sexta-feira, 30 de junho de 2017

Enteógena


Estalam os limites
Sentidos delirados
beijand´os céus dos 
seios desejos mais
profundos descendo
pelas pernas
dos meus dos seus
saturnos
Caindo pelas beiras
das danças dos 
segundos

Bates
Minhas portas
Da pele dos satoris
Os dentes queimam despes
as asas velejantes
as casas amarradas
nas costas de vermelhos
Vem sou ti mais quero
Ver desde sendo seta
A luz ser nação
Em teu corpo continente 
Moro manto mar
que cresce e beija e queima
E me desperta tudo 
e deita
no meu mais 
longo amar



Para K
No Ninho de Leelas
Da Casa Caracol
Alto da Torre
das Brumas

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Em-mim´moras



Desenho teus olhos com traços elétricos
Que incandeiam meus nervos da memória
Percorro seu pescoço em endorfinas
Liberadas pela sugestão da sua presença
Arrepio meus pelos na sensação que os teus
Me causaram e aqui permaneceram
Deito em teu colo acarinhado
Nos recantos das lembranças cultivadas
Suspiro teu cheiro unicamente teu
Que nenhum perfume se compara
E em meus sentidos resolveu fazer morada.
Seguro tua mão imaginária
E durmo bem, quente e inspirada.

Para K

Levantada no meio da noite pelo estalo elétrico da inspiração do suspiro da saudade da vontade dela que despertou em mim...
Chapada do Araripe/CE
26/05/17

Poesia meio chinês meio libras


Lar deito sinto-te respirar
Laços braços pernas tece nós
Lento tempo quero tanto traz
Vem fica linda quanto mais
Quer sente calma chega dorme
Sonha segura flor afeto enorme
Pasmo balanço danço contemplar
Volta delícia sentido ao se chegar
Canto lembro vamos ser de novo
Gestos brotos nascem gozo gosto

Para K

26/05/17 no alto da Chapada do Araripe/CE com insônia de saudade

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Amar-ra-te


Não conta pra ninguém,
Que está além
d´alheia compreensão
É um tesão 
no coração
nas mãos
nos olhos fechados
Um carinho 
no cantinho
do ser desejado
Uma loucura
Sem cura
Que faz um bem
danado
Ouvir-te aqui
dentro de mim
Cultivando ares
e mares de prazer
Em compartilhar
Aquecer
participar
de ti
Em mim
Assim
Bailante
e
Sensual
Uau
Quero mais
Ardor
Ofegante

E cuidado
pra que não faça mal
Faça amor...

Dançando Amárrame - Mon Laferte


terça-feira, 30 de maio de 2017

Próximos Espirais


Porta de vai-e-vem
Ciclos de evapora-e-chove
Cai-e-sobe, dói-e-cura
Ama-e-acalma
Começa-e-acaba
Acaba-e-tenta-de-novo

O verde na janela, salpicado de flores rosas tropicais
Com gatos passando por pontes suspensas
Entre cajueiros labirínticos e telhados engenbrados
A fraca luz de fim de tarde, quinze-horas-e-vinte-dois, 
vidros coloridos e lâmpada sem graça 
e pilhas de livros e garrafinha d´água

O riscado violoncelo entre sons mais agudos atormentados
Cavando uma beleza triste e preenchedora de vazios
As unhas azuis carcomidas e o amuleto verde florido no pulso fino

Cenários componentes desses estados de vida meio dormentes
Uma saudade revigorada, saída de uma caverna esquecida
Pouco mais de uma semana desde o fim do degelo
desse sentimento crônico que nos aproxima
Essa serpente caótica e sedutora que nos envenena
E cura e alucina e jura
que nunca mais e logo em seguida
Estamos nós, aqui, recaídos
Possuídos por nós

É bonito, é doce, uns toques azedos, outros doloridos
Mas é gostoso, vale muito, ainda valoriza e cresce
Agradece e pede cada noite outra vez que perdoe e cesse
as mágoas chovidas, absorva a terra para nova vida

E reflete, balança, calma: não se deixe excessiva
Cuide para que seja digno, saudável, colorido
Na medida, atenta e sensitiva 
a todo indício e todo aviso, para que continuem
os ciclos, as espirais, nunca repetidas, mas
acrescidas, inspiradas, sensuais
Prazerosas e curiosas e seguras
e aventurosas e doçuras
Para nós

