Parados como uma árvore velha com as folhas úmidas da chuva - chuvinha que caia como sininhos ciganos nos tornozelos das nuvens - olhavam o vácuo do tempo em busca de imprecisões... Conhecidos desde ontem, trocaram nada mais que treze palavras excessivas... Unidos por goles de chá ardido de raiz e erva untado de mel dourado de cheiro aromatizante, banhavam-se da luz fria da tarde que morria... A morte presente nos átomos, no oxigênio, no fogão queimado, no quintal tomado de eras, fazia-se diálogo de silêncio entre o soprar e sorver o líquido fumacento nas xícaras frágeis nos dedos longos... Como foram parar naquelas cadeiras de boteco na sala de estar? Sala que era varanda e cozinha e um pouco de terraço também... Quem fazia a chuva, o coração nublado dele, os olhos trovejantes dela, ou a simples ausência de estrelas no céu?... Não importa. O relógio parou e ninguém tinha para onde ir no dia seguinte... podiam-se demorar preguiçosamente um perto do outro até descobrirem o que os intrigava a não querer partir...
Kill me twice - The Delano Orchestra - uma música
sábado, 27 de abril de 2013
Combustão...
Uma relação fósfórica... que de tantos contatos concretos intensos imensos explodem faíscas, fogos, queima e deixa um rastro de cinzas... Do fogo faz-se lágrimas, íngrimes, limítrofes, cítricas, místicas... Da caverna moem-se paredes, garimpam-se dores, unhas, tripas, úlceras, sutras...
Exaustor... exaustivo... exaurido... tanta emoção intravenal atmosférica - quimérica - pode matar-me de desabamento cardíaco. A dor pesou demais, amassou o sangue, despedaçou o ar, derreteu as horas, comprimiu a pele esturricada pela angústia...
Sinto-me nocivo, ruído, corrosivo, destrutivo... como ao tocar, eu cortasse, ao sentir, eu rasgasse, ao querer, eu roesse...
Meu instinto/impulso está foragido, deve sumir por uns tempos... Sou então um corpo sem cor... Cometeu o crime de não pensar, não ver, simplesmente avançar sem permissão... Prisão - covil - canil... Meus dentes´dedos amargam o sabor de conter... Vou por tudo que existe em mim n´um saco grosseiro e manchado e largar no rio... deixar boiar até a mata para soltar novamente entre as feras...
Volto ao estado bruto da pedra, da árvore, da seiva crua que engole pássaros... Uma floresta sombria... de musgo, olhos esquivos, ar parado, areia movediça... Poucas trilhas por onde entrar, (des)lugar fácil de se perder... Afundei uma clareira para fogueirear... lá se acampa de baixo de estrelas esquecidas... Bebo um gole da água minéria do riacho frio... a garganta seca não aguenta mais falar, não lhe passam mais palavras... a trilha fechou, os galhos e espinhos tomaram de conta...
Sinto-me sem... Sento-me sem... Insustento-me sem...
Parto para encerrar o estado de pendência...
Step out for a while - Patrick Watson - uma música...
sábado, 20 de abril de 2013
Noite mar
Navegando na noite escura como um barco perdido no tempo sem medo de sombras e ventos ou ondas espumas enchentes boiando nos pelos das pedras em alto mar olhando o céu azul e cinza de nuvens e lua e estrelas aqui e ali poucas quase nenhuma nessa cidade de tanta luz que nada ilumina - Olho de dentro da escuridão passos e vozes que molham os pés na água fria tão distante que meus olhos cegos apenas ouvem a música da onda atento mergulho debaixo da montanha molhada veloz que tenta me pegar em vão nado braçadas descansadas intensas querendo chegar no fundo profundo mas volto e toco a´reia com´s pés... passam as horas de nuvens brilhantes vermelhas escuras tão altas que parecem cabelos no céu soltos encaracolados voando enquanto deito na cama do mar de costas pra profundeza imensa sem pensar que estou na mesma água de todas as praias de todos os sóis de todas costas e ombros e pescoços e corpos do mundo na mesma água de tudo sem saber de mim...
Gato morto
Para´eu andar comigo, foi preciso morrer um pouco
Deixar pedaços, esquecer espaços, cortar laços
Para sentir-me eu, ir aonde ia
Foram-se partes chamuscadas,
Queimaduras gritadas
Lesões em caixa alta...
