trabalhamos para pagar nossas dívidas? Nascer é uma dívida, nesse sistema. Muito foi pago para nos fazer nascer e nos cobram desde o primeiro momento. Morrer também é uma dívida. Viver é uma dívida. Quanto de nossas vidas são dadas para comprar coisas, ou, pior, minimamente para poder continuar vivendo, trabalhando mais, para viver um pouco mais, em um ciclo cujo fim é a morte vã? O que isso diz sobre nós, senão que continuamente nos fazemos coisas (coisificados), substituindo a vida que existe em nós por coisas que nos alentarão pelo fato de não vivermos...

Diante disso, cria-se aqui, agora, a cada ato de leitura deste texto, a todo instante e intermitentemente, a Pró-associação dos (A)tingidos pela Pós-Modernidade. Nada mais é do que um espaço, um tempo, uma brecha, uma rachadura na opressão que nos cerca e que vomitamos continuamente. Esta Pró-associação não é uma organização, uma entidade, uma instituição, uma coisa. É um impulso de relações em busca de libertações mínimas e máximas dentro do sistema de relações destrutivas pós-modernas. Sendo assim, na Pró-associação os sujeitos que se sentem profundamente atingidos pela pós-modernidade encontram outros para assim apoiarem-se na emancipação comum. Pelas nossas dores e feridas nos unimos em laços de afetividade e solidariedade para superarmos as relações envenedadas pela insegurança psicológica que nos é incutida, pela vaidade individualista que nos é engolida, pela dispersão e fragmentação corpo´mental e espiritual que nos é propagada, pelo desespero pela sobrevivência que a todos empurra à escravidão "voluntária".

Transformar esta realidade e relação social caracterizada pelo ápice capitalista aqui denomidado pós-modernidade é o foco da Pró-associação, mas isto não faz dela substituto dos movimentos socias e demais espaços de transformação. Contudo, a maioria das iniciativas de transformação é realizado por sujeitos atingidos em sua íntima estrutura psíquica, espiritual, corpo-mental pela pós-modernidade, fazendo deles sujeitos fragmentados e dilacerados.

Exemplo disso é quando cada um de nós precisamos percorrer diariamente dezenas de quilômetros para chegar a qualquer lugar, desde uma reunião do movimento, ou ao local de trabalho (escolhido-compulsório) que nos dará sustento, ou ao lugar que vende lazer, saúde ou qualquer necessidade humana básica feita mercadoria. Este urbanismo ultradistanciado nos dilacera cortando nosso tempo e nosso espaço por distâncias psicológicas e concreto-armadas. Sempre de passagem, sempre indo para algum lugar que não o nosso próprio lugar para resolver ou fazer algo, ou simplesmente estar. Assim, a Pró-associação atua na reorganização urbanística dos seres, transformando os paradigmas de moradia, convivência, atuação e deslocamento em um único paradigma que afirma que precisamos existir, coexistir e transformar a realidade e as relações preferencialmente e prioritariamente no território que nossas pernas podem percorrer no espaço de minutos e sem se cansar. O que significa que a comunidade e a vivência comunitária, consideradas em sua raiz existencial, é um dos caminhos de superação da pós-modernidade. Ao invés de viverem em casas separadas, em estruturas sociais baseadas no núcleo familiar (ou na família nuclear), estrutura ancestral da sociedade de classes ou então fortemente apropriada por ela, ao invés de cada um viver em lugares distantes, sendo preciso que todos desloquem-se para pontos de intermédio para realizarem suas ações pessoais e sociais, busca-se o rompimento com este urbanismo desagregador, em busca de outro agregador, solidário, participativo, de laços afetivos transsociais, ou seja, amplos e irrestritos entre todos os viventes do lugar.
Outro exemplo dos resultados nos sujeitos da pós-modernidade é a formatação dita educacional que recebemos desde nossos primeiros contatos com o conhecimento. Recebemos tudo em pacotes, separados, disassociados, descontextualizados, o conhecimento fechado em disciplinas, em "ciências", como se o conhecimento não fosse sempre interrelacionado e complexo. O conhecimento foi partido, triturado e distroçado, sendo assim injetado (e vendido) em mentes amolecidas por uma disciplina que nega-lhes a pergunta, a curiosidade e a criatividade. Ao contrário, atuamos aqui um conhecimento integral, enriquecido com fibras, laços, multiplicidades, sabores, emoções, conexão de todas as dimensões da existência humana.

