quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sementes

Escrevi na terra fria com sementes vermelhas e brilhantes de árvore desconhecida... Disse a ela que radiante é a vida e que cada semente daquela era uma gota de mim. Que dava-me, que eu era seu alimento na fraqueza e seu fruto na fortaleza. O dia está fresco e a grama está úmida... o solo orgânico está bem alimentado... riscar a superfície porosa com a ponta do dedo é uma sensação sublime... a pele por um instante não me separa da terra... e meus nervos alcançam até a copa das árvores e até o fundo da terra em suas raízes... Encontro, então, a retidão e completude da mangueira, do ipê, de todas plantas, árvores, relvas e arbustos... A única mensagem contida no momento presente é o caminho... Não se pode parar para escutar, pois parar é ensurdecer... nem conter-se para olhar, pois estático, faz-se cego... Cada momento que passei, sem pensar neles, caminham em mim na seiva e no espírito... Não há nada que não veja, nem você nem eu... nem o ontem nem o amanhã... percebo claramente as correntezas plenas... nem sequer deito-me nela, pois como poderia me deitar se já sou parte?... Nessa ilusão corpórea, fingimos a todos que somos separados... e por um instante, me desfaço e digo: te amo. E o amor, não a palavra, mas o amor em si, significa a tudo pertencer e tudo ser... Quem ou o quê amar, senão a tudo?... e cada letra é feita de sementes vermelhas...

5 comentários:

Samis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Nazca disse...

eu nunca comi as sementes nem me perguntei se eram venenosas... Para a terra, não há semente venenosa...

Lii Schuede disse...

"e por um instante, me desfaço e digo: te amo. E o amor, não a palavra, mas o amor em si, significa a tudo pertencer e tudo ser... Quem ou o quê amar, senão a tudo?..."
Porque a única forma de amar é amando o próprio amor...

Rodrigo Nazca disse...

amando o próprio amor? fechado em si?... aberto... enquanto se ama o amor, não se está amando... a vida está acontecendo e se está como que olhando para um espelho. Quebre-se o espelho e a vida e o amor serão uma coisa só.

Lii Schuede disse...

Não, não digo que deve-se amar o amor e guarda-lo para si; não é isso. Amar o amor é amar a si, amar a outra pessoa, amar o que os une... envolve toda a vida, toda a alma, as duas almas que unidas tornam-se uma.