quarta-feira, 30 de setembro de 2009

praia fogueira


Sereníssima

Legião Urbana

Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido, mas existem possibilidades.
Tínhamos a idéia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia.

Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho, mas
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar.

Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo.



(Foto: Clara)

objetivas


Seu reflexo no espelho olhava-o intrigado. A parede já estava acostumada a sustentar-lhe o peso das costas. O chão ouvia seus murmúrios e sentia a rigidez de seus punhos no exercício. Sem os óculos, podia se ver bem - a cegueira ainda estava um pouco distante - e longo tempo quedou ali, observando, até o silêncio ser quebrado em diversos cacos.

o caco pontiagudo disse
- Estamos, então, eternamente sós?

o pedaço mais arredondado respondeu
- É isto que sentes, mas não é uma verdade absoluta. "Tudo é relativo" pode parecer clichê, mas você mesmo já experimentou vários momentos de companhia verdadeira, não?

o maior dos cacos logo rebateu
- Às vezes minha lembrança faz-me duvidar desses instantes, de quão próximo realmente consegui estar de alguém. E, veja só, até a maior e derradeira impressão que tive de eternidade se despedaçou, desmanchou minha crença, deixando em mim essa (quase) certeza de que nada resta senão a nós (o passado), a vida (o presente) e o vazio (o futuro)... - tríade.

aquele encostado perto do cesto de lixo comentou
- Não sejamos tão cortantes, todos nós. Lembremos que somos pedaços de um todo e que, quer queiram, quer não, nos encaixamos (?). É possível até que existam muito mais formas de nos completarmos do que imaginamos, porque, vejam só quantos cristais estão esparramados pelo chão, partículas de nós que se perderam com os atritos e as quedas. A medida que vamos nos dilapidando, nossas formas poderão se moldar e encontrar outros e outras tão perfeitamente quanto no princípio, quando éramos o límpido silêncio.

sem que ninguém pudesse ver, escondido atrás de um sapato, um caco rachado retrucou
- Oh, eu não quero mais saber. Deixem-me aqui e só, estarei bem. Parti-me em tantas partes que já me basta tentar unir-me comigo, não tenho mais paciência para ainda querer exteriores.

mas a tal poeria de vidro levantou voz também e afirmou, finalmente
- Um pouco de sol agora bastará para que eu me derreta e aqueça. Já senti tanto a dor da partida que já não há para onde partir, a menos que desapareça - e ainda não tenho essa vocação. Forçosamente, então, tenho o caminho inverso para trilhar - ser um artesão de minha poeira.

Bem-humorado, juntou todos os cacos e os colocou junto às ferramentas e os materiais com os quais brincava de fazer coisas. Ilustrariam e iluminariam as paredes de madeira de um presente, o vertical de seu quarto, as fotografias do seu escrito... e não mais se calou (nem ficou triste).

meu bom humor


"Igualmente enfermo, cúmplice e ruidoso, acaso não lancei meus gritos por entre as pedras? Também eu esforço-me por esquecer, caminho através de nossas cidades de ferro e fogo, sorrio corajosamente à tristeza, chamo ao longe as tempestades, serei fiel. Em verdade esqueci: sou ativo e surdo a partir desse momento. Mas um dia talvez, quando estivermos prestes a morrer de esgotamento e ignorância, eu possa renunciar aos nossos túmulos espalhafatosos para ir deitar-me no vale sob a mesma luz, e possa aprender pela última vez aquilo que sei."

(Regresso a Tipasa - Albert Camus)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O caminho de todos nós (?)

Tendendo para o individualismo
O caos tende para o tudo?
(olhando-me através de uma ca-ótica)

Mas o céu ainda tem a cor da tangerina

Vê?


Ser visto não é mais importante que ver-se.
Ser entendido não significa nada sem entender-se.
Antes de si não deve haver nada.
E que o nada seja a própria ausência, somente,
E que nenhuma outra ausência nos pese
além do vazio que acompanhar-nos tente.

qualquer


Sem planos para ocupar a próxima hora
cem imagens penduradas na mente
Sem aviões para fugir da terra
cem pássaros de maus presságios
Sem fontes de luz ao meio dia
cem sabores de ontem apagados
Sem vontade alguma para nada
cem desrazões para sair daqui
Sem sono e sonhos para mim
cem lembranças guardadas n´uma caixa
e sem...
ilusões - deixemos assim -

(deixando passar)

domingo, 27 de setembro de 2009

pus


Sã de S Minúsculo

beijos na maçã
pegadas mancas
marcam o lamaçal
muita paixão pela luz toda
garrafas quebradas de água
pedregulhos de gelo
não dou nenhuma atenção
a crisa da existência
lenços de ida
lá no leito espalhado
aprendo ficar só
grito iras na noite
um berro errado
esse de solidão

Sérgio Blank

Cravo


Desfia

Enquanto você está longe
Meu coração se desfaz
Lentamente desfia
Em uma bola de fios
O diabo a pega
Com sorriso malicioso
Nosso amor
Em uma bola de fios

Ele nunca devolverá

Então, quando você voltar
Teremos que fazer um novo amor...

Björk

(Unravel - Björk - uma música)



