quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ser ou estar? Ou ser estando?

Caminhos

Há duas maneiras de se viver (minimamente falando). Existe o caminho da razão e o da emoção e eles se entrecruzam, é certo. No entanto, sempre um prevalece e isso depende da índole pessoal. E, afinal de contas, é difícil mesmo imaginar o tal equilíbrio entre os dois, antagônicos que acabam sendo. No máximo, se atrapalham, e é difícil crer que se completem. É preciso escolher ou então deixar-se levar. Escolher 'deixar-se levar' é ser levado sem escolher, oras!

Analisemos mais cuidadosamente. Uma vida pautada pela razão - evitam-se os riscos, pois são irracionais na maioria das vezes. A objetividade direciona-se pela segurança, estabilidade, certeza, concretude. Não é nada objetivo largar tudo e começar de novo ou então jogar-se do penhasco n´um amor imprevisível. Os caminhos são detalhadamente planejados para a obtenção dos melhores resultados, o maior desenvolvimento, seja ele como for, ainda que tenha um sabor meramente moderado, apropriado. Os supostos riscos não envolvem nenhuma perda e se exige de si que siga as regras previamente estabelecidas, os chamados 'princípios'.

Já a direção da emoção, nossa, esta é incontrolada, desmedida e quase cega. Tateia os caminhos sem nem mesmo querer ver aonde vai chegar. Basta-lhe a pura sensação. Os prejuízos soam-lhe perfeitamente agradáveis, mesmo que a dor não seja algo bom intrinsecamente, de maneira geral, é desejada. E esse desejo é impulsivo. Repudia a insensibilidade e a passividade, é preciso jogar-se sempre, na parede, no meio da rua, no mundo e no precipício. É preciso se jogar na aventura da vida. Nada de levantar paredes e sim desfrutar da beleza dos tijolos pelo chão. A beleza é emoção. A emoção é a mistura imprecisa e delirante de tudo que existe. Todas as portas serão derrubadas e os caminhos trilhados com uma perigosa ausência de medo. O medo é totalmente racional, apesar dele mesmo ser uma emoção, que, contudo, é vivido com gosto e despreocupação pelos emotivos e com cuidado e reserva pelos racionais. Percebe-se logo que se se vive pela emoção, a razão é total ou grandemente ignorada.

A razão, se tem beleza, é linear, sem variações, nem mesmo preto e branco, absolutamente monocromática. Por certo que os seus frutos são mais duradouros, porém a intensidade é demasiadamente inferior.

Bem, a princípio não existe escolha. Cada ser humano nasce com uma predisposição a uma forma ou outra de ser. No entanto, a partir de certa idade na qual se toma consciência de si mesmo, é possível perceber qual o caminho trilhado e, com certo custo, logicamente, fazer a 'reopção'.

Eu, por exemplo, nasci demasiadamente pesado para o lado da objetividade. Passei anos demais medindo e planejando excessivamente antes de cada atitude e nisso perdi o tempo de muitos acontecimentos, talvez, ou a aventura da infância, no mínimo. Bastante protegido e cuidado, fiquei isolado, intocado. E assim foi. Até aquele tal milagroso momento do "despertar". Acordei e não gostei do que via e vivia. Mudei com toda a radicalidade que encontrei em mim e passei a brincar de sufocar a razão para deixar a emoção dar seus pulos.

Mas esta impertinente mulherzinha que se assenta/va nos meus ombros para puxar-me as orelhas para o caminho que ela (a razão) deseja/va era muito complicada de calar e fui aprendendo com os anos a mágica arte de arriscar e a cada risco, a maioria deles de natureza amorosa, eu silenciava um pouco mais a teimosa. Hoje posso honradamente dizer que ela não está mais nos meus ombros. Lógico que não a expulsei de minha vida, porque então estaria já boiando morto nas águas do Atlântico. Mas ela agora está a uma distância mais respeitosa e acostumou-se com minhas ocasionais e recorrentes insânias. Aprendeu a observar com irritadiça indiferença meus desvairios.

Imaginemos o outro lado, o nascido sob a (des)proteção da emoção, bandeira tremulante e insensata. Essa pessoa certamente tem o mundo de experiências fabulosas que desde muito cedo ousou viver, beneficiada por circunstâncias que lhe permitiram vivê-las. No entanto, esse estilo de vida, com os anos, é excessivamente danoso à saúde e à sobrevivência. Bem, acredito eu que a maioria das pessoas que vivem de emoção dão pouca ou nenhuma importância a esses detalhes mundanos (saúde?) e não se lastimam tanto de viver alguns anos a menos, recompensados pela intensidade dos anos vividos. Eu fortemente compartilho desse sentimento, porém, reconheçamos que algum pode, por fim, mudar de idéia e desejar uma velhice longa e sábia a uma juventude e meia idade inflamada. É difícil de acreditar, é fato, mas conheço até um ou outro caso.

A pessoa talvez, tenha um trabalho mais difícil, o caminho inverso. Pesemos, o que é mais difícil, sair da costumeira segurança, proteção, certeza, para jogar-se no risco e na emoção ou abandonar o vício da emoção para conter-se na segurança, certeza e cotidiano comum? Inclino-me para a segunda opção, até porque aparentemente o resultado da primeira situação, a de jogar-se, é muito mais tentador do que a da segunda, segurar-se.

