quinta-feira, 11 de março de 2010

Bons Ares


Pela manhã, dormia até às nove, dez horas. Raras vezes tinha um surto de fazendeiro, despertando com o nascer do sol, e, pior ainda, fazia-se de louco e levantava-se da cama quentinha, desfazia-se da coberta macia, desvencilhava-se do prazer provocado pelo ventilador, dirigia-se, decidido, até o armário, trocava-se, punha as sandálias, camiseta e shorte e ia à praia ver o espetáculo junto com os pássaros, também loucos. Seu principal companheiro naquela casa era um pássaro mudo. Jamais cantara uma só nota desde que fora aprisionado na espaçosa gaiola redonda, mais parecida com uma catedral em miniatura, faltando apenas os vitrais. Tudo o que o moço possuia era temperamental, inclusive seu pássaro, que, imitando a índole revoltosa do suposto dono, fez greve de silêncio, decidido em reaver sua liberdade. Sentia que a ave o entendia, conhecia suas fraquezas e o caminho para fazê-lo soltá-la. E veja que ele a capturara há apenas três dias, preocupara-se em fabricar aquele palácio de alumínio e em colocá-lo pendurado na janela com vista para o rio e o outro lado da cidade, com seus prédios altos e resquícios de mangue na margem, mas mesmo assim já se sentia o pior dos carrascos, dada a reação do pássaro ante a reclusão. O prendera por um impulso, instinto de caçador, talvez, ou até por inveja. Vira aquele animal nobre e altivo calmamente repousando no telhado, onde ele também estava, apreciando a paisagem do fim de tarde. Os olhos do rapaz se afinalaram como os de um gato e, armando-se de uma rede de pegar borboletas, aproveitou-se do instante em que o pássaro coçava os olhos com a asa esquerda, irritado por um cisco, para prendê-lo. Atordoado e ainda cego de um olho, não pôde resistir com grande perícia o ser alado, deixando-se levar, esperando para avaliar a situação quando tudo se acalmasse. Vendo-se aprisionado no recando de luxúria, ao qual era totalmente avesso, ele que era um andarilho das nuvens, decidiu tomar a ação mais drástica de todas, selar seu canto dentro de si e oprimir o opressor com o silêncio mortal. Conhecia bem as ambições humanas e sabia que aquele humano queria roubar-lhe o canto, obrigando-o a gastar sua voz majestosa para mero entretenimento daquele homem, mas não daria a ele este prazer. Na alvorada do terceiro dia, angustiado, o rapaz soltou a ave e contentou-se por ornamentar sua casa com aquela obra de arte que era a gaiola. A ave, satisfeita com a liberdade devolvida, porém comovida com o olhar melancólico e solitário do rapaz, arrancou cuidadosamente uma pena amarelo ouro da cauda e pôs no centro da gaiola, para preencher o vazio que ficara. Os olhos do moço ficaram vívidos e brilharam diante de tamanha nobreza. Estendeu a mão para a ave e comprimentou-a, apertando-lhe delicadamente as penas longas da ponta da asa direita, depois, viu partir a única companhia que tivera em três dias. Não importava. As manhãs costumavam ser empregadas para a leitura de livros, em média uma dezena por semana. Uma tarde na semana era dedicada à visitar sebos em busca novidades que suprissem sua enorme necessidade literária. Nos outros dias, caminhava pela rua, visitando cada dia um bairro diferente, uma rua desconhecia, um restaurante recém-aberto, alguma atração cultural, qualquer coisa. Além de desfrutar da alegria por ver e viver coisas novas, aproveitava também para coletar particularidades sociais, historietas humanas que via acontecer, detalhes do cotidiano da cidade que presenciava. Tal material era-lhe imprescindível, pois sustentava sua vida escrevendo contos e novelas para diversos jornais da cidade e de outros lugares. Seu outro nome, o artístico, era até razoavelmente conhecido nos meios editoriais e jornalísticos. Há treze anos começara sua carreira de escritor e jornalista literário e naquela altura, não passava mais fome como nos primeiros anos (foram tempos difícieis, mas, obviamente, também os mais férteis de inspiração). Mas durante o dia, gozava de um anonimato somente quebrado para as pessoas mais próximas que sabiam que ele era a carne e o osso por trás do autor. Preferia assim, porque se tivesse algum reconhecimento na rua, todo seu trabalho de pesquisa se tornaria impossível. Vivia em um apartamento de dois cômodos, um grande e amplo, e um banheiro que não chegava a dar claustrofobia, apesar de modesto. No recinto maior, os ambientes se dividiam através da organização dos móveis, exceto a cozinha, cuja pia não podia ser movida tão facilmente quanto as cinco estantes de livros, a mesa de jantar ou a cama de casal. Vivia uma vida agradável, que ele desejava viver. Porém, tinha um