quinta-feira, 26 de novembro de 2015
#AmigoSecreto
Todas as pessoas que eu amei, amo e vier a amar, ou simplesmente me relacionei, me relaciono ou vier a me relacionar:
Eu fui socializado como homem, eu fui ensinado pelo machismo, o patriarcado e demais ideologias dominantes milhares de coisas que às vezes nem tenha consciência ou percepção. Por mais que eu te ame, te queira bem, queira te fazer bem, queira te cuidar, queira contribuir com sua vida, sua autonomia, sua liberdade, seu crescimento, sua emancipação, seu embelezamento do ser e estar, por mais que eu questione, problematize, desconstrua e transforme em mim essa carga histórica, cultural e psicológica do machismo, patriarcado e demais ideologias dominantes, mesmo assim, com tudo isso, alguma coisa ruim pode acontecer, eu posso cometer algum erro, fazer algum gesto sem me dar conta, e te magoar de alguma forma, te causar um sofrimento que eu não queria e vamos ambos sofrer com isso por muito tempo, pra não dizer enquanto nossas memórias existirem.
Sendo assim, diante dessa compreensão súbita, me entristeço de antemão, percebo com muito pesar e infelicidade este peso trágico, histórico, horrível que carrego por ter nascido homem (por mais que hoje e cada dia mais tenha repulsa, desagrado, não me identifique em nada e seja qualquer coisa menos um homem, sou uma pessoa, sou um ser em movimento, sou o nada, sei lá) pois sei que provavelmente irei te magoar, te causar algum sofrimento e peço perdão desde já. Não foi minha intenção, fico muito triste por tudo e tenho a profunda necessidade de transformar tudo isso, essa realidade cruel e violenta, esse mundo escroto e maldito, para que um dia, quem sabe, possamos viver num mundo onde todas sejamos pessoas, sem relações de poder, opressão e violência.
Imagem: Mariana Caldas
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Amor em Toda Ação: Notas sobre Relações de Amor Profundo
O amor é como a água. Abundante, sustenta e floresce a vida, fluido, em movimento, transborda, transpira, transforma, chove, cai, molha, arde, inunda, sacia, alegra, embeleza...
O que significa se relacionar? Como estabelecemos nosso estar no mundo entre todos os seres vivos? O que queremos com essas relações? Por que estabelecemos estas relações?
Eu brinco que eu tenho uma personalidade antisocial altamente sociável. Isso porque gosto muito de estar só, de fazer minhas coisas, pensar sobre a vida, rir só, cuidar de mim, ouvir música, dançar, cuidar do jardim, criar, escrever, dormir, tomar banho, sentir-me comigo. Mas ao mesmo tempo tenho muito prazer em conviver com pessoas queridas, pessoas com quem aprendo, cresço, compartilho e para quem me doo, me dou e com elas me sinto bem. Minha casa e minha vida vivem cheias de gente. Adoro cozinhar junto, papear, cuidar do jardim, dormir fazendo cafuné, ver filme, fazer massagem, tomar banho junto, amo aprender com as outras pessoas, desde coisas simples que resolvem problemas bobos do dia-a-dia até histórias de vida e visões de mundo que me provocam e transformam profundamente, e adoro compartilhar qualquer coisa que eu saiba ou que seja importante para mim com todas as pessoas.
E eu amo muito. As pessoas, suas histórias, a vida, plantas, sabores, comida, arte, fazer as coisas com as minhas mãos, minha intuição, aprender e ensinar. Há muito tempo venho refletindo sobre o que significa viver o amor. Libertar o amor para todas as situações, não só as relações afetivas-conjugais-sexuais. Libertar o amor para todas as pessoas, não só aquelas que nos despertam atração e tesão. Libertar o amor para tudo que existe, não só os seres humanos e a cultura humana.
Isso significa nos transbordarmos sem medo, impregnando nossos gestos de carinho e cuidado em tudo que fazemos com quem quer que seja, pessoa próxima ou distante, conhecida ou desconhecida, humana ou não. Como seria tratar alguém sentada ao nosso lado e com quem começamos a conversar no ônibus com a mesma atenção e dedicação que temos para com alguém que nos acompanha há anos e que confiamos? O que significa respeitar alguém que acabamos de conhecer na rua com a mesma intensidade que respeitamos alguém que admiramos profundamente? O que significa cuidar de tudo que nos cerca com a mesma profundidade que gostamos de ser cuidados quando não estamos bem?
