domingo, 19 de abril de 2015

Jardi´mim...

Meu afeto pelas plantas só cresce. Estabeleço a cada dia uma relação e um ritual de amor. E esta relação me tem feito pensar e aprender sobre as relações humanas. 

Todo dia quando chego em casa, às vezes a tarde, às vezes a noite, dedico atenção às minhas queridas e adoráveis plantas, flores, hortaliças, ervas, espontâneas, guerreiras. Não raras vezes nem chego a entrar em casa, largo minhas coisas na varanda e dou início ao ritual que há alguns meses passou a fazer parte de mim e de nós - Primeiro, olho-as com atenção. Longo tempo, observo uma por uma, vejo como cresceram, como estão, como se sentem, que novidades tem, que fizeram de bom. Só então, após vê-las e senti-las com atenção, posso iniciar os primeiros cuidados... Eventualmente uma atenção a uma folha doente, um apoio a uma delicada que precisa ser levantada, outra precisa se mudar para um lugar onde se sinta melhor, com mais luz e mais espaço para ser feliz e, depois de todos esses cuidados, a essencial saciedade da sede... aguá-las com calma, sentindo o tom do beber de cada uma. Gosto particularmente de ouvir o barulho que a água faz na terra ao ser absorvida no vaso-jardim-casa de nosso gnomo, vaso-jardim esse que possui duas jasmineiras, dois pés de bucha, um de louro, um de salsa e algumas lindas e alegres espontâneas, além, é claro, da casita de nosso amigo mágico, uma esplendorosa concha marinha encaracolada. Após aguá-las, ou às vezes antes, ou em vários momentos, dá-me uma enorme vontade de plantar algo mais, por uma semente na terra, preparar novos jarrinhos com garrafas pet ou outro material ressignificado para virar ninho de vida. Às vezes não consigo dormir sem plantar algo novo. E muitas vezes durante o dia, a cada mês, a grande alegria é conseguir uma nova semente ou novas mudas que vão encantar ainda mais o jardim-horta. E as inúmeras folhas caídas no chão, cuja limpeza antes simbolizavam o ritual budista do cuidado diário e renovado de tudo que cai, de tudo que é, agora me animam imensamente, pois agora para mim representam o milagre da cobertura de solo! Proteger o solo, devolver a ele nutrientes, colaborar com o ciclo da terra, ver as folhas virarem terra, ver a terra escurecer com mais nutrientes - me faz feliz demais! Os margaridões pioneiros especialmente localizados na entrada da casa me presenteiam todos os dias com seu espetáculo de incontáveis flores-solares-de-mel magnificamente brilhantes transpassando o alto do muro... Amo cada uma dessas flores. E coletar as folhas naturalmente secas do margaridão e depositá-las nos ninhos de folhas secas, para decomporem-se, também é uma de minhas brincadeiras! Conduzir o crescimento exuberante do pé de jerimum - ai que delícia! Como cresce, como se ramifica, como cobre verdejante a terra com suas grandes e peludas folhas... E trepadeiras! A missão sombra impulsiona nossas várias trepadeiras... além dos pés de bucha e da jasmineira, temos também um pé de Guaco e uma que ainda não tenho certeza, mas creio ser o revolucionário maracujá! Espero! 

De toda essa alegria, e desse ritual, eu penso - o que significa olharmos com intensa atenção e carinho para as pessoas com que estamos, percebê-las, senti-las, ouvi-las com todo o corpo, para então buscar formas de contribuir com elas, compartilhar algo que possa fazê-las bem, um apoio, um impulso, atenção, presença. E sempre pensar que novas gestos podem ser plantados, novos crescimentos desta pessoa na relação podem ser cultivados e com isso também cresceremos... E muita celebração e alegria nisso tudo... 

Enfim... cultivando...

sábado, 4 de abril de 2015

Puxando o leme...

Motivos. Caminhos. Realização...

Perguntar-se por que estamos aqui, para onde estamos indo, por quê seguir adiante... podem ser perguntas desesperadoras, sem sentido e desanimadoras...

Mas, eventualmente, elas surgem, elas nos colocam contra a parede, elas nos tiram o ar e o sono...

Tiram nosso chão, criam um vácuo em nosso peito, apertam... E exigem ações, atitudes, alguma forma de resposta.