Morrendo, sobrando menos,
Fica na gente uma sensação amena
De unicamente apenas
E só...
Morrer em tudo, dentro, fora,
no centro, na borda
Esquecer de tudo... sobrar apenas eu
Para essa autonomia se concretizar
Fluída como o quebrar da onda negra
na noite de maré baixa...
Pra tudo, fazer, comer, andar,
Nadar, correr, respirar,
Sonhar, dormir, aquecer...
Quem não souber fazer
Consigo, vai ficar
Na beira do abismo
querendo pular...
Há tudo, tanto, somente quando
Não queremos, nem olhamos,
Apenas seguimos um canto
sussurado de brincadeira
Para ninguém ouvir...
Com a ponta dos dedos vibrar
As teias tecidas entre todos os cantos
Concentrar-se no som que faz
O viver sem esperar ninguém...
Uma música - Jaz - Simona Talma
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Des´frutas...
Ora vivem na escuridão, tateando-se com dedos querentes, olhos marejados, bocas mordentes, corações latejantes, corpos inquietos. Não sabem o que será. Indefinição. Cada dia revela emoções que desvelam seus espíritos e inconscientes, que caminhos podem seguir... A soltidão de si mesmos ante um ao outro os desconcerta. O que fazer? Como fazer para serem apenas e estarem como queiram? Como traduzir esse querer, distinto de carência, distinto de solidão? Quando se encontram, é sim um encontro: um-com-o´utro. Quando estão separados, como estão? A ele parece inexistir separação... tão pertinho, tão quentinho que a sente. E ela talvez também se sinta assim, mas às vezes não. Neste momento não consegue duvidar do hoje nem do amanhã. Momentaneamente está crente de que tudo vai bem... e vai continuar bem... Mas há pouco não era assim. Há pouco era o pior pessimista, sentindo-se uma sombra no meio dos outros. Os polos dele inverteram-se mais uma vez. Da expansão para a contração e novamente para a expansão. Mas com calma. Calma, amigo, calma menina. "Deixa ser como será"...
Assim, soltos... e juntos... Como duas frutas maduras no alto do galho, lado a lado, sentindo-se os poros, as polpas, os sabores... prestes a cair a qualquer momento, decomporem-se, transformarem-se... Amar´durar...
Será que um dia vai aparecer algo verde, azedo, ciumento, para derrubar os galhos? Para afastar, impedir, querer só pra si?
Um dia ela chega com a notícia. - Conheci alguém. To com uma melancia no peito, toda molhada, vermelha até não poder mais... E não consigo me desprender dele, nem ele de mim. E estou feliz como nunca pensei e preciso te dizer que não dá mais... Ele não gosta, não consegue entender... Eu também não sei se consigo... É muito pra mim, meu corpo não cabe. De toda forma, não dá... um dia, quem sabe... a gente volte a se ver... Mas vamos ficar assim, tá, de boa, sem mais...
Uma semana depois eles se encontram. A sós, n´um corredor entre salas grandes, uma escura, luzes coloridas, música dançante, outra clara, bebidas refrescantes, animantes, gente e vozes de ensurdecer. Naquele meio, estreito, um diante do outro, o movimento cessa, o som apaga, o mundo acaba. Ficam só os dois. E se atracam, se abocanham, se desesperam, se arranham, se entregam... Não conseguem - não estar - não querer - não se deixar um ao outro...
Dá merda. O outro cara, o que "não gosta", não entende. Não entende que não é um caso, não é um passado, não é nada disso. É simplesmente que eles são, pô... são e vivem sendo e quando se encontram, não podem deixar de ser... Um e outro são um para o outro... se sentem com o outro, como nuvens que se fundem, se mesclam, chovem, evaporam, trovejam... Não tem nada a ver com ele. Ela tá afim, ela ainda tá melancia pelo outro... massa, sem problemas. Mas e aí? São sabores distintos, sensações, convívios, atmosferas, realidades, vontades distintas... cada uma a seu jeito, merecem ser vividas...
