quarta-feira, 5 de novembro de 2014

DesFronteiras


"A mulher que ele mais amou no mundo (ele tinha na época trinta anos) lhe dizia (ele ficava quase desesperado quando ouvia isto) que ela só se prendia à vida por um fio muito fino. Sim, ela queria viver, a vida lhe proporcionava uma alegria imensa, mas ela sabia ao mesmo tempo que esse quero viver era tecido com fios de teia de aranha. Bastava tão pouco, tão infinitamente pouco, para se encontrar do outro lado da fronteira além da qual nada mais tinha sentido: o amor, as convicções, a fé, a História. Todo o mistério da vida humana consistia no fato de que ela se desenrola em proximidade e mesmo em contato direto com essa fronteira, que ela não fica separada desta por quilômetros, mas apenas por um milímetro". Milan Kundera | O livro do riso e do esquecimento, p. 230

Morrer, conviver com a morte, vê-la e estar com ela. Falo da morte enquanto fenômeno. Nossa própria morte, ainda que estejamos "vivos". A cada instante morremos e nascemos. Parte de nós morre, outra persiste, mas sempre outra, transformada. Células e valores, cabelos e certezas, unhas e medos, pele morta, a gente morto, a todo instante.

Viver e morrer, ao mesmo tempo, é viver sem medo da morte. É sabê-la e aprendê-la, fazê-la transformadora. É viver a vida em toda vida e toda morte que existe em si mesma, em nós mesmos, sem pestanejar ou temer, porque do outro lado desta fronteira, tudo perde sentido e o que segura este sentido tênue é a coragem de viver.

É brincar de equilibrar-se, é brincar de arriscar, pular e voar...

Música Toca Aí - Neguedmundo

Imagem de Feminismo Poético

Um comentário:

Raysla Camelo disse...

Acho que o medo é, no fundo, o medo da adaptação. Todo começo é meio assim, "emoldurador".