quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Ursa Maior


Nem a Grande Muralha da China seria
suficiente para impedir as vastas hordas
selvagens e sôfregas e escandalosas
e ardentemente erráticas 
deste amor proscrito e secreto
indiscreto que inunda
nossos corpos de chuvas
suadas e trêmulas
e absurdas

Nem a Grande Barreira de Corais
poderia conter tamanho resplendor  
em infinitas manifestações de cor
de sabor de gestos e ardores mil
nesta civilização sutil
de sentimentos e quereres
e cardumes de êxtases 
em danças profundas
e entregas marítimas

Talvez apenas na amplidão 
que existe na constelação
da Ursa Maior 
possamos encontrar um lar
suficientemente grande
para nossas tempestades
solares e explosões noturnas
onde nos sentimos 
libertas das limitações
terrenas e nos permitimos
viver todo amor do cosmos

 

 

Gotas de instantes


I

Olhos fechados, brilhos variados
Roxo, azul, formas aladas
Tenho mistérios
no escuro dos olhos

II

Pintei nos cabelos
minhas verdades antigas
cores sinceras
leia-me os cachos

III

Cuidar de si em ti
ouvir o tempo quieto
aguardar o incerto
confiar no sim

IV

Ver la cidade
Adrenalina, beira morte
emoções vibram e guiam
na garupa sobre rodas

V

Carrega nas costas
tuas escolhas sobreviventes
o que não se perdeu
é mais do que suficiente

VI

Sinto-me crua
sem meus 7 anéis
e seus segredos poderes
que me protegem

VII

Órgão mural 
de pelos e toques
submerjo tintas
e conto histórias

VIII

Amo tua vibração sonora
que canta paisagens de afetos
e semeia sensações e gestos
no meu ouvido 

IX

A arte de amar
a arte de ser
sublime poder
praticar 

X

A água aguarda
na garrafa contida
ali está escrita
a essência da vida

Ao som da chuva

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Desa(mar)


Não deu tempo. A vida é assim. Às vezes demasiada fugaz. Qual a diferença da vida para o sonho? De repente acordamos e o sonho acabou... foi apenas um sonho? Foi real? O que importa? Descartável... insignificante. Do alto da montanha, o vento leva e se desfaz. O sorvete derreteu, a maré baixou, os pássaros migraram para o norte. A brisa fria arrepia a pele acostumada com o frio. A Natureza ensina a passagem dos ciclos. Solstício de Verão com algumas geadas. O brilho do sol se apaga nos olhos, o universo é o negro infinito, afinal. Sentimentos nos afastam, medos, estranhamentos, incompreensões, vontades de controle, os ventos que tocam as bocas incomodam. Não importa. Repentinamente a cura, a dor, a paz, o fim, as folhas, as cinzas. A aventura tem quedas e cavernas. Quem tem coragem de entrar? Quem pode resistir? Viver é liberdade, ainda que hajam tantos arames farpados e correntes pela vida. Escravidão é o medo, o impedimento, é o que nos segura, não nos deixa viver, nos retém, nos limita, nos afasta do Amor que brota, que surge espontaneamente, que cresce no peito... escravidão é não amar, fugir do amor, ter medo... 

Gratidão Vida pela oportunidade de vivê-la. 

Não há dor que não passa - Assuma - Castello Branco

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Presença


Tua presença me contempla
Acolhe-me, conecta-me inteira
Envolve-me em uma nuvem de alegria serena
Meu ser percorre tua paisagem espiritual, 
teus caminhos corporais
tuas profundidades existenciais
Cada centímetro da minha pele quer comungar
com cada centímetro da sua pele
Nossos corpos um só templo
para meditações transcendentais 
para imersões viscerais
para zazens amorosos e sensuais
para estudos e revelações 
sabedorias partilhadas e unidas

Sinto em mim um profundo sentimento
de Gratidão
pela oportunidade de sentir-te comigo
por sentir-me parte de ti
por olhar-te nos olhos e ver-te profundamente, encantada
e sentir-me profundamente vista, percebida, conectada