Film Credits - Oláfur Arnalds

sexta-feira, 21 de abril de 2017

7 memórias e 1 ficsonho

7 - Cuidado com o que você deseja, pode acontecer. Um dia sonhei/pedi/desejei viajar muito, muito. Resultado, passei quatro anos viajando quase todo mês, conheci quase todos os estados do Brasil e um país da América Latina mais de uma vez, a maioria delas sem gastar quase nada, muitas motivadas por trabalhos inspiradores, outras em busca de amores, outras atrás de sonhos.
3 - Minha última crise existencial (braba. as de leves rolam ao menos uma vez por mês) foi em 2015, prostrada na cama, sem querer me mexer para ir fazer o que "devia", mas já não acreditava. Naquele período decidi encerrar a vida que vivera até ali, o projeto de vida que tinha escolhido e buscado, fechar esse ciclo e começar tudo de novo.
4 - Passei 1 semana (que durou um mês) numa casa construída com materiais naturais e de baixo impacto ambiental (barro, bambu, madeira das proximidades, reciclagem de entulho, cerâmica quebrada reaproveitada, janelas de vidro de caminhão, garrafas de vidro, etc), em que toda a água cinza (de cozinha, pia de banheiro, xixi) era tratada de forma ecológica, todos os resíduos orgânicos (restos de cozinha, coco) eram tratados de forma ecológica, muita comida era produzida em horta e agrofloresta, tinha teto verde, tinha painel solar, tinha fogão a lenha, tinha tapioca deliciosa, tinha amor, tinha uma nova geração sendo cultivada, tinha livros inspiradores, tinha tudo que eu descobri que era o que eu queria pra minha vida (e ainda tem, tá lá em Minas, cada dia mais lindo!). Depois daquela viagem minha vida deu uma cambalhota e mudou de rumo.
2 - Vivi duas vezes a experiência mais intensa de conexão da família humana, de cooperação para o bem-viver de todas as seres, liberdade dos corpos nus seja no rio, na lagoa, no chuveiro, na vida, alimentos deliciosos e frutos do cuidado com a terra, descoberta de si, laços de partilha e gratidão entre todas. A família Arco-Íris (aquela dedicada a transformar o mundo e fazê-lo um lugar bonito e livre para todas) existe e se encontra.
5 - Ajudei a construir duas casas de barro. Levantamos as paredes delas em duas semanas, enquanto aprendíamos tanto sobre a vida, as coisas essenciais para viver com alegria e harmonia.
3 - Já me permiti expandir as portas da percepção, da consciência, do autoconhecimento, da conexão com o universo, com o movimento da vida, experimentando o que a Mágica de Tudo pode nos proporcionar, às vezes de forma tão simples, às vezes por caminhos mais dedicados e perseverantes.
6 - Já cai da cadeira pelo absurdo prazer de uma comida preparada com amor e carinho e já dancei até perder as forças e me jogar na água e lá ficar por horas
8 – Vivo numa comunidade utópica liberta da propriedade privada, das relações de poder e exploração entre gêneros, raças, espécies, em que o cuidado do Planeta, das pessoas e a partilha de tudo são os princípios que regem; e a criatividade, a transformação, o afeto, a incompletude do ser, a curiosidade e o tesão movem nossas vidas.
1 – Já morri de amor. E renasci várias vezes.

K


Afetos são, por ventura, como plantas pioneiras
Não há quem lhes arranquem do chão
Elas teimam em retornar, se espalhar, reflorescer 
cada cantinho que for deixado de lado
será lentamente brotado
pelas primeiras jardineiras
que transformam a terra do ser
em trópicas intrépidas florestas

É´limentar


As cigarras recitam poesias
Cachorras bailam pelo alpendre
Cresce em mim uma simples alegria
Sabor de castanhas batidas maçãs e ameixas

Hoje acordei para alimentar a Vida
Uma singela missão que me faz sentir
Que há bons caminhos para plantar
e carinhos de sol para ouvir

Enquanto a escuridão nos dá conselhos
e a lagoa lava nossas margens
observo o movimento incessante
das possibilidades manifestas magicamente
mesmo que lugares em nós ardam
e lembranças e sonhos se espalhem

terça-feira, 28 de março de 2017

Temamor


Nos temos amor
numa particular forma
que envolve cultivar
saudade com um pouco de óleo
sobre chama azul e esperar
estourar uma vontade de conversar
e conviver temperados
com curry ou orégano ou até mesmo
tomilho ou mostarda os minutos
partilhados em horas de filmes marinhos
lagoas dançadas poesias em peles
sonos caminhados esperas abraçadas
shows sobre a grama motos gargalhadas
e carteiros e cartas