Pró-associação porque o ato de associar-se precisa ser proposto permanentemente, não imposto. É uma escolha diária e necessariamente consciente e voluntária associar-se, estar com o outro, construindo com o outro, para favorecer a si mesmo no benefício de todos. Como a pós-modernidade é o ápice de uma sociedade em que as relações sociais estão profundamente permeados por uma lógica comercial, de dominação, de competição e isolamento, precisamos (re)criar a prática associativa em nós individual e coletivamente. 

Ao ler este texto, eu, leitor-escritor que percebe e transforma o mundo, abro a possibilidade da pró-associação, estando livre para associar-me ou esquecer.

60 revolutions - Gogo Bordello - uma música

Da Servidão Moderna e Surplus - dois documentários

Marear...


Mecanismos. Em minha permanente relação comigo em minhas múltiplas dimensões, deparo-me com desafios - sentimentos, lembranças, ideias e emoções que correm, se agitam, fazem barulho em meu corp´alma, perturbam, desequilibram, desorientam, pois nos agarram e não nos deixam ir adiante, caminhar o caminho livre... Nestes momentos decisivos é preciso brincar de arte-pensamento e deslizar para outros deslugares mais chamegantes...

"Pare de pensar nisso!" e viro os olhos do interior pra uma janela que acabo de criar na hora para concentrar o estar sendo no ser... Não é que eu não possa pensar nisso ou em tudo, que eu esteja me privando de sentir, ou tentando fugir ou desviar ou... - eu sei, tenho consciência, está claro. Pronto. A partir daí, é apenas repetição... o pensamento em loop vicioso retomando pontos finais... E eu tenho mais o que fazer do que ficar dando voltas no mesmo lugar... Sendo assim, saio da roda, deixo o giro, largo o círculo, e vou pr´outro lado criar um novo... 

Mecanismos. Olho e minha mente antevê o real (ou o anti-real), imagina antes de ser, cria o que ainda não é... ou seja, julgadefinefechamata... "Pode ser que sim, pode ser que não", "Deve ser justo o oposto", "Ou sou eu que sou assim"... Sub´inverto a morte que impus ao outro para me reviver na abertura da possibilidade... Se acho que foi o outro, imagino que talvez tenha sido eu... se acho que o outro pode ser isso, imagino que ele pode ser qualquer outra coisa... e liberto-me na liberdade do outro...

Abrir. Sair. Entrar no que há fora... Deslimitar, desfronteiriçar, abririzar... Quebrando os vícios corpo-mente-espirituais, superamos ao menos aqui e agora a restrição que deixou de existir... E o vazio se tornou a infinita possibilidade de tudo ser... 

On the Sea - Beach House - uma música

sábado, 17 de agosto de 2013

Balão

Gosta de dançar. Quando dança, sente que ela dança com ele, que dança como ela. A sente no corpo, na intuição do gesto, no pressentimento dos pés, dos joelhos, dos quadris e ombros... sente que os pulsos fazem a mesma brincadeira de ritmo, que os olhos se fecham na mesma penumbra. Ele põe aquela música mágica, que transpassa quilômetros e abismos e a traz pra perto, ao lado, junto, rostos cerrados no espírito melódico, na vibração cardíaca, na latência da pele... 

Tem noites que apenas a música segura na mão, envolve o corpo, desmantela a ausência... brincando de ficar só, ou aceitando as solitudes, ele sorrateiramente descobre a gravidade do sentido... do sentir... a fragilidade do partir, do partido... e a desacralidade do porvir... 

Quando toca esta música, a luz amarela do banheiro, a água morna do chuveiro, as gotículas no vidro do box, o sabonete de romã ou de erva doce, tudo o leva para lá... para onde não há, não está... Não importa, enquanto a música tocar...

Cecília e os balões - Cícero - uma música

domingo, 11 de agosto de 2013

Líquido...


Um dia haveria um encontro. O universo não é tão grande assim que pudesse evitar. Subiu a ladeirinha de alternativas matos e terra. Estava com fome. Aquele dia fora suave, levando cada atividade como quem atravessa o vento, sem fazer resistência... ainda teria uma aula naquela noite e precisava alimentar-se no cantinho familiar antes de partir. Foi. No caminho, rostos conhecidos acenando oi, balcão e luz amarela e uma blusa verde. Aquela blusa verde, aquela bolsa de couro, um relance de rosto que esgueira-se para trás do expositor de salgadinhos. Coração repercute percussão. Dá um passo, outro passo, até desfazer a distância da fuga, da temeridade, do tempo... Um diante do outro, depois de um abismo de afastamentos, não dá para evitar... sem palavras, apenas um abraço eterno enquanto durou... abraço úmido de olhos, apertado de braços, caloroso de espírito e saudade e bem muito querer bem...