Ele um dia chega - Tô doido. Quando te vejo, meus olhos te beijam. Quando te beijo, minha alma te transa. Quando transamos, meu abismo se esclarece. E como se não bastasse, estou também insano. Porque ainda estou doido por uma índia ou cigana, olhos puxados ou desavisados, bruxa ou xamãnica, sei lá... sabe?... Estou voltando aos confins da terra, virando do avesso quantas vezes a flor do maracujá permitir. Jah, Jazz, Exu e Shiva piram-me os sentidos e os limites. Ela ri demais, se embebeda com o jeito descabelado dele de quem fez travessuras e gostosuras. Ele gargalha junto, caem no chão, rolam, pinga chuva, enrolam-se nos cabelos, despejam beijos... despem-se ali mesmo, fertilizam as gramas e ficam quietos... sem forças para se mexer...
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Sol e mar
Os compromissos se descompromissaram, descompressando veias, verdes vivas vontades...
Acordando pra lá da hora ideal, despreguiçando-se tranquilo e ainda assim desobedecendo a lei da hora certa, do horário pontual, pegando o bonde via-costeiro n´uma viagem amiga, encontrando tantos em toda parte, a cada trajeto, a cada momento, pôde o moço hoje se reconcilar consigo...
A manhã teceu renovadas forças... a tarde libertou embriagadas necessidades... o encontro marcado desmarcou-se e então voou pro mar, nadar, mergulhar, flutuar, esverdear, azular, marear...À noite, pôs sua querida banquinha itinerante de suas expressões e artes... Noite de encontros, conversas, leituras, palavras e descobertas inocentes e simples e que ensinam a simplesmente deixar-se levar pela maré... boiando, batendo os pés, emergino e submergindo n´uma brincadeira de praia...
terça-feira, 9 de abril de 2013
Pequenos 'grandes' prazeres da vida²
Viciar-me na música que diz exatamente o que sinto...
Tentar esquecer os lugares que me lembram o que não quero lembrar...
Ir na Feira comprar verdes e coloridas frutas e verduras e lindas e deliciosas
Usar um saco inteiro de farinha de trigo sem dar bichinho, fazendo mil e uma coisinhas gostosas
Baixar mais filmes do que posso ver...
Começar um na madrugada e não conseguir terminar...
Abandonar tudo que "tenho" que ler para curtir só o que "tô afim" de ler...
Pegar ônibus e curtir a viagem sem precisar me preocupar com trânsitos, sinais, loucos, freios, nada de direção...
Aprender a curtir um guaraná com mel, limão e gengibre sozinho
Escrever madrugada afora para esquecer meus problemas...
Fazer e beber litros de chá e muito hortelã na veia...
Colher folhas orgasmicamente cheirosas de manjeiricão do pé que tem na varanda
Preparar sanduíche de cebolas fritas com requeijão e queijo ralado para alguém querido/a
Tomar banho gelado da cachoeira/chuveiro que tem aqui em casa
Logo após lavar o banheiro lindamente como expurgando minhas próprias sujeiras
Te ver assim como és sem nada entre nós, teu nariz e tua bochecha e teus olhos e cabelos
Nadar no mar como n´uma piscina gigante no fim da tarde
Estar com meu irmão e amá-lo muito me fazendo criança com ele
Estar com minha irmã e senti-la comigo e querer conhecê-la melhor
Esquecer que me sinto só e buscar as pessoas para conversar, obrigando-as a conviver comigo (huahauah)
Rir de mim mesmo, de como sou absurdo, bizarro, estupidamente sem sentido...
Acender velas no quarto e incensos e derrarmar-me nos teus braços
Sentir que me transcendo contigo, que me poscendo sentigo
Sentir falta de/o que/quem não conheço...
Esquecer de me acostumar a sentir as perdas e conseguir de fato viver a vida simplesmente
Ter milhões de ideias e rir muito porque me odeio por tantas ideias e continuar a tê-las e me divertir com elas...
Sentir que a morte está aqui e agora e que estou vivo só de sacanagem
Inventar, mentir, fantasiar literaturas emocionais só para comprazir minhas saudades
Ouvir músicas tristes para ficar feliz
Comer ameixas lindamente roxas e vermelhas e com detalhes quentes e lindos
Comprar e devorar castanhas de caju lindas e quebradas e queimadinhas por uma pechincha de preço
Tentar desesperadamente fazer a agenda todos os dias e registrar minimamente o que fiz da vida
Sonhar que um dia farei tudo que digo... - tipo largar tudo ; P
Falar ao telefone horas a fio...