Sentada no (único) sofá, tece o agasalho para o frio. Os fios um dia foram cortados da pele branca animal. Aprendeu com a avó. É uma visão cômica-fofa ver aquela menina tão jovem e bonita cosendo, tricotando os fios alvos com uma agulha brilhante e seus dedos tão delicados. Dá vontade de levá-los aos lábios e orar, graciosos. Sentada sobre uma janela, a luz nublada de meio de tarde chuvoso a iluminava angelicalmente, com a claridade contornando seus detalhes, pulando por sua pele como crianças em festa que correm para o mar. A casa era nossa e em cada centímetro dela tínhamos boas lembranças. E olhá-la em sua paciência (que eu nunca teria), cuidadosamente colocando sua essência naquela lã que nos aqueceria era encantador. Eu dificilmente deixava-a concentrar-se, não resistia em aproximar-me, beijar suas mãos, seus braços, cotovelos, subir pelo pescoço, mordiscar os pelos da nuca, morder-lhe o lóbulo da orelha. Ela ria mas se irritava, me repelia (quase que lutando contra si mesma, disciplinada - gostava). Depois eu a deixava trabalhar, sentava-me no canto da parede oposta, sobre aquela almofada vermelha encardida que sustenta nossas cabeças quando assistimos nossos filmes queridos e ponho-me a ler ou escrever. De tempos em tempos ainda a interrompo com algum comentário ou querendo mostrar-lhe o que escrevi. Mostro-lhe tudo! Cada pensamento. Sou incontrolável, fato. (sorriso). Ela ama ou odeia? Bem, ainda estamos aqui, felizes - e emocionados. Dos poucos móveis que temos, o que mais gosto é um cravo antigo. Meu Deus, que achado! Derreti-me aprendendo a tocar, sempre fui maravilhado pelo som estridente e delicioso dessas cordas beliscadas. Levantei-me, sentei na confortável cadeira defronte ao instrumento e pincelei essa melodia na qual estou viciado. Vez por outra componho pequenas canções, mas minha predileta é esta canção islandesa. Quando não me satisfaço com minha humilde interpretação, coloco para tocar a versão original - e extasiante. Deito-me no chão. Vejo de soslaio o sorriso dela - por certo que não aguenta mais ouvir essa música. - Mas permite-me deleitar-me nos meus pequenos vícios. (Somos felizes sorrindo para as manias um do outro). Aproxima-se para medir o comprimento de meu braço, verifica se está adequado. Eu sempre preferi aquecer-me no corpo dela, mas ela gosta dessa pequena terapia artesanal. Eu simplesmente não teria paciência. Eu sou assim, instável demais, se começo a pincelar uma experiência qualquer na tela com cores diversas, deixo largado por semanas antes de voltar e fazer mais algumas tentativas. Somente a escrita me satisfaz, por ser ágil e expressiva o suficiente! Ah, esqueci-me da fotografia e dos pequenos curtas-metragem que adoro. Certo, complementam a escrita, sim, sim. São variantes visuais. Continuo deitado. Nosso teto é pintado de azul celeste, com manchas brancas brincando de ser nuvens - para as mentes mais imaginativas e ousadas! - E em preto e grafia fina, algumas frases transpassam esse céu - "o amor ensina a voar", "se você quiser alguém p´ra ser só seu, é só não se esquecer, eu estarei aqui", "fique a vontade, meu bem, sinta vontade de ficar"... e outras mais... acrescentávamos alguma de vez em quando, algo que nos marcava. Era bom deitar no chão e simplesmente olhar para aqueles traços garranchados (quando eu escrevia) e delicados (quando ela) escritos no teto. Minha fome insaciável pediu-me algo e fui buscar uvas doces e verdes na geladeira. Como podia não gostar de frutas? Trouxe-lhe um suco de tangerina (um de meus preferidos) com hortelã. Deixou o copo no pé do sofá, quase intocado. Eu acabaria tomando duas horas depois - ela se esqueceu dele - com uma pedrinha de gelo. Estávamos no fim do ano, de férias, aproveitando alguns dias para não fazer nada. Viajaríamos dali há duas semanas e por isso ela se empenhava naquela tarefa - era frio nosso destino. O Chile! Finalmente a casa do poeta me seria conhecida. Isla Negra, meu coração. À noite não dormiríamos, ela queria ir para uma festa, escuro eletrônico, guitarra e cabelos esvoaçantes! Eu preferia raves em fazendas distantes - quando se está exausto, dá para deitar na grama e ouvir o barulho das cigarras, acomodados um sobre o outro. Acordei tão tarde esse dia, depois dela. Tocava uma música tranquila, estilo experimental, instrumentos diversos harmoniosamente inspirados, dirigidos por uma voz cambaleante. Na nossa casa instalamos caixinhas de som no alto das paredes, em todos os cômodos e havia um sistema que permitia definir quais funcionavam ou não, para quando quiséssemos, a música pudesse alcançar todos os cômodos - ou não. Era um plano de adolescência. A vida era agitada e tranquila ao mesmo tempo. Mas estavamos de férias e eu só queria respirar e olhar para a luz que brilhava na pele morena dela.

sábado, 26 de setembro de 2009

Ela se mudou

.apenas o fim.
(no cinema)
...E durante as conversas de casal, as recordações, o momento final, fiquei pensando... quais são as histórias que contam sobre nós (cada um de nós)? Porque todos têm essa mania/necessidade - ou então conhecer alguém traz essa obrigação - de contar nossas vidas - dezenas de vezes. Já estou farto, mas ainda narrarei cada amor e história e experiência tantas vezes. E o que contam de nós? Que versão, qual lado, que detalhes são lembrados? Será que se conta todos os males, tudo que irritava, os motivos para os fins, os pontos dos is? Ou o que foi bom? Não imagino se contar para o novo amor tudo que era feliz no último. Às vezes é melhor nem mesmo contar, mas é inevitável (ou não?). Vim sentar na mesma mesa que ficamos, aquele canto de vidro. Só para marcar na lembrança, só isso. Por exemplo, do primeiro amor a lição que ficou foi "não se pode demorar". Do segundo aprendi a "não me precipitar". E agora? Da primeira namorada eu lembro que eu exagerava... cheguei até a comparar com flor de papoula, dizia que era meu ópio, no bom sentido... não era tão assim... mas o desenho que fiz ficou bonito. É, quem bebe acaba com o fígado, eu, vou acabar com meu pâncreas, de tanto açúcar no sangue... Chocolate gelado é tão maravilhoso! Êxtase. Chegamos a nos preocupar com a impressão que estamos causando? Parece até uma vaidade querer saber em que parte da lembrança estamos guardados. E se eu for sinônimo de ruína? Ou de constrangimento? Como ser lembrado com alegria?... Como passamos pela vida das pessoas?... Não sei, só sei que passamos, passam... passa. Passado(s). Eu fico (aqui)... (lá)... (mais ali)... É bom sair sozinho, rir quando nos identificamos com a vida na tela... apenas o fim... é, o fim é sempre o início (do próximo fim). E viver não passa de um trabalho artesanal... artesão de lembranças.

sombra


Borboletas mortas
estômago de sinos
sangue de vidro
anéis de desatino
estrada madrugada
canções caladas
alegrias de mentira
cigarritos de paixão
tanta e muito mais
suprailusão
distração, imensidão
idéias soltas
ossos deslocados
instantes transviados
amores arruinados
banhos de mar sozinho
presentes de carinho
compensações
irritações
fins
...

