sexta-feira, 16 de junho de 2017

Amar-ra-te


Não conta pra ninguém,
Que está além
d´alheia compreensão
É um tesão 
no coração
nas mãos
nos olhos fechados
Um carinho 
no cantinho
do ser desejado
Uma loucura
Sem cura
Que faz um bem
danado
Ouvir-te aqui
dentro de mim
Cultivando ares
e mares de prazer
Em compartilhar
Aquecer
participar
de ti
Em mim
Assim
Bailante
e
Sensual
Uau
Quero mais
Ardor
Ofegante

E cuidado
pra que não faça mal
Faça amor...

Dançando Amárrame - Mon Laferte


terça-feira, 30 de maio de 2017

Próximos Espirais


Porta de vai-e-vem
Ciclos de evapora-e-chove
Cai-e-sobe, dói-e-cura
Ama-e-acalma
Começa-e-acaba
Acaba-e-tenta-de-novo

O verde na janela, salpicado de flores rosas tropicais
Com gatos passando por pontes suspensas
Entre cajueiros labirínticos e telhados engenbrados
A fraca luz de fim de tarde, quinze-horas-e-vinte-dois, 
vidros coloridos e lâmpada sem graça 
e pilhas de livros e garrafinha d´água

O riscado violoncelo entre sons mais agudos atormentados
Cavando uma beleza triste e preenchedora de vazios
As unhas azuis carcomidas e o amuleto verde florido no pulso fino

Cenários componentes desses estados de vida meio dormentes
Uma saudade revigorada, saída de uma caverna esquecida
Pouco mais de uma semana desde o fim do degelo
desse sentimento crônico que nos aproxima
Essa serpente caótica e sedutora que nos envenena
E cura e alucina e jura
que nunca mais e logo em seguida
Estamos nós, aqui, recaídos
Possuídos por nós

É bonito, é doce, uns toques azedos, outros doloridos
Mas é gostoso, vale muito, ainda valoriza e cresce
Agradece e pede cada noite outra vez que perdoe e cesse
as mágoas chovidas, absorva a terra para nova vida

E reflete, balança, calma: não se deixe excessiva
Cuide para que seja digno, saudável, colorido
Na medida, atenta e sensitiva 
a todo indício e todo aviso, para que continuem
os ciclos, as espirais, nunca repetidas, mas
acrescidas, inspiradas, sensuais
Prazerosas e curiosas e seguras
e aventurosas e doçuras
Para nós

Film Credits - Oláfur Arnalds

sexta-feira, 21 de abril de 2017

7 memórias e 1 ficsonho

7 - Cuidado com o que você deseja, pode acontecer. Um dia sonhei/pedi/desejei viajar muito, muito. Resultado, passei quatro anos viajando quase todo mês, conheci quase todos os estados do Brasil e um país da América Latina mais de uma vez, a maioria delas sem gastar quase nada, muitas motivadas por trabalhos inspiradores, outras em busca de amores, outras atrás de sonhos.
3 - Minha última crise existencial (braba. as de leves rolam ao menos uma vez por mês) foi em 2015, prostrada na cama, sem querer me mexer para ir fazer o que "devia", mas já não acreditava. Naquele período decidi encerrar a vida que vivera até ali, o projeto de vida que tinha escolhido e buscado, fechar esse ciclo e começar tudo de novo.
4 - Passei 1 semana (que durou um mês) numa casa construída com materiais naturais e de baixo impacto ambiental (barro, bambu, madeira das proximidades, reciclagem de entulho, cerâmica quebrada reaproveitada, janelas de vidro de caminhão, garrafas de vidro, etc), em que toda a água cinza (de cozinha, pia de banheiro, xixi) era tratada de forma ecológica, todos os resíduos orgânicos (restos de cozinha, coco) eram tratados de forma ecológica, muita comida era produzida em horta e agrofloresta, tinha teto verde, tinha painel solar, tinha fogão a lenha, tinha tapioca deliciosa, tinha amor, tinha uma nova geração sendo cultivada, tinha livros inspiradores, tinha tudo que eu descobri que era o que eu queria pra minha vida (e ainda tem, tá lá em Minas, cada dia mais lindo!). Depois daquela viagem minha vida deu uma cambalhota e mudou de rumo.
2 - Vivi duas vezes a experiência mais intensa de conexão da família humana, de cooperação para o bem-viver de todas as seres, liberdade dos corpos nus seja no rio, na lagoa, no chuveiro, na vida, alimentos deliciosos e frutos do cuidado com a terra, descoberta de si, laços de partilha e gratidão entre todas. A família Arco-Íris (aquela dedicada a transformar o mundo e fazê-lo um lugar bonito e livre para todas) existe e se encontra.
5 - Ajudei a construir duas casas de barro. Levantamos as paredes delas em duas semanas, enquanto aprendíamos tanto sobre a vida, as coisas essenciais para viver com alegria e harmonia.
3 - Já me permiti expandir as portas da percepção, da consciência, do autoconhecimento, da conexão com o universo, com o movimento da vida, experimentando o que a Mágica de Tudo pode nos proporcionar, às vezes de forma tão simples, às vezes por caminhos mais dedicados e perseverantes.
6 - Já cai da cadeira pelo absurdo prazer de uma comida preparada com amor e carinho e já dancei até perder as forças e me jogar na água e lá ficar por horas
8 – Vivo numa comunidade utópica liberta da propriedade privada, das relações de poder e exploração entre gêneros, raças, espécies, em que o cuidado do Planeta, das pessoas e a partilha de tudo são os princípios que regem; e a criatividade, a transformação, o afeto, a incompletude do ser, a curiosidade e o tesão movem nossas vidas.
1 – Já morri de amor. E renasci várias vezes.