Sinto em mim um arrebatador sentimento
de Amor
entregue sem medo, em prontidão, aqui e agora
confiante no mistério do absurdo dos encontros mágicos
Olhando, ouvindo e cantando em teu coração 
E convidando-te para estar e brincar no meu coração

Sinto em mim um deslumbrante sentimento
de Beleza
Pela existência criativa, pelas possibilidades inspiradoras,
pelas curvas e linhas de todos os sorrisos de teu corpo
pelo brilho que emanas, pelo brilho que me causas
pelo prazer integral que todo meu corpo sente contigo

Amor cósmico, suave intensidade, poderosa ser de amor
dedico-te disciplina, concentração e paciência
para aprender e praticar a arte de te amar
de contigo estar em profunda atenção ao teu ser
em busca de nos comunicarmos e cuidarmos
de compartilharmos nossas necessidades e sonhos
e da melhor forma cultivarmos os instantes e eternidades
que juntas vivermos

Transbordando ao som de Raio - Cuñac (Mose Remix)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Companheirismo (?)


Presença?
Atenção?
Dedicação?
Adequação?
Preocupação?
Ocupação?
Cuidado?
Carinho?
Atividade?
Pronta Entrega?
Pronto Atendimento?

O que é companheirismo? Um desejo? Uma sensação? Uma prática? Uma missão? Uma obrigação? Uma necessidade? Um luxo? Um privilégio? Um ideal? Uma possibilidade?

Áries - Preciso de você, agora, vem!

Touro - Tem certeza? Agora neste instante? Calma, vou já, preciso terminar algumas coisas, não sou assim tão rápida...

Gêmeos - Me explica o que tu precisas, de onde vem essa necessidade, por que você quer fazer deste jeito? Por que não de outro? Por que essa pressa? Próxima semana não seria melhor? Vamos conversar antes de resolver?

Câncer - Ei, saudades de você, vem aqui, me dá carinho, tô me sentindo triste, preciso de amor, vem me abraçar, me aquece...

Leão - Acho importante sua necessidade, mas também tenho necessidades. Vamos combinar direitinho como afinar as nossas? Vai dar certo, estou segura disso, mas precisa ser de uma forma que todas fiquem bem. 

Virgem - Me manda o cronograma, exatamente o que você precisa para a gente agendar direitinho o melhor dia de fazer cada coisa. Por escrito. 

Libra - Gosto tanto de você, vamos ficar um pouco juntas antes, durante... depois também seria incrível. Vamos nos amar? Você está tão bonita assim, intensa e transformando sua vida...

Escorpião - Não é assim que funciona. Não suporto ninguém me exigindo nada. Eu adoro ajudar, me entregar, mas com harmonia nos tempos, com cuidado. Não adianta cobrar. O que eu dou, é seu. O resto é meu. 

Sagitário - Pode ser próxima semana? Porque essa semana já tem várias coisas marcadas, várias urgências, emergências, demandas, necessidades... preciso cuidar de mim, não estou bem, preciso de ar, de água... de mar... preciso ir...

Capricórnio - Tá, tudo bem, já que é tão urgente, a gente dá um jeito. Como podemos fazer? 

Aquário - Não dá mais pra fazer? Ok, não tem problema. Não posso resolver todos os problemas nem atender a todas as necessidades. Não dou conta nem das minhas na hora "ideal", quem dirá da das outras pessoas. 

O que é companheirismo afinal? Muitas definições ou vontades possíveis...

Companheirismo seria o cotidiano de afeto e cuidado? Os gestos diários de atenção, de preocupação, de retorno, a presença ativa, a frequência afetiva intensa? A disponibilidade para acolher e apoiar na medida das possibilidades?

Ou companheirismo é uma dedicação exclusiva? Uma disponibilidade total a qualquer hora, em qualquer momento, independente do motivo, independente da urgência, chamou, chegou? Seria saber como agir como a outra pessoa gostaria que agíssemos? Ou como ela mesma agiria na mesma situação? 

