sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ledo engano (do fim)

As longas envergaduras planavam sem esforço pelo céu de ventos agitados, prenúncio de tempestade naquele cais de porto. Gaivotas revoando em acrobacias dignas de Fernão Capelo. O pátio escurecido estava quase deserto, a não ser por aqueles dois e o imenso navio de passageiros prestes a partir. Eles estavam um de frente para o outro, mas não se olhavam. Pairava um silêncio que oscilava entre desconforto, ansiedade e angústia. Em instantes ele iria embora e provavelmente nunca mais se veriam. Chegariam a se corresponder? Teriam o que dizer um ao outro em cartas curtas de pouco mais de uma página?
- Vou sentir saudades. - ela murmurou.
- Passa. - Soou um pouco seco. - E contraditoriamente eu diria que jamais te esquecerei.
- É, contraditório. Você acha que me ama mais do que eu à você? - Nesse momento ela levantou o olhar e o pousou nos olhos dele - Não sou eu quem está indo embora.
- Já fomos embora, amor, agora apenas concretizo. - Lamentou o rapaz tristemente.
- Não era preciso, poderíamos nos esbarrar de novo, agora nem isso.
- No meu absolutismo, não conseguiria imaginar um reencontro. O que morreu só ressuscita em outro corpo. Nesta vida, está selado para sempre. - ele disse, abraçando-a. Era mentira, ele a amava, mas sabia que nela não restava nada e por isso queria partir. Nada havia naquela cidade para ele.
- Poderei visitá-lo? Para onde você vai, afinal? - ela o questionou, com esperança nas palavras.
- Para quê? Por que queres me ver? O que há para se fazer ainda? Não já fizemos tudo que havia para nós? - Insistia em perguntar, não conseguia entendê-la.
- Mas eu quero ir, oras! - Ela continuou, com um brilho no olhar que o deixava tonto.
- Pois bem, saberás onde me encontrar pelo endereço da carta... - Ele não acreditava realmente que isso pudesse acontecer, não esperava nem sequer receber resposta para sua primeira carta, que já estava escrita e guardada em sua mochila. Seria seu primeiro destino ao desembarcar do navio, o correio.
- Você é tão linda... talvez o que mais vai me doer é não poder mais derramar-me em sua beleza... sua voz... sua pele... e eu não deveria estar dizendo essas coisas... mas, já que estou indo embora mesmo, não importa... - Falava lentamente, sem forças... uma saudade atroz já se apoderava dele e fazia pesar seu esqueleto como se fosse um fóssil enterrado sob toneladas de rochas. - Por que sou eu quem tem que ir embora, se foi você que quis partir? - saiu quase inaudível por entre seus lábios, que queriam se fechar antes de pronunciar as palavras. Ela fez silêncio. E o silêncio bastou. O último abraço foi forte como não eram os abraços há semanas intermináveis. Sem ele perceber ela colocou no bolso dele um papel... Ele ainda olhou nos seus olhos uma última vez? Sua lembrança daquele momento se atordoou n´uma convulsão de todos os seus olhares que ele admirara e nos quais se afogara, se embebedara, se extasiara... aqueles olhares de inocência perdida, de primavera nublada, de madrugadas acordadas... Segurou seu rosto com as duas mãos, sentindo a tez mais suave que existia, e de olhos fechados, tocou-lhe os lábios... e ainda cego, virou-se e subiu as escadas até o convés do grande navio. Começou a chuviscar, pequenas gotas que em seu rosto pareciam lágrimas... talvez fossem... ela correu para esconder-se da garoa e o grito da sirene náutica anunciou um recomeço imprevisível... e era exatamente isso que ele precisava, imprevisibilidade... somente.
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o papel no bolso dele dizia ...'mistério'... e ao redor um desenho da lua e nuvens negras... eaquele papel morou com ele para sempre.
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(Do Sétimo Andar - versão - Los Hermanos - uma música)

4 comentários:

Fernandes disse...

Mistério é a principal característica de escorpião...

d disse...

Que coisa linda.

Fernandes disse...

E eu consegui imaginar tudinho.

Fulana-de-tal disse...

Pra mim, foi melhor sentir tudinho... gosto por gosto, parte por parte.