Fazer auto-pós-intravenal-psicanálise contigo
Ir e vir entre suores e amores
Tomar aquele açaí genuinamente paraense com inacreditável creme de tapioca
Dormir e acordar como se a madrugada tivesse sido tranquila...Tomar aquele açaí genuinamente paraense com inacreditável creme de tapioca
Uma música - Vermelho - Marcelo Camelo
Em última instância...
Um gole de chá. Gosto de cenoura com chocolate na boca. Respira fundo. Sente a ponta dos dedos, o aperto, os pesos, os sôfregos sentimentos, os atropelos e desalentos. Sente-se só. Rodeado de nadas, sem querer/saber nadar...
Imagina a existência. Existe. Deixa-se existir por momentos indefinidos, sem saber, sem querer... na noite imensa, que a cada noite engole-o mais profundamente.
- Existimos... Mas não é tão simples existir... sempre em movimento, buscamos, mas não sabemos bem o quê... E quando paramos de buscar, quando por um momento parece que a busca acabou, justamente aí, puft, esvai-se tudo, e tudo que era sólido "se desmancha no ar"... Solidão... sentir-se só... um livro me disse que tudo começa aí... por alguma razão os seres se fizeram seres, separados do todo, e indivíduos, isolados, se entristeceram... sentiram falta da unidade, falta de tudo, pois outrora tudo foram... e nessa angústia, sofrimento de solidão, que gera ansiedade, que gera medo, que gera tristeza, que gera ira, insegurança, raiva, fuga, dor, torpor, dessa angústia começamos a buscar... Buscar não só o alimento, o abrigo e aquilo que nos sobrevivia, mas algo mais... algo que nos conectasse, que nos unisse a tudo, a todos, que nos fizesse sentir-se parte... parte de algo, daquilo que conhecemos ou que sentimos... E tantas maneiras inventamos para nos unir... e nos unindo fomos fazendo a humanidade... Mas de repente, alguém/alguéns, sabe-se lá, na angústia, na insegurança e todos esses derivados, paradoxaram... Ou seja, inventaram uma separação para superar a separação... um isolamento para mitigar o isolamento... Fizeram cercas, criaram o poder, inventaram de sentir-se superiores, acharam de mandar, para assim enganar suas solidões... Forjaram domínios, estruturas, valores, que os justificassem poderosos, e, achavam, se poderosos, logo, jamais solitários... E dessas separações inventadas tantas outras se inventaram... já partidos do todo, nos dividimos, nos fragmentamos, nos despedaçamos em vários pedacinhos... E hoje, vivemos cercados de tantas ideias, valores, estruturas, imagens que nos separam... que nos fazem fechar os olhos para uns, negar outros/as, ignorar tantos/as, esquecer muitos/as... uma humnidade fechada e reduzida, que é até tal ponto, a partir daí é outra coisa que não me importa nem quero sentir...
- Mas, como somos tudo e todos? Olho ao redor e não vejo ninguém que me pareça semelhante, afim, próximo, que possa me ouvir e com quem eu possa aprender... Ou não, talvez veja e me sinta invisível... como transpassar as barreiras que hoje nos separam, tão artificiais mas tão intransponíveis? Parece loucura chegar para alguém desconhecido e dizer algo realmente importante para nós, que precisamos compartilhar... Todos são tão desconhecidos... E os conhecidos não me parecem menos desconhecidos... A única coisa sensata parece falar sobre o tempo, o calor, e fingir (sem nem me dar conta) que estou muito bem, obrigado...
- É... estamos submersos nesses ciclos de separações... mas acho que alguns tornam-se mais separados do que outros... Muitos conseguem apegar-se a algos e alguéns de tal modo que este/estes/estas tornam-se seu "tudo e todo" e ignoram assim o restante, tudo o mais... E assim, apegados, fazem-se ainda mais separados... assim são os relacionamentos em geral... fechados, restritos, com a limitação por definição... exclusivos, excluindo...
- Não só os relacionamentos... independentemente disso, sinto-me separado... inacessível... como se não importasse, sabe... como se eu não fizesse falta a nada/ninguém... insignificante no mundo... essa busca é, além de tudo, a busca por ser visto, ser reconhecido, ser buscado também, além de buscar... sentir a busca, unir as buscas, brincar de buscar com mais alguéns, rindo, fazendo troça, deitando na grama...