Tenho-lhe amor
numa particular medida
que implica absorver-lhe os dedos dos pés
e os pelos da nuca numa forma de arte só 
minha de contemplação da beleza das formas
diminutas das alegrias que me causam tua 
presença ainda que medida no ponto
suficiente para a receita dos afetos e gostos
não transbordar a forma que lhe cabe
e queimar no fundo escuro de cinzas
do coração usado achado na feira de usados
da avenida 8 desta cidade que habita em meus
matos molhados pelas épocas de chuva

00h49
28/03/17
Insônias campilhadas

Poeiras


O empoeirado abajur vermelho
das noites vermelhas de 
inferninhos e suor e gozo
já não serve mais para nada

A caixinha vermelha carcomida com desbotados cinzas 
vazia de camisinhas com teias de cabelos caídos
e recortes de frases a ocupar-lhe o espaço vazio
já não serve mais para nada

O sentimento de aperto no peito e taquicardia
e ansiedade e desejo e ânimo
de escutar todas as ladainhas
do dia dela e cozinhar-lhe doçuras e
fazer-lhe dormir com carícias entre as 
sobrancelhas
já não serve mais para nada

As histórias vividas para ter o que contar
a ela nos intervalos dos gestos da cachoeira
gelada no raiar do dia e da caverna onde
cabe um prédio de sete andares e dos nasceres do sol
madrugados da insônia causada pelas loucuras
do peito
já não servem mais para nada

Até mesmo toda a decoração das paredes
escolhida para expor como enfeites fragmentos
e retalhos puídos dos detalhes da minha idiossincrasia
cozida em banho maria com raspas de chocolate de cobertura
amarga com traços de leite e manteiga de cacau
já não serve mais para nada

Porque ela já não liga não responde 
visualiza demonstra interesse busca por conta própria
convida para uma peça de atriz ou companhia que marcou-lhe
a vida não sente nada ante qualquer referência ao vivido que lhe
passa a vista nem mesmo demonstra ter vivido aquelas infinitudes
com este que já não serve mais para nada

00h25
28/03/17
Inspirado nos poemas de Matilde Campilho lidos com um falsete sotaque mais lindo que ela tem

Com-pós-estar

A dor é tomada por fungos 
E infinitos outros microorganismos
Que dissolvem cada partícula sofrida
Em menores partes de matéria viva
Que aos poucos se desmancha em terra
E transforma os fins em começos
Faz dos restos o melhor berço
Para sementes brotarem um novo

O pesar e sofrer regeneram
Um ciclo natural de mudanças
O perdão reúne nutrientes
Que entre a tristeza dançam

Ao deitar nesse chão há abraços
Que despertam o nascer d´outros laços
As flores sempre dão nesse campo
Pois há vontade demais de fazer
Das sementes belezas de encontro
E do passado outras formas de ser

21 de fevereiro, 23h22

Faz Iscas


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Uma História Libertinha - Parte 2



I
Sua boca estava úmida pelo frio da manhã. Passou a língua pelos lábios. Uma vez lhe contaram que as gotas de orvalho são partículas de lembranças que, saturadas no ar, se liquefazem sob a temperatura suave da alvorada. Fechou os olhos para sentir o que acabara de sorver. Lembrou-se de um dia no topo de um morro de onde se via o horizonte ao longe, da caminhada solitária, dos cheiros de mato e dos gostos de sementes e frutas secas que levara para comer. Gostou das imagens sentidas e imaginou - preciso fazer isso... Estamos todas ligadas de um jeito ou de outro. Em que medida aquilo que eu imagino é fruto da minha invenção ou simplesmente uma vivência de outra pessoa transbordada e espalhada no ar que de alguma forma chegou a mim? O que criamos sozinhas? Será que fazemos algo sozinhas? Ou tudo vivemos acompanhadas de todas as pessoas que viveram caminhos próximos, afins, todas que querem viver tais direções, todas que passaram por direções diferentes ou transversais? E então recordou a noite anterior – exalando essa lembrança no ar, o encontro, as graças partilhadas, o riso, o toque, a sensação de proximidade e mesmo conexão, os aprendizados. Alguém um dia lembrará isso? Sorriu.

