domingo, 27 de setembro de 2009

Cravo


Desfia

Enquanto você está longe
Meu coração se desfaz
Lentamente desfia
Em uma bola de fios
O diabo a pega
Com sorriso malicioso
Nosso amor
Em uma bola de fios

Ele nunca devolverá

Então, quando você voltar
Teremos que fazer um novo amor...

Björk

(Unravel - Björk - uma música)



Sentada no (único) sofá, tece o agasalho para o frio. Os fios um dia foram cortados da pele branca animal. Aprendeu com a avó. É uma visão cômica-fofa ver aquela menina tão jovem e bonita cosendo, tricotando os fios alvos com uma agulha brilhante e seus dedos tão delicados. Dá vontade de levá-los aos lábios e orar, graciosos. Sentada sobre uma janela, a luz nublada de meio de tarde chuvoso a iluminava angelicalmente, com a claridade contornando seus detalhes, pulando por sua pele como crianças em festa que correm para o mar. A casa era nossa e em cada centímetro dela tínhamos boas lembranças. E olhá-la em sua paciência (que eu nunca teria), cuidadosamente colocando sua essência naquela lã que nos aqueceria era encantador. Eu dificilmente deixava-a concentrar-se, não resistia em aproximar-me, beijar suas mãos, seus braços, cotovelos, subir pelo pescoço, mordiscar os pelos da nuca, morder-lhe o lóbulo da orelha. Ela ria mas se irritava, me repelia (quase que lutando contra si mesma, disciplinada - gostava). Depois eu a deixava trabalhar, sentava-me no canto da parede oposta, sobre aquela almofada vermelha encardida que sustenta nossas cabeças quando assistimos nossos filmes queridos e ponho-me a ler ou escrever. De tempos em tempos ainda a interrompo com algum comentário ou querendo mostrar-lhe o que escrevi. Mostro-lhe tudo! Cada pensamento. Sou incontrolável, fato. (sorriso). Ela ama ou odeia? Bem, ainda estamos aqui, felizes - e emocionados. Dos poucos móveis que temos, o que mais gosto é um cravo antigo. Meu Deus, que achado! Derreti-me aprendendo a tocar, sempre fui maravilhado pelo som estridente e delicioso dessas cordas beliscadas. Levantei-me, sentei na confortável cadeira defronte ao instrumento e pincelei essa melodia na qual estou viciado. Vez por outra componho pequenas canções, mas minha predileta é esta canção islandesa. Quando não me satisfaço com minha humilde interpretação, coloco para tocar a versão original - e extasiante. Deito-me no chão. Vejo de soslaio o sorriso dela - por certo que não aguenta mais ouvir essa música. - Mas permite-me deleitar-me nos meus pequenos vícios. (Somos felizes sorrindo para as manias um do outro). Aproxima-se para medir o comprimento de meu braço, verifica se está adequado. Eu sempre preferi aquecer-me no corpo dela, mas ela gosta dessa pequena terapia artesanal. Eu simplesmente não teria paciência. Eu sou assim, instável demais, se começo a pincelar uma experiência qualquer na tela com cores diversas, deixo largado por semanas antes de voltar e fazer mais algumas tentativas. Somente a escrita me satisfaz, por ser ágil e expressiva o suficiente! Ah, esqueci-me da fotografia e dos pequenos curtas-metragem que adoro. Certo, complementam a escrita, sim, sim. São variantes visuais. Continuo deitado. Nosso teto é pintado de azul celeste, com manchas brancas brincando de ser nuvens - para as mentes mais imaginativas e ousadas! - E em preto e grafia fina, algumas frases transpassam esse céu - "o amor ensina a voar", "se você quiser alguém p´ra ser só seu, é só não se esquecer, eu estarei aqui", "fique a vontade, meu bem, sinta vontade de ficar"... e outras mais... acrescentávamos alguma de vez em quando, algo que nos marcava. Era bom deitar no chão e simplesmente olhar para aqueles traços garranchados (quando eu escrevia) e delicados (quando ela) escritos no teto. Minha fome insaciável pediu-me algo e fui buscar uvas doces e verdes na geladeira. Como podia não gostar de frutas? Trouxe-lhe um suco de tangerina (um de meus preferidos) com hortelã. Deixou o copo no pé do sofá, quase intocado. Eu acabaria tomando duas horas depois - ela se esqueceu dele - com uma pedrinha de gelo. Estávamos no fim do ano, de férias, aproveitando alguns dias para não fazer nada. Viajaríamos dali há duas semanas e por isso ela se empenhava naquela tarefa - era frio nosso destino. O Chile! Finalmente a casa do poeta me seria conhecida. Isla Negra, meu coração. À noite não dormiríamos, ela queria ir para uma festa, escuro eletrônico, guitarra e cabelos esvoaçantes! Eu preferia raves em fazendas distantes - quando se está exausto, dá para deitar na grama e ouvir o barulho das cigarras, acomodados um sobre o outro. Acordei tão tarde esse dia, depois dela. Tocava uma música tranquila, estilo experimental, instrumentos diversos harmoniosamente inspirados, dirigidos por uma voz cambaleante. Na nossa casa instalamos caixinhas de som no alto das paredes, em todos os cômodos e havia um sistema que permitia definir quais funcionavam ou não, para quando quiséssemos, a música pudesse alcançar todos os cômodos - ou não. Era um plano de adolescência. A vida era agitada e tranquila ao mesmo tempo. Mas estavamos de férias e eu só queria respirar e olhar para a luz que brilhava na pele morena dela.

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