sexta-feira, 28 de agosto de 2009

No fundo


Nas viagens cotidianas há um lugar cativo para mim. Sento-me lá, naquele canto de paredes cinzas, uma janela do lado esquerdo, um rasgo no banco igualmente cinza com detalhes amarelos. O canto da parede é arredondada, proporcionando uma sensação de aconchego. A fresta para o exterior deixa entrar uma brisa noturna e o banco da frente está repleto de rabiscos adolescentes. Atrás de mim não há ninguém, fico meio escondido de todos, isolado e compenetrado. Os trajetos noturnos de volta para o descanso são repletos de pensamentos... penso sobre o dia, ligo para ela e pergunto tudo que me ocorre, combatendo o silêncio que às vezes tenta apoderar-se de nós. Silêncio ao telefone não é agradável, pois o aparelho não possui calor humano que ocupe os sentidos. Quando enfim digo tudo sem ser perguntado e questiono os mínimos detalhes de seu dia, sinto apertar um pouco mais a minha vontade de estar com ela e deixo-a ir, voltar para o que estava fazendo, enquanto continuo trepidando naquela locomotiva quadricíclica. Nunca vi nada para tremer tanto! O fóssil tapete pela rua pode estar o mais liso possível e ainda assim aquele animal metálico esperneia e saltita. Por mais que eu tente ler, é uma tarefa desagradável e apreciar o caminho acaba sendo a única possibilidade. Há muito tempo ocorria de aparecer alguém para conversar. Lembro-me de uma menina que contava-me que era louca por explosivos, fazia geologia e já tinha ido no Atol das Rocas. A pedi insistentemente que me levasse da próxima vez - sempre quis conhecer aquelas ilhas proibidas. Ela foi no mesmo barco no qual eu sonho navegar e que, se tudo der certo, irei velejar até o arquipélago dos golfinhos - eu e meu amor. Chegamos também a planejar alguns atentados, espetáculos pirotécnicos ao modo do vingativo V. A cidade é mesmo pequena e ao mesmo tempo muito grande. O que eu conheço desse labirinto urbano? Quantas dezenas de bairros eu nunca pisei o pé? A maior porção dessa pólis eu visito muito raramente, do outro lado de uma passagem quebradiça de nome indígena. Toda vez que conheço uma nova rua sinto-me maravilhado com as novidades. Há bairros tão peculiares! Quem sabe, quando estiver motorizado, poderei percorrer cada centímetro desse chão. Toda vez que for visitar meu amor, irei por um caminho diferente, só pelo prazer de explorar. Outra curiosidade é conhecer aonde terminam as incontáveis linhas de transportes coletivos. Entrar nesses trilhos velozes e alcançar suas extremidades, sentir o que há na ponta dos dedos. Farei antes de ir para nunca mais voltar, tenho que prometer-me isso. Quando chego, finalmente, da ligeira viagem diária, caminho pelas ruas observando as lâmpadas incandescentes, lembrando dela.


(Waltz - do filme Antes do Pôr-do-sol)

2 comentários:

Fernandes disse...

Ontem até eu odiei o silêncio...
Mas eu nunca senti tantas saudades suas. Hoje até pensei que talvez vocÊ estivesse me esperando depois do teatro, mas não estava...
[e era tudo o que mais queria]

Rodrigo Nazca disse...

e eu também... e estou te esperando e vamos nos ver e estamos juntos...

(tudo que eu mais queria)