É isso que tenho tentando experimentar, praticar, aplicar, vivenciar intensamente. Fazer com que todo abraço seja sincero, demorado, entregue, caloroso. Que todo olhar busque de fato enxergar o que está diante de nós, percebendo profundamente, com atenção. Que todo ouvir realmente se permita ouvir, assimilar o que está sendo dito, refletir sobre o que a pessoa está me dizendo, compartilhando comigo, me expressando naquele exato momento e não sobre o que eu penso/julgo/critico sobre o que a pessoa me diz. Que todo gesto e toque tenha bem-querer, respeito, sincera preocupação com o espaço da outra pessoa, de modo a não invadi-lo, mas também sem medo de expressar afeto com a pele, numa massagem, num beijo, num acariciar os cabelos, num segurar as mãos ou cruzar as pernas.
Amor em toda ação requer um maior esforço, sim, do que estamos acostumados. Pois aprendemos com este mundo odioso a indiferença com o que nos cerca, o descaso pela vida, o desamor pelas pessoas e demais seres, o medo da outra e do diferente, o utilitarismo nas relações e as relações de poder, o machismo, o racismo, as outrofobias, os latifúndios e monoculturas afetivas, a mediocridade no viver mesmo, que nos aprisiona num viver mesquinho, pouco, vácuo, insensível, frio, árido, insípido, devastado, violentado e violento até... E tudo isso drena e esgota nossas forças.
Mas não é nenhum esforço sobrehumano. E quando vamos aos poucos nos libertando, problematizando e nos desfazendo de todas essas correntes, prisões, grilhões, bolas de ferro, focinheiras, ideologias dominantes, máscaras, mentiras, de repente amar se torna fácil, fluido, leve, simples. De repente nossa potência afetiva e emocional se fortalecem e superamos a atrofia a que fomos submetidas.
Afetar e nos deixarmos afetar. Afetuosidade vívida, ativa, brilhante, criativa, tranquila, humilde, despretensiosa, destemida, desfrutada. No cuidado das plantas, de todos os seres, da vida, da Terra, de si mesmo, da energia do universo, do tempo, do presente e das presenças.
Amar além, Amar em toda ação.
Me deixa amor - Lariza Xavier - para inspirar
domingo, 15 de novembro de 2015
Tudo ao ver você partir
Caracóis voam nos meus olhos
Felinos sobem pelos meus pelos
Libélulas ziguezagueiam as minhas pernas
Enquanto pássaros apertam o meu ar
Zebras embaralham minhas cores
Vagalumes aceleram meu pulsar
Vendavais de violetas me excitam
Tudo ao ver você chegar...
15/05/15
01:04
Evitar
Uma confiança intensa
como se diante do inevitável
Ou um querer que não aceita mais
ser guardado
Acontece que esse sentir parece tão simples e claro,
brilhante e doce
que merece essa entrega,
esse arriscar a ser
o que será.
15/05/15
00h57
como se diante do inevitável
Ou um querer que não aceita mais
ser guardado
Acontece que esse sentir parece tão simples e claro,
brilhante e doce
que merece essa entrega,
esse arriscar a ser
o que será.
15/05/15
00h57
Quero nada
"A qualquer momento você poderá ir embora, poderá sumir, não deixar rastros, se tornar ausência, se tornar nada".
Reaprendendo, relembrando, renovando.
Imagem: Mariana Caldas
Reaprendendo, relembrando, renovando.
Imagem: Mariana Caldas
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Presente
A liberdade é maravilhosa. Por ela, eu e você
podemos nos confessar o que sentimos, sem restrições, podemos confiar uma na
outra, sem medo de magoar – ainda que seja preciso sempre estar atentos ao
bem-viver da outra pessoa – podemos nos apreciar verdadeiramente, sentindo a
beleza que existe na imensidão uma da outra, nas tantas histórias que vivemos
quando distantes, nos prazeres independentes que sentimos, nos sonhos que podem
ser compartilhados, mas também podem ser próprios.
A liberdade é leve. Ela brinca de carícia nos
cabelos numa noite sem fim de músicas sugerindo paisagens e viagens
imaginativas. Ela se diverte com um beijo bem gostoso dado no inusitado de que
nos éramos quase desconhecidos. Ela brinca com tirar nossas roupas, alimentando-me
a beleza do ser com teus seios delineados, charmosos, com minha nudez sem medo
de estar contigo e de ser tocado, ser um brinquedo para tuas mãos e sensações.