K


Afetos são, por ventura, como plantas pioneiras
Não há quem lhes arranquem do chão
Elas teimam em retornar, se espalhar, reflorescer 
cada cantinho que for deixado de lado
será lentamente brotado
pelas primeiras jardineiras
que transformam a terra do ser
em trópicas intrépidas florestas

É´limentar


As cigarras recitam poesias
Cachorras bailam pelo alpendre
Cresce em mim uma simples alegria
Sabor de castanhas batidas maçãs e ameixas

Hoje acordei para alimentar a Vida
Uma singela missão que me faz sentir
Que há bons caminhos para plantar
e carinhos de sol para ouvir

Enquanto a escuridão nos dá conselhos
e a lagoa lava nossas margens
observo o movimento incessante
das possibilidades manifestas magicamente
mesmo que lugares em nós ardam
e lembranças e sonhos se espalhem

terça-feira, 28 de março de 2017

Temamor


Nos temos amor
numa particular forma
que envolve cultivar
saudade com um pouco de óleo
sobre chama azul e esperar
estourar uma vontade de conversar
e conviver temperados
com curry ou orégano ou até mesmo
tomilho ou mostarda os minutos
partilhados em horas de filmes marinhos
lagoas dançadas poesias em peles
sonos caminhados esperas abraçadas
shows sobre a grama motos gargalhadas
e carteiros e cartas

Tenho-lhe amor
numa particular medida
que implica absorver-lhe os dedos dos pés
e os pelos da nuca numa forma de arte só 
minha de contemplação da beleza das formas
diminutas das alegrias que me causam tua 
presença ainda que medida no ponto
suficiente para a receita dos afetos e gostos
não transbordar a forma que lhe cabe
e queimar no fundo escuro de cinzas
do coração usado achado na feira de usados
da avenida 8 desta cidade que habita em meus
matos molhados pelas épocas de chuva

00h49
28/03/17
Insônias campilhadas

Poeiras


O empoeirado abajur vermelho
das noites vermelhas de 
inferninhos e suor e gozo
já não serve mais para nada

A caixinha vermelha carcomida com desbotados cinzas 
vazia de camisinhas com teias de cabelos caídos
e recortes de frases a ocupar-lhe o espaço vazio
já não serve mais para nada

O sentimento de aperto no peito e taquicardia
e ansiedade e desejo e ânimo
de escutar todas as ladainhas
do dia dela e cozinhar-lhe doçuras e
fazer-lhe dormir com carícias entre as 
sobrancelhas
já não serve mais para nada

As histórias vividas para ter o que contar
a ela nos intervalos dos gestos da cachoeira
gelada no raiar do dia e da caverna onde
cabe um prédio de sete andares e dos nasceres do sol
madrugados da insônia causada pelas loucuras
do peito
já não servem mais para nada

Até mesmo toda a decoração das paredes
escolhida para expor como enfeites fragmentos
e retalhos puídos dos detalhes da minha idiossincrasia
cozida em banho maria com raspas de chocolate de cobertura
amarga com traços de leite e manteiga de cacau
já não serve mais para nada

Porque ela já não liga não responde 
visualiza demonstra interesse busca por conta própria
convida para uma peça de atriz ou companhia que marcou-lhe
a vida não sente nada ante qualquer referência ao vivido que lhe
passa a vista nem mesmo demonstra ter vivido aquelas infinitudes
com este que já não serve mais para nada

00h25
28/03/17
Inspirado nos poemas de Matilde Campilho lidos com um falsete sotaque mais lindo que ela tem

Com-pós-estar

A dor é tomada por fungos 
E infinitos outros microorganismos
Que dissolvem cada partícula sofrida
Em menores partes de matéria viva
Que aos poucos se desmancha em terra
E transforma os fins em começos
Faz dos restos o melhor berço
Para sementes brotarem um novo

O pesar e sofrer regeneram
Um ciclo natural de mudanças
O perdão reúne nutrientes
Que entre a tristeza dançam