- É tão simples estar junto, estar com o outro... você sabe disso, você já soube, já viveu tantas vezes, mas esquece... Esquecemos sempre... A angústia da separação atordoa nossa memória, nossa pele... Você sente inveja, você quer ser o outro, o outro que lhe parece junto com os demais, esses que lhe parecem impossíveis... Você não se contenta consigo, você não se basta, não se aquieta, não pára... teu movimento é teu suplício... tanto vai que se abandona... tanto sonha que vai só... não dá tempo de ninguém ir contigo, sei lá... ou tanto é tu, tanto é este "eu" que há em ti, que torna-te além, invisível... paradoxo... O que compartilhas não fica como alpiste, atraindo companhias, mas antes como poeira que o vento sopra... esvai...
- Em última instância, que é onde ou quando importa, o pior que pode acontecer é nada... E nada acontecer é lindo... estou farto de nada e (não) aprendo com isso...
- Em última instância, esqueço... bebo toda a dor, engulo o torpor, abraço o fim da estrada e vou...Uma música - VCR - The xx
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Soltando...
Me julga tão mal...
Me condenou sem juiz
A sentença - o silêncio
Nem ouvidos nem um triz
Pelo que não fiz,
Pelo que acha que faria
Prova futura que não cometi
Não, não faria,
Isso que odeia
Não, não sou
Isso aí...
Por que não escuta?
Era tão simples
Uma vontade simples
Que nada queria
Além de desfazer-se
D´um segredo de angústia
Eu confiava
Confiava em você...
Que podia compartilhar, sem medo,
Não pensei
Que podia
Isso acontecer...
Nada queria
A não ser dizer...
Dizer... deixar ir... soltar de mim...
Nisso nada há de ruim...
Mas mesmo assim
Foi o fim...Uma música - Raízes no Quinta - Phillip Long
Desconversa...
- Vontade de conversar com as paredes, que elas me fossem simpáticas, amigas, que me reconfortassem...
- Queria ouvir qualquer coisa que me acolhesse a alma... não sei, não é tão simples assim... não é "qualquer coisa", mas algo que não sei mas que só serve isso...
- E talvez o problema não seja nem o quê, mas quem... não me leve a mal, mas eu estava precisando...
- É, não dá... é maravilhoso estar... mas é tão bom estar de várias formas, diferentes... cada jeito cuida de uma parte de nós... Precisamos de vários sabores para animar a vontade de sentir...
- Acontece que estou frágil, instável, sensível, não estou suportando nada... Quando me tornei tão quebradiço?... Se antes era demasiado razão, estaria eu hoje execessivamente emoção?
- Minha vontade de existir, de fazer, de seguir, está tão ao sabor dos ventos, do espírito, que mais parece uma vela rasgada ao vento... bailando sem controle, disforme, sem forças...
- Não sei o que preciso... flutuar ao sabor da maré, talvez... deixar-me abandonar pelos dias...
- Não quero remediar-me... nem curar-me quero... não quero mais nada... não quero querer... Agora sinto que querer é apegar, é agarrar, e isso me dói... Isso dói... não querer, apenas deixar... largar... soltar... estar, sem mais...
- Vamos então simplesmente estar, sem esperar, sem esperança... assim podemos apenas viver... o que der pra viver...Uma música - Real Love - Phillip Long (John Lennon)
Desfazendo nós [na garganta]...
Em nós, enrredados, enlinhados, amarrados, presos, perdidos...
Sob ideias, concepções, julgamentos, ansiedades, inseguranças, controles...
Correndo em círculos, vamos de cova em cova, nos enterrando em abraços
Que ora desfrutam, ora sufocam...
Fazendo d´um mesmo beijo céu e algema
De dois espíritos livres aves atrás de grades
Por quê? Por que fechar quando a janela quer abrir?
Os braços querem voar
A boca quer cantar
O espírito quer desvelar
Toda sombra, toda manhã
Aprofundando a si e a tudo
Em tudo, sem limites
Por que amor limitação?
Ao invés de um infinito que não cabe n´um casal...
Maior que restrições do comum senso
Por que não um oceano de encanto e compreensão?