Ela adora nossa dança ao amanhecer, nosso apertar bocas e coxas, a liberdade
ama pessoas que a vivem, que se permitem conhecer e querer sem condená-la.
Você está gostando da noite? Tu me perguntas. E eu,
que ainda não tinha te beijado a boca desde que há muito te deixara na
rodoviária, me aproximei para te gostar, te gustar, te deliciar – e sentir que
sim, a noite estava adorável, que contigo eu podia ser livre.
E sentir teu gosto, vermelho, doce, alcoólico,
fotográfico. Sob a luz vermelha do inferninho a gente brinca de estar junto,
sem saber de nada além de que estamos ali. Nossas roupas não duram nunca. Esse
lugar é destinado à nudez. A beleza que existe em ti colore nossa relação.
Beleza de pele, beleza de olhos, beleza de histórias e gozos, de partilhas de
segredos e proibidos.
A liberdade é um presente. Por isso devemos vivê-la
agora. Libertando e voando, querendo e cuidando, dando prazer e se dando
prazer. Agradeço e celebro todas as pessoas que são livres por ampliarem a
minha liberdade e voarem comigo.
06/11/2015 - Alto Paraíso-GO, na mesinha do canto do cantinho Cravo e Canela, esperando a madrugada para voltar para mais perto de casa...
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Sobre Astrologias Subjetivas e Afetivas
Cada
pessoa é um universo. Uma infinitude de espaço vazio, potencial, salpicado de bilhões
de galáxias de interesses e vontades coloridas, incontáveis buracos negros de
dúvidas, medos e traumas misteriosos, um sem fim de estrelas ofuscantes de
sonhos, desejos, impulsos, e tantos e tantos planetas de ideias,
características, traços de personalidades e personagens, histórias, memórias e
ficções.
E todas nós, universos, vagamos por este multiuniverso que nos contém e/ou nos possibilita conviver. Convivência esta igualmente astrofísica, astroquímica, astrodinâmica, astromística, mediada pelas forças gravitacionais, pelas matérias escuras, pelos raios cósmicos, pelas radiações estelares e pelos fenômenos inexplicáveis, quânticos e metafísicos.
Neste multiuniverso, em seu espaço de distâncias infinitas e expansivas, estamos em constante movimento, vagando pela imensidão a perder de vista, sem horizontes, hora circundando outros universos, ora isolados de tudo. Em dados momentos, nos aproximamos então daquele universo de cabelos zodiacais, de olhos lunares, de curvas meteóricas, de espírito astronômico que nos atrai com sua beleza gravitacional. E nos vemos dançando esta dança orbital de seres perdidos na vastidão, em busca de encontros que os amplie e os acalantem, como o calor de uma estrela próxima que propicia a vida.
Nos sentimos motivados a entrar em atrito sensual com a meiga e fervente atmosfera dela, queremos desvendar os mistérios de seus continentes e seus oceanos, explorar todos as suas histórias-satélites, entender a influência das experiências-constelações que ela viveu.
E todas nós, universos, vagamos por este multiuniverso que nos contém e/ou nos possibilita conviver. Convivência esta igualmente astrofísica, astroquímica, astrodinâmica, astromística, mediada pelas forças gravitacionais, pelas matérias escuras, pelos raios cósmicos, pelas radiações estelares e pelos fenômenos inexplicáveis, quânticos e metafísicos.
Neste multiuniverso, em seu espaço de distâncias infinitas e expansivas, estamos em constante movimento, vagando pela imensidão a perder de vista, sem horizontes, hora circundando outros universos, ora isolados de tudo. Em dados momentos, nos aproximamos então daquele universo de cabelos zodiacais, de olhos lunares, de curvas meteóricas, de espírito astronômico que nos atrai com sua beleza gravitacional. E nos vemos dançando esta dança orbital de seres perdidos na vastidão, em busca de encontros que os amplie e os acalantem, como o calor de uma estrela próxima que propicia a vida.
Nos sentimos motivados a entrar em atrito sensual com a meiga e fervente atmosfera dela, queremos desvendar os mistérios de seus continentes e seus oceanos, explorar todos as suas histórias-satélites, entender a influência das experiências-constelações que ela viveu.
E assim, nos conhecemos mais, florescemos mais, nos expandimos, a partir da partilha, do cuidado, da colisão dos átomos produzindo novos elementos de arte e alegria.