O que seria companheirismo? A soma de tudo? Ou múltiplas equações possíveis? 

Certamente que não há uma definição absoluta... mas a busca constante de cada ser em atender suas necessidades desse elemento que podemos chamar, às vezes, talvez, de companheirismo...

Na cura de Territory - The Blaze 
Imagem de Mariana Caldas

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Ser Mágica do Bosque Sagrado


Segue em frente, dizia uma voz misteriosa que me parecia emanar das árvores velhas daquela floresta ancestral. Mas o 'em frente' que essa voz me incitava era basicamente uma parede de arbustos um tanto espinhentos. Um pouco desconcertada, resolvi confiar e descobrir para onde esse caminho um tanto complicado e delicado poderia me levar. Desembainhei Ferroarda Ilaminada, meu sabre mouro encantado, capaz de esquentar ante a presença de ameaças, e comecei a abrir a trilha por entre aqueles cipós e galhos ressequidos e duros. Curva para a esquerda agora, segue por esta colina, subindo, atravessa esse desfiladeiro saltando com este cipó e as indicações absurdas continuavam, me levando sabe-se lá pra onde, por horas a fio. A água de meu cantil já estava quase no fim quando escuto um som reconfortante de riacho. Ainda bem, pensei, vou reabastecer meu cantil. Preciso de comida também, e continuei com os últimos golpes até um descanso necessário. Quando a lâmina abriu o primeiro olhar para a água, me deparo não com um riacho, como pensara, mas com uma lagoinha com uma cachoeira ao fundo. E banhando-se sob águas que brilhavam ante a luz que já se punha, havia uma mulher ou um ser mágico, não saberia dizer, de pele negra, nativa, cabelos ondulados e profundos, seu corpo inteiramente molhado e nu, olhando-me como se me esperasse. Caminhei até a margem da lagoa e novamente a voz das árvores me disse Dispa-se. E puxando apenas alguns laços em minhas vestes, elas se desfizeram e caíram na areia. Entrei na água, deliciosamente morna, e nadei em direção àquela pessoa que atraia meus sentidos e meus mistérios. O som da cachoeira tornou-se mais melódico, como se ondinas, elementais da água, ali cantassem. Em instantes meu rosto estava a centímetros do dela, seus seios quase tocando meus mamilos. Ela então me fez sentar na areia neste ponto da lagoa em que tinha a água pela cintura, e enlaçou meu corpo com suas pernas, sentando-se sobre meu colo já inquietado por sua presença. Envolveu-me com seus braços, pude sentir os mamilos dela roçarem meu peito, acelerando ainda mais meu coração. Estou aqui com você, não tenha medo, quero te fazer bem, muito bem, ela sussurrou no meu ouvido e delicadamente encostou seus lábios grossos e fortes em meu pescoço. A medida que ela beijava minha pele, meus músculos paravam de doer e as inúmeras feridas que a trilha me causara se curavam instantaneamente. Ela continuou beijando minha pele, enquanto seu quadril posicionava-se em mim, permitindo-me adentrar seu interior tão acolhedor. Ela segurou meus braços e colocou minhas mãos em sua cintura e me olhou nos olhos penetrando-me com sua presença poderosa. E senti um impulso tomar meu coração, beijando aquela boca encantada e curadora em gratidão e celebração daquela magia, daquele poder, daquela beleza, daquele ser que estava ali comigo por milagre, por mistério da floresta que me levara até ali. E nossos corpos iniciaram uma dança cósmica que galgava profundidades e montanhas de sensações de imenso prazer e espanto. Sentia que meu corpo poderia desmanchar-se a qualquer momento e ao mesmo tempo meus músculos nunca se sentiram tão vigorosos e desejantes daquele corpo que sobre mim dançava. Eu a amava, ainda que nunca a tivesse visto antes, ou ao menos era o que eu pensava. Mas talvez ela já me conhecesse tanto, de tanto tempo, ela já me observava e sussurrava no meu ouvido tantas mensagens e conselhos. Talvez eu já a conhecesse de cada flor e cada paisagem e cada toque vegetal e mineral que eu já sentira. Eu já a beijara nas ondas do mar, já a tocada escalando um monte, já a penetrara ao adentrar cavernas. Porque aquela mulher não era simplesmente um ser, era uma energia pura, uma manifestação da Vida, um movimento que me envolvia e tomava, inebriando e resgatando, trazendo-me de volta para o âmago da Beleza. Seu corpo exigiu de mim explosões, exaustões, exasperações, dentes e fluidos. E quando eu achei que ia desmaiar, ela me levou e nos deitamos na areia, abraçadas, pernas e braços entrecruzados, observando o infinito das estrelas em nossos olhos. 