Mas, na tentativa de libertar
Para que possamos todos livr´amar
Dores romperão
As correntes-coração
Pessoas partirão
Faz parte, ou não?
Enfim, é sim
Um caminho de amor e (dor)...Uma música - South 2nd - Cocorosie
terça-feira, 2 de abril de 2013
Enterrei meu coração na curva do rio...
Enterrei meu coração na curva do rio...
Que ele se disolva no mundo...
Fertilize o mundo...
Se transforme em tudo...
Que toda a tristeza e alegria que me dilacera
Se escoe para o rio...
Que eu me transforme no fluxo
Natural
Que ama e destrói
Que nutre e inunda
As margens do mundo do que é
Nunca o mesmo, sempre sendo...
Na curva do rio
No ciclo do rio
Me liberto
De tudo que tenta
Agarrar, perdurar, se enganar
Vou-me, sempre indo
Com todas as margens
E todos os rios... Uma música - The meeting place - The Last Shadow Puppets
quinta-feira, 28 de março de 2013
Ameixas madeixas...
Sentia-se incompreensível... inexprimível... naquele dia tinha partido de todos os cantos por onde estivera, refez toda sua história na sala de cinema por trás dos olhos e percebera: quem é este? quem é esta? por quê?... se continuasse a perguntar incessantemente, poderia chegar ao mínimo divisor comum... ou ao indivizível... indizível... calou-se. Calou-se dentro de si. Perguntar angustia demais e calar anestesia demais... um silêncio melódico passou então por entre seus dedos chegando à nuca e aos tornozelos... dançou... dançou como se ninguém estivesse olhando, ainda que todo o universo estivesse ciente dele... dançou como se não existisse nada nem ninguém para onde ir... Aparentemente tudo parecia desaparecer... Mordeu uma ameixa roxa molhada deliciosamente doce e foi como se todas as mordidas que deu estivessem ali... Mordeu-se de vontades loucas de dentes e línguas... mordeu-se até mastigar-se inteiro, retornando ao estado original de terra... Nos subterrâneos, nada viu... desistiu de ver... fechou os olhos n´uma escuridão esclarecedora que só o oxigênio orgânico fértil poderia lhe oferecer... Chegou a todas as conclusões que podem brotar do nascimento de si... conclusões que colidem-se umas com as outras fragmentando-se em infinitas areias costeiras e desértidas... a imensidão... o vazio inteiramente repleto de nós mesmos... e tão cheio de espaços para preencher que pode respirar tranquilo, pois não nos faltará ar para respirar no céu... Morando agora nesta silhueta perdida em pele, que de tantas formas desenrola o mundo até soltarem-se todos os fios, pode enfim tecer o que quiser tecer... de uma noite estrelada a um sorriso maroto que apaixona... porque amar é simplesmente deixar-se cair no vazio... no incerto... não é voar, "é cair, com estilo"...
Uma música - Recompensa - Wado
Leve...
"Meu amor é leve...
e que me leve longe"...
Sou... a princípio não era.... nada... e "do nada", no meio do "tudo", me fizeram... não me fiz, a princípio... e do que me fizeram, comecei a fazer-me... a cada instante, cada gesto, cada olhar, cada ideia... me fiz do já feito refazendo... Seguimos neste todo que mais parece um nada, porque não consigo me reconhecer em tudo que não parece comigo, apesar de não ser diferente de mim, tão nada e tão todo quanto eu... E assim, feito algo, a cada instante novo, porque vivo, logo em movimento, batendo, respirando, querendo, indo, amando, destruindo e construindo, assim, feito algo, vou... como alga marinha salina nas ondas na praia no fundo das profundezas da imensidão que não tem fim de tão escura e longíngua do mar... Como o oceano, uma treva que não se enxerga, lugares onde não se chega, um frio e um calor, em correntes remexendo as entranhas, há dentro de mim... Como o oceano, não me contenho, não chego, não páro, não sou... estou sendo... calmo, inquieto, desesperado, apaixonado, louco, gelado, furioso, distante, marejado, paciente, úmido ou encharcado.
Caminho, com meus pés, aparentemente escolhendo cada passo, mas sem saber onde me levará o caminho... Sem saber o que vou encontrar, a sensação dos pés, do chão, do toque, da temperatura, do sabor... com meus pés... meus pés... meus... com nenhum outro posso caminhar, nenhum outro pode sustentar meu peso ou levar-me pelos caminhos que preciso... próprias pernas, próprio corpo, próprio meu eu...Só imaginar... imaginar, pintar, fluir, manchar, pincelar, brincar, desenhar planos, futuros, telas fantásticas nas quais faço o que quero fazer e farei...