Mas às vezes esse mesmo universo que tanto nos atraiu com sua gravidade charmosa e iniciativa cósmica, também, por motivos não explicados ou explicáveis, afasta-se, ou pior, some no espaço-tempo, perdida na matéria-escura desconhecida do infinito.
E fica em nós ainda por muito tempo aquela estranha sensação de atração pelo que já não está lá, aquele peso gravitacional que nos puxa para um chão que desapareceu.
Demora ainda um pouco a nos habituarmos com a gravidade-zero, ou o vazio cósmico do (des)equilíbrio dinâmico do nosso próprio universo em movimento.
Ao som de Breezeblocks, de Alt - J
Dormir aqui
Aproximei-me dela "posso dormir aqui com você? E ela me olhou, com uma das sobrancelas arqueadas e mordendo levemente o lábio e rebateu "como assim? E eu me declarei "dormir assim, juntinho, te fazendo carinho e te dando prazer... Os olhos dela brilharam e com o canto da boca ela riu e disse "uma proposta assim e vinda de ti é difícil de recusar, e ela disse isso enquanto sua mão levantava o lençol, abrindo as portas da boa ventura. Convidou-me com seu corpo nu a presença do meu corpo nu. Então, deixando cair no chão as poucas roupas que me prendiam, deitei-me somando meu calor ao dela. Ao aproximar-se das peles, os pelos se eriçaram e eu a abracei, naturalmente minha boca chegando em sua nuca e minha respiração ressoando em seu ouvido. Acarinhei o pescoço dela, inspirando o perfume dos seus cabelos cacheados cheios. Minhas mãos, uma envolveu seu ombro e a outra começou a dançar pelo corpo dela, dedilhando a pele macia, buscando as notas que mais acariciavam seus sentidos. E longamente fiz carinho na barriga, na cintura, nos ombros, nas coxas e no sexo. O quadril dela apertou um pouco o meu, chamando-me e a segui, buscando-a e ouvindo-a. Quando me senti dentro dela, degustei o suave movimento levando-me e deixando-me, mas nunca completamente. E eu também ia e vinha, em sintonia, tão lentamente quanto a maré, que a enchia e inundava, a deixando molhada e molhando-me deliciosamente. Beijei o canto de sua boca, minha mão segurando seu rosto e tocando-lhe suavemente. E assim ficamos por bons cuidados até que repletos, nos deixamos levar para a inconsciência do sono e do sonho.
Escrito em Belém/PA, 28/09/15, deitado na orla de Icoaraci.
O Encontro é a Arte da Vida
Um metamonge taobudista poderia dizer que existem três qualidades simples que podemos exercitar para a vida.
A qualidade do Vazio, a Paciência e a Atenção Sensitiva.
A qualidade do Vazio não se trata de nos esvaziarmos, mas de ampliarmos nosso potencial de Vazio e nossa convivência com o Nada. "Perder o Nada é um empobrecimento, brincou um dia Manoel. O nada nos permite mais, nos liberta, porque tudo cabe no nada.
Quem já está cheio demais, de certezas, de ideias, de planos, como pode fruir o fluxo da vida?
A paciência é a ciência da paz. Sentir a vida, permitir a vida, seguir a vida e respeitar a vida.
A pressa causa ansiedade, que leva ao desespero, que provoca medo e frustração. Aquele que segue calmo e confiante o fluxo-tempo da vida, em paz e ciente de que todos os rios se derramam no mar e todas as vidas são única e toda Vida, vive pleno sua vida sua e sua vida Tudo.
E na brincadeira dessa duplicumplicidade de ser só e ser tudo simultontamente, abrir bem os olhos, narinas, ouvidos, boca, pele, intuição, sonhos, braços, pernas, desejos, tesões, caminhos, possíveis e impossíveis...
Sentir bem tudo, por todos os sentidos, todas as linguagens, todos os sexos, todas as amorosidades...
Bem atento e sensível a tudo, aos movimentos da maré e correntezas, às frentes frias e ares ascendentes, às chuvas e sóis, para evitar as pedras e aproveitar os impulsos...
E nessas três qualidades simples, vamos encontrando a vida a cada dia, dentro, na profundeza da gente, e fora, em cada beleza viva, gentes, plantas, cabelos, aves, danças, bichos, águas, corpos, flores e sorrisos...
