quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Borandá

A grama à noite é fria e úmida. Algumas luzes espalhadas e distantes dão algum sinal do caminho. O prédio lá para trás não incomoda... como uma montanha. O estranho cheiro de cevada já se acomodou nas narinas... a água de cor incomum faz seu burburinho de soneca. A espuma é amarela, a onda é dourada, o fundo brilhoso, como se todo coberto de pepitas de ouro e cascalho misturado. Caminha. Pisa na madeira, igualmente úmida com o sereno. Quase escorregadia. Passo ante passo, afasta-se da terra. Vê as águas de baixo de si, entre as tábuas. Ouve as vozes baixas mais a frente. Naquele quadrado de madeira ao fim da ponte, aquele pier no meio do lago amarelo escuro, extremo, marítimo, algumas pessoas sentadas, deitadas... ora no colo de alguém, ora no próprio chão... ouvidos na água, olhos nas estrelas. Tantas e incontáveis. Muitas mais do que podem contar os dedos e as verrugas. Chego. Sento-me. Comento sobre as roupas de órion, seu cinto, sua calça amassada, seus anéis perdidos dentro do aquário. Penso nos ancestrais que não estão lá. Na distância que não alcançamos... mais distante que o tempo... o passado, o perdido e o esquecido... mas ainda diante de nós... as estrelas... mortas... suas cartas brancas que nos chegam com mensagens sobre as origens da criação. A água e o horizonte ondulam como uma música em transe... os que estão ali estão ausentes... a madeira desaparece... a água cala. O universo derrama-se... as estrelas caem. As pálpebras se fecham ante as janelas do mundo. A praia do lago, a ponte para o sempre... o lobo da colina azul... A passarinha com olhos grandes, bico risonho, penas macias... desce a0 mundo e abraça o camundongo para levá-lo e ensiná-lo a voar... fazem-se um e mergulham no marinho do céu. Durmo ali... manhã cedo, frio intenso... braços cruzados... ali.
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Um comentário:

Lii Schuede disse...

É bonito esse teu vínculo com os elementos da natureza nos teus textos; uma característica que se faz toda peculiar!

"as estrelas... mortas... suas cartas brancas que nos chegam com mensagens sobre as origens da criação."
Achei também tão bonito esse teu verso!

Gosto do mistério que me passa a tua escrita.