Mas, vejamos, o que é realmente o ideal? Tal bipolaridade acaba sendo destrutiva de toda forma e é destruição o que queremos? Alguns irão rir desfarçadamente (ou não) e dirão que sim. Mas, eles riem sem ter coragem de se suicidarem, insolentes! Destruição a passos lentos é uma covardia. Certamente que precisamos esfoliar muitas vezes as crostas cegas e antiguadas de nosso espírito, arrancar tradições doentias, traumas estúpidos e amarras inúteis. Essas coisas precisam ser destruídas, mas destruir-se essencialmente é criminoso, um atentado contra a sacralidade da vida, a oportunidade de viver. Destruir-se é de uma ingratidão para com a luz que nos fez viver tudo que vivemos que tenho até medo do que acontecerá depois para se aprender a valorizar nosso nascimento e existência.

Então! Acompanhemos meu raciocínio. A emoção é deveras a porta de toda a experiência. Não há sobre o que pensar se ainda não sentimos nada, ou há? Alguém que nada viu, cheirou, ouviu, provou ou sentiu pode ter pensamentos? Acredito que não e portanto, a emoção prescede a razão. Os guiados pela razão sofrem de uma inversão desgraçada na ordem das coisas que precisa ser corrigida ou se perderá a oportunidade de viver verdadeiramente. Mas, nascemos com essa outra dádiva, a reflexão, e viver ignorando tal característica me parece desolador e sem propósito.

Mas que expressão problemática - ter propósito! E como é viver "com propósito"? A única resposta que me chegou ao alcance através da vida e do pensamento é que o propósito de viver é simplesmente aprender. Vivendo pela razão nos impedimos de viver e não aprendemos. Vivendo pela emoção, nos impedimos de racionalizar e também não aprendemos e aí está o centro da questão.

A magia celeste se encontra quando de alguma forma inimaginada e impossível de se ensinar - é preciso descobrir por si mesmo - conseguimos deixar os braços abertos para as emoções, deleitando-se nas imprevisibilidades e impossibilidades da vida, mas ainda estando com os olhos abertos para entender e aprender com cada experiência, pensando em formas melhores de passar pelos desafios que surgirem imperiosos no caminho.

Logicamente que não se pode viver tudo e nisso a humanidade se angustia. Mas nem mesmo deveríamos querer viver tudo, pois senão, encontraríamos o fim e não há nada que seja mais contrária a nossa natureza do que "o fim". Há de se fazer escolhas, e essas poderão sempre nos proporcionar mil aventuras e prazeres emocionantes. Os que tentam viver tudo, incapazes de dizer não à própria vontade, acabam por não conhecer a 'verdade' da existência, pois nada se diferencia e nada ganha alguma importância maior que dê sentido à emoção. Pois sim, até mesmo a emoção precisa ou deveria precisar de sentido, mesmo que seja o sentido sem sentido.

E toquei em outro mistério da vida, 'a verdade'. Não gastaria uma palavra em uma definição, apenas direi que 'a verdade' é o início e o fim de todos nós, dela viemos e para ela retornaremos, e assim sucessivamente, de novo, de novo e de novo, "sem fim". Acho que alguns sentiram a analogia. Deixemos que cheguem a suas conclusões.

Sinto terminar momentaneamente a reflexão e digo por último que esse assunto me é bastante enigmático e repetidas vezes me faz passar horas do caminho pensando sobre ele, eu, tentando olhar-me diretamente dentro de mim, encontrando a medida de minhas ações e sentimentos para assim, encontrar a direção seguinte dos meus pés a cada passo. Experimento o êxtase da emoção quase incomedida e recomendo para muitos, mas que sejam capazes de parar em dados momentos e refletir com aquele afastamento filosófico sobre cada lembrança do vivido.

E, um único conselho - façam perguntas sempre, principalmente para si mesmos. A Dúvida é soberana sobre nossas vidas e não devemos negá-la ou simplesmente suportá-la, mas questioná-la incansavelmente, por maior que seja o insucesso.


3 comentários:

Fernandes disse...

"Essa pessoa certamente tem o mundo de experiências fabulosas que desde muito cedo ousou viver, beneficiada por circunstâncias que lhe permitiram vivê-las. No entanto, esse estilo de vida, com os anos, é excessivamente danoso à saúde e à sobrevivência. Bem, acredito eu que a maioria das pessoas que vivem de emoção dão pouca ou nenhuma importância a esses detalhes mundanos (saúde?) e não se lastimam tanto de viver alguns anos a menos, recompensados pela intensidade dos anos vividos"

Olá, meu quase nome é Lilla e eu sou uma porra louca (?)
HOHOHOOHOHOHOOHOH
Te amo, amor!

Rodrigo Nazca disse...

heheheheheeheheheheh

meu amor...

Medusa disse...

Tem que ter de tudo um pouco né? É bom fazer "travessuras" de vez em quando, se não seríamos pessoas sem história pra contar =P