problema - alguém, ou alguéns. Sempre que se relacionava, a medida que convivia, que se aproximava e intimidades se instauravam, se conheciam, aquela profusão de farta felicidade inundava sua vida, tomando seus pensamentos, suas horas, seus caminhos e desejos, objetivos e sonhos, fazendo-o entregar cada gota de si mesmo, como uma divindade à quem a alma prontamente reverencia e abandona todo o resto para dedicar-se ao sacerdócio. Ele era assim, incontido, descontrolado, indisciplinado nessa arte ou doutrina ou ideologia ou narcótico, o amor. E a primeira consequência (talvez um efeito colateral) eram o acúmulo de contas não pagas, porque tão logo ele fazia voto de apaixonado, sua inspiração e concentração esvaiam-se e não podia escrever mais nada para ninguém. Nem à sua divindade lhe surgia algo, posto que o sublime era tanto que não poderia macular a perfeição com vis palavras. Na fartura de alegria, vinha a esterelidade da alma. Às vezes se forçava a escrever algo ou então, raramente, apareciam um soneto ou punhado de versos brancos, mas sempre lhes pareciam tolos e feios. Também a disposição física se alterava. Dependendo do amor, podia explodir ou exaurir-se. Antes ele era um homem de muitos compromissos, tarefas, obrigações, que demandavam porção considerável de suas energias. Assim, se o cotidiano fosse deveras emotivo, surgiam forças de onde não haviam e seu corpo era levado até o limite, mas se a rotina fosse alegre, porém tranquila, o corpo aproveitava o conforto para descansar nos braços, sonhar de olhos fechados. Ou estava no limite, ou estava sonolento, e, para ele nenhuma dos dois estados parecia muito saudável. Então surgia-lhe uma angústia, um torpor, uma sensação de incompatibilidade, de afastamento, um desejo de fuga ou de ver-se livre. E assim era, desfazia-se da fonte de sua felicidade e voltava a si, reencontrando-se. Era-lhe realmente problemático. Então não poderia conciliar a si mesmo e a felicidade? Dizia-se alérgico, sensível, irritava-lhe a pele do espírito, dava-lhe manchas na vista, coçava-lhe a alma, inchava sua vontade de ir embora... ou algo assim. Só sabia que, após alguns meses estava se despedindo. Mas naquele momento estava de 'retiro'. Afastara-se dos compromissos todos, convivia o mínimo possível, apenas com aquelas raras pessoas que lhe davam um prazer especial e desinteressado, espontâneo, simples e profundo ao mesmo tempo. Procurando alguma paz que superasse o cotidiano, a monotonia, a solidão. Buscava também a cura para suas doenças interiores, suas sensibilidades mortificantes, fugitivas, fracas... O que ele não entendia era que, até então, a paixão lhe arrancava tando por sentir-se sozinho ainda que acompanhado... Não sabia que a chama do seu amor era unilateral... que tantas vezes submergira em romances cujas correntezas não o acompanhavam, ao contrário, forçavam-no a nadar com uma força e por um período temporal que cedo ou tarde não teria mais... faltava cumplicidade, faltava partilha, faltava desejo mútuo por ideiais complementares ou companheiros... Não sabia que a paixão para sustentar-se, demandava tanta harmonia, esta que até então nunca tinha encontrado... a tentativa de equilíbro só de si não era suficiente para um relacionamento... era preciso equalizar o eu com o outro n´uma sintonia fina, suave, delicada... e talvez assim pudesse concretizar os sonhos de veludo e se ver curado da enfermidade que o acometia à cada amor. Mas, como disse, estava de retiro... tentando não pensar a respeito, pôr-se em marcha de olhos fechados seguindo apenas suas inclinações pessoais rumo aos magnetismos que o atraíssem. Eventualmente fazia viagens com amigos e amigas... travava novos e inesperados conhecimentos... debruçava-se diante de surpresas das quais gostava de extrair um conto ou poema... Queria ter uma inspiração espiritual maior e mais forte, não tão frágil às seus estados emocionais... e queria encontrar uma forma mais... apaixonadamente pura de ver o futuro e o presente... A casa era suficientemente grande... a cama exageradamente espaçosa... sua alma desmedidamente aconchegante e o destino colocaria este pequeno escritor solitário na lugar ideal para seu verdadeiro florescimento...

texto iniciado dia 29 de outubro de 2009
finalizado hoje.
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(With Stranger - Little Joy - uma música).........................................................................

2 comentários:

Samis disse...

acheei o texto confuso amor...

podias dividir em blocos, sei lá

enfim
achei os os momento não ficaram destacados..
enfim

=*

Rodrigo Nazca disse...

quero os momentos encadeados...