Inferno Astral

Crianças não deveriam vir ao mundo. Nenhuma delas devia transpassar o túnel viscoso e estreito da vida, afinal, seguem a contramão desta fisiologia e ofendem-na e por isso são condenados com esta bendita vida. Afinal, que vêm fazer aqui nesta terra desolada pelos homens (e mulheres)? Nós não temos qualquer propósito em viver e gerar vidas talvez não passe de um terrível engano da criação, ou mesmo um castigo disfarçado de crime em nossas mãos. Comecemos pelo princípio. Uma criança vem ao mundo e precisa de atenção e cuidado, educação, para se tornar um ser humano - de verdade, e não só um modelo de carne. Mas, quem neste mundo está habilitado para educar uma criança, se ninguém recebeu a tal apropriadamente? Cada geração é um fruto deformado da geração anterior, que era sucessivamente mais atrasada e estúpida. Os pais, escondidos atrás do "errar é humano", aproveitam-se para cometerem todos os erros imagináveis (e outros mais) com essas folhas virgens, regando-as com violências, loucuras, insânias, incompreensões e gritos, influências de toda natureza, degenerando e traumatizando. Mesmo os casais mais comportados dão seus exemplos de insensibilidade e desafeto, ou ao menos criam ingenuidades frágeis como porcelana, nada adaptáveis à selva de pedra e cédula. Podem ser fabricados pivetes sádicos e desonestos, criaturas tímidas e anti-sociais, espécimes extrovertidas e mau-caráter, estilos moralistas, perfeccionistas e arrogantes ou tipos passivos e submissos, ainda misturas e variações e extremos e pervesões de toda sorte. É, é realmente um ofício sagrado destruir uma criança, salve a maternidade e a paternidade! E, veja só, não estou sendo ingrato, de todas, eu acredito que eu tenha sido privilegiado em minha criação, afinal, não me envergonho de quem eu sou, mas, reconheço, descobri que viver é algo abominável e, mesmo na minha persistência, não aconselho para alma nenhuma. (riso!) Certo. A pura verdade é que não quero carregar a culpa por vida nenhuma além da minha. Se possível, preferiria que nascéssemos espontaneamente, caíssemos do céu, brotássemos como água mineral ou ainda que fóssemos filhos dos animais, lobos, coelhos, tigres, elefantes. Puramente instintivos, talvez eles sejam mais autenticamente pais e mães do que nós humanos. Já que de viver não podemos nos livrar, alguma solução melhor poderia haver. Mas, continuando. A primeira educação já está arruinada. Não nos enganemos, por trás de uma infância aparentemente perfeita existem mil e um traumas encarcerados no subconsciente, seja um balão que não foi dado no circo ou um 'não' seguido de um olhar ameaçador ou uma revista masculina mostrada a uma cabecinha infantil. Depois jogam-se os filhos nas masmorras do Carandiru, digo, na escola. E veja como é o sistema, não por o filho na escola e tentar qualquer alternativa caseira ou revolucionária, o que for, é proibido! Prendem os pais! É preciso destruir o Estado antes de termos filhos. Então, paramos no chão sujo do calabouço de aula, com pessoas ensinando ratoeiras e grilhões e crianças se transformando em ratos. Lá se aprende todas as coisas pifias, vis e emburrecedoras que alguém precisa engolir para aceitar o mundo do jeito que é com facilidade, cortam-se suas línguas para que nunca ousem questionar e colocam no lugar matracas ensurdecedoras para coibir pensamentos. Como se não bastassem, ainda existem os coleguinhas. Um traumatizado pertuba muita gente, dois traumatizados pertubam muito mais... Imagine uma escola! Cheia de crianças e adolescentes e outras fábricas de desgraças? Ensinam uns aos outros tudo, de palavrões (bons aprendizados) à pilantragens (maus aprendizados), só não aprendem a construir qualquer coisa que seja - destruir lhes parece mais divertido (e talvez o seja, mas e se ninguém tivesse construído nada para eles destruirem, o que fariam?). Bem, vão se desenvolvendo (?), começam a brincar de amor - ou paixão ou, para os mais realistas, sexo. Aperfeiçoam a arte sutil (vista pela primeira vez provalmente com os pais ou coleguinhas) de magoar. Nossa, e como podem praticar nessa fase. Os que não magoam (ou não têm essa intenção), são forçados a aprender a contra-arte, serem magoados. E assim seguem mais alguns anos, onde vão descobrindo os verdadeiros significados de palavras como 'ilusão', '(des)esperança', 'paixão', 'frustação', 'sentido', 'razão', 'tristeza'. Então os alguéns que os cercavam e os meteram na frente da televisão por horas, fritando suas cabeças, decide perguntar-lhes - "e aí, depois de tantas coisas que você 'aprendeu', o que você vai ser?" - Só que em todos esses anos só aprenderam a ter, ter, ter, querer, querer, querer, destruir, desfrutar. Que palavra capciosa é essa de "ser"? Bem, 'ser' não é algo estimulado no nosso mundo, não é? Enfim, passemos essa confusão generalizada, pânico coletivo, explosão de loucuras juvenis que se jogam nos seus braços quando precisam escolher seus caminhos. Resultado, somos todos pessoas individualistas em última instância, cansadas demais com nossas vidas para transformar a realidade e, cedo ou tarde, os que acreditam simplesmente param de acreditar. E tudo começou como? Com esse pequeno-grande crime que foi gerar uma criança. Ah, não, eu não parei de acreditar - e me permita o sol (estrela combustível) que eu nunca páre, por mais que cesse temporariamente (como agora), mas ainda assim, prefiro tentar mudar o mundo antes de sacrificar uma nova vida - prefiro sacrificar a minha - e sei que não nasci para proliferar meu sangue, quero ao menos evitar que sangue seja derramado. Queria também poder evitar que tanto sangue corresse nas veias, porque ele carrega tanta dor e tristeza, às vezes, que sinto-me afogado. Queria. Espero conseguir seguir esse destino, destruir-me (construindo) para dar vida à novas flores e poder ter amor nesse caminho.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vitrais

1. Roxo
Nada é maior que o teu silêncio
A prata da lua
A água corrente
A ferrugem que amadurece a tarde
As pétalas pintadas
Os olhos molhados
As tantas escadas
Que dão para o sem-fim
Nada é maior que o teu silêncio.

2. Violeta
Borboletas espremidas
Entre o casulo e o vôo
Despertam asas sutis
Tua frágil pupila espanta-se
pela asa,
pelo vôo,
pela cor.

3. Lilás
Os tênues fios lunares
Fiam tecidos etéreos:
A nudez da mulher ausente
Um riso dentro do beijo
O perfume, não a rosa.

4. Azul
Entre a planície e a nuvem
Vagueiam os teus enganos
Antes abstrato horizonte
Há sopés que te encubram
O vento, a lua, a vida.

Glória Azevedo

uivo

AO LUAR

Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!


CONTRASTES

A antítese do novo e do absoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...


Augusto dos Anjos

Noites brancas


Acabou a sessão lamento-divã. Aperto o botão "Foda-se". É, de todos os botões, o mais bonito e útil. Vou colocá-lo dentro da mão, para toda vez que fechar o punho, pressioná-lo com força. E no murro, dar uma nova descarga de pressão. Roda morta, torta.

"Eu esqueço para beber meus problemas"...

(Intuition - Feist - uma música)

"tão curto o amor, tão longo o esquecimento..."

É, exatamente como eu temia, mas nesse ponto da estrada, eu não quero resistir. Tenho me entregue à tentativa de não-pensar, ocupar minha mente - principalmente com música. Como anos atrás, dificilmente saio na rua sem ensurdecer-me dos ruidos externos e internos com uma canção qualquer - ou aquela mesma melodia repetida. Hoje pela manhã algo bem pesado, agitado, resquício da noite passada, e, afoito, ultrapassando minha própria trincheira, pensei a respeito - "estou tentando não pensar". Porque agora pensar dói, me dói demasiadamente. Os pensamentos não são como os pés, obedientes, são pássaros que não estão em nossas mãos, sempre voando e não posso evitar que eles pousem no teu colo, amor, a menos que eu não pense. Que crueldade, faço da música uma gaiola, grades sonoras, quero abafar até o canto dessas aves epidêmicas. Meu mal é que só coisas simples são suficientemente fortes para me salvar - nada de projetos, reuniões ou ideais - isso só me cansa, e cansado, caio na sarjeta da tristeza. Quero livros leves, romances, poemas, vozes femininas belas, fotos de janelas, praias, filmes, sagrados instantes, simplicidade. É o que preciso... e não sei quando vou sair daqui. Encarcero-me por necessidade minha, ou melhor, abrigo-me. Não é grande sinal de liberdade estar ao relento, no frio e no escuro, prefiro ter minhas paredes apertadas agora, onde o calor de meu corpo pode rebater e voltar, me autoaquecer, é preciso tentar. Por esses dias lembrei-me d´uma ironia - elas me perseguem, escondem-se debaixo da minha pele. A penúltima carta que escrevi p´ra ela dizia "finalmente estamos simplesmente felizes, paz e tranquilidade", algo assim. "Ai uma jaula!" (literal - hoje já tenho) - que diabos. Foi um dia antes da morte, uma sexta feira, escrita n´uma mesinha verde escuro no meio fio, ouvindo flauta e violão do bar ao lado, aquela carta era feliz. Premonição invertida? "É tão curto o amor, tão longo o esquecimento..." disse meu querido chileno. Também para ler falta-me ânimo... só escrever conforta. Não consigo mais carregar coisa nenhuma, deixo cair tudo das costas, dos ombros, dos braços, do rosto, do peito... cai tudo na folha, nas letras brancas no preto da máquina de escrever eletrônica. Mas amanhã hei de buscar outras filosofias, descobrir mais sobre elas, mais um entreterimento, e quem sabe após, um palco, algo ensaiado. Bem, antes eu acreditava que tudo podia ou devia ser racionalizado. Tomei ódio disso, mas, quero agora fazer esse exercício. Racionalizemos. (irmã de racionar - restringir, limitar a necessidade em tempos de escasses): Primeiramente entendo que acontece. Que é quase natural de certas pessoas, inclusive eu. O amor talvez seja uma escultura de barro e flores, orvalho, coisas inanimadas, que magicamente ganha vida, fruto d´um feitiço poderoso chamado afinidade, identificação, afeto. O calor inicialmente fortalece a massa, enrijece, torna-a tangível, mas depois, excessivo, racha-lhe as arestas, corroe-lhe o centro, parte-se. Esmigalhado, jaz no chão, um pouco mais a frente de onde tínhamos começado, mas com uma grande sensação de similaridade. Bem, alguém se irritou, pegou essa obra e jogou no chão. Desculpa, era um coração. Não, não foi irritação, não sei, não sei. Prefiro não pensar. Mas não é isso que estou fazendo agora, comecei, deixe-me enforcar. Enfim, veio na memória aquele jogo da forca na mesinha redonda no canto de vidro seu e meu. Faltavam-nos palavras, era preciso improvisar. Tínhamos tomado sorvete, esperamos pela hora. Palavras óbvias, acertos fáceis. Nos primeiros dias... havia muito carinho. Não importa. Balanço minhas pernas, sentado na beira do penhasco. Olho a imensidão, mais imensa sem ela, e esforço-me para não ver o tempo passar, para quando acordar, eu ser qualquer outro e encontrar tudo novo.

