terça-feira, 10 de novembro de 2009

trilhos de transe


Em pé, encostado na coluna de tijolos vermelhos que ostentava a placa da plataforma número nove, o rapaz observada hipnotizado a passagem dos trens, ligeiros, ininterruptos. Estava tão fora de si que o tempo parecia acelerado e cada pensamento seu abocanhava dezenas de minutos, como minhocas ávidas por húmus craniano, fresco e nutritivo. O monótono chegar, parar, partir dos vagões acontecia diante de seus olhos como um filme que está sendo adiantado, as linhas se tornando borrões, os rostos desfigurados, o espaço preenchido pelo risco das luzes arrastadas, como se o tempo que a luz demorasse para refletir nos objetos e chegar aos seus olhos fossem minutos inteiros. Tudo parecia uma fotografia tremida (em movimento). Estado de transe, curto-circuito, fogos de artifícil mentais. Sua mente entregara-se, não aguentava a exaustão diária de afazeres antropofágicos, compromissos alucinógenos, pendências cadavéricas. A sua mente, ou sua alma, ou a interseção denominada Eu sentia-se asfixiada, querendo sair da gaiola circunstancial, da jaula proposital em que se colocara e de onde drenava o ar, forma de esmorecer o cérebro e perder a consciência. Todo o amor que ele tinha (instinto de preservação - do que for) parecia agora alheio a qualquer sentido, o amor pela família esfacelava-se na simples cogitação de desaparecer e não dar notícia. Para mais ninguém o seu sumiço teria demasiada importância. O emprego certamente o consideraria um vagabundo e logo contrataria outro para substitui-lo naquele serviço maquinal, não se dando ao trabalho de telefonar em busca de informações. Os conhecidos não perceberiam a ausência daquele que normalmente era distante. Normalidade. Queria pegar qualquer trem, e mais outro, e mais outro. Apagar! Fechar os olhos por semanas, esquecer seu nome, seu passado, acordar como uma criança, vestido com um pijama semitransparente, dada a finura do tecido, e impecavelmente branco, maculado apenas no canto esquerdo, sobre o coração, pelo símbolo do hospital psiquiátrico ou retiro campestre para casos irrecuperáveis. Completamente louco e feliz, finalmente. O mundo explodiu - exploda! - e quem sabe depois pudesse aprender a explodi-lo mais um pouco, dedicar o oxigênio e gases poluentes que adentravam em seus pulmões, as reações matabólicas complexas liberando gás carbônico e compostos nitrogenados, as formigas elétricas que andavam pelo seu formigueiro nervoso levando informações e impulsos, dedicar tudo a um propósito razoável, destruir o que quer que o homem tenha construído. Uma escola? Que as crianças aprendam sobre as verdades da vida com a natureza à sombra de uma árvore centenária, e se estiver chovendo, o melhor aprendizado será abrir os braços e correr pela chuva ou deitar-se n´uma rede em baixo do mais rústico teto de palha que se imaginar (feito com o mínimo, pequenos presentes naturais) e refletir sobre o ciclo fantástico do elemento água, sua onipresença em todos os seres, na superfície de sua pele e no centro de seu coração, pensar sobre a influência das pressões atmosféricas para levar os ventos e a umidade, influenciando no clima, venerar sobre o equilíbrio natural - isso será aprendizado. Fábricas? Que sejam abolidos os enlatados e as máquinas de fazer fumaça, que os computadores se rendam frente às florestas tropicais, redes de informação infinitamente mais complexas e belas, ou aprendam com as formigas a serem perenes e sustentáveis, que a eletricidade volte para os céus de tempestade ionizadas e eletromagnéticas e, finalmente, que cada templo de religiões materialistas e construções políticas, câmaras, congressos e parlamentos sumam de uma vez por todas! Sejam consumidos pela ânsia de desconstruir todos os aparelhos de controle e alienação. Assim, as pessoas poderão encontrar Deus nelas e em todos, perdendo qualquer capacidade em fazer distinções segregadoras, terão a chance de aprender a se comunicar verdadeiramente, não expondo orgulhosamente seus pontos de vista cegos e surdos, mas desfrutando e expandindo as artes de ouvir e dialogar pacientemente, ternamente, amorosamente, podendo então lançarem laços de união inquebráveis uns aos outros. Destruições criadoras, criações e revoluções... Aquele jovem louco queria ser o anjo do apocalipse a varrer da pele adorável de sua mãe Gaia as impurezas, manchas, sujeiras humanas, orquestrando desastres e catástrofes que encerrarão o sofrimento com um golpe final. Queria ser um anjo, sim, e voar para longe de toda luz e matéria, lançar-se n´um buraco negro e desmaterializar cada sentimento coerente, livrando-se da razão que o consumia por dentro como larvas de moscas devorando sua carne e sua alma. Destruir-se para nascer, fugir para encontrar, parar para começar... ele e o nada, ninguém e tudo. Reviver os sete dias fantásticos da crianção do universo, desprender-se de si e voltar dissolvido essencialmente no alimento das plantas e da vida... Entrou em colapso, abandonado por suas pernas que o lançaram no chão da estação ferroviária municipal, desmaiado. Acudido por um segurança que o deitou no banco de madeira próximo à coluna, acordou quase uma hora depois, suado e com frio. Sua mente ainda queimava quando um único impulso o invadiu, levantar-se...caminhar sete passos, esbarrando em uma senhora de chale rosa, um homem de terno cinza, uma criança de macacão jeans... e então jogar-se na linha do trem.

2 comentários:

Samis disse...

gostei. mas então a história acaba?

=*

Rodrigo Nazca disse...

ainda não...