TransTornada


Sua potência intensa se funde comigo
Inundo-me de teus prazeres, quero ir além
Alcançar o desespero, percorrer constelações
por todo teu corpo inscritas, suas galáxias
seus mundos me fluem 

Suas colchas de histórias, sua vida de memórias
suas marcas de combate, cada iniciação que vivestes
compartilha comigo, peço, pois amo e cresço
e tanto desejo poder compartilhar 
e contribuir com teu
crescimento

Amo
Celebrar teu ser
Estar contigo e me entregar
Não temer as maiores alturas que somos 
capazes de alcançar
Não temer a translucidez dos desejos
e dos corações
e dos corpos nus 
e das almas nuas
Praticar o amor-coragem
Este sentimento-montanha
Esta emoção-dragão
Que voa até as estrelas e dorme nas profundezas
Praticar contigo a magnitude de ser quem posso ser
Em contemplação e conexão com a grandeza que podes ser

Te desejo enquanto vulcão que me lava
Te cuido enquanto rio que se transforma
Te cheiro enquanto selva que me conecta
Te descubro enquanto labirinto que geme
Desenho no coração tuas linhas e sons
Tatuo na memória cada belo instante contigo

Tomando Banho contigo, de Elza Soares

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Autogestão do Tesão: chamas, tentações, responsabilidades e autocuidados


Fogo, chama, lava, magma, incêndio, explosão, erupção, corpos, choques, toques, marés de vai e vem, movimentos, atrações, gravidades, seres e magias...



Tesão...




Algumas pessoas despertam, outras não. Alguns sonhos acendem, outros não. Por algumas pessoas emoções e sensações gritam, por outras não. Certas situações cultivam, outras não. Arrebatamentos visuais, energéticos, cardíacos, olfativos, oníricos, auditivos, táteis, genitais, sinestésicos... 



"Resisto a tudo, menos à Tentação"? Sim, talvez, não, jamais... não vale a pena... leve demais, qualquer brisa sopra longe, desaparece, esquece... vai e não me leva, fico, canso, perco, desisto... segura, aperta, força, cuida, calma, respira... 



Tenho dentro de mim um vulcão... Um encontro da Terra com o Fogo e os Ares aquecidos do coração da Terra. E este canal de conexão com o calor vital do Universo me afeta de formas poderosas. Às vezes querendo consumir-me inteira, outras vezes me impulsionando para as direções e movimentos que preciso seguir.



Tenho dificuldade de lidar e cuidar dessa energia intensa e cáustica, mordaz e transmutadora que muitas vezes me quebra janelas e portas, paredes e tetos cardíacos. Como aprender a gerir e canalizar essa força para o que sinto ser necessário? Como evitar a dispersão dessa beleza vibrante em direções sem reciprocidade?