Ao deitar nesse chão há abraços
Que despertam o nascer d´outros laços
As flores sempre dão nesse campo
Pois há vontade demais de fazer
Das sementes belezas de encontro
E do passado outras formas de ser

21 de fevereiro, 23h22

Faz Iscas


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Uma História Libertinha - Parte 2



I
Sua boca estava úmida pelo frio da manhã. Passou a língua pelos lábios. Uma vez lhe contaram que as gotas de orvalho são partículas de lembranças que, saturadas no ar, se liquefazem sob a temperatura suave da alvorada. Fechou os olhos para sentir o que acabara de sorver. Lembrou-se de um dia no topo de um morro de onde se via o horizonte ao longe, da caminhada solitária, dos cheiros de mato e dos gostos de sementes e frutas secas que levara para comer. Gostou das imagens sentidas e imaginou - preciso fazer isso... Estamos todas ligadas de um jeito ou de outro. Em que medida aquilo que eu imagino é fruto da minha invenção ou simplesmente uma vivência de outra pessoa transbordada e espalhada no ar que de alguma forma chegou a mim? O que criamos sozinhas? Será que fazemos algo sozinhas? Ou tudo vivemos acompanhadas de todas as pessoas que viveram caminhos próximos, afins, todas que querem viver tais direções, todas que passaram por direções diferentes ou transversais? E então recordou a noite anterior – exalando essa lembrança no ar, o encontro, as graças partilhadas, o riso, o toque, a sensação de proximidade e mesmo conexão, os aprendizados. Alguém um dia lembrará isso? Sorriu.

II
Passou algum tempo ainda espreguiçando-se no seu colchão de tecido natural. Sua cama era macia, recheada de muitas folhas e flores secas, que exalavam um calmante perfume sobre uma esteira de palha no chão do quarto limpo e amplo e vazio. Além da cama, tinha apenas uma mesa e uma cadeira de madeira muito bem trabalhadas, uma pequena prateleira com livros, cadernos e um copo no qual haviam lápis e pincéis ao lado de um vidro de tinta, um pequeno baú de madeira entalhada, no qual desenhava-se a imagem de árvores, um lago e pessoas alegres e duas pinturas em aquarela na parede à esquerda da cama. Por fim reuniu forças para levantar-se. Fez um rápido alongamento, despertando as articulações e músculos. Então tirou do baú uma esteira, sentou-se nela com as pernas cruzadas e por cinco minutos ficou em silêncio, de olhos fechados, concentrando-se apenas na respiração. Levantou-se. Pela janela podia ver o jardim comestível ao lado da Casa Comunal, no qual via algumas pessoas já trabalhando, coletando serrapilheira do bosque mais próximo para renovar a cobertura de solo dos canteiros do jardim. De seu quarto, no primeiro andar, podia apreciar as belas formas desenhadas pelos canteiros, círculos, espirais, mandalas, ondas, todas repletas de cenouras, couves, girassóis, hortelãs, abóboras, abobrinhas, berinjelas e uma infinidade de hortaliças, medicinais e aromáticas mais. Os delicados e variados cheiros chegavam-lhe intensamente, pois o calor da manhã trazia os odores para cima. Desceu as escadas, atravessando o longo corredor cheio de outros quartos, algumas portas abertas, outras fechadas. Em uma havia um Kusudama, origami feito de encaixes de várias partes, neste caso, formando uma multicolorida bola com um sininho pendurado em baixo. Era gostoso acompanhar com as mãos a forma irregular do corrimão, um belo galho de goiabeira retorcido na forma exata da escada espiral.

III
Duas pessoas cortavam frutas, fazendo saladas e sucos. Abraçou-as e beijou-as em comprimento de bom dia e pensou no que fazer. Resolveu-se por uma fornada de biscoitos de aveia com passas e chia. Sentiu o cheiro de pão subir do forno - que delícia, sentiu. Em trinta minutos tudo estava pronto. Sentaram-se todas na mesa de madeira, três àquela hora da manhã, e começaram a se servir. Havia também geleia de banana com maçã e canela, patê de berinjela e azeite para passar no pão quentinho.

"Como foi o dia de vocês ontem? Que fizeram? Estão aproveitando o festival? Perguntou Pequena Mar.

"Sim, sim. Estou participando na organização da grande tenda de circo aéreo, então passo o dia lá auxiliando e cuidando de tudo, disse Nuvem Alta. Esse ano está muito bonito, não é? Muita gente! Acho que está sendo o maior festival que já tivemos. Muitas e muitas barracas acampadas pra lá do campo de girassóis. Conheci umas queridas de Altos Aires, elas me contaram as coisas que tem rolado por lá... Elas estão inventando uma nova linguagem de símbolos recombinantes - cada frase dá para ser entendida pelo menos de dez jeitos diferentes por qualquer pessoa, mesmo quem está vendouvindo pela primeira vez essa linguagem... A compreensão de qual o sentido exato que se quer expressar depende muito do jeito de olhar, de gestos e da energia no momento. Logo, a linguagem escrita serve mais para poesia do que para registros, porque oferece uma infinitude de possibilidades interpretantes, imaginantes e transcendentes.