Cada escolha que assumimos está acompanhada dos riscos, das possibilidades de venturas e desventuras, de acertos e erros, de satisfação e tristeza, desânimo pelas perdas e insucessos, novas buscas, novos caminhos, novos abismos...

Eu busco existir realizando-me - explorando os potenciais e inevitáveis da minha personalidade e aptidões, sonhos e loucuras; e nesta autorealização, relacionar-me com o mundo criativamente e transformadoramente - provocando mudanças, impulsionando rotas, abrindo brechas... 

Hoje descobri mais algumas sementes no peito... algumas antigas, largadas em algum canto escuro, outras inusitadas e inesperadas... Hoje virei a roda de leme para outros lados... quero novos mares... escolhi, enfim, alguns que parecem navegáveis...

segunda-feira, 2 de março de 2015

Dar sem dor

No afeto, no amor, no sexo
Só tenho para dar
Nada tenho para trocar
Só tenho o que me transborda
Não lido com a falta
Nada quero de volta
Recebo, sim, o que também é dado
O que na outra transborda
Transbordamentos partilhados
N´uma particular forma de diálogo.

Só o que é gratuito
e do que não tenho ou terei necessidade
Não peço nada,
Oferto
E bebo a graça de tudo que é 
de graça
Da luz ao mar, do perfume ao estar
Tudo que vive demais e sobra
E se sobra nada melhor 
do que entregar
pura e simplesmente
sem saudade ou carência
- movimento sincero e paciência
sou-me todo - e dou-me sem doer.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Belezidão...




A Beleza na Solidão
A Solidão na Beleza
A conexão de tudo
O aparente isolamento de tudo
O ser aqui e agora
O contemplar de fora
De fora de onde? Do quê?
Saindo de si, distanciando-se de ti
Isolando-se, buscando
Olhando inteiramente
Percebendo, sentindo-se parte de tudo que observa
Saindo de si, chegando a ti
Descobrindo-se, inundando-se do oceano ao redor
Navegando, afundando
Imergindo
Entrando em si, entrando em ti
Liberto dos limites, das fronteiras, das partes,
Inteirando-se, integrando-se...
Entrando em tudo, entrando em tu...



23/02/15 - ainda divagando sobre...


Quebra-Gelo





Apenas compartilhar momentos
E desfrutar do bem-sentir da tua presença
Que mistério existe em certas presenças
Que quase que por si mesmas, ou melhor,
em suas diversas dimensões,
nos proporciona sensações que queremos mais
Não sei se boas ou más, mas necessárias novamente...

No teu jeito de olhar, falar, nos teus gestos e imagens
Camadas finas de impressões diversas
Das aparências, tanto as superficiais
quanto as supostamente invisíveis,
Nas tuas expressões tantas,
Que inadvertidamente atraem ou combinam...

23/02/15 - a vi, por a(des)caso...

Sentidos próprios


eu olho o mundo
com olhos próprios
olhos dotados de mastros e velas
içadas e inchadas
de ventos desbravantes
e escuto com ouvidos ampliados por asas
e penas revoadas pelos
sons rebelados
E canto o mundo com boca própria
que assovia e faz do mundo um lugar próprio
para a´legria rebelde
e o´rgasmo autogestinado liberto
estes e outros sentidos próprios
me sentem em horizontes
que chegam ao fundo
do meu eu fazendo-me
todas e tudo, 
litorais e montanhas
campos e cabanas
e manhas e façanhas
de porvir...

12/01/15 - impossível dormir

That Familiar Ache - Giles Brown

7 amoras

a vida, insistente companheira
a insônia, luxuriosa amante
a madrugada, mais fértil amiga
a alvorada, carinhosa enfermeira do cansaço
as estrelas, mensageiras da insolência e insubordinação
a infinitude, movimentada autora dos meus vícios
a solidão, única que não me deixa... 

12/01/15 - noite insone?

Leve - Leo Cavalcanti - sons

Antonio Lee - imagem

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Uma História Libertinha...