Assim, tão eu e tão tudo, tão nada, tão ninguém, tão sem mim, tão comigo, tão com todos e sozinho, tão sozinho no meu isolamento cardíaco de olhos fechados na minha tristeza sem fim, na sensação de esquecimento de tudo de onde eu vim, de todos que eu vi, na sensação cruel de que em nada caibo, que a qualquer momento o que era não foi mais, tornou-se outra coisa, movimentou-se inteiramente para outro lado para onde não fui nem posso ou quero ir, assim... continuo... ainda assim, continuo... num joguinho eletrônico de pingpoing entre a vida e a morte, a cada segundo vivo e morro, sou e não sou, fui e serei, quis e desquis...
E sendo, apenas livre posso ser... porque tudo que não seja livre, não pode ser... e sendo, sinto, penso e vivo... sinto tudo que posso sentir, tudo que posso pensar, tudo que posso viver... não posso evitar, não dá para evitar... evitar é acabar... e nada acaba, não se pode acabar... infinitamente existe tudo que está...
Um dia uma fruta foi colhida de seu berço orvalhado por muitas mãos... e todas elas lhe deram uma mordida... e a cada boca que adoçava, mais linda se tornava a fruta que se transformava novamente em vida...
"Meu coração é um balão" e cada emoção é uma agulha...
Uma música - My Mistakes were made for you - The Last Shadow Puppets
sábado, 16 de março de 2013
Negros...
Estações de trem, de sol, de folhas secas... andando pela rua do velho centro baixo quase esquecido a vejo de costas, com as mãos cerrando brincando encostando quase sem querer querendo nas mãos dela que ela tinha dito que acabara ou não? Aqueles cabelos negros pintados de preto porque senão castanhos claros - ondulados compridos um pouquinho depois dos ombros... Não me vê, não me verá... apenas vejo, olho, observo, aprecio... N´uma curva pode-se ver-lhe o rosto e está mais linda do que antes... ou tão linda quanto antes... Não conseguia mais lembrar de sua beleza... De sua magia... De seu fascínio... Fez a curva e foi embora enquanto segui direto em busca de ratos nos livros de sebos... Eu sei que ela nunca irá ligar. Eu sei que não há nada para falar. Que a fiz de analista para desabar´far minhas demolições e pronto. Nada mais. Pronto. São tantas graças engraçadas na vida cruzada de encruzilhadas tortas por onde passamos. Lembro quão cômico´írônico é o fato de você às vezes se disfarçar... porque sua voz, seus risinhos, jeitos, sons, se fazerem passar por idênticos a memórias perdidas nos meus baús... Como no primeiro momento me deparei com o fato de sua mão ser tão pequeninha como outra pelaqual fui desmoronado... E descobrir´amar quão você você é, tão diferente e nada ver com qualquer lembrança, mas ainda assim sem saber brinca de me desconcertar com essas fotografias sonoras e táteis... E os sentimentos transbordam quando seus olhinhosões me encaram pidões de brilhos e lágrimas e sonhos... Não posso nem lembrar deles e do narizinhoarrebitadoarredondadofofotesão que você tem e da boca e das bochechas e do lóbulo da orelha sem brincos e do tornozelo enfeitado com tecidos furtacor... e me lembro de tudo e de tanto e do que há além, porque não terminamos em nós... Não nos chega nós mesmos... E não podemos nos bastar...