"Que lindo, respondeu Pequena Mar.

"Vou propor no conselho dessa semana escrevermos uma frase bonita nessa linguagem na entrada aqui da Casa Comunal, continuou. "A frase diz, entre outras coisas, esse é o sentido que eu mais gosto, vem com calma vem intensa no brilho da terra que aqui se cultiva.

"Pois me avise que eu quero te ajudar!

"Pode deixar!

"Ai, já eu esse ano estou em clima de outros ares... estou aproveitando que quase todas estão concentradas no festival para conseguir me isolar mais e produzir... estou trabalhando no bosque, construindo uma casita na árvore. Será um belo mirante, biblioteca, cantinho de encontros, refúgio. Mexer com madeira, ferramentas, medir tudo nos tamanhos exatos para se encaixarem perfeitamente, reciprocamente, usar o mínimo para fazer o máximo, não há nada melhor para mim, disse Lua Cheia.

“Que lindo. Também quero te ajudar! Posso te acompanhar hoje? Interessou-se Mar.

“Claro! Será um prazer ter sua companhia.

“Hmm, como está incrível este pão! Hmmm! disse Nuvem Alta. A geleia se desmanchava no pão que Nuvem segurava, enquanto ela, de olhos fechados, gemia de contentamento.

“Nunca me canso de ouvir teus gemidos. Você é a melhor pessoa para se estar quando se come. Tudo fica duplamente mais gostoso, tanto você saboreia e mergulha cada comida, comentou Pequena Mar.

IV
Assim que acabaram de comer, Mar e Lua prepararam uma sacola com frutas, suco e um pouco de torta salgada que havia guardada para almoçarem mais tarde. Antes de seguir para as brincadeiras do dia, precisavam contribuir com o cuidado da horta ao lado da Casa. Pequena Árvore estava orientando o manejo agroecológico naquele momento e solicitou que elas fizessem uma poda regenerativa das plantas, retirando as folhas secas e levando-as para a composteira e colocando apoios nas ervas que cresceram mais do que conseguiam sustentar. Aguaram cada planta conforme sua sede. A Mar era especial o jeito como a água era absorvida pela terra úmida, animando-a. O som produzia era diminuto, mas lembrava-lhe o estourar de minúsculas gotas. Observou a movimentação dos insetos, a vivacidade do solo, uma minhoca aparecendo aqui e ali, aproveitando-se da sombra e refrescância da terra molhada. Colheram algumas berinjelas já graúdas e brilhosas, cortaram as folhas de couve mais desenvolvidas, alguns couve-flor enormes e suculentos e foram acomodando tudo no carrinho. Após três viagens do carrinho à grande e fresquinha dispensa, deram seu trabalho ali por encerrado. Mas Mar e Lua aproveitaram mais alguns minutos no grande cômodo, que tinha uma temperatura bem menor do que do lado de fora, pois suas paredes de barro e muito material isolante térmico e um sistema de resfriamento natural usando evaporação de água em alguns tanques junto à partes mais finas da parede garantiam o efeito, além, claro, da posição escolhida na casa, no lado sul, onde praticamente não recebia sol direto em nenhuma época do ano.

V
Seguiram por uma das inúmeras trilhas que saíam da Casa Comunal, esta dirigindo-se para a lagoa mais próxima.

“Que delícia! Esta água está perfeita, bem friinha, pra refrescar e animar o corpo! Comentou Lua.

“Às vezes eu passo tardes inteiras aqui, boiando e vendo o sol lentamente mudar do azul pro alaranjado e pro negro estrelado.

Ainda molhadas caminharam pro bosque. Lá, já secas pelo calor do exercício, Lua Cheia explicou a Mar o que já tinha feito e o planejava fazer naquele dia. A base da casa já estava pronta, precisavam agora estruturar as vigas do teto. Cortaram as madeiras com cuidado, cortadas dias antes no bosque reflorestado, área preparada especialmente para colheita para construções. Posicionaram-nas e as encaixaram de forma que cada uma sustentava o peso da outra, em estrutura recíproca. Fizeram alguns nós com cipó encerado para garantir e começaram a colocar a cobertura de palha seca que também já estava preparada ao lado. A casa se erguia entre duas enormes e orgulhosas árvores centenárias, uma jaqueira e uma mangueira.

“Essa casa será meu novo cantinho preferido, disse Mar.

“Acho que já trabalhamos o suficiente por hoje, disse Pequena, quando o sol começou a se pôr. O que acha de caminharmos até o riachinho do bosque? Podíamos dormir lá.

“Adorei a ideia.