Porque o Tesão quando é recíproco, seja por pessoas ou por momentos em que nos sentimos no lugar certo na hora certa, quando o Tesão está de fato conectado, é capaz de nos transportar para outras dimensões e nos dotar de sabedorias e experiências transcendentes. Mas quando o Tesão se manifesta espontânea e deslocadamente, jogando-se em rochedos ou vazios, pulando simplesmente sem olhar o tamanho da queda, entregando-se ao vácuo, ao frio externo, à ausência ou indiferença... quando tal acontece, causa um enfraquecimento de si severo, pois que um grande calor interno simplesmente se esvai a troco de nada, sem o mínimo de partilha, de cuidado mútuo... 



Não é viável. Não é desejável. Não contribui e nos subtrai em muitos casos e cacos. Porque é bonito nos permitirmos sentir e querer tantas belezas e sensações que nos provoca a Vida. Mas quando nossa beleza interior se deteriora por isso, quando nossa autoestima/autoimagem se vêem diante de indiferenças e frios alheios, sentindo-se desimportante e insignificante, sentindo-se ignorada e esquecida, desprezada e rejeitada, o Tesão se corrói e nos destrói. Esfria e esvazia. Fragiliza e imobiliza. 



E esse movimento de baixa, de introspecção emergencial de reparação, de encavernamento, também é importante e necessário. Mas podemos torná-lo menos frequente, guardá-lo para momentos especiais em que queiramos desbravar caminhos mais profundos de nós mesmas... Não precisamos nos ver caídas e jogadas nessas fossas abissais interiores por simples descuido...



Desta forma, tomemos consciência e autonomia sobre o processo, guiando o Tesão para os caminhos mais criativos e cuidadosos, tornando esta labareda mais intensa e bonita, mais acolhedora e querida. 



Praticar a calma, a quietude, o fogo baixo, cálido, suave, que queima de forma poderosa quando deseja, quando precisa, mas em busca do equilíbrio dinâmico necessário, cuidando dos tempos e das distâncias, das aproximações e das perdas. 



Guardiã do Fogo Sagrado, não deixar que ele queime tanto que arrisque apagar por ter consumido todo seu próprio combustível. Queimar de forma madura, em busca e criando seus próprios combustíveis e bebendo das combustões partilhadas pelo caminho. Mas de forma responsável, autocuidadosa, e outrocuidadosa, capaz de iluminar a escuridão, sem esquecer que a treva é maior e que se perder faz parte, mas saber enxergar no escuro e retornar para o próprio fogo também é parte da arte. 


Na melancolia de Vendredi sur Mer - Les Filles Désir

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Respirar

Aprendendo a andar
Aprendendo a nadar
Aprendendo a voar
Aprendendo a ser
Aprendendo a morrer
Aprendendo a amar
Aprendendo a nascer
Aprendendo...

145 marcas de combate
14 décadas de Vida Própria
10 anos por ano
Vivendo cada segundo
Extrapolando o tempo
Viajando por dimensões várias
Expandindo o ser e o estar
Conectando o aqui, o agora e o além
Muitas tribos, clãs e famílias
Conexões Infinitas
Inúmeras casas e mudanças
Incalculáveis mortes
4 mapas astrais
Incontáveis afetos astrais
Tantos labirintos e percursos
Infinitas casas e enfim nômade
Libertando-se sempre
Descobrindo as prisões persistentes
Múltipla e em expansão tenda cardíaca
Vida Demais que não me Cabe

Ao ritmo de Ja Ja - Elega al Che

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Despetalada


Me quer não me quer
Em minhas idas e vindas
Tantos fluxos interrompidos
Desperdícios
Precipícios
Atrações 
e rejeições
Entre o possível
e o inútil
Nesses processos 
vãos
de tão pequena 
germinação
e ainda menores
colheitas
diante de toda 
minha chuva
de afetos e atenções
enxurradas talvez
entre inundações
e desertos
Diante de tantos nãos
ditos e não ditos
entre refúgios e
artifícios
enigmas e 
preguiças
nesse redemoinho 
de fogos
e águas frias
e geleiras mesmo
e vazios
levando em conta
minha frágil e nômade
tenda
cardíaca
que mais dia menos dia
despenca
ante tanto perrengue 
tanta pancada
e incêndio
considerando tudo
e um pouco mais
e nada
e apesar disso
e certamente por causa
reaviva em mim
aquele sistema de outrora
prefiro ficar
comigo e onde puder
de fato estar
onde sentir assim
óbvio
que faz sentido
dedicar
estou escassa
estou cansada
estou até mesmo
um tanto desamparada
sem casa e minhas asas
já quase não mais querem 
bater sem conseguir pousar
quero parar
quero esquecer
quero ficar
só
aqui 
comigo
e com quem
quiser
e vier
por conta própria
e risco