Escrito em Belém/PA, 27/09/15. Iniciado durante o 5º Elemento, evento de Hip Hop feminista, ao som do Dance Hall de Wande Coal - Baby Hello e concluído no Coisa de Negro, bar em Icoaraci, perifa de Belém, às 23:52.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Strip-metafísico
Você me olha
com teus olhos-de-aforismas-que-alertam-que-te-olhar-nos-olhos-é-perigoso
Você pisca
lentamente, movimentando o ar com teus longos cílios paradigmáticos
Você balança
suavemente teus ombros-enigmas como uma quimera egípcia prestes a me devorar
Você ginga tua
cintura-axiomática que balança teu quadril-paradoxal que baila tuas
pernas-apote(r)óticas sobre teus pés-transcendentais
Você tem sobre
o corpo apenas um punhado de leis-sugestivas, morais-lascivas, vendas-proibidas,
cordas-abrasivas...
Você então
começa o ritual-problemático de lenta-letalmente despir-se de cada uma dessas
vestes-impossibilidades
Você primeiro
começa a tirar as tais leis-de-ceda que te enluvam as mãos, jogando-as para
longe, aos meus pés
Você me volta
teus ombros-caóticos e deixa cair as alças dessas morais-bojudas que te cobrem os
seios-existenciais, jogando para longe então o tal sutiã-teocrático
Você segura em
tuas mãos-notívagas estes peitos-místicos, dançando-os para mim
Você suavemente
então acaricia-questiona teu corpo-empírico, retirando afinal essas
vendas-tecidas-de-regras, revelando-me satoris e estalos de elevação de tesão-consciências
entre tuas pernas-libertárias
E das cordas-icógnitas
tu fazes arrastões-metáforas que esculpem essas pernas-utópicas que me cegam a
ignorância
E desnudam-me
a escuridão-iluminada
Você senta no
meu colo beijando ideias na minha boca, sedenta, enquanto teu bumbum-sinestésico
pressiona meu sexo-inspirado
Você me agarra
o corpo e sem piedade-socrática faz com que eu te metafísica...
Strip ao som de I Melt With You - Nouvelle Vague
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Malefício da Dúvida
- É uma coisa louca o que acontece com gente como a gente. Tipo, nós somos pessoas muito carinhosas, quase sempre, sempre que dá, né? E aí como a outra pessoa pode saber se nós estamos afim dela ou se apenas estamos sendo carinhosas espontaneamente, sem querer nada além de sermos carinhosas como nós somos?!
- Porra, já aconteceu comigo. Muito tempo depois uma grande amiga me confessou que no começo ela super achava que eu tava afim dela, só porque eu era super afetuosa com ela, abraçava, fazia carinho na cabeça, brincava de chegar próximo por trás e fechar os olhos dela com as mãos para que ela adivinhasse quem era... Mas na real isso nunca me passou pela cabeça. Nunca senti atração física por ela. Se ela não tivesse dito, eu nem teria jamais imaginado que ela pensou isso de mim.
- Né?! Mas o foda é quando isso se volta contra nós! Tipo, se eu sou assim com as pessoas, suponho sempre também que não é porque a pessoa está sendo super carinhosa comigo que isso, necessariamente, já é sinal de que ela está afim! Tipo, o que nos diz se a pessoa está afim, se ela não fizer algo mais óbvio como dizer na cara "ei, tô afim de você" - coisa que não é muito normal, né? diga-se de passagem - ou simplesmente te beijar do nada - já aconteceu comigo - Sei lá... Talvez tenha gente que simplesmente não consegue explicitar em determinadas situações e com determinadas pessoas que elas estão atraídas pela gente, ainda que estejam... E fica nessa dúvida sem fim - Será? Vou? Faço alguma coisa? Ou eu tô viajando, não tá rolando nada, e se eu fizer algo vou estragar tudo?
- Que foda é isso, né? Eu tenho um trauma. Seria ótimo se pudéssemos dizer simplesmente, quase "inocentemente", sem pretensão ou preocupação de reciprocidade nenhuma, poder dizer com naturalidade "olha, eu gosto de ti, sinto uma vontade imensa de te beijar, adoraria tirar toda tua roupa e acariciar e mordiscar todo o teu corpo... MAS, de boas se você não sentir isso, eu até tenho a sensação que tu não sentes, mas, na dúvida, achei por bem te dizer, né? Vai que...