VI
Pegaram a trilha que seguia pela floresta, bem sinalizada com laços coloridos que indicavam os vários lugares sagrados da mata, o riachinho, o altar das ancestrais, a clareira dos conselhos de visões, os caminhos suspensos de arvorismo, o vale dos cogumelos mágicos, a tenda da lua, entre tantos outros. O riachinho era ladeado por grandes rochas, onde elas podiam deitar-se para observar o sol se pôr e lentamente dar lugar às infinitas estrelas. Com os pés sentindo o fluxo das águas e os olhos entregues ao brilho negro no céu, elas passaram várias horas sem dizer palavras. Respirando a beleza de cada instante. Pequena aninhou-se no ombro da outra e fechou os olhos, sentindo a carícia delicada dos dedos da querida nos cabelos. E os carinhos continuaram por horas, mesmo depois dela já estar dormindo.

“Colhi amoras e ameixas para nós. Bom dia, disse Lua Cheia, tocando os lábios na boca da outra.

Sob a luz de Aurora - Runaway

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Carambolas




- Que surpresa, disse, aproximando-se dela. Saíra uma hora antes de casa para circular um pouco o sangue em sua bici recém inaugurada, após um lento e longo processo de reforma caseira, pinturas esquisitas, avivamento de personalidades. Houve um tempo em que tomar açaí era uma rotina em sua vida, frequentemente degustava-o misturado com limão ou laranja ou morango, coberto de coco seco inacreditavelmente fresco, num triângulo de verde próximo à universidade. Foram tantas conversas, olhares, encontros debaixo daquele enorme belo cajueiro que resguardava todas as mesas sob o céu negro. Antes disso, seu lugar preferido era um cantinho imprensado entre uma loja de bicicletas e um posto de gasolina onde havia uma granola especial, uma estranha mistura de cereais que em nada lembrava a convencional. Não se recordava a última vez que tomara açaí. Dois dias antes plantaram em sua cabeça a ideia, a sugestão gustativa. Sentada no chão da varanda espaçosa azul mágica na qual passara uma madrugada impressionante, salpicada de visões ultracoloridas por baixo das pálpebras, viagens em tobogãs emocionais pelos buracos da memória, recordando e reavaliando inúmeros episódios de sua vida, reescrevendo seus sentimentos em relação a eles, reestabelecendo referências de si, suas forças e capacidades. Em que momentos de sua vida se sentira forte? Já se sentira forte? Houve um tempo em que absurdamente tinha a convicção de que tudo que queria, que buscava, aconteceria. Como um alvo para onde apontava sua flecha centauriana, derradeira, determinada. Após inúmeras escaladas e quedas, diversos desfiladeiros bloqueados por desmoronamentos, uma substancial quantidade de ferimentos de difícil cicatrização, sentiu as forças lhe abandonarem em grande medida, apoderando-se dela uma fraqueza ou uma sensação de intensa fragilidade, mãos trêmulas e atitude oscilante diante das exigências de seus caminhos, ora insistente, ora desistente. Inúmeras vezes essa vontade de não levantar da cama, de que ali era o melhor que poderia viver, aquele prazer estrambólico dominando cada centímetro de seu corpo, o mais próximo de um orgasmo que conseguia vivenciar nos últimos meses.
.........“Preciso amar de menos, de menos a mim e mais atento”, cantava em seus ouvidos a música que escutava no instante do encontro, quando tirou os fones para abraçá-la. Estranhamente ela havia resolvido encerrar a longa distância entre ela e o açaí naquele instante, justo um dia em que tinha vinte reais no bolso do chorte, pois saíra de casa com planos de comprar um bonito pão redondo macio e vegano no supermercado próximo de casa, ideia esta que já havia abandonado, afinal tinha muita goma de tapioca na geladeira que estragaria se não se forçasse a consumi-la. Acontece que a preguiça é uma de suas verdadeiras amigas. Juntamente com a insônia, a hiperatividade, por mais contraditório que às vezes isso pareça, e... a gula formigueira. E comer pão é sempre mais fácil do que preparar uma tapioca, arriscar-se sujar o fogão daquele pó branco, esperar alguns minutos até ela ficar pronta... Há tempos mais e menos preguiçosos. Passou bons meses no primeiro semestre daquele ano fazendo pão caseiro todas as semanas. Até que desandou, perdeu o pique e até hoje repete um certo tique nervoso que criou na época “preciso fazer pão essa semana”, mas até agora nada. Mas vai conseguir!
