quinta-feira, 8 de outubro de 2009

tons de cinza

Sentado na mesa do computador, diante da janela de meu quarto, pequena fresta aberta para acalentar-me a brisa. A cortina escancarada deixava-me olhar o céu noturno. Naquela enorme cabeleira negra que é o universo, havia um espelho amarelado de solitude que irresistivelmente me aprisionou. Olhei tal figura, submergindo na sua melancolia flutuante. Este espelho ou lâmpada ou alma penada pendurada por um alfinete de estrela cadente na tapeçaria cósmica me olhava tão profundamente que eu me sentia frágil, pequeno, isolado no infinito sob a luz desse holofote fantasmal. Subitamente apoderou-se de mim um impulso, ou então ele se viu livre das masmorras de meu interior esquecido. Meu corpo estremeceu e um desejo inelutável tomou conta de meus gestos. Peguei um lápis e um papel e abri as válvulas dos meus abismos sobre o véu branco de celulose, obrigando-o a hospedar eternamente os grãos do grafite, tijolos nanométricos de expressão. Encontrei várias imagens dignas de apreciação e as imprimi macio e delicamente na superfície porosa da folha de canson. Porém, esse exercício de sombras e luzes era tão exaustivo que raríssimas vezes na vida me dispunha a engajar-me nele, pois as horas necessárias para a tarefa não me pareciam desejáveis. Após o período de aprendizado, de descoberta da técnica, afastei-me por anos inteiros sem debruçar-me novamente no intento, até o dia em que me abriu o coração a necessidade de regressar àquela terra mística de traços negros e cinzas. Várias figuras, retratos, flores e animais gravei em suas últimas moradas, constantemente movido por desejos amorosos que valiam o esforço... mas hoje permaneço em um estado de letargia que nega-me qualquer possibilidade de dedicação ao ofício... apenas a saudade daquela arte soa como pequeno incentivo a voltar... mas, com que propósito? Para quem dedicar os frutos dessas possíveis horas? Quando a resposta surgir em meus dias e preencher minhas veias com volúpias de inspiração, poderei então empregar-me deste modo n´uma homenagem para mim tão querida. E por que não fui capaz de presentear de tal maneira as duas últimas flores que vi passar comigo trechos fugazes de minha vida? Uma até tentei e vi meus esforços tolhidos por um desânimo. Talvez tenha demorado muito e no momento já não haviam forças. Para a seguinte não houve tempo, antes mesmo de se realizarem mil desejos, o inverno desabou as colunas dos sonhos e silenciou a vida dos sentidos e inspirações. Mas ainda assim, desprovido de horizontes, gostaria de exercitar, mesmo que pouco, esses traços ágeis, para raspar levemente a ferrugem e pintar um pouco minha pele de cinza. N´um dia nu, de brisa fria, sensação de chuva, mas céu limpo, no quarto vazio, com o algodão e a borracha brancos sobre a superfície de madeira, o grafite macio empunhado com firmeza como um sabre preciso e a folha alva timidamente aguardando seu destino, reviverei. Sei o que gostaria de fazer, qual a imagem à qual me ligaria por incontáveis horas, a fim de transportá-la sanguíneamente para o preto e branco. Contudo, não poderá ser esta, este retrato causa-me certa tristeza e uma dor aguda que não podem ser suportados e, de todos os desenhos imagináveis, esse seria o mais impróprio. Qual será então o substituto? Se não o retrato dela, então algo parecido comigo, minha encarnação mais instintiva e sobrevivente. Sim, é isto. Será seu presente.

3 comentários:

Fernandes disse...

O lobo?

diana disse...

outro dia tive um impulso de pegar um lapis e um papel e desenhar um passaro engaiolado

admiro o fato de vc querer destinar algo a alguem. eu guardo quase sempre o que faço pra mim.
beijobeijo

tiago disse...

"Peguei um lápis e um papel e abri as válvulas dos meus abismos sobre o véu branco de celulose, obrigando-o a hospedar eternamente os grãos do grafite, tijolos nanométricos de expressão."

***

"mas, com que propósito? Para quem dedicar os frutos dessas possíveis horas?"

talvez a você mesmo, não? (ainda que seja uma projeção sua em algum possível amor.)

"Sim, é isto. Será seu presente."