- Porra, seria lindo. Tudo seria mais simples. Seria como viver o tinder olho-no-olho, sem precisar da bosta de um aplicativo pra gente poder dizer na cara das pessoas que a gente está afim delas, que achamos elas lindas, atraentes, sensuais, encantadoras, gostamos do jeito delas rirem...
- E sem que com isso, as pessoas passem a agir estranhas com a gente, nos evitando, pra que a gente não "tente nada"...
- "Amooor, eu estou afim de você, mas não sou um bicho, não vou te atacar. Se tu não estiver afim, beleeeza! Estamos de boa, podemos conversar, podemos ser amigos, tranquis"!
- Né? Tem gente que o simples fato de saberem que estamos afim delas e elas não estarem também causa um incômodo, elas acham ruim, querem distância, aff!
- Traumas... Porra. Estava super apx pela mina, mas eu tinha quase cem por cento de certeza que não rolava nada além de amizade com a gente. Mas burramente eu tava com uma necessidade idiota de botar pra fora, sabe, dizer o que eu estava sentindo, porque aquilo tava me angustiando, me asfixiando de algum modo, e eu achava que se eu dissesse, eu me libertava, sabe?
- E aí?
- Tipo, eu disse exatamente assim, no ouvido dela "sou apaixonado por você" e ri. Ela fez cara de surpresa, de "quê?" e começamos a rir. E aí eu expliquei a coisa toda, de que tinha quase certeza que não rolava nada entre a gente, o que ela confirmou, que só éramos amigos, que isso era ótimo, que eu só precisava compartilhar isso com ela e tal pra me sentir melhor. O quê? Altas tretas. Ficou seis meses sem falar comigo. E hoje em dia a gente praticamente não se fala...
- Porra, que merda.
- Pois é, desde então cheguei a conclusão de que se você tá sentindo que não tá rolando, não vale a pena dizer só por dizer... Por que vai que, né, explode uma bomba na tua mão...
- Own... que triste...
- Pois é... queria eu fosse mais fácil...
- Eu queria que pudéssemos dar o benefício da dúvida... Pensar, "olha, não tenho certeza se ela está afim, mas, vai que está e eu não me liguei? Melhor perguntar"... Mas na real o mais provável é o malefício da dúvida "ó, se tu ainda não tem certeza que ela tá afim, se ainda tá em dúvida, é porque claramente ela não está afim e tu só queria que ela estivesse e fica na 'dúvida' por pura esperança idiota"...
- Own... (Ela segura na mão dela, como um gesto de apoio, talvez, ou de compreensão, de proximidade mesmo, ou...?)
- E, por falar nisso...
(Silêncio)
(Se olham nos olhos)
(Suspense)
(O ar parado congela. Ela pensa - o que será que ela quer dizer? A outra pensa - Será que falo mesmo?)
- Por falar nisso... eu sinto uma vontade louca de te beijar... Uma atração absurda por você... fico te olhando feito boba, contemplando como tua boca é bonita, tua orelha, teus cabelos, tuas mãos, teus pés...
(Silêncio. Piscar de olhos. Olhos nos olhos. Lábio inferior tremendo. Mãos ainda dadas. Mas imóveis...)
(Então, lentamente, as mãos dela começam a acariciar as da confessa. E aos poucos os dedos se apertam, segurando forte. E aos poucos as mãos dela a trazem para mais perto. Até elas ficarem cara a cara, a centímetros de distância.
- Por que você não disse isso logo?
(E a beijou como uma ventania que leva embora as pétalas das flores, que derruba árvores, que destrói em seu alvoroço violento e devastador.)
(E foi um beijo longo, mordido, doído até, porque atrasado, que deveria ou poderia ter sido há tanto tempo já, mas foi só agora... Como que um beijo urgente para tirar este atraso, como se ele tivesse que compensar todos esse tempo não beijado, esse tempo não tocado, esse tempo não expresso desejo. Um beijo de corpo, de braços, mãos, pernas enroscadas, de seios apertados, de pernas agarradas, de tesão liberto, de querer solto, de finalmente...)