.........O abraço não termina. Aquela menina era-lhe muito especial. Sentia o corpo dela junto ao seu, o calor dela como que comunicando-lhe. Beijou-lhe o pescoço e os ombros algumas vezes. Em alguns momentos apertou-se o abraço, depois afrouxou, mas manteve-se. Ouviu certa vez que nunca deve ser você a pessoa a dar o “sinal” de que o abraço devia terminar. Aquele espasmo dos músculos que indica o afastamento dos corpos. Recentemente compartilhara com ela um vídeo que mostrava a importância e o bem que faziam os abraços demorados, calmantes, relaxantes, desestressantes. Gosta até de já iniciar a conversa ali no abraço – Como você está? Que delícia te encontrar aqui. – Tô melhor agora que te encontrei. Havia algumas semanas que elas não se viam. Ela sempre se balançava nessa corda bamba do benefício (?) da dúvida de que a outra pessoa pode estar muito ocupada com diversas coisas, passando por situações que lhe impedem marcar algo ou mesmo responder, absorta ou introspectiva, talvez. Procurava a pessoa, puxava assunto, tentava se aproximar até sentir que precisava deixar, se concentrar na própria vida e deixar que a outra pessoa retorne, quando e se quiser. Se retornar. Ora diz pra si mesma “ela foi embora, nunca mais vai voltar, não vamos mais nos falar, acostume-se com isso”. Mas sempre que encontra Luisa é muito bonito, é um encontro sincero. Nem parece que mal se falaram em tantos dias. Não importa. Há como um fio de lã élfica de tons verde azulado metálico brilhante qualquer ligando-as. É misteriosa e incompreensível aquela conexão, ainda que fugidia e espaçada. 
.........- Engraçado, eu estava em casa, deitada lendo textos atrasados da facu quando uma vontade súbita me fez caminhar até aqui pra tomar um açaí. Mas na verdade era pra te encontrar, ela disse, rindo com os olhos apertados e com o balançar de seus cabelos curtos de pontas alegres. – É bom encontrar quando a gente marca, mas é ainda melhor encontrar porque a vida quis, respondi. Sentaram, ela encostada na parede, Luisa logo ao lado. – Vamos dividir um grande? Pediram um batido com limão e coberto de salada de frutas. Tudo partilhado é mais gostoso. E enquanto suas colheres se encontravam no mar roxo salpicado de peixinhos de aveia, castanha, coco e passas torrados e açucarados, seus olhos se demoravam. – Esses dias estava lembrando de você ouvindo uma música, diz Luisa. Falava sobre saudade, memórias, dançar e ver o sol nascer. E me transportei e passeei pelos tantos sois que já vimos nascer. Quase sempre que a gente se encontra a gente fica até o sol nascer, né? Acho que nunca tinha visto tanto sol nascer até te conhecer. Aquele último na praia, deitadas olhando o céu mudar de cor aos pouquinhos... nossa... precisamos fazer isso de novo. – Vamos! Hoje! Que tal? Ela ri – Nossa, calma. Vamos aos pouquinhos. Hoje pela manhã estava arrumando meu quarto. Organizei todos os livros de novo, tirei tudo do lugar, pus em cima da cama e coloquei eles na estante conforme a cor. Fui montando uns degradês e umas misturas doidas, umas manchas de cores iguais e outras confusões coloridas. – Sério? Lembrou-se da primeira vez em que encontrou no quarto dela. As paredes lilás, a estante de livros sobre a mesa de estudos, o painel com fotos, desenhos e adesivos ao lado da porta, com um desenho bonito de polvo feito por sua irmã, o imenso bicho de pelúcia próximo da cama, ao lado do armário, os livros de cabeceira, uma pilha de quatro a cinco livros, não se recordava quais. Naquele dia ela dançou bambolê para ela, rebolando de forma tão deliciosa, enquanto olhava-a nos olhos de forma segura, sossegada, querendo mostrar-lhe suas brincadeiras. Mostrou-lhe uma música bonita em francês de um filme estranho, que muito lhe marcara, aquele momento da vida em que se está ao lado de alguém que já não importa. Ela ouvira tantas vezes já a música que aprendera a cantar. Na época estudava francês. - Sem nenhuma relação lógica entre eles? Ela comentou – Claro que tem! Luisa replicou. - A beleza das cores que eu encontrei, oras! Quer mais lógica do que isso? – Bem, fez uma cara de estranhamento, meus livros estão organizados por tema mesmo, história, educação, literatura, poesia, arte, romance em quadrinho. Mas pra variar boto eles em pé, deitados, de uns jeitos diferentes, amarro umas fitas, decoro com umas lembranças, uns imãs de geladeira, umas fotos. Já na primeira vez que Luisa entrara na casa dela, demorara-se um bom tempo observando a estande metálica azul celeste de seis prateleiras apinhadas de livros, passeando por aquela demonstração de compulsão livresca. Recentemente, cansada de todos os livros que tinha, se sentindo desconectada da maioria deles, tratando de assuntos que já não lhe interessavam, apesar de participar de sua história pessoal, ela voltou a frequentar a biblioteca da universidade. Prédio grande, de vários andares, alguns muito frios, outros muito quentes, com uns dois ou três corredores de literatura. Já estava na sua terceira rodada de pegar três livros, limite que uma estudante podia pegar, de literatura, a maioria brasileira, em busca de algo com o que se identificasse, que conseguisse ler por horas a fio, que lhe inspirasse, mexesse com ela, encontrasse respostas ou ao menos consolos e colos. Nos primeiros anos da universidade aquele foi um lugar muito especial, como em geral bibliotecas lhe eram especiais. Foi ali que descobriu, magicamente, fuçando a sessão de Teatro, o Teatro do Oprimido. Nunca ouvira falar. Devorou o livro, procurou mais, tornou-se autodidata e passou a dar oficinas baseando-se apenas em seu estudo particular e suas experiências com teatro da escola e outras oficinas que fizera. – Ei! Deixa eu ler uma coisa pra você! Sua cara! No seu ouvido! Disse Luisa, aproximando-se dela, abrindo no celular um texto. – O Intento da Árvore, é o nome da poesia.