Cansa-me! Perceber, revelar e incomodar-se com tantos malditos condicionamentos e imposições sociais e culturais aos nossos sentimentos, gestos, vontades, caminhos de vida. Cansa-me ver em praticamente todo filme, todo livro e toda música a mesma repetição maciça e massiva de lógicas violentas, sem sentido, infelizes, repressivas de nossas possibilidades, potencialidades, espontaneidades e diversidades. Como seria uma história que narrasse pessoas vivendo livremente, sem o peso de instituições impondo-lhe seu poder, sem o peso do poder mesquinho de pessoas que, vazias de si mesmas, tentam impor-se aos demais, seja diretamente com suas forças físicas, psicológicas ou morais, seja indiretamente, com fofocas, picuinhas e depredações das relações, envenenando-as? Seriam utópicas tais narrativas? Ninguém nesses tantos mundos existentes paralelamente, cruzando-se, fugindo-se, resistindo, reinventando-se neste planeta, vive de outras formas? Eu tento... e creio que tantas outras pessoas também, individualmente e coletivamente, em sociedades diferentes, em organizações sociais diferentes, com sonhos diferentes, imprevistos pelo sistema...

Imaginemos e vivenciemos com nossa profunda imersão imaginativa...

É uma vez...

Um dia sem nome, em um calendário inventado na hora, nessa geografia estranha que tem cheiro de gosto alegre, temperatura de sentimento ameno, direções latitudinais e longitudinais desorientados pelas bússolas convencionais, cuja inspiração cartográfica guia novos mapas a cada dia...

Nesse espaço multicolorido de plantas, madeiras, tetos, uns tantos lagos feitos pelos humanos para enfeitar o lugar, um monte de comida plantada e nativa para colher ou catar, umas tantas paisagens tão naturais quanto é possível a imaginação perceber e reperceber, vivem um punhado de gentes, indivíduos humanos e indivíduos de outras espécies... Cada um ocupando-se de suas variadas invenções, umas de cuidado do que já é, outras de fermentação do que está por vir... Afinal, neste mundo o que se chamava tecnologia se tornou brincadeira... se ainda existem computadores, é porque eles podem ser divertidos... se se produz alguns watts de eletricidade com a generosidade da gravidade e das águas do rio, é porque muita gente é eletrizante, afinal, e não querem nem devem dispensar nada que não seja digno de criação... Há ocupações solitárias e introspectivas como assoviar e tricotar-se, e também feitos comunitários, em que muitos reúnem-se para somar suas tantas e voluntárias forças e saberes para realizações maiores que cada um, como construir um novo teto, fabricar um transporte para intercambiar com lugares mais distantes que os pés podem alcançar, realizar um grande evento de troca com outros grupos de gentes de toda espécie... Afinal, às vezes se quer ver gente de outros tantos lugares, latitudes, longitudes e altitudes físicas, espirituais e culturais diferentes... Nesses grandes eventos, as pessoas de várias espécies trocam-se, compartilhando o que têm dentro e fora, e o que são, dentro e fora... Há muita migração nesse espaço, já que nada além de nossa disposição de partir, preguiça de ir ou vontade de ficar nos impede de mudar... 

Ela (pronome que refere-se à pessoa) gosta de caminhar e observar(-se)... olhar pra dentro e pra fora, ao mesmo tempo, atenta... uma de suas alegrias e, também, tristezas... descobrir-se, encantar-se, mas também deparar-se com suas fragilidades, carências, faltas - não muitas, mas também não raras... Naquele dia sente-se fluída, o que ela define como o estado de quem está sendo com o mínimo de atrito com o mundo em volta, sem preocupar-se, sem ansiedade ou desatenção... E, nesta fluidez, perpassa, inundando cada passo descalço, sentindo a terra, envolvendo-se com tudo que está em volta... Está acontecendo um festival de artes inusitadas, coisa da rede continental de arteiros anômades, evento que atrai muitas pessoas de inusitados lugares e feições àquela terra. E ela sempre frequentava ou participava, fazia umas oficinas, improvisava umas intervenções, quando se sentia sociável, ou simplesmente caminhava por entre as pessoas desconhecidas, em busca de alguém que ela reconhecesse sem nunca ter visto... Tal reconhecimento era-lhe um mistério dos mais inquietantes e instigantes... Afinal, o que é que nos aproxima de quem nada sabemos, a não ser aparências vistas, cheiradas, ouvidas, sentidas, percebidas? O que lhe torna esta voz mais atraente do que aquela? Certo jeito de cabelos em especial? Um olhar em particular? E assim, caminhava, não necessariamente em busca, mas enredando-se pelas pessoas - quem sabe o que se trançaria à sua rede de si... E acontece, vez por outra, às vezes com frequência, às vezes distanciado em anos, este momento tão gracioso e gratuito: a vê e, como por milagre, está com ela ou, no mínimo, coloca-se toda em energia com ela - não pode evitar... 