II
Passou algum tempo ainda espreguiçando-se no seu colchão de tecido natural. Sua cama era macia, recheada de muitas folhas e flores secas, que exalavam um calmante perfume sobre uma esteira de palha no chão do quarto limpo e amplo e vazio. Além da cama, tinha apenas uma mesa e uma cadeira de madeira muito bem trabalhadas, uma pequena prateleira com livros, cadernos e um copo no qual haviam lápis e pincéis ao lado de um vidro de tinta, um pequeno baú de madeira entalhada, no qual desenhava-se a imagem de árvores, um lago e pessoas alegres e duas pinturas em aquarela na parede à esquerda da cama. Por fim reuniu forças para levantar-se. Fez um rápido alongamento, despertando as articulações e músculos. Então tirou do baú uma esteira, sentou-se nela com as pernas cruzadas e por cinco minutos ficou em silêncio, de olhos fechados, concentrando-se apenas na respiração. Levantou-se. Pela janela podia ver o jardim comestível ao lado da Casa Comunal, no qual via algumas pessoas já trabalhando, coletando serrapilheira do bosque mais próximo para renovar a cobertura de solo dos canteiros do jardim. De seu quarto, no primeiro andar, podia apreciar as belas formas desenhadas pelos canteiros, círculos, espirais, mandalas, ondas, todas repletas de cenouras, couves, girassóis, hortelãs, abóboras, abobrinhas, berinjelas e uma infinidade de hortaliças, medicinais e aromáticas mais. Os delicados e variados cheiros chegavam-lhe intensamente, pois o calor da manhã trazia os odores para cima. Desceu as escadas, atravessando o longo corredor cheio de outros quartos, algumas portas abertas, outras fechadas. Em uma havia um Kusudama, origami feito de encaixes de várias partes, neste caso, formando uma multicolorida bola com um sininho pendurado em baixo. Era gostoso acompanhar com as mãos a forma irregular do corrimão, um belo galho de goiabeira retorcido na forma exata da escada espiral.

III
Duas pessoas cortavam frutas, fazendo saladas e sucos. Abraçou-as e beijou-as em comprimento de bom dia e pensou no que fazer. Resolveu-se por uma fornada de biscoitos de aveia com passas e chia. Sentiu o cheiro de pão subir do forno - que delícia, sentiu. Em trinta minutos tudo estava pronto. Sentaram-se todas na mesa de madeira, três àquela hora da manhã, e começaram a se servir. Havia também geleia de banana com maçã e canela, patê de berinjela e azeite para passar no pão quentinho.

"Como foi o dia de vocês ontem? Que fizeram? Estão aproveitando o festival? Perguntou Pequena Mar.

"Sim, sim. Estou participando na organização da grande tenda de circo aéreo, então passo o dia lá auxiliando e cuidando de tudo, disse Nuvem Alta. Esse ano está muito bonito, não é? Muita gente! Acho que está sendo o maior festival que já tivemos. Muitas e muitas barracas acampadas pra lá do campo de girassóis. Conheci umas queridas de Altos Aires, elas me contaram as coisas que tem rolado por lá... Elas estão inventando uma nova linguagem de símbolos recombinantes - cada frase dá para ser entendida pelo menos de dez jeitos diferentes por qualquer pessoa, mesmo quem está vendouvindo pela primeira vez essa linguagem... A compreensão de qual o sentido exato que se quer expressar depende muito do jeito de olhar, de gestos e da energia no momento. Logo, a linguagem escrita serve mais para poesia do que para registros, porque oferece uma infinitude de possibilidades interpretantes, imaginantes e transcendentes.

"Que lindo, respondeu Pequena Mar.

"Vou propor no conselho dessa semana escrevermos uma frase bonita nessa linguagem na entrada aqui da Casa Comunal, continuou. "A frase diz, entre outras coisas, esse é o sentido que eu mais gosto, vem com calma vem intensa no brilho da terra que aqui se cultiva.

"Pois me avise que eu quero te ajudar!

"Pode deixar!

"Ai, já eu esse ano estou em clima de outros ares... estou aproveitando que quase todas estão concentradas no festival para conseguir me isolar mais e produzir... estou trabalhando no bosque, construindo uma casita na árvore. Será um belo mirante, biblioteca, cantinho de encontros, refúgio. Mexer com madeira, ferramentas, medir tudo nos tamanhos exatos para se encaixarem perfeitamente, reciprocamente, usar o mínimo para fazer o máximo, não há nada melhor para mim, disse Lua Cheia.

“Que lindo. Também quero te ajudar! Posso te acompanhar hoje? Interessou-se Mar.

“Claro! Será um prazer ter sua companhia.