Ah, e preciso contar, A Ponte para o Sempre também foi demolida.


(Eu sempre avisei - Dois em um - uma música)

n° 0

Sabe aquelas escadas de casa mal-assombrada que, quando estamos subindo, tornam-se rampas fazendo-nos despencar para o fundo? Pronto, foi assim...



(nossas duas últimas semanas)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Contos Femininos (II)

- Alô? Liguei só para ter certeza de que você está ocupada.
- Ah, nem estou, mas estou do outro lado da cidade e não posso sair daqui.
- Ah, eu odeio você. (é a única pessoa para quem tive vontade de ligar) - 'tô' brincando!
- risos.

Estás de costas e chego sorrateiramente, com as mãos vendando-lhe os olhos. Depois de tantas vezes, nem chegas a pensar, creio que meu nome já estala na tua mente. Não sei o que pensas disso ou o que representa, mas são rituais pequenos que fazem a vida adorável. Há não muito tempo te conheço e confesso - já não mais em carta - que descobri em ti algo difícil de definir (e de encontrar), uma sensação de querer estar perto para tranquilizar, para afastar a tristeza, pelo prazer de conversar, para contar algo pessoal ou para te deixar adivinhar (ouvir o que vais dizer). Sentar no canto da escada, largar a bolsa e a mochila, deixar as palavras fugirem com certa incoerência (eu, pelo menos acho, já você diz que entende) e me agarrar no que dizes, tentar desvender um pouco do nada que sei sobre você. Ah, lembro-me da sensação do vento e das conversas bobas ao sabor do pedal, pelo anel universitário até uma praça qualquer com Igreja no centro, árvores, balanço, grama p´ra deitar. Sinto ainda o gosto de brigadeiro com Lispector, o cheiro dos livros antigos, lâmpadas submersas, tirinhas penduradas na parede, garrafa comemorativa, posteres de arte, janela de dobradura de papel, mandala estrelada e brisa e paz. Gosto tanto daqueles três espelhos pelo corredor e das músicas que ecoam por ali. Gosto de subir essas escadas, atravessar o pátio onde do céu caem chaves, ver o contraste do cabelo tão preto com a pele tão branca. Há ainda as capitanias, as prisões antigas, os gramados inclinados, as praias enfeitiçadas por magia, as idéias para gravar em películas, as músicas para ouvir de baixo da noite, com o tom das nossas tristezas. Talvez entendas algo de mim que nem mesmo eu tenha descoberto, eu sinto algo assim, e admiro tanto sua percepção, cristalina, de sorriso claro... acerta-me com tamanha precisão que preciso desviar, disfarçar. Depois de tantas ligações que não se concretizaram, alegro-me com a surpresa de telegramas instantâneos, pequenas gotas de amizade pura, abraços de sentimento. Podemos conversar mais, podemos viajar, vamos? Afinal, nem comecei a saber quem és - eu sou o vidro transparente (e quebrado), tu és a cortina de renda bordada (entre-fechada). Precisamos também ir mais longe, sim, e talvez cartas - para eu te dizer algo com a eloquência que preciso. Deixe-me contar-lhe também, não gosto de vinho - preciso de tudo doce (nada amargo), morrerei de diabetes - mas ninguém vai ficar sabendo - neste dia terei cortado o fio que costura minhas veias e as deixarei se desfazerem, libertando toda a madrugada que ocupa o vácuo que existe em mim. Mas, naquela noite levaste o doce e foste também - me fez bem. Entrego-te todos os abraços que precisamos e ouço a música de harpa e brinquedos infantis com o prazer de uma criança que viveu mais do que devia... Obrigado.


(Hairnet Paradise - Cocorosie - uma música)

(folha)

"Afinal, quanto pesa o teu amor? - Ele é leve e que me leve longe..."

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

amplo

Abriste minha caixa de pandora,
os vultos desnudos correm agora soltos,
deixo-os fluir pelo meu corpo,
vejo-os agir sobre meus gostos...

Verborragia interna que não se pode
mais conter nem calar, explode
em minha mente tantas longas frases
que mostram para ti minhas incontáveis fases

Em palavras irei reinventar minha vida
Cada lembrança dilapidarei, querida
E os sentimentos se reverterão em sentenças
poéticas, prosaicas, imensas...

Contos Femininos (I)

Estava encostado na mureta do ginásio observando o ensaio quando ela simplesmente apareceu me perguntando o nome e qualquer coisa sobre mim. Aguardava minha vez de entrar em cena entre aquelas pedras e árvores e outros elementos de cenário. Postou-se ao meu lado e ficou perguntando-me, quis saber seu nome, disse-me de onde vinha. Mudara-se fazia pouco do sudeste para cá com a mãe, estava agora ali, do meu lado. Aquele dia foi assim, primeiro contato intrigante pela espontaneidade, pela simplicidade, aproximar-se e conhecer alguém. Quis conversar mais e eu também. Dali em diante passamos inúmeros intervalos sentados na gelada biblioteca, eu ouvindo toda sua vida, histórias colegiais incontáveis, de professores e amigos, amores e perigos, tudo que ela tivesse para contar. Dei-te também para ler meus cadernos onde eu escrevia versos, sabe-se lá porque. Estava gostando daquela atenção, sentia que havia atração. Passou-se um tempo, tivemos bons momentos, uma manhã na praia, sentados nas pedras, derramando tudo nas areias de veludo. Ela é assim, bonita, cabelos negros e lisos, longos, rosto arredondado, voz alegre, energética, cativante. Seu aniversário caiu n´um domingo e lembro-me do esforço que fiz para encontrar-lhe na porta de casa. Dois poemas escrevi de presente, ficou tão contente! À medida que passava, o que ouvia mais se aproximava, intimidades que me impressionei em me contar. Era uma tarde de semana, terça ou quinta, na sala de som do teatro escolar, estávamos sentados no chão eu e ela, eu com um violão, mostrando-lhe canções, hesitante. Era engraçado como ela me confiava tantos detalhes e a naturalidade com que falava. Eu me emocionava. Tínhamos uma brincadeira, quando nos víamos de longe, ela corria e pulava nos meus braços, eu rodopiava - graça. Pensei por um bom tempo em beijá-la, mas não sabia se devia - talvez. Não lembro mais se naquele tempo outro amor eu tinha, talvez. Foi sim uma amizade especial que impressiona-me como ainda existe. Não precisamos ter contato, no encontro o mesmo afeto resiste. Ocasionalmente a rua nos encontra e é tão feliz, é sim. Outro dia senti o impulso de convesar com ela e acho que é minha vez de tudo contar, acho que posso, acho que devo. Há nela essa sensação de confiança - incrível. Sabe, algo em mim está mudando, quero estar agora com aquelas com quem, estranhamente, eu me sinto bem. - Melancolia, espere o fim do dia para me visitar.