Mas, tem um porém... Tem uma crença, ou talvez um obstáculo autoproduzido - não sabe nunca como chegar no destino de sua emoção e descobrir, se afinal, acontece igual com a outra, talvez, ou se ela se encantou unicamente só, como que por abundância de encantamento em si. Sendo assim, na maioria das vezes, apenas observa e fica por perto - meio que esperando que alguém ou alguma magia faça algo para, "por acaso" (mas, afinal, ela se posicionou da melhor maneira possível para tal acaso)... 

E, chá-zam! 

Ela outra a olha e a percebe e parece que acontece um encontro de olhos que, como beija-flores, num piscar de olhos se encontram, se beijam e voam pra outros lados... Ela, feliz com aqueles olhos que a viram, sente o momento, degustando, e esvoa-se, sem dar-se conta que ela outra, mais decidida ou talvez mais impulsiva, levantou-se, caminhou-se, sentou-se ao lado e disse, como quem não quer nada (e o que se há para querer?) "oi. e ela, quase assustada ou surpresa ou eufórica responde "oi. e a partir daí, abertas as portas, sente-se liberta para ir "eu tava te olhando, diz, ensaiando um sem jeito, "não deu para evitar... e eu adoro quando caio no inevitável... porque o inevitável é intenso, é profundo, ainda que incompreensível, ao menos por um tempo, disse, serenamente, olhando-a nos olhos, por não saber dizer nada sem olhar nos olhos... Ela outra sorriu, um sorriso tão bonito porque tocou algo nela... 

O que pode comunicar um sorriso? Que forma de identificação pode se dar num sorriso? Que tipo de sorriso desnuda e que tipo de sorriso disfarça?

O sorriso dela, tente pensar naquele sorriso de amor-folha que te nutriu certa vez, tente re-sentir um sorriso de salgado-sol, que te despertou uma manhã dormida debaixo do céu... 

Ela pegou na mão da bonita do sorriso e disse "vem caminhar comigo? "vou...

E se afastaram da multidão em festa em busca de uma festa sem multidão... O lugar era cercado e perpassado de muitos riachinhos, muitos naturais, outros artesanais - produto das mirabolâncias das gentes que gostavam tanto de jardinar e riachoar e elas chegaram então num riachinho que fazia uma curva ao redor de uma árvore, onde colocaram, como que por brincadeira, umas pedras boas de sentar... E ali ficaram... descalças, molharam seus pés, sentindo a água deslizar por entre os dedos... e os dedos deslizarem uns nos outros uma da outra... "Eu gosto quando eu me sinto só, e eu gosto muito quando eu me sinto tão bem com alguém como quando estou só... Como é seu nome? "Semente Cintilante, disse ela outra, mas pode me chamar de Cinti... "Eu me chamo Pequeno Mar, mas, como as palavras tem preguiça, gosto de Má, se quiser... "Má, você é bonita, seu jeito de olhar e seus cabelos de cachos e o que você diz em palavras e gestos... "E você é uma história longa cheia de raízes escuras de profundeza e cheias de cantinhos por descobrir, disse, aproximando-se da outra, fechando os olhos e respirando o perfume dos cabelos dela... Manteve os olhos fechados... E Cinti fechou os dela... e assim ficaram bons tempos, ouvindo o vento bater em seus corações, o sangue de seus corpos descer pelos rios refrescando a terra, e um peixinho pular nas folhas de seus pés ainda encontrados um no outro... Não se sabe bem se foi a árvore atrás delas que deu um empurrãozinho ou se as pedras que se aproximaram, mas suas bocas se tocaram e sentiram o orvalho que brilha na boca uma da outra... primeiro deixaram a textura da pele se entendersentir bem, depois os lábios se moveram, descobrindo-se em uma dança... até as línguas também entrarem na brincadeira, ensaiando duetos, investigando os sabores delicados que só a língua sabe pintar... 