“Hmm, como está incrível este pão! Hmmm! disse Nuvem Alta. A geleia se desmanchava no pão que Nuvem segurava, enquanto ela, de olhos fechados, gemia de contentamento.

“Nunca me canso de ouvir teus gemidos. Você é a melhor pessoa para se estar quando se come. Tudo fica duplamente mais gostoso, tanto você saboreia e mergulha cada comida, comentou Pequena Mar.

IV
Assim que acabaram de comer, Mar e Lua prepararam uma sacola com frutas, suco e um pouco de torta salgada que havia guardada para almoçarem mais tarde. Antes de seguir para as brincadeiras do dia, precisavam contribuir com o cuidado da horta ao lado da Casa. Pequena Árvore estava orientando o manejo agroecológico naquele momento e solicitou que elas fizessem uma poda regenerativa das plantas, retirando as folhas secas e levando-as para a composteira e colocando apoios nas ervas que cresceram mais do que conseguiam sustentar. Aguaram cada planta conforme sua sede. A Mar era especial o jeito como a água era absorvida pela terra úmida, animando-a. O som produzia era diminuto, mas lembrava-lhe o estourar de minúsculas gotas. Observou a movimentação dos insetos, a vivacidade do solo, uma minhoca aparecendo aqui e ali, aproveitando-se da sombra e refrescância da terra molhada. Colheram algumas berinjelas já graúdas e brilhosas, cortaram as folhas de couve mais desenvolvidas, alguns couve-flor enormes e suculentos e foram acomodando tudo no carrinho. Após três viagens do carrinho à grande e fresquinha dispensa, deram seu trabalho ali por encerrado. Mas Mar e Lua aproveitaram mais alguns minutos no grande cômodo, que tinha uma temperatura bem menor do que do lado de fora, pois suas paredes de barro e muito material isolante térmico e um sistema de resfriamento natural usando evaporação de água em alguns tanques junto à partes mais finas da parede garantiam o efeito, além, claro, da posição escolhida na casa, no lado sul, onde praticamente não recebia sol direto em nenhuma época do ano.

V
Seguiram por uma das inúmeras trilhas que saíam da Casa Comunal, esta dirigindo-se para a lagoa mais próxima.

“Que delícia! Esta água está perfeita, bem friinha, pra refrescar e animar o corpo! Comentou Lua.

“Às vezes eu passo tardes inteiras aqui, boiando e vendo o sol lentamente mudar do azul pro alaranjado e pro negro estrelado.

Ainda molhadas caminharam pro bosque. Lá, já secas pelo calor do exercício, Lua Cheia explicou a Mar o que já tinha feito e o planejava fazer naquele dia. A base da casa já estava pronta, precisavam agora estruturar as vigas do teto. Cortaram as madeiras com cuidado, cortadas dias antes no bosque reflorestado, área preparada especialmente para colheita para construções. Posicionaram-nas e as encaixaram de forma que cada uma sustentava o peso da outra, em estrutura recíproca. Fizeram alguns nós com cipó encerado para garantir e começaram a colocar a cobertura de palha seca que também já estava preparada ao lado. A casa se erguia entre duas enormes e orgulhosas árvores centenárias, uma jaqueira e uma mangueira.

“Essa casa será meu novo cantinho preferido, disse Mar.

“Acho que já trabalhamos o suficiente por hoje, disse Pequena, quando o sol começou a se pôr. O que acha de caminharmos até o riachinho do bosque? Podíamos dormir lá.

“Adorei a ideia.

VI
Pegaram a trilha que seguia pela floresta, bem sinalizada com laços coloridos que indicavam os vários lugares sagrados da mata, o riachinho, o altar das ancestrais, a clareira dos conselhos de visões, os caminhos suspensos de arvorismo, o vale dos cogumelos mágicos, a tenda da lua, entre tantos outros. O riachinho era ladeado por grandes rochas, onde elas podiam deitar-se para observar o sol se pôr e lentamente dar lugar às infinitas estrelas. Com os pés sentindo o fluxo das águas e os olhos entregues ao brilho negro no céu, elas passaram várias horas sem dizer palavras. Respirando a beleza de cada instante. Pequena aninhou-se no ombro da outra e fechou os olhos, sentindo a carícia delicada dos dedos da querida nos cabelos. E os carinhos continuaram por horas, mesmo depois dela já estar dormindo.

“Colhi amoras e ameixas para nós. Bom dia, disse Lua Cheia, tocando os lábios na boca da outra.

Sob a luz de Aurora - Runaway