Já se dizia...


"Navegar é preciso, viver não é preciso..."

Quero fazer de minha vida uma onda que cresce, cresce, cresce... e se arrebenta...

O futuro está lá, guardado na minha gaveta de planos, garantido, se eu permanecer vivo...

Mas o dia inteiro passo levantando essas paredes de amanhã, nas outras horas quero simplesmente esparramar-me no agora e deixar-me ir embora...

Quero ter a certeza de que não viverei muito, preciso sabotar com precisão a duração do mundo...

É preferível ser um artista faminto de carne e repleto de vida do que uma criatura satisfeita de comida mas que está morta em vida...

Meu íntimo sempre disse - quero viver de beijo e de brisa...

Sonhos, ideais, carinho, paz, escritos, livros... algumas frutas e água... duvido que se deva precisar de muito mais que isso...

Venha a nós o nosso fim, transfigurado por anseios e materializado em seios...

E quem quiser que leia tudo que aqui está, sou impulsivo demais para não publicar.

Sentido

Feche os olhos. Não os abra. As mãos de fada percorreram seu peito com uma carícia úmida e fria. Desconfiada, pôs-lhe um lenço nos olhos. Mordeu-lhe a orelha, arrepiando-o. Os pelos eriçaram-se todos, e não estremeceram sozinhos. A respiração logo ofegou. Podia sentir-lhe os seios roçando sua pele levemente. Apenas um jogo de sentidos. Uma pedra de gelo procurou a virilha, derreteu. Um beijo de açúcar que estoura na boca. A língua sentiu o mamílo dele enrijecido. Um perfume impregnava o ar de humanidade. O sabor doce andava pelos lábios. As mãos masculinas entraram então na brincadeira. Sentada sobre ele, seus corpos se encontravam delicadamente - ou ardentemente. O latejo a fez ganir. Uma música de harpa, guitarra espanhola, metalofone e voz feminina dançava nos ouvidos. Os dedos percorreram os vales mais secretos, deliciando-se de desejo. Dançavam ritmadamente seguindo os corações excitados. Alguns sopros de vida, um não importar com a morte, um ignorar da sorte. Decidido, trocou os papéis e a vendou com o próprio lenço. Deitada, ela apenas aguardava o que viria e ele então bebeu o prazer da existência. Percorreu o corpo dela e novamente se uniu àquela praia de pele macia, instintivamente arranhava-a a carne e esqueceu-se de respirar. Após dias, as luzes da vida se apagaram e os sentidos transcederam até o nada. E do nada se recriou o mundo.

(não serei explícito)
ou já fui?

divagando

Dromomaníaco

Misantropo

Verborrágico

Notívago

Mofino

Taciturno

Lupino

Hiperestésico

Eremita

Libertino

Autista


Suicida

Apaixonado

13 palavras bonitas.

Acordado


Empregarei minhas energias em fábricas de momentos
Agora serei um senhor de engenhos/ingênuos (sonhos)
cujos escravos são meus pensamentos
purgando minhas mazelas
urbanizarei estas favelas
de meus sentimentos
Buscarei passar o maior tempo
com quem estiver perto
Se o mundo é do esperto
eu sou ao menos o desperto
Aprovarei sem ler
meus autopedidos de tolices
passarei pra frente
o que estava morfando ausente
e vou sinceramente procurar
uma forma de acabar
comigo.


(o 69 de setembro)

...eU

Sou o coração costurado, remendado, espancado, desamado, arremessado, desprendido, ignorado, boiado, atormentado, ausentado, alucinado, solitário... do Jack

Contigo desaprendi a dormir.

Olheiras

Um remédio
Dá-me um remédio
Para curar a dor do corpo
Empurrar-me da porta do avião
não quero ver o chão
não quero nem puxar a corda
apenas verter o líquido
qualquer que seja
pela boca ou pela alma
algo que possa
ou alguém
fazer-me respirar
como quem é leve
como alguém que não precisa pensar
porque pensar rasga, corta e geme
como alguém que só conhece o sentir
assim, como o instante
quero ser o segundo
vamos, faça-me
não me farei mais nada
além de parar de morrer vivendo
quero morrer morrendo.
Estou aqui, esmorecendo
hoje explodi meus membros
estou exausto, forma qualquer
de esquecimento
O que faço agora?
E essa nossa noite
que poderemos ter
será somente uma?
Um remédio
para a dor do corpo
me dói o roxo
me dói o gosto
mas hoje
pude quase descansar
só falta dormir
e passar
passar
ar

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Não ficam raízes...