Um sem-fim de tempo depois, se afastam um pouco para se olharem... há uma felicidade florescente piscando ao redor, como íntimos bichinhos voadores... Elas então tiram os panos que enlaçam seus corpos e entram na água que tem uma temperatura próxima à do corpo, só um pouco mais fria... e seus corpos se encontram, muito próximos... Má penetra Cinti, sentindo o ventre dela aquecê-la, ainda que não sentisse frio... E no seu ouvido lhe conta uma história inventada que revela muito de si, suas afinidades pelas músicas ciganas, de acordeão e metais, seus gostos de pintar com tintas aquareladas, conta-lhe do último livro que leu de uma aviadora que não tinha teto senão a asa de seu biplano e que vagava por aí compartilhando o voo com quem quisesse voar... Canta-lhe uma história tão perto que o vapor de sua boca arrepia o pescoço da outra... e então deita no ombro dela e escuta os cabelos roçando no seu rosto... Cinti acaricia-lhe suas costas, escrevendo uns poemas sem palavras que sobem do bumbum até os cabelos... Cinti beija-lhe as bochechas, dá uma pequena mordida, entre um riso engraçado que faz Má rir sem fim e então jogam seus corpos na água flutuando, cabeças muito próximas. E ela conta para Má sua história mais recente, desta vida que ela vive agora - sua chegada nesse encontro de artes inusitadas, na peça circense que apresentara no dia anterior, pois ela é atriz-marabalista-equilibrista-maga-lançadora-de-adagas-de-chocolate... E também faz uma pintura corporal no corpo de outra atriz com o chocolate derretido que ela errou - ou acertou? que se desmancharam no corpo do alvo... Que delícia, Má comenta... faz comigo? Com o maior prazer e tesão do mundo, Cinti respondeu... e a sugestão encheram-nas de tesão e, apoiando-se no cascalho na margem do riacho, Cinti sentou-se sobre o pênis de Má e dançaram para as estrelas e a lua sua ciranda visceral... 

E juntas ficaram toda a noite e amanhecer afora e café-da-manhã de frutas colhidas e chá feito na fogueira das ervas catadas... Mas Cinti precisou ir... foi ensaiar com seu grupo... Não sabia se voltaria a vê-la, se voltariam a sentir o que sentiram, ou melhor, nada voltaria, porque nada volta, a vida não sabe andar pra trás... não sabia nada, afinal... se a veria novamente, se sentiriam tão fortemente seus olhares... Ou se outra pessoa responderia seu olhar e seria bonito de novo... Não sabia de nada, afinal...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Próprias Notas sobre o Estado de Relações Líquidas, Livres e Afins hoje e amanhã


Vive-se, talvez, alguns de nós, em alguns sentidos e proporções, vivências e convivências e relações cada vez mais fluídas, líquidas, imprecisas, inconstantes, às vezes chamadas "livres", "pós-modernas", às vezes acusadas "insensíveis", "precárias", "neoliberais", entre tantos adjetivos e interpretações e tentativas de leituras e posicionamentos diante das situações particulares e diversas vividas por cada sujeito que interpreta e se posiciona diante deste contexto amplo, múltiplo e complexo...

Antes de tudo, lembremos que a vivência de cada um e nossa vivência particular não é totalitalizante, ou seja, não representa o todo, não significa que tudo e todas vivem exatamente o mesmo, nem mesmo algo parecido. Muitos não se identificam com tais perspectivas de relações humanas, nunca tendo vivido algo parecido. É preciso problematizar que a noção de tempo é muito ampla e possui diversas camadas. Coexistem aqui e agora pessoas e lugares e ações e vivências que se "enquadrariam" com o período paleolítico, o período medieval, iluminista, renascentista, escravista, futurista, ou seja, diversos períodos históricos se transformaram ou perduraram de formas diferentes em diversas partes do planeta. Sendo assim, muita gente vive no tempo presente relações conservadoras, sólidas, precisas, constantes, presas, fixas ou seja lá como quisermos chamar ou definir, e, claramente, bastante diversas ou mesmo opostas ao tipo de relação aqui a ser tratada. E nunca viveram coisa diferente e talvez nunca tenham nem mesmo ouvido falar. Talvez visto na televisão, um filme ou lido algo, mas, enfim, as diversas representações sempre se distanciam das experiências concretas de qualquer ser humano, pensosintointerpreto eu. E as relações aqui tratadas provavelmente não são uma novidade deste século, já existindo em outros lugares e culturas há séculos ou milênios, sendo apenas desconhecidas do senso-comum capitalista-ocidental-contemporâneo. Certamente de maneiras diferentes das que vivemos, mas próximas em princípios e essências possíveis.