Erreur 404 - L´Imperatrice - apenas sente

Três ondas um mar



Cacaueira, lar de doçura, me leva, me acolhe. 
Três seres em êxtase, simplesmente entregues, 
feitas delícias em gestos, feitas frutas em flor
feitas raízes enlaçadas, feito asas enternecidas
Três ondas em um só mar, indo e vindo, unidas
Tantos tremores em pernas e braços, 
em cheiros e gostos, em levedos e abraços
tamanhos ardores e calores e afetos
maiores que todas as dores, maiores 
por todo amor

Tanta pele feita planície e colina
Em movimentos de ave e alegria
Tanto sentido feito caudaloso fluxo
paisagens afetivas ciclos da Vida
Balança meu coração, acalenta e cuida
Sinto parte, sinto arte, sinto mar

Gratitude e plenitude
E amoreza e naturaleza
Em sintonia estamos juntas
Em corpo e espírito onde quer que seja

Bebo teus seres, me dissolvo na dança
Respiro teus seres, me entrego no canto
Sinto teus seres, me encanto e quedo 
ébria brilhante e muito mais amada

Balançadas por Four Great Winds por Peia Machi

Cuidados Paz´cientes


O que significa cuidar?
Cuidar de si? Cuidar da outra? Cuidar para transformar o ambiente que nos cerca? Cuidar para evitar as violências que nos espreitam? Cuidar do cuidado? Cuidar da nossa capacidade de cuidar?

Faço-me essas perguntas há alguns muitos anos e as tenho feito bastante recentemente. Porque Cuidar é a ética sulizadora da minha vida. E Cuidar é a base mesmo da minha possibilidade de existir. Cuidar de mim, cuidar de ti, cuidarmos nós de tudo que em nós se manifesta.

Cuidar... 

Que requer? 

Cuidar da dor, do amor, da paz, da necessidade, do afeto, do gesto, da fome, do medo, da sede, do sono, do dia, da lua, da Vida, dos seres, de si, das sombras, das cavernas, das águas, das mágoas, dos traumas, das esperas, das quimeras, dos prazeres, dos deveres, das aventuras, das irmandades, das famílias, das alegrias, das sintonias, das rupturas, das quebras, das quedas, das fendas, das sendas, das feridas, das partidas, das perdas, das pedras, das queridas, das árvores e das aves, 
cuidar do amor e do infinito
cuidar do cuidado
da capacidade de cuidar

Danit - Naturaleza - vibrando

Corporeidade Poética


Tua razão não te define
Seu corpo é mais adentro
Pássaros distantes
Poesia no cimento
Você caminha sobre a Terra
Ela te aceita e te acaricia
Nos gestos do mar, no 
abraço do vento

Tua dor não é fronteira
Teu coração é mais intenso
Tua pele é mais prazer
Teu amor é capaz de ser
Nascimento e ressurreição
Floresta, fauna, rio, canção

Tua realidade não te aprisiona
Teu Universo é mais além
Feito de seiva e sangue e cor
de sonhos, alegrias, lunações 
Ele tem mais belezas
do que enxergas
É mais pleno do que imaginas

Em tua geografia tem colinas
tem vales, tem riachos
tem matas e templos
teatros e cavernas
de basaltos e ágatas
tem carícia e cuidado
tem quem te ame e te queira
e por onde andas tu semeias
mais amor do que podes colher
abundância tropical amazônica 
teus olhos me fazem ver
tuas mãos me levam até
teu corpo me faz dançar