Uma música - Christian Brothers - Elliot Smith

Imagem: Rogério Fernandes

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Jogo Poético I - Sabor


O jogo é assim: escolhe-se um tema simples, cotidiano, qualquer, e escreve-se de forma espontânea-criativa-louca sobre ele, deixando fluir as imagens-palavras-insanidades que transpassarem os dedos-sentidos... além de um jogo, é também uma técnica psico-analítica-pós-interior de desvendar submundos...

Tema: Sabor

Caminhando por gramados de asas pré-moldadas por sonhos de mundos de razão natureza-morta, encontram cantinho de janelas enferrujadas e cortinas e mesinhas e cardápio-arte belo... folheando folhas de outono descobrindo os sabores do lugar, uma intuição: um certo creme de manga que está ali como quem não quer nada além de refrescar a tarde fria... pairava no ar um mau-humor de pouco sono ou resistência de quietude que diante do manjar amarelo desfez-se... encontrou-se livre para sorrir...

Sabores mais que línguas também cores odores memórias sensações associações com mundos de antes e depois... cada alimento repleto de corpo e alma e paz e treva e chama pra perto a vida ressurgindo no interior transparente da papila gustativa...

Na ponta da ponte entre a boca e o sabor o doce lisérgico que acalma e entorpece e transporta daqui pra onde se quer chegar... naquela hora preciso da droga negra, orgânica, forte, fronteiriça entre o doce e o amargo... amargo de chá com pouco açúcar, tudo com pouco açúcar - o que é isso senão um registro do que vivi e aprendi? O azedo de limão maracujá gengibre morango chega de lado, cercando a cintura, com jeitinho, suave, sensual... arrepia porque alegria... intenso porque penetrante... anuncia a acidez fantasia que revira mentes sentes que é mais que real e chega a descobrir qual a essência do gozo... quando chega o instante que o sal acorda do sonho e nos faz realizá-lo sem medo, com temperos e segredos e labaredas... salgado é o mar suor e a massa de pão que sovada pela energia vital transforma a matéria em sabor... Sabor é a vida que cheira a pele querida que amor perfuma até quando não está... e tudo que é sentido é poesia é beleza é arte que nos faz existir...

Música-sabor - Selvage - Curumim

Outros temas: Foto, Arte, Roupa, Corpo, Sono, Faxina, Música, Água, Praia, Viagem, Livro, Sentidos, etc...

calçadas...


Tenho pensado muito sobre memória. Sobre lembrar. Sobre viver o que é dentro de nós nas salas cinematográficas cerebrocardíacas... Mas, olhava como quem queria, como quem não tinha, como quem perdia... e não... no ônibus, chegando no ponto em que ele entra na rua da feirinha de artesanato, pegando o labirinto de ruas de pontas negras e asfaltos pandeiros que tremem cada metro percorrido, passando por esquinas de dez anos de minha vida, praças de dias passados e placas antepassadas, decidi então que tudo que lembro é, está, vale cada centímetro de alma gravada na história de si. Como perder o que vivemos da forma mais vivida possível? Como querer o que já somos nós? Clara, cristalina, límpida compreensão que sempre esteve diante do(s) olhos/ser... mas às vezes esquecemos quando lembramos... 

E a medida que vivemos, transformando cada memória vivida em mais e muitas e umas sobre outras, vamos pintando o mundo ao redor de cor´instantes que ficam, impregnam-se na paredes, nas pedras, no verde, no gosto dos espaços... e cada pedacinho de si/tu/do espalhados por aí encantam pela beleza da partilha, da dádiva...

