terça-feira, 15 de setembro de 2009

lembranças


Foi há quase cinco anos (ou cinco décadas) quando fui acometido pela primeira vez (oficialmente) pelo dito amor, sentimento errante que encontra cavernas cardíacas para passar, pendurado de cabeça para baixo, uma longa noite que pode durar horas, dias, meses ou alguns anos. Ficou aproximadamente um ano (até agora é a duração máxima). Nessa época não me sabia capaz de escrever meus próprios sentimentos e, para dar vazão aos enxames, cardumes, alcatéias e revoadas de emoções que precisavam se expressar, passei a nutrir-me de todos os poemas de amor que podia encontrar, ler e decorar. Sabia de có quase trinta poemas , que iam de Fernando Pessoa, Bocage, Gregório de Matos, Neruda, até o querido Vinícius... e lia tanto, tanto. Eram tardes e tardes engendradas na angústia poética. Na última noite em que nos vimos, uma sexta feira, quando te deixei e voltava para casa caminhando pela rua, tentei me lembrar de alguns. E recordei-me do primeiro que aprendi e que recitei em tantas noites de lua cheia, dando alguma voz ao interior. Lembrava de cada verso...


Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

foi o primeiro que aprendi...
Até que, nos últimos suspiros de existência desse sentimento alado, descobri que podia sangrar palavras só minhas e nunca mais decorei poema de ninguém...

3 comentários:

Fernandes disse...

"E do momento imóvel fez-se o drama"

...

Rodrigo Nazca disse...

"de repente, não mais que de repente..."

Rodrigo Nazca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.