Sendo assim, começo justamente por aí. Pelo fato de que muito dessas lógicas supostamente novas de viver e se relacionar de fato coadunam/se aproximam de princípios milenares de filosofias orientais pouco conhecidas e difundidas. E neste sentido, eu, particularmente, sinto bastante satisfação em, de alguma forma, entender que a sociedade contemporânea vem, ainda que de forma alienada e massificada (em tantos e midiáticos casos), incorporando ou se transformando nessas direções. Falo do zen-budismo e do taoísmo. A primeira filosofia/espiritualidade remonta ao século VI a VII após Cristo. Já o texto mais antigo relacionado ao taoísmo situa-se por volta de 1300 antes de Cristo. (Sobre a imposição ocidental de medirmos o tempo e o passado a partir da referência cristã, deixo aqui meu protesto e desgosto). Super pós-moderno, não?

Tais filosofias/cosmologias, com as quais muito dialogo e me inspiro, entendiam e entendem que a vida é mudança, é transformação, é impermanência. Que nada dura, tudo é, de alguma forma, uma ilusão, no sentido que aquilo que estamos vendo agora no instante seguinte já é outra coisa, já mudou, e nos apegarmos a qualquer coisa/ser/situação é também uma ilusão que, consequentemente, resulta em frustração e sofrimento. E isso me lembra tanto a monogamia e as relações sociais tradicionais, fixas, rígidas, que não aceitavam (e ainda não aceitam onde elas existem) as mudanças, que se consideravam imutáveis, eternas, mas que, mais dia menos dia se desmanchavam/desmancham, fosse pela separação ou mesmo pela morte, gerando imenso sofrimento e frustração...

Mas há quem diga que apego e sofrimento são indissociáveis, que quem "ama" sente "falta", quer ter "sempre" quem se ama por perto, que se não sofre, é sinal de que não amava, que precisamos de quem amamos e de quem nos ame... etc. etc. Há quem discorde, há milênios. E afirmo que tais argumentos nada mais refletem a ideologia que ao longos dos séculos buscou associar nossos afetos e movimentos com prisões e dores, de modo a, talvez, entre tantas coisas, nos fazer aceitar melhor todo o sistema social em volta baseado nesta mesma lógica, o controle, a dominação, a conservação do estado social tal como ele é.

O amor como uma falta me parece uma excelente estratégia de enfraquecimento do indivíduo, suprindo-o de suas forças, de sua autonomia, de sua independência, de modo a torná-lo mais obediente, maleável, controlável e explorável para os fins desejados pelos interesses dominantes da sociedade que adota tal lógica, seja ela qual for.

O amor como algo que se precisa, é urgente e, ainda mais, está ausente a menos que o consigamos de alguma forma externa a nós mesmos > que excelente forma de produzir artificialmente dependências, carências e "sofrências", de induzir as pessoas a se sujeitarem a diversas violências e limitações/imposições, porque, "pelo menos", a "relação" "supre" essas demandas (do mercado?).

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domingo, 4 de janeiro de 2015

Flore´ser

O selvagem, 
a resistência, 
o ímpeto vital, 
o movimento inevitável, 
a transformação imperiosa, 
a vontade inquebrável 
- do vento, da onda, da montanha milenar, da vida em todo ser...

Reduzo-me...
De ilusionado
Para desabrigado
Logo abandonado
Então renovado
Assumido
Fortalecido
Num deserto salgado
adaptado
feito beduíno
agora flor de cáctus
que faz da sede 
a força do hábito.

Interlúdico - Aikyo

Desilusão...


Eu não sei de que matéria são feitas as ilusões
Eu não sei de que origem, de que fundo, de que mundo elas vêm
Mas seja lá de qual for,
Sinto que a cada dia mais
Se desfaz em mim essa matéria, origem, fundo, possibilidade...

A Desilusão como o estado daquele que não consegue se iludir, 
que não tem os recursos necessários para tanto,
que quase está impedido de tal, pela simples falta...