Ponto Cego - Cícero - uma música

Quando



O Ser bruto
Expresso sem querer
Sem motivar uma imagem
Inevitável, por não deixar
de imagem´nar-se
A matéria viva e sensível
em sua máscara dérmica
desprotegida, vulnerável
O olhar cru, a expressão nua
mais do que qualquer 
produção da arte-ficialidade
arte-facialidade
saídas fáceis para fora de si
descaminhos de pós e pincéis

Ah, a alvorada do corpo que desperta do sono profundo
e carrega nas pálpebras os mistérios do dia anterior
e de vidas passadas
O fluxo do corpo trêmulo lavado pela chuva 
desmanchando formas de cabelos e espíritos
Revelando pelas gotas poros 
chaves de segredos... aquilo
que as aparências guardam de subterrâneo...

Paixões de corpo, superfícies, víceras
emaranhadas como múltiplos caminhos que conectam 
e alegram os seres que entre´são...

Uma música - Interfone - Cícero

Arte - Jana Joana e Vitche

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Servido/a?


Ah, gente louca... a loucura é o estado mais lúcido do ser... porque não aceita nada que esta doentia gente chama de normal... nem aceita nem pratica, porque adora preferir morrer à se submeter... e prefere mais a própria loucura de ser quem é do que ficar mal com a sanidade alheia olhando-lhe torto... Ah, gente louca pra conversar sobre a eterna liberdade eufórica de desbravar o inimaginável... de realizar o impossível... de viver o perigo que atemoriza a maioria, tolinhos... Vamos, tá marcado qualquer hora na esquina de baixo de uma neblina num dia qualquer em que os comuns estejam em seus empregos martirizantes e nós, loucos, estejamos caminhando com música fluindo de nossas mentes e ideias pingando dos dentes... Se você faltar, não tem problema, esbarramos com becos imaginativos que inspiram artes e assim nos alegramos com a louca solidão dos que estão em tudo...

Uma música - Mi Vida Eres Tu - Vanguart

segunda-feira, 29 de julho de 2013

perdido


"Nada se perde, tudo se transforma"... essa frase não é de ninguém, porque ela antecede qualquer autoria... não é uma ideia, um ponto de vista ou opinião... simplesmente é... tudo se transforma... nada está parado, fixo... nem a memória... a lembrança... o passado... o que passou, segue passando, segue existindo, reexistindo, sendo reexistido em nosso espírito/mente/fluxo que vê e revê tudo de uma forma diferente da última vez... 

Como folhas caídas de outono ou de velhice ou de gravidade, olhamos pro mundo e ele insiste em nos remeter a outros tempos existidos noutros mundos que pra nós já foi... E aí escrevemos com imagens invisíveis e sons inaudíveis e palavras ininteligíveis histórias, contos, curtas e longas mágicosinúteis, quadros desimpressionistas, sonetos inexistencialistas... 

Somos matéria prima argila fresca de universo inteiro: Tudo que foi será tudo que é mudou ontem chega logo amanhã esqueci de mim... O silêncio conversa comigo sobre quem me nega a voz. O ânimo esquenta na chaleira com hortelã e erva doce e açúcar demerara, que é bom para dormir. Dormir é bom para acordar, caminhar naquele caminho que intuitivamente está diante de nós... Existindo a expressão de nós... expressando a existência de si/tu...

Não precisa ter sentido pra ser bonito... mas ao soltar a direção deixamos a vida escolher...

Uma música - O menino - Pélico

E para contradizer proparadoxalmente - Não vou te deixar - Pélico - outra música

domingo, 28 de julho de 2013

O caminho se faz...


Caminhar... não para chegar a algum lugar, mas simplesmente por caminhar... pelo prazer do caminho, do passo, de cada surpresa que nos espera na próxima esquina e quarteirão... desvendar na rua o que temos de obscuro por dentro... 

Degustar o tempo, o espaço, o momento, o sentimento que brota da própria pele, dela só, de si mesmo, cercado de tudo, livre em nada... Sem pensamentos alheios, apenas o estar ali naquele instante aproveitando o que é, que está sendo... Sem sentir falta de alguém ao lado, de uma voz outra, sem falta... pleno porque a vida preenche tudo... 

Caminhando com calma, canções precisas iluminando o espírito, encontrando tesouros nos mapas do desconhecido, celebrando praças, encantando torres e escadas, festejando paredes pintadas de arte cores expressões, cultuando o ar respirado transformado em ser... 

É bom sentir que estar consigo é bom... não duvidar disso, nem sequer pensar nisso, apenas sentir que é... preencher qualquer falta com vida, pura, concentrada... querer-se, ser-se, ver-se melhor e com calma...