Exilada, estrangeira
Sinta-se em casa aqui comigo
com tuas amigas e irmãs na vida
em tantas casas e corações
teu ser já pulsa poesia
Tanto te amo e te dedico
Tanto amor e companhia

Dance comigo Respira, de Natalia Doco

Imagem e poesia dedicada à Aiyra Angatu

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Mar Revolto


"Já sei pra onde vou
Eu vou sentir o calor da rua
Já sei pra onde vou
Quando o tambor explodir a rua"

O que não nos mata, nos ensina a não morrer. Porque a Vida não tem moral, não tem bons costumes. A Vida é o Fluxo, puro e simplesmente. O movimento que cuida, mas também avassala, que ama e sem pestanejar, destrói. A Vida, como eu entendo e chamo o Todo, o Tudo, o Uno, já quase arrasou toda a vida deste planeta não menos que cinco vezes. E agora estamos nós, manifestações da Vida, nos esforçando para destruir toda a vida deste planeta novamente.

Não se trata de viver ou morrer. Para a Vida, isso não importa. É como se nos preocupássemos com cada célula que morre em nossos corpos. A cada instante milhares de células estão morrendo e sendo mortas. Verdadeiras guerras são travadas dentro de nós, células brancas contra células invasoras, fungos, bactérias, vírus, toda sorte de combate se travando, toda sorte de cadáveres sendo expelidos. Não se trata de viver ou morrer. Se trata de se manifestar, de expressar TODA a chama, o potencial, a capacidade criativa e transformadora que temos dentro de nós, enquanto manifestações desta vida, para o bem e para o mal, sem medo da sombra, sem excessos de luz, sem temor ao obscuro, sem salvações iluminadas, com todo Amor e toda Treva, toda Dor e todo Sentir, com tudo e com todas, em tudo e em todas. 

Infinitamente mais, porque aceita a mudança no menor tempo possível, no incessante malabarismo-equilibrista dos pratos e adagas suspensas do Aqui e Agora.

Se vou morrer ou viver, não importa

O que importa é SER, continuar SENDO, manifestando-me nas infinitas possibilidades da Vida.

Meu nome é Pequen(a)Mar e assim falei.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Certa manhã acordei de uma noite tranquila


Como quem não quer Nada
Porque Tudo já nos satisfaz
Afinal os Corpos sabem os caminhos
Que levam do início ao meio 
Um tanto mais profundo
do que podíamos imaginar
surpresa, segredo, apreço
sem medo, o círculo sagrado
foi devidamente evocado 
e os demais seres presentes
nos queriam muito bem e quentes
autoconhecimento feito pelos dentes
Orgasmos cósmicos malemolentes
lenta e calorosamente
assim como percorre a lua 
nossos ciclos mágicos
da forma como as marés 
nos orientam quem somos 
e nossas sensações subterrâneas
e cutâneas e espontâneas
simplesmente prânicas
Simples como a água
que vaga molhando 
o que estiver seco
hidratando 
o que estiver vivo.

Aos Besos de Desayuno - Calle 13

Imagem de Pablo Amaringo

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Das Belezas


Abre os olhos, olha bem. Observa atenta, calma, vem, caminha em direção ao que te guia, a quem te atrai, ao que te leva, ao vento que te sopra as velas, que te enche os pulmões, que te inspira, quem te brilha os olhos, te abre o sorriso, te fecunda. Se permite aprofundar, chegar além. Ousa des-cobrir a vida, des-nudar os mistérios, criar conexões e laços. Desteme. Arrisca cuidar e segurar, ainda que se esvaia entre os dedos, sente o fluxo, nada conforme as ondas e a maré. Aperta no corpo o calor das presenças. Ama, tudo, todas, cada uma, especial e particularmente, nascestes para o amor, para criar vida, para brotar todas as sementes escondidas, para acalmar e aguardar a chuva, para ficar bem, ainda que superes os males cotidianamente, ainda que sangres um pouco cada instante, ainda que morras um tanto, para poderes renascer mais bela, mais própria, mais tenra. Caminha, abraça, aperta, sente o cheiro no pescoço, acaricia os cabelos, queira e seja. 