A cada vivêncilusão, uma emergência ao esclarecimento,
ou melhor
ao escurecimento de cegar-se para as falsas luzes
às falsas imagens, às falsas ideias e vontades e possibilidades e situações

Talvez seja a esperança um dos combustíveis da ilusão
E seja a cada vez mais irreversível desesperança o que me acomete
E venha me fundando cada vez mais em um estado de desilusão perene
Desesperança perene
E mortificação de tudo que não é - perene...

A assunção perene... do ser, da condição inevitável e irremediável da individualidade, da solidão inelutável de ser um ser com consciência de si mesmo, talvez a última e única ilusão sem a qual se possa viver enquanto ser humano...


E a crescente e infinita e perene assunção de que não somos um ser separado, somos tudo, todas, o tempo inteiro... 

Assumir, ao mesmo tempo, uma constante e infinita descoberta e potencialização do eu, de si, do indivíduo em que habitamos, e uma constante vivência do todo, de tudo, da vida, do movimento, do caminho...

E toda energia vital e movimento individual que existe em mim, libertando-se perenemente de toda ilusão, se realize sempre o ser mais, o movimento incessante, o oceano infinito... 

Universal Traveller - Air

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rotina

Limpar(-se)
Cuidar(-se)
Tirar a poeira
Que se acumula sobre as lembranças
E as prateleiras
Varrer o chão e os cantos
difíceis de alcançar 
em si
Perfumar o espaço e o corpoespírito
Com cheiros e sonhos
Organizar os excessos de papéis e angústias
Desfazendo-se do máximo possível
Dedicar um gesto ao altar sobre o armarinho
Sacroprofano que somos e que nos cerca
Decorar as paredes com poesias e vozes
Para ter possibilidade de deitar-se em repouso
do mundo...

Alameda - Elliot Smith

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

"O Sonho da Terra Vive em Meu Coração" (língua mapuche)


Quanto mais eu planto
Mais o ato de plantar
ganha dimensão poética
enquanto o ato de colher
se perde na imensidão errática


Esperar colher
É d´uma imprecisão galática
Em nossa miudez humana
Que se sente única


Desfrutar-se jardim
enquanto gesto lúdico
Espantar-se frutos e flores
enquanto realizações mágicas
Mais nos faz partícipes
Do universo orgástico...


De Ushuaia a la Quiaca - Gustavo Santaolalla

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Né, blina?...


Detalhes
Indícios
Resquícios
Minúcias
Denúncias
Subentendidas
Confusas
Escusas
Explícitas
Malícias
Desvendas
Entendas
As legendas
Dos gestos
Das perguntas
Das dúvidas
E das brumas...

domingo, 28 de dezembro de 2014

O Inevitável manifesta-se

O fim
Ser e só
o novo
tanto e mais
o esquecimento
o passado
a fome e a sede
a alegria
o frio
a euforia de ser tudo
a calma de ser um
o infinito
a possibilidade
a desesperança
o cansaço
a dor
e tantos outrxs
inevitáveis

O óbvio... diante, na cara, queimando as pestanas e a tez, para onde quer que olhemos, lá, aqui, acontecendo, a vida, em toda sua dimensão e desmedida, em toda impossibilidade de fuga, envolvidos inteiramente pela integralidade, aguentando tudo que nos acontece, porque nascemos prontos para viver - aprendendo a cada dia a estar prontos para o agora... 

O óbvio... e inelutável...

O que nos resta? Temos escolha se todas as escolhas são possíveis?  Tudo está previsto, tudo é permitido... Viver, morrer, nascer, cair, criar, tudo faz parte, tudo é vida, é caminho, é mudança... 

Viver o inevitável... evitar viver é um engano... e o engano asfixia... respirar funda a vida, convidar-se e ir... 

sábado, 20 de dezembro de 2014

Sul

Só o nada e a surpresa não decepcionam... Se esperar que nada aconteça, que nada apareça e que nada venha, feliz será se nada concretizar. E se não, se nada não vier, mas, ao contrário, a surpresa resolver causar, mais nada se pode esperar...

