segunda-feira, 26 de outubro de 2009

orvalhos noturnos

Nunca entrara naquela sala antes. Era como as outras, apenas n´um lugar diferente. A garrafa gelava a ponta dos seus dedos, enquanto bebia o líquido preto e saboroso que continha. Subiu os degraus sem enxergá-los, tentando não tropeçar, esperou que os olhos se acostumassem com a escassez da luz e quando surgiu um pequeno clarão, pôde ver um lugar para sentar. Acomodou-se, deitou a mochila aos pés, guardando o conteúdo dos bolsos, ficou a vontade. Antes que percebesse estava dando os últimos goles quando começou. Alguns minutos e estremeceu. Riu. Como pode ser assim tão suscetível? Àquela imagem, aquela figura, expressão, cores... sentia algo subir-lhe pela espinha, percorrer seus nervos, perfurar sua sensação de forma agradável, como se não pudesse resistir ao impacto causado. Aquela hora inteira passou-se assim, às vezes mais, às vezes menos. Tudo que importava era essa sensação, o resto era secundário. Foi-lhe surgindo uma certeza, um sentimento de possível, de proximidade, de alguém lá longe, mas lá. Saindo de seu lugar, notou quantas pessoas estavam ali, mas não prestou-lhes muita atenção. Encaminhou-se para a parada, estava alegre, as pernas vivas. Não pôde esperar e não queria chegar, então adiantou-se, foi caminhando. Pensando. Ouvindo - uma música triste, para deixá-lo feliz. Ocasionalmente uma velha saudade o invadia, aquela gosto na boca, nos olhos, no corpo. Aquele rosto formava-se a sua frente, as lembranças faziam fila ante seu coração, nunca amara tanto alguém, e pairava aquela dúvida anciã sobre se amaria tanto novamente, se era possível a mesma co-incidência de destinos n´um mesmo lugar e instante, na sintonia exata de dois em um. Se perdeu e sabia que não poderia ser diferente, mas às vezes pensava. Não havia como ter aprendido o que precisava antes, mais rapidamente, tomara o tempo preciso... e foi demais... Lembrava daquele tempo, exacerbado, acelerado, relógio que se fazia de ventilador, onde dias eram meses e semanas, eternidades de emoção. Foi tempo demais, tudo demais... E fora o maior que tivera... olhava sua mão direita e lá, naquele círculo prateado, guardava-se para sempre o reflexo, a pele, o que havia... naquele anel que ele trocara, que fora o dela. Seus passos eram velozes, mas curtos. Via alguns passarem por ele, em passadas compridas. Não tinha pressa. Ao fim do calçadão, se perguntou se era tempo de ir, mas ao se aproximar da parada, não conseguiu ficar e continuou. Atravessou ruas, pensando em outras coisas, revoltas do pensamento. Aquela noite era-lhe diferente porque pela primeira vez tinha a oportunidade de estar a pé naquela parte da avenida, podia ver de perto o que antes só via pela janela veloz. Finalmente pôde aproximar-se daquela cabana de telhado de palha, tão linda como nunca pudera notar na rapidez do veículo, tão mágica como só a proximidade podia revelar. Repleta de flores e naturezas, as paredes de madeira descansavam na penumbra e apenas uma borboleta resplandecia vítrea à luz tênue que lhe era apontada. Carregava do ventre sinos pequenos que também brilhavam, imóveis. Ao pé da porta pétalas vermelhas e amarelas dormiam, molhadas e cintilantes. Ficou parado ali demoradamente, apreciando, às vezes olhando ao redor para prevenir-se de alguma surpresa indesejada. Tentou guardar uma imagem daquele momento. Quando voltou ao caminho, viu o restante do lugar, sua profundeza e graça, encantado. Andou muito ainda. Olhava a hora para assegurar-se de que não perderia o último transporte. Cantava o que podia, inebriado pela música, lembrava-se da história que a acompanhava. Chegou à outro ponto que há muito desejava ir, mas também era-lhe contramão e, por isso, nunca tivera oportunidade. Apreciou a vitrine em busca de surpresas e extasiou-se por encontrar algo que lhe salvaria a vida, resolvendo um problema que estava se agravando com o passar dos dias. Lembrou-se de viagens antigas, de presentes que comprara para si, mas que dera para alguém especial... novamente ocorreria... exatamente igual, exceto que não pensava em si naquele instante. Estava perto daquele parque noturno. Hesitou se iria ou não até lá, estava tarde... fazer o quê? Mas pensou "que outra oportunidade terei?". Então foi. Aberto, ao ar livre, aqueles brinquedos imensos, coloridamente decorados, sozinhos e vazios, parados. Caminhava pelo estacionamento quase esquecido, com um olhar alegre e ao mesmo tempo distante, observando o tamanho gigante daquelas cabines que giravam no ar, soltando pequenos gritos vez por outra. Deu a volta no lugar, percorrendo-o atrás do que mais pudesse encontrar, chegou ao adorado carrossel que, se entrara alguma vez, fora quando criança (não tinha recordações). As luzes ainda ficaram acesas alguns instantes antes de se apagarem, a mulher que passou por ele sorriu, talvez indagando-se sobre o que fazia aquele rapaz ali. Aos poucos todas as lâmpadas incansavelmente festivas se apagavam, esperando dias mais animados, de mais crianças e pais puxados pelas mãos. Era chegada a hora da partida. Cruzou a rua, esperou o número certo chegar e subiu pela portinhola que se abria para os passageiros. Finalmente aproximava-se de casa. Não voltaria, se pudesse, pensava no dia em que teria meios para ir mais longe e mais tarde. E ao chegar, voltou-lhe a sensação... a beleza era sublime, e amava o que era sublime, amava e tinha saudade e ao mesmo tempo sentia-se pleno por si só. A música lhe era muito verdadeira no sentimento da voz, não importava a letra.

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(Lies - Once - uma música)

Um comentário:

tiago disse...

"a beleza era sublime"

"A música lhe era muito verdadeira"

"não importava a letra"

:)