Camomila - Cícero - é...
sábado, 17 de outubro de 2015
13 Contos Nus (Parte 2)
VIII
O box do banheiro não era apertado,
era na medida dos nossos corpos. Era moldado para manter nossos corpos tão
próximos quanto possível, quanto querível, quanto terrível. A água logo
evaporava de nossos corpos enquanto fazíamos nossos intervalos sensuais entre
cada chuveirada. Substituída por suor e gozo, nossas peles ensaboadas se
roçavam, esfregavam, bailavam, pressionadas contra a parede, nos pressionando
um contra o outro, um a favor do outro, um em fervor do outro. À luz de velas,
à luz de lâmpada surtada que apagava sozinha, eu dava banho em você, você dava
banho em mim. Te cuidar, perfumar cada parte de teu corpo, te inundar, segurar
tuas pernas tremendo enquanto te bulino, te fascino, te sinto. Ser cuidado,
sentir meu sangue extrapolando meu sentir, ver correrem-se as horas nesses
banhos sem fim. Te-me-nos banhar.
IX
Ver o sol nascer pela janela,
enquanto nós, esgotados, encharcamos a cama de suor e êxtase. Acordar às 4h40
completamente duro sob a luz vermelha e te possuir por incontáveis eras.
Deitar, exausto, esvaziado, no teu colo - melhor colo, em completa paz e
harmonia com o universo e com teu corpo, e dormir como se nunca tivesse sido
insone na vida. Nunca dormi tão bem na vida. Teu perfume me hipnotizava como
éter e incenso. Tua pele me aconchegava até o último poro, o último nervo, o
último sentido de prazer. Te fazer dormir usando os métodos mais baixos,
desonestos, vis - como acarinhar entre suas sobrancelhas, massagear tuas
orelhas, seduzir tuas forças a se abandonarem nos meus braços. Ou te extorquir
todas as forças em incessantes exercícios orgásticos. Drenar até teu último
orgasmo - levando teu corpo ao colapso do descanso. Nunca dormi tão bem - nunca
acordei tão bem - nunca sonhei tão bem um sonho acordado.
X
A vida se abre para quem está
aberto para a vida. E tudo vale a pena quando o senso de humor não é pequeno. E
estamos dispostos a tirar de tudo ao menos um pouco de suco, seja da pedra, de
uma peça de merda, ou seja lá o que a vida nos dá.
Atrasados, excitados, tentando
transar cada segundo que resta antes de sair correndo, partimos para a Casa de
Teatro. Chegamos atrasados, mas infelizmente nos deixam entrar. E sentados,
diante do palco, esperamos algo acontecer, enquanto um punhado de gentes
arrastam-se pelo palco produzindo ruídos inteligíveis. Após quarenta minutos de
incompreensão, a espera de qualquer coisa que fosse (!), arredamos o pé!
Afinal, a vida é muito curta pra ver a peça passar a toa.
Ao sair, muito melhor, um papo
crítica-teatral com um querido trampeiro da casa, e após rirmos muito e pormos
nosso primeiro pé na calçada da rua, ouvimos a ladainha de Angola nos chamar. E
como não temos medo nem vergonha de sermos felizes, subimos as escadas, porque
escada de bairro antigo cultural sempre dá em pico astral. E somos presenteados
com ofertas de impressões bonitas sobre a vida e resistência de viver na
capoeira dos antigos e dos atuais. E ali mesmo, entre papos negros, recebemos o
próximo chamado – hoje é quinta do samba! – Num é que é mesmo? E para lá vamos
e nos deparamos com aquela casa grande e velha cheia de quadros aberta para
recém-chegados. E curtimos a surpresa de imagens fixas brilhantes abstratas
naturezas cores artes e inspirações. E rodamos pelo samba charlando
bens-me-quer-demais-eu-e-tu. E voltamos para casa e fomos mais amor-com-tesão.
XI
E nesse fluxo intenso de sentir e
viver mais e deixar-se ir para onde a correnteza nos leva sem medo de ousar e
de braços abertos para o vento e mariposas existenciais nos deparamos numa
manhã de Lunes com uma parada parada na beira da rota do Sol. E nos demoramos
por lá, porque o bonde custa a chegar. E aproveitamos para ler sobre bucetas e
libertações enquanto não chega a carroça. E quando estamos prestes a desistir –
levantados já em direção ao embora – o agora chega e dá um basta na espera:
pois que aparece uma pessoa inusitada tatuada de navalhas e diabas que é sempre
muito bem vinda no abraço e no papo. E nesse inusitado abrem-se tecidos aéreos
para dias seguintes de novas experiências e contam-se histórias de trans-prostitutas
circenses alemãs e outras artes de viver para as novas pós-modernidades.
E afinal chega a balsa terrestre
túnel até a Terra da Tapioca Prometida e nela dão-se novos encuentros
castellanos con una gente de mui lejo – umas personas buenas de una origene questionable.