Morrerão - Vanguart - uma música

domingo, 14 de julho de 2013

Mariposas


Alcinha branca caída pelo ombro. Ela não se dá conta de quem se é movimento. Tão sem ela que charme de sem ninguém. Naqueles olhos de céu noturno a lua cheia brilha por trás de nuvens carregadas. Enquanto segura um copo de cerveja gelada pincela palavras na esquina do bar. Parece-lhe que dela escapam os gestos, que tudo que diz simplesmente respinga no chão. Cabisbaixa, observa os detalhes do piso escuro e manchado. Está frio, é madrugada alta. O sereno invade a pele. Aproximam-se as pessoas do círculo de afins como que cercando uma fogueira. O único calor disponível é o que emana deles. Um enlaça o pescoço dela como que preocupado em aquecer. Não importa muito. Escuta tudo o que ele diz sem atenção, como uma voz ambiente que norteia o espírito, que harmoniza os interiores. Ela quer se acalmar. Sentir-se lá. E esquecendo-se de si, com lágrimas de garoa neblina descendo pelo rosto, ela envolve também a cintura dele, escolhendo deixar.

A Patinha da Garça - Vanguart - uma música

sábado, 6 de julho de 2013

companhia (II)



Olhe pra mim... não vês nada... me escute... nada ouves... Porque o que sou não transpareço, talvez... o que expresso, fica mudo... Talvez porque nenhuma linguagem possa de fato dizer... E só aqui grito, numa tela branca de papel ou eletricidade ou imaginação ou ilusão... O mais próximo de mim que posso ser... que ninguém pode ser... E ainda assim, não sou eu... eu não caibo aqui... eu não caibo em mim... nada cabe... nada pode caber... Imagina se fôssemos de um tamanho que se pode medir? Não, não dá...

Mas tudo bem... independente do fato de sermos corpos, sermos eus, sermos sós, podemos fazer companhia de estrelas na noite... brilhando um luz fraquinha, mínima, mas que aquece, não importa onde esteja... chega... 

E nessa companhia, vamos fazendo a melodia do mundo... do humano... das peles saem as músicas que aninham... dos espíritos em transa escapam os brilhos fugazes que transparecem o que importa sentir...

Ma Mémoire Sale - Canção de Alex Beaupain, interpretada por Louis Garrel - do filme Les Chansons D´amour

Vivendo o que posso viver...



Não, não aconteceu da melhor forma... (e esta foi a melhor forma, o possível, o que é vivido)...
fomos ou somos demasiado fechados... fizemos deste lugar duas ilhas... eu queria praia para alcançar o arquipélago... mas não há afinidade entre a montanha e o mar... Eu queria um universo coletivo de bem-estar de cada indivíduo... mas o que foi possível contigo foram microcosmos individuais de aridez coletiva... E eu não sei o que vem/veio primeiro, mas eu que já era/sou/continuo sendo este desfiladeiro de rochas sem céu, caminhei ainda mais para o fundo do oceano sem luz sem sorriso sem gesto sem mim...

Acontece... aconteceu... está acontecendo... não há nada de errado nem ruim nisso... estamos sendo o que podemos ser nesse caminho de existências cegas para o instante seguinte... E seguiremos transformando... o que é não será por muito tempo... Há de mudar, para o que quer que seja... Não pergunto como serão os domingos nesse amanhã, nem como ficarão minhas economias, minha falsa sensação de segurança e de eu... Aceito tudo, a vida e a morte... que é hojeamanhãeontem... ao mesmo tempo... sempre...

Só o que importa é que estou vivendo exatamente o que arrisquei viver... correndo todos os riscos... sem ponderar a altura da queda...

Get Lucky - Daft Punk - uma música

"Para todos tudo"...


Entre o tudo e o nada... nem tanto nem tampouco... o mínimo máximo equilíbrio dos seres do universo... 

O caminho segue por corda bamba de equilibrista perante o abismo dos sentimentos sentidos... tudo que se quer é a pura e a livre possibilidade do ser... sem medos, sem pensamentos doídos, sem impedir-se de imaginar e estar e cuidar e expressar... sem dúvidas que interrompam o instante... inteiramente caminhando a cada passo superando vivendo nossas dores e feridas e sofrimentos... 

Ter nada, querer nada, estar nada, ser nada... Quando percebemos que não temos/somos nada, abrem-se as portas do existir em tudo... em nada nos agarramos, prendemos, enganamos... abrimos os olhos pra tudo os sentidos as almas os mundos... 