Com a ponta dos dedos - Wado com Marcelo Camelo e Mallu Magalhães
Sabotage
Não me caibo... explodo-me... pirotecnia sanguínea intraretina de adrenalina e insuficiência pancreática. Putz, não posso viver muito. Mas antes preciso largar tudo, mandar o mundo à merda... estou solto no mundo, boiando n´um barco louco de dois quartos, sala, cozinha e quintal... Remo com as mãos loucas em busca de ilhas, de pedaços de areia, de peixes... há momentos de coqueiros e água doce e momentos de deriva e calor rachado... O casco faz água, todo mês é preciso pagar ao mundo para que ele não afunde. Pois assim funciona esta merda, ou você paga, ou o ar vai te faltar, a água demasiado salina vai foçar caminho na tua garganta e te matar de choque anafilático e eu não quero ser salvo pelas correntes que alguns "entes queridos" poderiam me oferecer... É preciso morrer antes disso... criar uns botinhos efêmeros para brincar um pouco mais, mergulhar, poetizar bem muito/bem mundo, trançar bem muito / bem nu... E tentar fazer o maior estrago possível... descer, sabe, ir até o estacionamento subterrâneo abissal no último andar da garagem escondida e secreta desta caverna vulcâneca do sistema e explodir nas paredes, pra derrubar uns prédios, rolar um pânico, pirar umas caras medíocres que nunca deram um passo sozinhas... É preciso elevar a taxa de suicídios... o desespero precisa sair do controle do sofá da programação... e depois, se der, sair pra passear e nunca mais voltar... morrer mordido por uma paixão em algum lugar entre os Andes e o rio Amazonas...
Alice Pratice - Crystal Castles
sábado, 2 de março de 2013
Carinhando-se sem cessar
O beijo de
Klimt´ropical
natur´orgânico
viscera´jazzmusical
trans´entimental
celesti´carnal
Agarra´paixonado
Livr´abert´orgasmo
Na tua pele de sobremesa
Que me balança de ponta´cabeça...Uma música - You know i´m not good - Amy Winehouse
Zen-direções...
Hoje monge zen-lunático em meditação zen-liber´xtásica... Ontem urso b-pol-ar quase morrendo e com alucinações insones malditas depressivas calabouços porões cansaços pesos bolas de chumbo - Lendo o impossiveler semsaber conseguiu sair do redemoinho estático´pálido em que estava... as nuvens dessiparam-se em formas de poesimagens psicolíricas e delas sairam bom-ti-vis-sabiás-assobiando que nos dedos escreveram textos desatinadamente tatuados no papel passado. De pé, conversou com a telabrilhante que respondia calmante e em companhia refez o espírito de biscuit´argilasangue - Pôde enfim cerrar as pestanas-chamas que apagaram-se em suave fumaça incenso... Neste dia, acordado zen-lunático, decidido a iluminar-despir-se das trevas na pele, pôs-se a cuidar-meditar da maneira mais intensa e íntegra e ímã e irmã que quis... meditar varrendo, limpando, faxinando, esfregando, musicando, dançando, vibrando, celebrando, lixando, molhando, encharcando, rodando, puxando, brilhando, descarregando toda a tristezadepressãonegativacarregada no suor no ralo no fazer diário cotidiano doméstico que é cultivar o templo que encerra envolve acolhe a alma que sonha e quer e voa e transcende aqui e agora. Bolha de sangue na mão banho de água benta de chuva de chuveiro sagrado cachoeira de plástico líquido sublime que purificou a alma do pó e da penumbra... No meio disso tudo, ainda caminha na noite céu nublado de oceano atlântico´tântrico pr´um café ilha ladeira nutrir-se da oração da tapioca queijo branco tomate manjericão café creme de avelã... Que mantra, que cântico, que deliciosamente místico... E agora pode caminhar mais e mais sem cansar... lendo e fazendo e criando nuvens e pontes de sal e sorrisos...
Uma música - Universally Speaking - Can´t Stop - Red Hot Chili Peppers
sexta-feira, 1 de março de 2013
Loucanias...
Vivo numa vontade derreter-me como um bule de chá de cogumelos e mate que desce da garganta aos dedos e escapa pelas unhas pr´o esgoto e todo meu ser em fogo segue pelos canos loucos dejetos de cidades degeneradas desnecessárias de bípedes depenadas para o abate final que nunca chega por mais que rezem o hit do momento em vozes roucas de quem grita noite adentro por socorro sem ouvidos quando acordo novamente do teu seio onde moro sem móveis ou cobertas só teus pelos que me protegem do granizo de não ter medo que o fim chegue mais cedo que o horário empoeirado daquele ônibus fantasma atrasado de luzes negras e tristes e ferozes e desço as escadas das tuas pernas degrau por degrau de joelhos e tornozelos e suaves dedos de pés que beijo com uma volúpia de quem morre pelo último gole daquilo que um dia acordou para ser sua vida...
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