Tel que tu es - Charlotte Gainsbourg

Zenbar, 06/12/14

Bel prazer

eu bebo beleza como beleza beijo beleza nado beleza cheiro o cangote da beleza danço a beleza pela beleza e com a beleza incenso beleza planto beleza tranço beleza transo beleza mordo beleza saboreio beleza amo beleza navego beleza mexo beleza acordo beleza pinto beleza molho beleza negro beleza durmo beleza espreguiço beleza vagueio beleza erro beleza vivo beleza nasço beleza vejo beleza sinto-a tanto que tudo que desejo beleza...

Daft Punk - Around The Word

Zenbar, 06/12/14

Ar (mor)...

I

Todxs nós temos duas biografias... dizia Milan Kundera... 

Uma dos amores que realizamos ou, talvez, se realizaram... mutuamente... E outra daqueles amores que nunca aconteceram... ou pelo menos, não extrapolaram nossa particularidade...

Uma vez eu vi em imagem e som > que dizia que o que nós vivemos e o que nós imaginamos é vivenciado da mesma forma pelo cérebro [ou pelo espírito?]...  O que pode ser interpretado com uma perversão metafísica da realidade... Ou melhor, que tudo que imaginamos nós também vivemos... Ou tudo que vivemos seria imaginação?

Acontece que entre amores que existem e amores que se imaginam, entre afetos que se tocam e afetos que só me afetam, equilibro-me, tonto e abandonado... 

Abandonei qualquer importância ao que não é... e vo(o) apenas no ser, seja real-imaginário, ou imaginação-realidade... 

Abandono-me de qualquer inquietação, conjectura tola, perda de tempo em não-ser...

Vivo... tudo que sinto, dentro e fora, foradentro... Imagino mundos... Mudo imaginários... Faço-me real na minha própria realização... sonho o que vivo, vivo o que sonho...

E amo viver sem reservas, sem paraquedas, sem confundir o que é com o que não é...

II

Imaginar não é confundir...

É preciso ler o mundo... Ler os gestos, ler as ações e relações que se passam ao redor, conosco, em nós... É preciso estar atento ao mundo, à vida, ao universo, dentrofora, foradentro...

E defrontar-nos com coragem ao que percebemos, nesta compreensão do que se nos depara...

Sem ficar alucinando e confundindo o que não é com o que é...

Imaginar é fazer ser o que queremos que seja... É possível e sensível desfrutar tudo que queremos que seja e é - dentro de nós...

O que imaginamos se semeia em nós... e nasce e floresce e dá frutos... no real...

Todo amor que imaginamos vira amor pele afora... mundo afora...

Mas todo amor que confundimos vira mágoa... E mágoa é melhor desrealizar...

Fundamos imaginação e realidade... E extrapolemos toda possibilidade de ir além...

Pradentro e prafora...

Ao som de Eat Yourself - Goldfrapp

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Azuis


Afeto. Aconchego. Próprio, mútuo, por tudo, simplesmente, debaixo da chuva fina, debaixo dos cabelos dela... debaixo do guarda-chuva.... debaixo da timidez ou da solidão, atrás das orelhas e debaixo dos nossos narizes... Aí está o afeto, aí está o bem-querer-viver que podemos escolher, que podemos balbuciar como a canção que tece encontros e mistérios...

Porque os amores são como a primavera... florescem... brilham... perfumam... e espalham-se pela grama, pela paisagem, pela lembrança... 

Porque o bem que temos, que sentimos, que exalamos e compartilhamos faz mais primaveras, mais estações, mais amor-es...  que tocam a pele, tocam o riso, tocam o âmago...

E todxs que queremos bem, e queremos amor, estão aqui em nossa intenção, em nossa emoção, em nossa canção... 

Terminei indo - A Banda Mais Bonita da Cidade 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

TRANSGRESIONES

Todo mandato es minucioso
y cruel
me gustan
las frugales transgresiones
por ejemplo inventar el buen
amor
aprender
en los cuerpos y en tu cuerpo
oír la noche y no decir
amen
trazar
cada uno el mapa de su audacia
aun que nos olvidemos
de olvidar
seguro
que el recuerdo nos olvida
obedecer a ciegas deja
cíego
crecemos
solamente en la osadía
sólo cuando transgredo alguna
orden
el futuro
se vuelve respírable
todo mandato es minucioso
y cruel
me gustan
las frugales transgresiones


Mário Benedetti