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Lua Vermelha


Corpo Vermelho
Boca em chamas
Me chama
Exalando canções de teus poros
Bebo-te e penetro no sonho
Alcanço o mistério do fogo
Do gosto, os limites do corvo
nas fronteiras da vida e da morte
Me levas até a nascente da sorte
Jorras lava e me lava
Suadas nadando no rio
de correntezas selvagerias 
Alegria, tu semeias a beleza 
no mundo
De ser, estar e realizar
os gestos e afetos mais sinceros
Quero
teu transbordar na minha língua
Tua Lua cheia
Bruxuleia 
Me queima
E cura.

Para esta Moça Bonita - Geraldo Azevedo e Alçeu Valença

Imagem - Mariana Caldas - Poeme-se

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Leão Escorpião


Coração, há fogo em nossas veias
que ferve a água de nosso corpo
o Sol nos incandesce e arde
Brilha nos olhos e no riso a toa 

Há cuidado nesse encontro
Atenção aos detalhes, estima
Em cada palavra, gesto e imagem
Em busca da maior oxitocina 
Serotonina, sintonia
e alegria

Os astros guiam e inspiram
O universo favorece e ilumina
O vento no rosto nos aproxima
O suor do corpo nos excita

Calma, que não há pressa, 
mesmo com tanto ânimo
e âmago e ardor 
Cada passo é dado com amor
Na sincera busca do ser
e do estar bem consigo 
e contigo e em conjunto
com tudo que nos cerca
com o cosmos
somos, afinal
muito mais
do que eu
e você

Dança comigo, Cariño - The Marías

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Arquipélago


O vulcão jamais adormecia. A cada dia, borbulhante, lançava braços de calor e criação por sobre as praias, criando novas colinas, litorais, margens escarpadas ou tênues baias. Aquela pequena ilha, aos poucos, muito lentamente, mas também com lapsos de explosões e grandes crescimentos, foi se expandindo, elevando-se montanha acima, debruçando-se para todo lado, tornando-se mais habitada, acolhendo seres vários, multiplicando climas, diversificando espaços, erodindo cavernas, transmutando rochas. E navegando. Singrando o oceano, conectando-se com as águas profundas, abissais e com as ilhas que ora se aproximavam, ora se distanciavam. Mas às vezes chegava-se mais do que se partia. E algumas ilhas foram de fato permanecendo. E um arquipélago foi surgindo. E bancos de areia, corais, quebra-mares, parrachos passaram a criar caminhos entre elas, permitindo à vegetação e aos demais seres percorrem-lhes todas, compartilhando sementes e histórias, abrindo caminhos e conexões, levando os limites de cada uma mais longe, tornando-as mais amplas e infinitas.

El Sagrado Feminino - mixtape #5

Imagem do Atol das Rocas/RN

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Dança comigo esta noite


Vai e volta, vai e volta, num balanço compassado, pés sincronizados, corpos em sintonia, seus seios pressionando meu peito, seu rosto encostando em meu pescoço, seu coração chamando o meu. "E bem que viu o bem-te-vi / A sabiá sabia já. / A lua só olhou pro sol / A chuva abençoou". Suas mãos firmes guiam os movimentos, percorrendo o salão de penumbra salpicado de sombras floridas da varanda. De olhos fechados, elas pairam acima do chão, imersas na sensação gostosa da união, do bem-querer e do ritmo dos instantes. "O vento diz "ele é feliz" / A águia quis saber / Por quê, por que, pourquoi será / O sapo entregou" que a felicidade está no olhar que brilha, no sorriso partilhado, no teu jeito comigo e no meu ser contigo, nos caminhos a percorrer com tanto a aprender, no cuidado do agora pelo impulso do afeto.