Humano não estou
Parado você que é
Muito apressado

Desatento
Autocentrado
Em sua vida tão curta
Você passa eu acho graça
De uma tão frágil carcaça
Que mal guarda em si o seu tempo

Por onde passo, eu fico
Minhas raízes eu finco
Meu corpo é meu

Movimento.

E beijou-lhe perto da orelha. Ela se arrepiou. Quando adolescente conhecera uma menina que sempre que lhe encontrava, dava-lhe um abraço e lhe acertava com um beijo no pescoço que todas as vezes, sem errar uma, arrepiava-lhe. Talvez fora isso que a fizera se apaixonar, tão ligeira paixão, logo foi abandonada pela garota que nunca mais lhe respondeu. – Que bonito! Comentou. Poesias e plantas, místicas. Ela ficara conhecida como a menina da mística durante uma viagem mágica que fizera alguns meses antes pro Encontro Nacional de Comunidades Alternativas, no Ceará. A mística, nesse caso, é uma poética, uma inspiração, uma intenção positiva dedicada e compartilhada em um determinado momento. Conhecera essa ideia e prática de mística com o Movimento das Trabalhadoras Rurais Sem Terra, uma característica marcante deles. No início daquele ano, em suas rodas de estudos colaborativos sobre permacultura que fazia no museu próximo de sua casa, uma amiga relembrou-lhe a beleza deste gesto que retomou, vibrante. Na viagem, no ônibus, queria sempre declamar uma poesia, marcar cada instante com uma beleza, uma miração. – Essa poesia me lembrou demais tu, você que é uma árvore velha e apressada, balançando louca com o vento dos próprios sentimentos. Ela sorriu, ruborizando e desviando o olhar, focando-o num quadro grande de uma indígena com uma pintura vermelha no rosto, como uma faixa passando pelos olhos. Voltou a olhá-la. Tão bonita, aquele rosto meigo, mas que transparecia uma força de si, uma áurea de soberania. Era-lhe difícil contemplá-la sem derreter um pouco. Segurou-lhe a mão. O açaí se via ignorado, pois a companhia era mais saborosa. – Ei! Sabe o que eu queria? Ficar me balançando numa rede ouvindo os pássaros. Queres ir lá pra casa? – Claro! Amo/sou redes. Terminaram o açaí e foram caminhando pra casa de Luisa, que ficava há poucos quarteirões dali, de frente pra uma praça bem arborizada. – E sabe o que eu queria? Ler pra ti. Uma das coisas que mais gostava numa época da vida era ler junto, poder fechar os olhos e só viajar num livro que uma pessoa amada lia pra ela e poder fazer o mesmo, ler com toda a empolgação do mundo para que a pessoa se transportasse para outros universos na sua voz, nos ritmos e emoções impregnadas na forma de ler. - Estou com um livro que estou gostando demais, disse ela. - Posso começar ele de novo. Podemos ler juntas. Será que conseguimos ler ele inteiro? – Claro que sim! Animou-se Luisa. – Leia pra mim! Vou adorar ouvir sua voz bonita e deitar-me nela. Chegaram na casa, sala espaçosa com uma rede estendida próxima da janela grande de frente pra praça, com um pé de carambola sombreando-a, essa árvore de sua infância, da casa de sua avó, dos sucos mais doces e gostosos do universo, fruta tão especial pra ela ainda hoje. Deitaram-se, Luisa apoiando sua cabeça no ombro dela. Ela abriu o livro azul na primeira página e começou - “Mas é isto: não há outra vida sobre esta vida, apesar das teses do Doutor Lineu. Não podemos passar o tempo a limpo, feito caderno escolar. Cada segundo tem uma essência irremediável, uma definitiva frieza, uma mecânica sem nervos. Abro a porta e a porta está aberta, para sempre. Posso fechá-la, das as costas, fingir que não vi – mas o diabo é que eu abri a porta e o fato eternizou-se. A quem é dado o controle do imponderável? Quando não temos recursos, que recurso temos? O passado estava morto, a vida sempre começa hoje. Mas o espírito de porco conspirava contra ele: nada começa hoje, nem quando nascemos. Esqueça a ideia de recomeço: não existe. Eu sou eu e mais esse comboio desconjuntado de tralhas mentais que arrasto comigo, e, de repente satisfeito com o seu duro destino, imaginou-se dizendo isso em gestos largos como quem recita um poema espontâneo, dos populares”.