Sinceramente, não acredito muito em reencontros. Gostaria de acreditar, é lindo, é adorável, mágico, mas não. Sonhar em reencontrar daqui há alguns anos, n´um aeroporto ou estação rodoviária aquela pessoa por quem você guarda um amor enraizado e ainda que tudo aconteça de maneira que haja de fato um reencontro, estarem ambos sozinhos, indo para o mesmo destino ou chegando na mesma cidade e, bem, decidirem aproveitar o 'acaso' e passarem as horas de viagem ou os dias de estada juntos. Quase não se reconheceriam, mas os olhos dela e aquelas molduras marcantes não poderiam ser esquecidas nem ignoradas - ele a viu primeiro. O rapaz não tinha mudado tanto, apenas um pouco mais acentuados os antigos detalhes, tinha mais tatuagens do que na época em que se conheceram, o cabelo finalmente tinha o rastafari - precisou ir para Salvador para conseguir o feito, tinha mais anéis e mais pulseiras - de vários cantos por onde passara. Ela - ele ainda não sabia - tinha mais piercings, aqueles que ela dissera que colocaria e ele se opusera. Além disso, o cabelo estava mais comprido e com sua cor natural! - ele ficou em choque quando viu. Não existe clima mais surpreendente para aproximar duas pessoas do que uma viagem (a menos que estas já estejam separadas por qualquer barreira intransponível). As primeiras horas seriam dedicadas à retrospectivas, afinal, depois desses anos cada um tomou rumos distintos e nada mais sabiam um do outro, que haviam feito da vida, as tragédias e comédias por que passaram, os sonhos realizados e as novas aspirações. Ele passou mais de uma hora contando sobre quando finalmente saiu de casa - cerca de um ano depois que se separaram - sobre o apartamento dividido primeiramente com uma amiga e depois com mais um amigo e sua namorada, da tentativa inicial de organizar o lugar como uma comunidade, das risadas, das noitadas, das sessões de cinema que faziam com o prédio inteiro, da horta que ele cultivou sozinho - ninguém mais queria por a mão na terra - da cama de casal que ele finalmente conseguiu ter, da fogueira que ele fez um dia no terraço, dos coelhos de estimação que ele comprou - Lilo e Cassandra - dos romances que passou naquele apartamento. Ela contou da luta que foi sair da escola, dos primeiros trabalhos, convites, ensaios, shows com uma banda que acabou participando por curto tempo, performaces que fez, loucuras, casos, acasos - ela sempre tinha mais loucuras para contar. Depois dos pequenos contos a respeito dos cotidianos, as muitas coisas que aconteceram desde que se separaram, viria o momento das saudades, lembrando de tudo que viveram juntos, os momentos marcantes, os pequenos causos que ficaram registrados em lugares especiais da memória, palavras, sensações, coisas que aprenderam graças ao outro. Ele até já editara um livro independente com as centenas de poemas que escrevera para ou sobre ela e uma narração autobriográfica rodeando-os. Quando ela pegou no livro que ele a entregou, ele viu um brilho conhecido nos olhos dela. Essa saudade recriaria uma atmosfera cativante, apesar de certa timidez que talvez surgisse. Ele, como é de sua índole, era bastante intimista, enlaçando-a com o braço, mantendo-a próxima a seu corpo, segurando-lhe a mão quando sentados um defronte do outro no cafezinho, tomando chocolate gelado com torta. Falava quase o tempo todo, pois ela voltara a ser a menina calada que sorria muito e para quem ele olhava com cara de bobo. Ele estava hospedado em um hotelzinho simples, qualquer, e decidiu trocar para onde ela estava, o quarto ao lado, se possível (quem sabe durante a noite não se tornaria o mesmo quarto). Não dormiram na noite em que chegaram - só quando amanheceu, passando a madrugada inteira conversando, contando suas histórias. Estava havendo um festival para o qual ele tinha vindo. Ela estava quase que fugindo de casa e de tudo, cansada, querendo se afastar um pouco. Não sabia quanto tempo ficaria nem para onde voltaria. E, magias do destino, ele vivenciava finalmente a fase de sua vida em que estava solto no mundo, largado tudo para passar alguns meses ou anos vagando por ai, conhecendo lugares, pessoas, culturas e a si mesmo. Igualmente não saiba quando iria embora nem para onde. Talvez ficassem ali mesmo. Se encontraram justamente n´uma cidade que desde jovem o encantava - Curitiba. Fazia frio durante as noites e eles aproveitaram o pretexto para se darem as mãos e andarem abraçados - não que precisassem, mas... Na manhã seguinte, estariam deitados nus na cama, ele abraçado nela. Acordariam cedo - ele milagrosamente ainda tinha aquele despertador cuco - foram tomar café em uma doceria próxima - para comemorar o reencontro, e de lá seguiram para um parque de árvores altas e laguinhos com cisnes, ambos munidos de suas câmeras - continuavam apaixonados por fotografia. Sentados n´um banquinho, a conversa entre eles se estreitaria, se aprofundaria, ganhando tom de confissão, de desabafo, adentrariam os caminhos mais espinhosos, amores, desesperanças, frustrações que passaram, ilusões que ruíram. No fim da tarde, no alto da arquibancada ao ar livre de um dos espetáculos do festival, sentados um de frente pro outro, ficaram abraçados de olhos fechados. Poderiam começar novamente. Começar - eram totalmente diferentes, afinal. Ele passara alguns anos sozinho, seguido de períodos sociais diversos e se acostumara plenamente a viver paralelamente, aproveitando as companhias com uma serenidade que não tivera na primeira juventude. Ela atravessou uma experiência de quase morte, além de rompimentos muito duros em sua vida, familiares e fraternais. Ela ainda tinha muitas amigas e amigos em quem se apoiar nos momentos difíceis, mas acabou seguindo sua tendência natural à solidão - depois do romance com sua melhor e mais querida amiga e amor - que acabou quando esta se mudou para longe - ela se transformou. Conseguiu trabalhar com algo que gostava muito, roupas, design, fotografia - e estava conseguindo sobreviver disso. Ele passara, no fim das contas, um bom tempo no teatro, além dos trabalhos jornalísticos. Juntara um bom dinheiro e fazia já quase um ano que estava livre de preocupações com sobrevivência - consumindo as economias. Talvez eles estivessem pulando de cidade em cidade há algum tempo em busca de algo que os fizesse ficar. Voltar de onde vieram não era uma opção, ficou para trás. Duas semanas depois, eles estavam caminhando por uma rua de bairro residencial, próximo ao centro histórico quando encontraram uma casa com a placa de aluga-se que chamou-lhes a atenção. De repente, decidiram alugar. Não queriam sair daquela cidade. A sensação de estarem juntos de novo o deixava impulsivo por qualquer coisa que fosse na direção de esterem juntos - saíram do hotelzinho e se mudaram para lá - criando ali uma moradia nada convencial - tinha o mínimo possível e evitavam até roupas na casa. Dali não saíram por uma semana - apenas para comprar pouca comida - e com mais uma moto, viveram errantes por dois anos e depois disso, eu já não sei mais contar. Isso tudo aconteceria se existissem reencontros, mas eu não acredito nisso. Caminhos que se cruzam uma vez não se cruzam novamente, a menos que alguma linha tênue os mantenha unidos de alguma forma, mas sendo rompida, não vislumbro novas pontes entre duas almas. Mas, eu gosto de surpresas e odeio expectativas, aconteça o que acontecer.

Do que vou sentir saudade


(Saudades que estou sentindo)

A praia e a noite jamais perderão a lembrança do teu olhar
A madrugada terá sempre o peso das perguntas e do teu jeito
A insônia será para sempre um resquício da última emoção
Os pássaros terão sempre a tua voz
Os fios elétricos carregam infindavelmente nossa finda energia
Quase todas as minhas músicas (tuas) trazem lembranças nossas
O canto de Tiê reviverá sempre em mim as últimas horas
Meus filmes mais queridos estão a ti entrelaçados
Não poderei pensar em sofás sem reviver-te
O único perfume do mundo para mim é o teu
Fotografar sempre me parecerá uma homenagem à você
Cento e oitenta, aproximadamente, escritos com teu nome
Cadernos colados serão marcas dos teus dedos
Meu novo-velho livro querido tem sua letra em todas as páginas
Minha cidade de infância de rios e livros revelará você nas minhas esquinas
Nenhuma futura carta dobrada poderá negar sua presença
Unhas quaisquer me arranharão com tua lembrança
A cor roxa (lillás) será a penumbra de um desmaio de saudade (sempre)
Cacos de vidro, reflexos quaisquer guardarão tua imagem escondida
Uva e leite será meu suco preferido
A simples menção da dor (ou sua sensação) terá um sabor diferente
Lembrarei de você quando tiver o prazer da carne
E, finalmente,
A independência e o amor terão o teu cheiro, o teu rosto.

"A cada dor de partida, a gente aprende a se apegar menos da próxima vez"...