Nescafé - Apanhador Só - uma música

Ouvindo...

 

As-tu dejá aimé? - Canção de Alex Beaupain - do filme Les Chansons d´amour

Você já amou
Pela beleza do gesto?
Você já mordeu
A maçã com todos os dentes?
Pelo sabor do fruto,
A sua doçura e seu gesto
Já se perdeu algumas vezes?


Sim, eu já amei
Pela beleza do gesto.
Mas a maçã era dura,
E quebrei os dentes.
Essas paixões imaturas,
Esses amores indigestos
Deixaram-me mal disposto algumas vezes.

Mas os amores que duram
Tornam os amantes exaustos
E o beijo deles demasiado maduro,
Apodrece-nos a língua.

Os amores passageiros,
Têm febres fúteis
E o beijo demasiado verde
Esfola-nos os lábios
 

Porque ao querer amar
Pela beleza do gesto,
O verme da maçã
Escorrega-nos entre os dentes
Ele roe-nos o coração,
O cérebro e o resto.
Esvazia-nos lentamente.

Mas quando ousamos amar
Pela beleza do gesto,
Esse verme na maçã
Que nos escorrega entre os dentes
Toca-nos o coração,
O cérebro e deixa-nos
O seu perfume lá dentro


Os amores passageiros,
Fazem esforços inúteis.
As suas carícias efêmeras,
Cansa-nos o corpo.

Os amores que duram
Tornam os amantes menos belos.
As suas carícias usadas
Dão cabo de nós.

"Boa parte de mim vai embora"...



Deixar que me mates... e vou te matando... Deixar morrer... olhar em frente e nascer... 

Tudo que é erro, tudo que é humano, tudo que é fraco, tudo que é dano, é também o que é belo, mas que é tão feio, porque tudo que é bom, ao mesmo tempo é tão fim... 

E nos arrancando... cada dia mais... nos arrancamos de nós... e percebemos que não há nada... além do que há para viver... que a vida é o que se vive, nada mais... 

Nessa Cidade - Vanguart

terça-feira, 2 de julho de 2013

Sem mais...



Corre, fech´as portas, tira das tomadas todas as formas de chegar. Não o vê mais, não lhe fala mais. Some, levando com ela montanhas e nuvens de lençóis, sabores e lembranças. Esconde-se do ar, desespera-se com a paisagem, teme o minuto, chora o mundo. Faz um silêncio salpicado de farpas. Se outrora fora afeições de perfumes e gestos, resolveu evaporar presença e esquecer-se... Sacrificar... deixar morrer...

Quantos desperdícios de presenças e cuidados e crescimentos e aprendizados e riquezas e cores e humanidades não se perdem... se perdem... porque não conseguimos deixar o outro ser, o outro sentir, o outro ir... quanto perdemos por medo de perder... quanto deixamos passar diante de nós, sem abraçar, sem desfrutar, simplesmente porque tudo passa... Diante do movimento, enrigesse. Diante do amor que flui, congela. E o mundo fica um pouco mais cinza sempre que se faz da alegria de estar em relação com tudo um motivo para se fazer muros...

Música - Darcy's Letter - Orgulho e Preconceito

Onirizando...


Escrevo com ideias... pincelo com gestos... partilho universos de dentro e de fora... coleciono mundos inteiros e brinco de imaginar que acordei exatamente no mundo ideal. Não depois, não outro dia. Viver acordado, realizando com mãos de matéria e espírito aquilo que quero viver, no mundo que quero viver, nas relações que quero viver. Viver, independente de possível ou impossível. Não dá para ser de outra maneira, não dá para des´existir por covardia, a única forma de viver é mergulhando cada segundo no mundo feito por nós! Por que sofrer o mundo? Por que temê-lo? Fazê-lo, criá-lo, pintá-lo com as cores e os traços de nossos sonhos vivos no cotidiano, no âmago do ser, debaixo da pele e saltando dos olhos... 

A liberdade é real, é concreta, posso tocá-la. A igualdade é visível, posso abraçá-la delicadamente. A cooperação é bela, seguro em suas mãos com força. A expressividade de cada ser, em criatividade, em exuberância, em abundância de ideia, sonho, sentimento, afeto, tudo posso sentir, respirar, partilhar com todos. Não há porque deixar para depois...

Uma música - Le Gang - BB Brunes