E afinal nosso rio deságua no mar
de nosso destino e nos encaminhamos pro nosso palco de grama alheia e lá nos
deliciamos com a boia mais gourmet que uma vasilha de sorvete reutilizada já
conheceu. Bailar na água do mar num vai-e-vem-entra-e-sai-gostoso-que-ninguém-tá-vendo-tão-só-pensando-maldade
é bom demais e brincamos e contemplamos o pôr-do-sol e nos queremos tanto e
peregrinamos para a Última Tapioca do Deserto, aquela partilhada pelo Buda na
última Ceia dos Três Tigres Trevosudos.
Alcançada a iluminação pela
ingestão súbita daquela divindade de macaxeira feita em forno a lenha
artesanal, retornamos ao lar para novos encontros e sabedorias ancestrais. E
dias depois ascendemos aos céus erguidos por nossos potentes braços tecidos
aéreos além e ao infinito.
XII
Era madrugada molhada e vibrante do
dia cinco para seis de setembro. Seis de Setembro, para as boas entendedoras, é
o melhor dia do ano. Foi o Dia da Deusa e mais, é o Dia da Divina Brincadeira. E
nesse dia resolvemos, por acaso, celebrar toda a divindade que existe em nós
com abundâncias de orgasmos, exaustões de desejos, explosões de tesão, absurdos
de gozos, exageros de fluídos gotejados entre as pernas, vastidões de prazeres
e bem-quereres. Após um vasto correr da Lua pela noite, após um vasto correr do
meu corpo pelo teu, após um vasto derramar-me em ti e tu me sugar tudo que há em
mim, afasto-me de ti, levanto-me e pego uma bandana preta cheia de caveiras e
ossos cruzados. E suavemente aproximo-me dela, deitada e suada e ofegante, vendando-lhe
os olhos. E então inicio um ritual que imaginei nunca teria a oportunidade de
celebrar.
Delicadamente passo as cordas
vermelhas em suas coxas, prendendo-as às suas panturrilhas, amarro suas mãos
sobre seu corpo, e assim, irresistível, latejante, posso brincar de
surpreender-lhe. Cuidadosamente retiro meu brinquedo novo de seu invólucro,
umedeço-o e aproximo-o da parte mais sensível e excitada dela. O suspense no ar
já estava asfixiante, quando quebro esta fina película de tensão fazendo meu
brinquedinho branco vibrar intensamente, lançando-a num território desconhecido
de prazeres e loucuras. E então delicio-me com os gemidos ininterruptos da
Deusa, com seu corpo vibrando junto comigo, seu quadril dançando-tremendo, suas
pernas apertadas contra os fios vermelhos desesperando-se de orgasmos. E assim
ficamos por um tempo incontável, até desfazer-nos de tudo novamente, deitados
muito apertados diante do sol que nascia.
13
Os melhores dias da Vida. Naquela
quase meia década cronológica, mais de século vivenciado, naqueles milhares de
quilômetros e minutos percorridos intensamente, naquela terceira casa duma
jornada ainda muito longa de encontrar-se a si e fazer-se no espaço que habita,
naquele dar demasiado e incessante de uma vida de aprendizados sobre como dar
sem doer-se, sem medir-se, sem impedir-se – alcançou ali, naqueles 13 dias a
plenitude mais plena que jamais poderia imaginar. Planando pela imensidão das
nuvens, sentia-se voando pelo universo elevado pelos am´orgasmos mais do que
diários, mais do que horários, mais do que instantâneos – aqueles dias com ela,
aquela partilha da vida em tudo, inteira, íntegra, íntima, impetuosa,
transportaram-no para outro mundo, outra referência do que é ser e estar,
querer e ir, sentir e tocar, cuidar e conhecer.
É difícil entender agora tudo que
veio antes e tudo o que virá depois. Verdadeiramente um ponto de ruptura em sua
história. Ela veio e inundou-o de luz e treva e cor e amor. Ela renovou todas
as células, suores, fluidos, sonhos, possibilidades, impossibilidades,
imprevisíveis e divindades que existiam nele. Ele nasceu de novo, de novo. E
assim, consagrado Sacerdote da Deusa, dedica sua Vida a partir desse ritual de
13 dias-vidas ao cuidado da Deusa Mãe manifestada em todas as mulheres, em toda
a Natureza, em toda a Vida.
Ao som de Lost My Lenore - Tristania - que ela dançou
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