Inspirada pela forma de escrever de Cristovão Tezza. A poesia citada é de Dimitri BR e a citação final de Cristovão Tezza, dos livros Aventura Provisória e Erro Emocional.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Erro



Infinitas frases, reflexões, versos, perdem-se dentro de mim, escritos oralmente, mentalmente, ditos em voz alta, andando na rua, nalgum lugar escuro, perdida-mente. Não tenho forças nem tempo ou irresponsabilidade o suficiente para escrever tudo que gostaria, que precisaria, que eventualmente ou tempestuosamente nasceu e se fez rogar ou gritar em mim.

Mas algumas necessidades verbais sobrepõem-se às outras. Passam por cima das catracas, pulam as cercas, atropelam as outras, empurrando ombros, gritam, rasgam barreiras, se chocam contra tudo que as impede, conflitam até se fazerem inteiras, jogadas em seus destinos, escritas, finalmente expostas e despidas, dilacerando tudo que lhes alcança.

Lembro que sonhei certa vez, sob a atmosfera desse rangido gemido de auroras frusciantes, poder derramar-lhe amor cheiro de capim-santo, grama-limão, e delicadamente dedilhar-lhe as notas da pele, vibrando emoções sonoras e táteis, dedicando-lhe toda atenção que minha Vida pudesse, imaginando-me, senão mesmo fazendo-me inteiramente em ti, ali, calor, amor, sabor, olor.

Mas ao invés, viestes acompanhada, apartada, aleatória, me doeu, me abandonei, quis abandonar-te, ir-me embora.

Dentre os meus inúmeros defeitos, está minha grande dificuldade de abandonar. Abandonar tudo que quero, tudo que sonho, tudo que sinto, tudo que sou, tudo/todas que amo, abandonar esse barco furado e a deriva, abandonar essas ilhas cercadas de corais, impossíveis de chegar, mas cuja paisagem e brisa e cheiro e mínimo aproximar impossibilitam, abandonar-me a angústia para poder dormir, abandonar a derrota pra poder seguir, abandonar os erros e o passado para poder ser aqui, mas os traumas pesam, as curas são demasiado leves e o vento desmancha, a cabeça grita, o sono tira sarro e tudo explode.

E novamente me sinto cometendo gestos que podem se tornar novas dores, novos pesares, novas âncoras.

Quis ir embora. Ir embora é como uma utopia. Um eufemismo para inúmeras possibilidades. Fuga. Reset. Qualquer outra coisa. Mas dificilmente consigo. Até ser expulsa. Quando já é tarde.

Talvez meu principal talento seja errar. Avaliando bem os últimos acontecimentos das décadas recentes, tenho tido resultados muito acima da média. Ou não, seja só uma impressão equivocada, outro erro.

Desistir. Morrer. Nem morrer eu sei. Nem desistir. Desisto, morro, mas ainda me sinto um respiro. Tento de novo, e me vejo ruborizada por algo ainda vivo. Me asfixio, desidrato em rios corpóreos afim de desconscientizar-me, mas ainda estou aqui.

A ponta da lança, jogando-me contra as pedras, despedaçando-me, perdendo-me em tanto que não me cabe, desesperando.

De ponta-cabeça, perdida.

Por quase toda minha vida experienciei o isolamento, o sentir-me sem ninguém para e com quem contar, confiar, em quem poder apoiar, cuidar e partilhar dignamente. Há uns anos pensei ter mudado esse caminho, estabelecido novas formas de relação, troca, apoio-mútuo. Sinto que o movimento se reverte, que nova onda de distanciamento se assoma, expande, empurrando tudo um pouco mais pra longe do já não tão próximo.

A montanha se aproxima, símbolo maior dessa solidão que me define (?) O lugar das mil cavernas, das caminhos labirínticos que não permite a ninguém desconhecida chegar, andando em voltas e forçosamente se perdendo e nunca chegando. O lugar das concentrações de forças para retornar e tomar o sonho de assalto. O lugar das pressões e calores estonteantes, dentro da qual o carbono se faz cristal, brilho, arte inestimável da natureza, e o coração se faz pedra, translúcida, valiosa, mas ainda assim vazia.

Não quero mais chegar em nada, desisti, me esforço para continuar desistindo. Auto-estima está mais para auto-estigma. Alma-diçoada, condenada a esse perambular tonta e tolamente. Trágica e tosca, torta e tolhida. Morro e só me resta morrer. Ainda que fingindo.