Lembro agora, morreste nos meus braços, te vi sucumbir, escapar-lhe o ar, derramar-se o sangue, fugir-lhe a cor, vi tudo, lembro agora. Como não percebi o que estava acontecendo? Primeiro a inspiração, depois a vontade, contaste-me que se foram. "Não quero mais fazer nada, antes eu quereria ir, mas agora não quero mais"... estava penetrando nesse marasmo característico dos que estão sendo levados. A escrita (respiração) te era difícil, alguma doença invadia as forças. Ah, meu bem, como não percebi que nos meus braços estavas a morrer? Nós, que assim somos, doentes de sofrer... Somos de uma natureza cruel de ser, não suportamos o que há de mais extraordinário, não suportamos a felicidade. Não, ela nos mata, sufoca nossa necessária ânsia de sentir dor e tristeza, sem motivo algum, por qualquer motivo. Ela nos arranca as penas cruciais de nossas asas, aquelas fundamentais para o vôo, aquelas, alvo dos donos de cativeiro. Lembro agora, estavas a morrer, e eu estava alegre e nada pude fazer. Eu, que tenho a mesma chaga no sangue, a mesma fome de solidão, estava vivo porque a felicidade que encontrava em ti não era aquela pura que conhecera (e me matara), mas uma salpicada, repleta de angústias, dores, inconstâncias, tormentas, tempestades e dúvidas, florestas que podia queimar, desmatar, devastar, destruindo-me e assim sobrevivendo, e desta forma tendo meu amor fortalecido, pois cada labareda que cessava, eu via mais fundo o que sentia e ainda outra chama vinha arder-me, carne viva - Viva. Oh, meu amor, morreste nos meus braços - longe deles, muito longe. Esforcei-me imaginando então o que deveria ter feito (uma tolice, mas que não pude evitar). Fiquei imaginando se quando disseste que estavas triste, sem vontade, se deveria ter me afastado - teria forças para isso? - ter feito qualquer tolice, qualquer loucura. Ah, enlouquecerei, é fato, mas para o bem... quero doenças para minha saúde, e, novamente, tu me dá tristezas que talvez sejam para o bem do 'amor', essa substância amorfa e psicodélica, patológica e medicinal, inexprimível, assassina e divina. Acontece também que minha resistência à felicidade me parece maior... a suporto por mais tempo, convivo mais com o silêncio de minha alma - quando a tal felicidade substitui as minhas próprias canções... Você estranhou demais, como que rejeitando, um transplante mal-sucessido, atacado pelas contrariedades do espírito, pelas inevitabilidades do ser. E eu acabo também imaginando que não poderia ser de outra forma. Existem limites para a dor - ela pode ser criativa ou únicamente destrutiva - e a mera destruição é fatal. Se eu tivesse de pronto visto teus inevitáveis e não tivesse feito você ver como me doíam, deixando acontecer e acontecer, eu que teria morrido nos teus braços, teria sido eu. De uma forma ou de outra, um de nós iria. Por que não morremos juntos? Por que tenho que estar de luto? Por que sinto meu coração viúvo? Por quê? Porque esse amor, tão "auspicioso" que é(ra), curava-me mais rapidamente do que podias me ferir. - prontificava-me para cada dor que viesse. Sei que tentaste me matar também - para meu bem? Foram quinze agulhas escarlate - de escorpião - cravadas no meu corpo, quinze dias desesperadores, agonias, convulsões, desilusões, afastamentos, separações... Quinze, que deviam ter me matado... E no final, não mataram, apenas me forçaram a "pedir pra sair" (risos!)... - estraguei o texto com essa piada infame, mas... (riso sem graça)... Cheio de belas cicatrizes fico, muitas mais... feridas abertas, fechadas, costuradas, cortadas novamente... passei as unhas por cada buraco apodrecido que havia, arrancando as carnes velhas e mortas, resolvendo cada fonte de desespero... Até restar só uma... que me fez acabar - acabar o que em mim não acabou - maldição. Agora tudo está 'irremediavelmente perdido'... E a perdição é essa roupa preta que se veste... essa forma de vida curta... esse respirar que sai sangue, esse andar que rasga a pele. - E minha última perdição será essa saudade que eu sinto... essa saudade que cada centímetro de meu corpo sente, que cada prisma em meus olhos vê, cada partícula em minha língua (des)saboreia. Essa saudade atroz... algoz... E, veja só, minha mania de prever - infeliz - me diz que na próxima vez eu tentarei acertar os erros passados e por isso cometerei novos - porque um outro amor não terá as marcas do passado que eu acabarei trazendo, e assim, vou cosendo os fins com os inícios... ou, aprenderei finalmente a cortar com um estilete cada linha que segura meus orgãos aos sentimentos, que prende meu hoje ao ontem e meu amor à saudade? Sim, é isso que preciso aprender... E você, ainda vou te amar um pouco mais... muito mais... E amar sabendo que é uma tinta que atiro na parede para estilhaçar-se como um grito, deixando o que for como arte, a desrazão, a suprailusão. Sei que morreu e já é tarde para ressucitação - eu nem mesmo sei qual foi a hora para isso. Reencarnação, bem, não importa... Seremos pessoas diferentes, fisionomais diferentes... e se realmente me reconheceres as palavras e eu os teus olhos, bem... é uma outra vida.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Essa saudade que eu sinto...


...de tudo que eu ainda não vi(vi)... com você....

E de tudo que amo... e de tudo que é belo... tudo que habita em mim... (tudo que habita em ti)

Saudade da vida... saudade do abraço... saudade do beijo... que ainda será dado... (ou nunca mais será)
.
Saudade do olhar... saudade do sabor e do cheiro e do gesto e da sensação... (de estarmos juntos)
.
Saudade de estar... saudade de ser... saudade do futuro que me espera no meu sonho... (futuro)
.
Saudade da companhia que não está comigo agora... saudade de tanto, de tudo, saudade...
.
(morrendo de saudade... morrendo...)
.
.
.
.
(será que você vai lembrar?)
28 de junho...
Os sinos já não tocam

"Assim seja"


Nosso balão de ar (amor)
furou
e eu tive que deixar
que fosse embora
levado embora
deixou...

Sonhos, não os quero
Estendeste a mão
Não quero acreditar
Não quero
Pra quê?
Quero andar com meu ar
Respirar algodão doce
Não escreverei "Se"
Afinal,
Morreram as expectativas
Amém.

(3:18)


213

Leveza... - vou lembrar sempre de você


"O saldo final de tudo
Foi mais positivo que mil divãs
Por isso que não adianta
Querer julgar
É cada um por si
Na sua própria bolha de ar
Mas o que eu penso mesmo
É encontrar alguém que me dê
carinho e beijo
Me trate como um nenêm, me trate muito bem
Ah, eu só quero amor, seja como for o amor
Seja bom, seja bom, seja bom, seja amor
Me faz mais feliz
Me dá asas pra fluir
E cantar o amor"

Chá Verde - Tiê - uma música

sexta-feira


"Certa vez eu me apaixonei por você
só porque o céu, de cinza, se tornou azul..."

(Good Friday - Cocorosie - uma música)

Mortalidade


Uma praça para Clarice
Ruelas para mim
Algo p´ra te contar
Uma tristeza, desamor
Lembrar o caminho de volta
Desorientar
Não quero me perder
Mas não sei me achar
A música não vai terminar
Não paro de andar
É, não tenho círculos
Sou em si
Não canso de repetir
"Eu te amo" é bom de ouvir
Mas um segredo
contado
Está tudo acabado
acabado.

(dezenove do nove)
Recife

deveria estar feliz?

(...)
Sim, tenho várias naturezas e somos todos -
Bipolar.

Falou até em casar, ficar velhinhos, paredes e casa
quis fazer parte do meu bosque
Disse que era diferente
Chamou de real
Ofegou com ternura
Me disse "meu"
Se disse "minha"...

Mais nada.
Agora... nada.

(dezenove do nove)
Recife

(5 andar - Tiê - uma música)

Tête-à-Tête

"Agora é tarde,
Inês é morta"

Conheci primeiro
por ti
Surpreendi-me e vi
N´um milagre, encontrei
Vou morrer a ouvir.

Surreal
Não há o que acreditar
Tudo o que você sabe
sobre amor
é mentira
E o platônico
mudou, hoje
nova forma de dor
incompreensão sem saliva
angústia sem dó

Canção toque longo
Letárgico Paladar
Não há
ímpar
um só
e as canções de ingênua
sonhos infantis
Gris
Repetindo os ossos
até quebrar
Não ter
é ser
esquecer - você

Não identifico
a imagem em movimento
Fostes longe
memorizar
Eu - apaguei
Acordei no terraço
Do último grito
d´a briga da janela
d´o frio de banho
d´a mesa tosca de carta
d´o 'boa noite' da morte
d´o silêncio do adeus
d´a mentira do céu
d´o despropósito do chão
d´o asco do instinto
d´a frustração do desejo
d´a desconsolação do infinito
d´o engano do conflito
d´a espera do muro
d´a dor do mundo...

"Depois vou descansar
Não vou te acompanhar
Como eu te valorizo
Eu te espero acordar"...

(dezenove do nove)
Recife

(Te valorizo - Tiê - uma música)

Contos de Recife (II)


Sábado, deze/nove... Fome não havia quando seguimos pro almoço. Um suco de acerola, para ela o que quis. Caminhando lado a lado, mas mil metros entre nós, rodamos no pequeno prédio, aquela lata de sardinha moderna no meio do centro histórico da cidade velha. De lá fomos para o tão esperado templo, o armazém de todos os cds, livros e filmes, a Livraria Cultura. Veja como é a vida, quando fomos, já nem queria ir mais. É assim mesmo. Surpresas da viagem já haviam saciado minha sede de coisas. Olhamos um pouco paredes inteiras de cds, ela conhecia quase tudo, eu me sentia um desconhecido do mundo. Mas, nada cativou a ponto de me fazer levar por impulso. (Não queria levar nada, afinal). Mas, olhando para as películas, mais uma surpresa me arrepia - encontro o Estranho Mundo! Jack olhou pra mim duplamente. Dois haviam e dois eu tive que levar. Um meu e um presente - uma chance única que não se podia perder. Pronto, ali realmente razão nenhuma restava para permanecer. Saímos... a tarde estava findando, o céu estava nublado com buracos de céu e tantas garças, pombos, passarinhos batendo as asas sobre nós, sobre o rio. Sentamos na rocha à beira d´água. Água cinza, detritos, refugos da miséria urbana. Mas, no distante, refletindo a luz suave do sol filtrado pelas nuvens, aquele rio estava lindo. Ela precisava registrar seu triângulo - é, três pontas sem mim. Captou com sua câmera a paisagem. Eu, desprovido da minha rede de caçar imagens-borboletas, usava a dela também para guardar as minhas visões. Sentados ali, esperando a vida seguir sua correnteza rumo ao mar, vimos se aproximar um barquinho. Pequeno, madeira, motor, remos, branco e vermelho, aquele senhor Mansinho com jeito simpático. Tirei uma foto, acenei pra ele - estava apenas brincando o momento. Mas, caixinha de surpresas, ele não passou por nós, deu uma volta e se aproximou - Querem dar um passeio? Para lá acabou e poderia dar esse último passeio pelo rio hoje - Eu me impressionei, me empolguei! - Queres ir? - Tenho medo! - Vamos! Se morrermos, é porque era pra ser - Não! - Vamos, vamos, vamos! - Tá, eu vou. - Corri para avisar para nos esperarem caso quisessem ir embora, troquei a prata para o barqueiro e fui de encontro. Até a Casa da Cultura, ele disse. Pisamos na pequena ilha flutuante com relutância, hesitação. - Ele pegou nos remos - Vamos remando? - Você é doido? Não chegaríamos nunca - Ah tá. Manobrou a embarcação e fomos, impulsionados pela combustão. Através do corpo d´água da Veneza do Brasil. Eu e ela, ela e eu. Romântico? Pena, mas, não. O que foi romantismo, agora era uma incômoda imobilidade, um dia de finados, poucas palavras meio arranhadas, silêncio de navalha. Mesmo assim, que importa? - Peguei a máquina e flagrei as lembranças de mangue "preservadas" (poupadas, é mais justo) nas margens, a história de vários andares daquela Recife de minha infância, ainda que para mim permanecesse uma cidade desconhecida e misteriosa. Ela tinha pouco interesse. Tudo naquela viagem, parecia a mim, ela vivia apenas como se consentisse em se deixar ir, mas sem vontade. Passamos pelas pontes baixas, centrímetros de nossas cabeças - passagens de séculos, holandesas, portuguesas, brasileiras. Conversamos algo? Não me marcou. Olhava para ela, dava meus pequenos beijos (a viagem inteira), como... como pequenas ondas de espuma que insistem em chegar a uma praia que não faz questão de estar (e onde não se pode chegar - inalcançável, uma praia solteira do mar). Fizemos a curva na ilhota mesopotâmica, faraônica, européia. Eu observava aqueles casarões, aquelas árvores anciãs, cúpulas douradas, teatros e praças, aquele litoral fluvial de abandono, de passado e beleza. O destino chegou - a velha prisão transformada em Casa da Cultura. O claustro transformado em espaço da arte do povo, artesanato, expressão do sangue daquela terra... Uma minúscula sensação de gota no rosto. Chuvisco? Por tão pouco ela se desesperou, sua beleza de fios negros não podiam com água... com aquelas gotinhas, caiu sobre nós , como se não bastasse, uma sensação de 'arruinado'. Se ela pudesse, saia voando de lá, me deixava - não podia (?). Apenas um susto. Logo pararam de pular das nuvens as lágrimas do céu. Foi só um cisco na atmosfera lacrimal. Voltamos, chegamos. Fomos para o veículo. Silêncio. Fomos embora... para todos se aprontarem para a última noite. Noite.

Contos de Recife (I)


Sábado, deze/nove... Chegamos no hotel quatro da madrugada... deitou e dormiu... fiz-lhe perguntas, fingiu que não ouviu... o despertador tocou cedo, oito e meia a raiar... nove estávamos de pé, dez lá embaixo já... Esperando os outros para passear... Demoravam, demoravam, estavam dormindo, eu e ela distantes. Eu quis conhecer o centro, as ruas um pouco explorar... ela disse "está quente, não vou", pois bem, fui só - melhor mesmo é descobrir o mundo sozinho... andei à direita, fiz uma curva, encontrei um antiquário de móveis antigos, fitas VHS da infância, manequins e câmeras analógicas... saí e dobrei à esquerda até uma encruzilhada de três ruas... para todos os lados havia um Igreja, ah, que lugar maravilhoso, prédios antigos, abandonados, janelas pingando umidade, madeiras mal-pintadas ou fachadas ornamentadas. Belo. Segui pelo meio... passando, perguntei - Onde encontro um sebo? - Vá direto e na Igreja vire à esquerda - No final, olhei pr´um lado, olhei pr´o outro e o sebo estava do lado oposto. - Livraria de livros usados - não lembro o nome, mas tem no cartão. Nossa, que mágico! Era enorme, tinha primeiro andar! Cheguei perguntando - Tem sessão de poesia? - Lá em cima, procure o senhor Tobias (também não lembro o nome, mas, para rimar...). Subi as escadas, olhei ligeiro - O senhor sabe se tem livro de Guilherme de Almeida? - Não sei ao certo, vamos procurar. Mirei o olho e logo encontrei! Inacreditável! Folheei, perfeito... continuei olhando e mais um livro lindo - Pus... folheei, amei! Surgiu um desespero, livros estavam caindo pelos lados... queria ir embora antes que levasse o lugar inteiro! Mas, tolo, mais uma espiada - Canção do Caos - adorei e realmente me desesperei - Preciso ir embora! - Não, veja mais um pouco - Se não for agora, vou ficar louco!... Em direção à escada, perto de livros passei e vi outro! Maldito, era o Noite, de Érico Veríssimo. Peguei também e fui descendo. A atendente um telefone atendia, esperei com os olhos e encontrei, para meu prejuízo, mais um livro incrível - Foram cinco... e setenta pilas... quebrei. Saindo de lá, sem mais nenhum tustão... voltei para a praça onde Lispector estava - sua estátua emplumada, olhar rijo, cabeção... Lembrei dela, lógico, haveria de lembrar mais de quem, não? Andei pouco mais, uma Igreja me atraiu - Tinha candelabros lindos, um sobre o altar. Finalmente embora, sentei na varanda com ela, mostrei-lhe meus queridos artefatos, ela os achou chatos.